Da Colônia até hoje · 29 lutas
Lutas de classes no Brasil
Greves, revoltas, levantes e massacres que mostram quem trabalha enfrentando quem manda. Cada luta tem um resumo, o que aconteceu dia a dia e as obras para estudar.
Colônia e Império
1500–1889- 1630–1695Resistência escravizadaQuilombo dos PalmaresSerra da Barriga, na antiga capitania de Pernambuco, hoje União dos Palmares (AL)Palmares foi uma federação de mocambos de escravizados fugidos que resistiu por quase cem anos, no século XVII, na região da serra da Barriga, hoje em Alagoas. Para Clóvis Moura, foi o mais importante testemunho da organização política, econômica e militar dos negros na América Latina. O mocambo do Macaco caiu em 1694, e Zumbi foi morto em 20 de novembro de 1695.Ler sobre a luta →
- 1798–1799Conjuração BaianaSalvador, capitania da BahiaA Conjuração Baiana foi uma conspiração de 1798, em Salvador, por uma República Bahinense sem o domínio português e sem os impostos pesados, com liberdade e igualdade de direitos. Teve à frente artesãos e soldados pardos, livres e libertos, com alguns escravizados, e o fim da escravidão no programa, segundo João José Reis. Em 1799, a Coroa enforcou dois alfaiates e dois soldados.Ler sobre a luta →
- 1835–1840Revolta popularCabanagemBelém e interior da província do Grão-ParáA Cabanagem foi a revolta popular que tomou Belém em 7 de janeiro de 1835 e se espalhou pelo Grão-Pará até 1840, com tapuios, indígenas, negros escravos e libertos, mestiços e parte da elite local. Para Caio Prado Júnior e Clóvis Moura, foi uma insurreição popular que chegou ao poder. A guerra deixou mais de 30 mil mortos, segundo Magda Ricci.Ler sobre a luta →
- 1835Revolta escravizadaRevolta dos MalêsSalvador, província da BahiaNa noite de 24 para 25 de janeiro de 1835, escravizados e libertos africanos, na maioria nagôs e liderados por mestres muçulmanos, se levantaram em Salvador. Para Clóvis Moura, foi uma revolta planejada, e a única bandeira capaz de unir os rebeldes era a conquista da liberdade. A repressão prendeu 281 pessoas e executou ao menos quatro condenados, e uma lei de junho de 1835 endureceu as penas contra escravos.Ler sobre a luta →
- 1838–1841Revolta popularBalaiadaSertão do Maranhão, com ramificações no Piauí e no CearáA Balaiada foi uma revolta do sertão do Maranhão, de 1838 a 1841, de vaqueiros, camponeses, artesãos e escravizados contra a Lei dos Prefeitos, o recrutamento e o governo provincial. Os escravizados de Cosme Bento das Chagas lutaram pelo fim da escravidão, e Clóvis Moura a trata como revolta de escravos e camponeses. As tropas de Luís Alves de Lima e Silva a reprimiram, e Cosme foi enforcado.Ler sobre a luta →
- 1850–1888Abolição da escravidãoTodo o Império, com fugas em massa nas fazendas de café de São PauloA Lei Áurea, de 13 de maio de 1888, declarou extinta a escravidão no Brasil, depois de décadas de leis graduais e de fugas em massa das fazendas. Para Jacob Gorender, as fugas tornaram o escravo uma propriedade insegura, e Clóvis Moura vê na Abolição o fim de uma longa luta dos escravizados. Moura lembra que ela não acabou com o latifúndio nem integrou os libertos.Ler sobre a luta →
República Oligárquica
1889–1930- 1896–1897Comunidade camponesaGuerra de CanudosArraial de Belo Monte, às margens do rio Vaza-Barris, no sertão da BahiaEm 1893, Antônio Conselheiro fundou no sertão da Bahia o arraial de Belo Monte, ou Canudos, onde milhares de sertanejos pobres viveram num regime comunal. Entre 1896 e 1897, quatro expedições foram enviadas contra o arraial, destruído pelo Exército com mais de 20 mil mortos, segundo o CPDOC. Para Clóvis Moura, Canudos foi uma luta dos camponeses contra o latifúndio.Ler sobre a luta →
- 1904Revolta urbanaRevolta da VacinaRio de Janeiro, então capital federal, do centro a bairros como Saúde, Gamboa, Botafogo e TijucaA Revolta da Vacina tomou as ruas do Rio de Janeiro em novembro de 1904, contra a lei que obrigou a vacinação contra a varíola, numa cidade em que a reforma urbana derrubava cortiços. Houve protestos de associações operárias e de estudantes, choques com a polícia e uma revolta de alunos da Escola Militar contra o presidente. O governo revogou a lei, decretou estado de sítio e deportou presos para o Norte.Ler sobre a luta →
- 1910Revolta de marinheirosRevolta da ChibataBaía de Guanabara, no Rio de Janeiro, nos encouraçados Minas Gerais, São Paulo e Deodoro e no cruzador BahiaEm novembro de 1910, marinheiros, em sua maioria negros e mulatos, tomaram os maiores navios da esquadra na baía de Guanabara contra os castigos com a chibata, liderados por João Cândido. O governo aboliu o castigo e deu anistia, mas em dezembro reprimiu uma nova revolta, com centenas de mortos, e desterrou marinheiros. Para Mário Maestri, foi um movimento de classe de um proletariado embarcado.Ler sobre a luta →
- 1912–1916Guerra camponesaGuerra do ContestadoPlanalto e meio-oeste de Santa Catarina, na região de limites disputada com o ParanáA Guerra do Contestado reuniu, de 1912 a 1916, posseiros expulsos da terra, ervateiros e desempregados numa região disputada por Paraná e Santa Catarina, onde a ferrovia e a madeireira do norte-americano Percival Farquhar tomavam terras. O Exército destruiu as cidades santas dos sertanejos, com milhares de mortos. Para Tarcísio Motta de Carvalho, a repressão defendeu uma dominação de classe.Ler sobre a luta →
- 1917GreveGreve geral de 1917Cidade de São Paulo, a partir do bairro operário da Mooca, com greves também no Rio de Janeiro e em Porto AlegreEm julho de 1917, uma greve iniciada na fábrica de tecidos Crespi, na Mooca, parou São Paulo, com cerca de 100 mil trabalhadores, segundo Edilene Toledo. O Comitê de Defesa Proletária, de anarquistas e socialistas, conseguiu nos acordos aumento de salário e a libertação de presos. Para Astrojildo Pereira, as greves de 1917 a 1920 mostraram a falta de um partido operário, e essa lição levou à fundação do PCB.Ler sobre a luta →
- 1922OrganizaçãoFundação do Partido Comunista do BrasilRio de Janeiro e Niterói, em reuniões feitas em lugares diferentesO Partido Comunista do Brasil foi fundado num congresso de nove delegados, de 25 a 27 de março de 1922, no Rio de Janeiro e em Niterói, por militantes que deixaram o anarquismo depois das greves de 1917 a 1920. Em julho, o estado de sítio o pôs na ilegalidade. Desde a cisão de 1962, o PCB e o PCdoB reivindicam essa fundação.Ler sobre a luta →
- 1924–1927Marcha armadaColuna PrestesDo Rio Grande do Sul e do Paraná ao Nordeste, por cerca de 25 mil quilômetros do interior, até a BolíviaA Coluna Prestes foi uma marcha armada de cerca de 25 mil quilômetros pelo interior do Brasil, de 1924 a 1927, formada por tenentes que se levantaram contra o governo de Artur Bernardes. No sertão, Luiz Carlos Prestes viu camponeses sem terra submetidos aos latifundiários. Para Nelson Werneck Sodré, o tenentismo foi um fenômeno de classe média, e o próprio Prestes passou ao marxismo depois da marcha.Ler sobre a luta →
Era Vargas e República de 1946
1930–1964- 1935LevanteLevante de 1935Natal (RN), Recife (PE) e Rio de Janeiro, então capital da RepúblicaEm novembro de 1935, militares e militantes da Aliança Nacional Libertadora e do PCB se levantaram em Natal, Recife e no Rio de Janeiro contra o governo Vargas e foram derrotados até o dia 27. Segundo o CPDOC, a repressão atingiu todos os opositores e ajudou a abrir caminho para o Estado Novo. Para Anita Leocadia Prestes, a decisão foi do PCB com o Secretariado Sul-Americano da Internacional, sem ordem de Moscou.Ler sobre a luta →
- 1950–1964Trombas e FormosoPovoados de Trombas e Formoso, na região de Uruaçu, norte de GoiásNos anos 1950, posseiros do norte de Goiás resistiram à expulsão por grileiros e fazendeiros, organizados numa associação de lavradores e em conselhos de córrego, com apoio de militantes do PCB. Em 1962, o governo de Goiás concedeu 20 mil títulos de terra, segundo a Comissão Nacional da Verdade. O golpe de 1964 dissolveu a associação, e o líder José Porfírio desapareceu em 1973.Ler sobre a luta →
- 1953GreveGreve dos 300 milCidade de São Paulo e outras cidades paulistasEm março e abril de 1953, uma greve iniciada pelos operários têxteis de São Paulo se espalhou por outras categorias e chegou a 300 mil trabalhadores, segundo Ernesto Germano Parés. O comitê intersindical de greve conquistou um acordo de 33% de aumento, e do movimento nasceu o Pacto de Unidade Intersindical. Os historiadores divergem sobre o peso do PCB e das comissões de fábrica na direção da greve.Ler sobre a luta →
- 1955–1964Organização camponesaLigas CamponesasZona da Mata e agreste de Pernambuco e da Paraíba, a partir do Engenho Galileia, em Vitória de Santo Antão (PE), com ligas em outros estadosAs Ligas Camponesas nasceram em 1955, no Engenho Galileia, em Pernambuco, entre foreiros que resistiam à expulsão, ao foro e ao cambão, e se espalharam pelo Nordeste com o advogado Francisco Julião. Lutaram pela reforma agrária e conquistaram a desapropriação do Galileia, em 1959. Os latifundiários mandaram matar líderes como João Pedro Teixeira, e o golpe de 1964 desmontou o movimento.Ler sobre a luta →
- 1962Greve geral de 1962Rio de Janeiro, então Guanabara, e estado do Rio, Baixada Santista, porto de Paranaguá, capitais do Nordeste e Rio Grande do Sul, entre outras regiõesEm 5 de julho de 1962, o Comando Geral de Greve parou boa parte do país por 24 horas na crise do gabinete parlamentarista, a favor de João Goulart, na primeira greve geral nacional da classe trabalhadora, segundo Demian Bezerra de Melo. Em 13 de julho, Goulart sancionou o 13º salário. Uma nova greve geral, em setembro, levou à antecipação do plebiscito que derrubou o parlamentarismo.Ler sobre a luta →
Ditadura empresarial-militar
1964–1985- 1964GolpeGolpe de 1964Juiz de Fora (MG), Rio de Janeiro, então estado da Guanabara, e Brasília, entre outras cidadesEntre 31 de março e 9 de abril de 1964, um movimento militar apoiado por empresários organizados no IPES e no IBAD e pelo governo dos Estados Unidos derrubou o presidente João Goulart. Para Caio Navarro de Toledo, foi um golpe das classes dominantes contra as reformas de base e contra a democracia nascida em 1945. Os vencedores chamaram o golpe de revolução, nome que Toledo e a historiografia crítica rejeitam.Ler sobre a luta →
- 1968Greves de Contagem e OsascoCidade Industrial de Contagem (MG), na Grande Belo Horizonte, e Osasco (SP), na Grande São PauloEm abril de 1968, os metalúrgicos de Contagem (MG) pararam a Cidade Industrial contra o arrocho salarial, e em julho os de Osasco (SP) ocuparam a Cobrasma. As duas greves, conduzidas por comissões eleitas nas fábricas, foram reprimidas com prisões e intervenção no sindicato de Osasco. Para Ernesto Germano Parés, elas serviram de experiência às oposições sindicais dos anos 1970.Ler sobre a luta →
- 1972–1974GuerrilhaGuerrilha do AraguaiaSul e sudeste do Pará, na divisa com o atual Tocantins e com o Maranhão, perto de Marabá, Xambioá e São Geraldo do AraguaiaEntre 1972 e 1974, as Forças Armadas desmantelaram um núcleo de guerrilha do PCdoB no sul do Pará e reprimiram camponeses e indígenas da região. A Comissão Nacional da Verdade registra execuções, tortura e desaparecimentos, e em 2010 a Corte Interamericana condenou o Brasil pelo desaparecimento forçado de 62 pessoas. Meses antes, o STF tinha mantido a Lei de Anistia para os agentes da repressão.Ler sobre a luta →
- 1978–1980GreveGreves do ABCSão Bernardo do Campo, Santo André, São Caetano do Sul e Diadema, no ABC paulista, e outras cidades da Grande São PauloDe 1978 a 1980, os metalúrgicos do ABC paulista fizeram greves contra o arrocho salarial e a tutela do Estado sobre os sindicatos. A ditadura interveio no Sindicato de São Bernardo em 1979 e 1980 e prendeu dirigentes pela Lei de Segurança Nacional, e a greve de 1980 durou 41 dias. Para a Comissão Nacional da Verdade, o novo sindicalismo rompeu com o sindicalismo anterior a 1964 e levou à CUT.Ler sobre a luta →
- 1983–1984Diretas JáCapitais e grandes cidades do país, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Goiânia, e a Câmara dos Deputados, em BrasíliaDe 1983 a abril de 1984, partidos de oposição, movimentos sociais e entidades levaram milhões às ruas para exigir a eleição direta do presidente. Em 25 de abril de 1984, a emenda Dante de Oliveira teve 298 votos a favor e ficou 22 votos abaixo dos dois terços. Para Vânia Bambirra, foi a maior mobilização de massas do país em três décadas, seguida da conciliação que elegeu Tancredo Neves pela via indireta.Ler sobre a luta →
- 1984Organização camponesaFundação do MSTCascavel, no oeste do ParanáEm janeiro de 1984, trabalhadores rurais sem terra de vários estados reuniram-se em Cascavel, no Paraná, e criaram o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), com apoio da Comissão Pastoral da Terra. O encontro veio depois de ocupações e de acampamentos como o da Encruzilhada Natalino (RS). Para Vânia Bambirra, o movimento nasceu da expulsão dos trabalhadores do campo.Ler sobre a luta →
Nova República
1985–hoje- 1995Greve dos petroleiros de 1995Refinarias, plataformas, terminais e escritórios da Petrobras em todo o paísDe 3 de maio a 3 de junho de 1995, os petroleiros da Petrobras, liderados pela FUP, fizeram greve pelo cumprimento de acordos assinados em 1994. O TST julgou a greve abusiva, a empresa demitiu grevistas e o Exército ocupou refinarias. Em novembro, a Emenda Constitucional nº 9 permitiu à União contratar empresas privadas para as atividades do monopólio do petróleo.Ler sobre a luta →
- 1995MassacreMassacre de CorumbiaraFazenda Santa Elina, perto de Colorado do Oeste, no município de Corumbiara (RO)Em 9 de agosto de 1995, a Polícia Militar de Rondônia despejou cerca de 500 famílias sem terra acampadas na fazenda Santa Elina, em Corumbiara. Trabalhadores rurais, entre eles uma menina, e dois policiais morreram. Em 2004, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos responsabilizou o Estado brasileiro por execuções extrajudiciais e pela falta de investigação.Ler sobre a luta →
- 1996MassacreMassacre de Eldorado dos CarajásCurva do S da rodovia PA-150, hoje BR-155, no município de Eldorado dos Carajás (PA)Em 17 de abril de 1996, a Polícia Militar do Pará cercou cerca de 1.500 sem-terra do MST que bloqueavam a rodovia PA-150, em Eldorado dos Carajás, e 19 trabalhadores foram mortos. Dos 144 policiais processados, só o coronel e o major que comandaram a ação foram condenados. A data virou o Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária.Ler sobre a luta →
- 2013ProtestosJornadas de JunhoSão Paulo, de onde os atos se espalharam para outras capitais e cidades do paísEm junho de 2013, atos do Movimento Passe Livre contra o aumento de R$ 0,20 nas tarifas de São Paulo, reprimidos pela polícia, viraram protestos de massa em várias cidades, e os aumentos de São Paulo e do Rio foram cancelados. Para Armando Boito Jr., os atos começaram populares e, a partir do dia 20, foram disputados pela direita. Valerio Arcary vê ali uma inflexão que tirou o país de uma situação defensiva.Ler sobre a luta →
- 2017GreveGreve geral de 2017Todo o país, em 26 estados e no Distrito Federal, segundo os organizadoresEm 28 de abril de 2017, as centrais sindicais fizeram uma greve geral contra a reforma trabalhista e a reforma da Previdência do governo Temer, com 35 milhões de trabalhadores, segundo os organizadores. Uma segunda greve geral ocorreu em 30 de junho. A reforma trabalhista virou lei em 13 de julho, e a da Previdência foi suspensa ainda no governo Temer.Ler sobre a luta →
Cada luta se liga aos presidentes da época e aos conceitos que ajudam a entender quem estava de cada lado.
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