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Estudos / História do Brasil / Lutas de classes / Colônia e Império / Balaiada

Luta de classes · revolta popular

Balaiada

1838–1841 · Sertão do Maranhão, com ramificações no Piauí e no Ceará

A Balaiada foi uma revolta do sertão do Maranhão, de 1838 a 1841, de vaqueiros, camponeses, artesãos e escravizados contra a Lei dos Prefeitos, o recrutamento e o governo provincial. Os escravizados de Cosme Bento das Chagas lutaram pelo fim da escravidão, e Clóvis Moura a trata como revolta de escravos e camponeses. As tropas de Luís Alves de Lima e Silva a reprimiram, e Cosme foi enforcado.

Quando
de 13/12/1838 a 1841
Onde
Sertão do Maranhão, com ramificações no Piauí e no Ceará
Quem lutou
Vaqueiros e camponeses pobres; Escravizados fugidos e quilombolas; Pequenos artesãos; Agricultores sem terra; Desertores da Guarda Nacional
Contra quem
Governo da província do Maranhão; Tropas do governo central sob Luís Alves de Lima e Silva; Grupos políticos da elite maranhense
Desfecho
As tropas de Luís Alves de Lima e Silva derrotaram os rebeldes até 1841, com anistia para quem se rendia, e Cosme Bento das Chagas foi enforcado em praça pública em Itapecuru.

Como aconteceu

Balaiada, 1838–1841

  1. 12/12/1838O Balaio arromba a cadeia do Brejo e solta presos.Janotti, Balaiada, p. 58
  2. 13/12/1838Episódio de Raimundo Gomes na vila da Manga, tomado pela documentação oficial como início da revolta.Janotti, Balaiada, p. 58
  3. 14/12/1838Manifesto de Raimundo Gomes aos cidadãos brasileiros e amigos da pátria.Janotti, Balaiada, p. 50
  4. 07/1839Os balaios tomam Caxias, a segunda cidade da província.Janotti, Balaiada, p. 54
  5. 1840Cosme Bento das Chagas escreve que a república serve para acabar com a escravidão.Reis, Quilombos e revoltas escravas no Brasil, p. 29
  6. 1841Fim da revolta.Reis, Quilombos e revoltas escravas no Brasil, p. 29

Leitura marxista

Quem estava de cada lado

O começo, em dezembro de 1838

A Balaiada foi uma revolta do sertão do Maranhão, com ramificações no Piauí e no Ceará, que durou de 1838 a 1841. A documentação oficial marca o início no episódio de Raimundo Gomes na vila da Manga, em 13 de dezembro de 1838. A pesquisadora Sandra Regina Rodrigues dos Santos, citada por Maria de Lourdes Monaco Janotti, mostra que um dia antes Francisco Ferreira, o Balaio, tinha arrombado a cadeia da cidade do Brejo e soltado presos, o que era comum no sertão. (Reis, Quilombos e revoltas escravas no Brasil, p. 29; Moura, Cem anos de abolição do escravismo no Brasil, § 11; Janotti, Balaiada, p. 58)

O nome Balaiada vem, segundo a historiografia, do ofício de Manuel Francisco dos Anjos Ferreira, que tecia e vendia balaios, cestos de palha. Santos duvida dessa origem, porque ele era pequeno proprietário, tinha gado e liderava o maior bando armado rebelde. (Janotti, Balaiada, p. 58)

O que os rebeldes queriam

Santos lista entre as reivindicações a suspensão da Lei dos Prefeitos e Subprefeitos, a expulsão do presidente da província e a expulsão dos portugueses. A Lei dos Prefeitos criou prefeitos nomeados só pelo governo da província, com poderes para interferir no cotidiano da população, e Rafael Privado e Telma Reinaldo apontam o recrutamento obrigatório como outra causa da revolta. Para Santos, essas leis viraram uma rede de aço de injustiças no sertão. (Janotti, Balaiada, pp. 57 e 58; Privado e Reinaldo, A Balaiada no Maranhão, pp. 70 e 71)

No manifesto de 14 de dezembro de 1838, Raimundo Gomes chamou os cidadãos brasileiros e amigos da pátria, mas, segundo Maria Januária Vilela Santos, citada por Janotti, deixou os escravos de fora do chamado. (Janotti, Balaiada, p. 50)

Quem lutou

Sandra Santos descreve os rebeldes como uma parte grande da população do sertão, com vaqueiros, escravos fugidos, pequenos artesãos, agricultores, sem-terra e desertores da Guarda Nacional, mas também pequenos comerciantes, políticos e fazendeiros. Matthias Röhrig Assunção, citado por Janotti, vê no campesinato maranhense, formado por indígenas, descendentes de escravos libertos ou fugidos e migrantes nordestinos, o suporte principal da revolta. Para ele, esse caráter camponês explica o sucesso da resistência na mata e o fracasso dos ataques. (Janotti, Balaiada, pp. 56 a 58)

Os escravizados tiveram um movimento próprio, liderado por Cosme Bento das Chagas, um liberto, que se dizia tutor e imperador da liberdade. Segundo João José Reis, Cosme escreveu em 1840 que a república servia para acabar com a escravidão, enquanto os balaios, ou liberais bem-te-vis, não tinham programa abolicionista, e os dois movimentos só se juntaram na fase final. Privado e Reinaldo contam que Cosme liderou mais de dois mil escravos e quilombolas. (Reis, Quilombos e revoltas escravas no Brasil, pp. 29 e 35; Privado e Reinaldo, A Balaiada no Maranhão, p. 73)

Caxias, a anistia e a repressão

Os balaios tomaram Caxias, a segunda cidade da província, em julho de 1839. Segundo Maria Januária Vilela Santos, o movimento se radicalizou depois disso, e no segundo semestre de 1840 Raimundo Gomes tentou levantar o maior número possível de escravos, quando a insurreição escrava já assustava mais do que a própria Balaiada. (Janotti, Balaiada, pp. 50 e 54)

O governo central mandou Luís Alves de Lima e Silva, futuro duque de Caxias, cuja repressão teve o apoio de todos os grupos políticos da elite maranhense, segundo Janotti. Reis escreve que o abolicionismo de Cosme levou muitos bem-te-vis a passar para o lado do governo. Os primeiros grupos que se renderam ou aceitaram a anistia foram obrigados a combater os antigos companheiros, e o fim da revolta foi marcado por prisões, deserções e torturas. (Janotti, Balaiada, p. 55; Reis, Quilombos e revoltas escravas no Brasil, p. 29)

Cosme foi enforcado em praça pública, na vila de Itapecuru, como punição exemplar para a população. (Janotti, Balaiada, p. 55; Privado e Reinaldo, A Balaiada no Maranhão, p. 74)

Janotti, autora de um livro sobre a Balaiada em 1987, conta que os historiadores do século XIX trataram a revolta como barbárie contra a civilização da monarquia. Para ela, a Balaiada marcou a subida de brasileiros ao poder provincial e nacional, o poder dos coronéis e um pacto de dominação entre os partidos da elite maranhense, que aumentou a marginalização dos pobres, sobretudo dos negros. Ela escreve que, naquele momento, estavam se formando as classes dominantes do Maranhão. (Janotti, Balaiada, pp. 41, 48, 50 e 54)

Clóvis Moura trata a Balaiada como uma revolta em que os negros escravos se levantaram junto com camponeses e foram esmagados. Ele põe Preto Cosme ao lado de Zumbi e de outros líderes quilombolas, numa mesma linha contínua de desgaste da escravidão. (Moura, Cem anos de abolição do escravismo no Brasil, § 11; Moura, A quilombagem como expressão de protesto radical, § 54)

O que se reivindicava

Para se aprofundar

Principal
Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (28)
  • Interpretação · Maria de Lourdes Monaco JanottiOs historiadores do século XIX julgaram movimentos como a Balaiada como anomalias, manifestações da barbárie contra a civilização representada pela monarquia.Janotti, Balaiada, p. 41
  • Interpretação · Sandra Regina Rodrigues dos Santos, citada por JanottiEm 12 de dezembro de 1838, Francisco Ferreira, o Balaio, arrombou a cadeia da cidade do Brejo e soltou presos, um dia antes do episódio de Raimundo Gomes na Manga, que a documentação oficial toma como início da revolta.Janotti, Balaiada, p. 58
  • Interpretação · Matthias Röhrig Assunção, citado por JanottiO campesinato maranhense, formado por indígenas destribalizados, descendentes forros e aquilombados de escravos africanos e migrantes nordestinos, foi o suporte principal da Balaiada, e o caráter camponês explica o sucesso na resistência dentro da mata e o fracasso na ofensiva.Janotti, Balaiada, pp. 56 e 57
  • FatoOs balaios tomaram Caxias, a segunda cidade da província, em julho de 1839.Janotti, Balaiada, p. 54
  • Interpretação · Maria de Lourdes Monaco JanottiNo período da Balaiada estavam se constituindo as classes dominantes maranhenses.Janotti, Balaiada, p. 54
  • Interpretação · Sandra Regina Rodrigues dos Santos, citada por JanottiOs rebeldes eram uma parcela significativa da população do sertão maranhense, vaqueiros, escravos fugitivos, pequenos artesãos, assaltantes de estrada, agricultores, sem-terra, desertores da Guarda Nacional, políticos, pequenos comerciantes e fazendeiros.Janotti, Balaiada, p. 58
  • Interpretação · João José ReisOs balaios, ou liberais bem-te-vis, e os escravos liderados por Cosme Bento das Chagas formaram movimentos diferentes, que convergiram só na fase final; os balaios não tinham ideário abolicionista, mas Chagas, que se intitulava tutor e imperador da liberdade, escreveu em 1840 que a República é para não haver a escravidão.Reis, Quilombos e revoltas escravas no Brasil, p. 29
  • Interpretação · João José ReisO abolicionismo radical de Cosme levou muitos rebeldes bem-te-vis a passar para o lado da legalidade, o que facilitou a repressão de Luís Alves de Lima e Silva, futuro duque de Caxias.Reis, Quilombos e revoltas escravas no Brasil, p. 29
  • FatoLibertos lideraram muitas rebeliões escravas, como Cosme das Chagas no Maranhão.Reis, Quilombos e revoltas escravas no Brasil, p. 35
  • Interpretação · Rafael de Jesus Pinheiro Privado e Telma Bonifácio dos Santos ReinaldoNegro Cosme liderou uma tropa de mais de dois mil escravos e quilombolas.Privado e Reinaldo, A Balaiada no Maranhão, p. 73
  • FatoA Balaiada durou de 1838 a 1841.Reis, Quilombos e revoltas escravas no Brasil, p. 29
  • Interpretação · Maria de Lourdes Monaco JanottiO final da Balaiada foi marcado por traição, assassinatos, deserções, prisões e torturas, e Cosme foi enforcado em praça pública, como punição exemplar.Janotti, Balaiada, p. 55
  • FatoCosme foi enforcado em praça pública na vila de Itapecuru, e Raimundo Gomes foi executado em viagem, sob guarda policial, entre o Maranhão e São Paulo.Privado e Reinaldo, A Balaiada no Maranhão, p. 74
  • FatoJanotti escreveu em 1987 um livro sobre a Balaiada e continuava a concordar com as ideias dele.Janotti, Balaiada, p. 50
  • Interpretação · Maria de Lourdes Monaco JanottiA Balaiada representou a ascensão de brasileiros aos poderes provincial e nacional, o poder coronelístico e o pacto de dominação entre os partidos da elite maranhense, e acentuou a marginalização social dos destituídos, principalmente dos negros.Janotti, Balaiada, pp. 41 e 48
  • Interpretação · Sandra Regina Rodrigues dos Santos, citada por JanottiLeis como a dos Prefeitos e Subprefeitos e a do Recrutamento, na aplicação, viraram uma rede de aço geradora de grandes injustiças e descontentamentos.Janotti, Balaiada, p. 57
  • Interpretação · Matthias Röhrig Assunção, segundo Privado e ReinaldoPara Matthias Röhrig Assunção, o episódio da Vila da Manga do Iguará foi uma espécie de alavanca do movimento.Privado e Reinaldo, A Balaiada no Maranhão, p. 73
  • Interpretação · Maria Januária Vilela Santos, citada por JanottiNo manifesto de 14 de dezembro de 1838, Raimundo Gomes conclamou os cidadãos brasileiros e amigos da Pátria e excluiu a grande massa escrava com a frase Fora feitores e escravos.Janotti, Balaiada, p. 50
  • Interpretação · Clóvis MouraZumbi, Ambrósio, Preto Cosme e outros líderes quilombolas se articulam como um continuum de desgaste da escravidão.Moura, A quilombagem como expressão de protesto radical, § 54
  • Interpretação · Clóvis MouraNa Balaiada, na província do Maranhão, com ramificações no Piauí e no Ceará, os negros escravos se rebelaram junto com camponeses e foram esmagados.Moura, Cem anos de abolição do escravismo no Brasil, § 11
  • Interpretação · Sandra Regina Rodrigues dos Santos, citada por JanottiA historiografia ligou o nome Balaiada ao fato de Manuel Francisco dos Anjos tecer e vender balaios, mas ele era pequeno proprietário, tinha gado e liderava o maior bando armado rebelde, o que levanta dúvidas sobre essa origem.Janotti, Balaiada, p. 58
  • Interpretação · Maria Januária Vilela Santos, citada por JanottiA insurreição de escravos causou mais pânico do que a própria Balaiada, porque ameaçava as bases do sistema escravista.Janotti, Balaiada, p. 50
  • FatoOs prefeitos eram de nomeação exclusiva dos governantes da província, o que lhes dava poderes amplos para interferir nas instituições de segurança e no cotidiano da população.Privado e Reinaldo, A Balaiada no Maranhão, p. 71
  • FatoO movimento despontou em 1838 e prosseguiu até 1841, já no Segundo Reinado, abrangendo várias camadas da população do Maranhão e do Piauí.Privado e Reinaldo, A Balaiada no Maranhão, p. 68
  • Interpretação · Maria Januária Vilela Santos, citada por JanottiDepois da tomada de Caxias, o movimento balaio se radicalizou, e no segundo semestre de 1840, com as forças balaias se desfazendo, Raimundo Gomes tentou sublevar o maior número possível de escravos.Janotti, Balaiada, p. 50
  • Interpretação · Rafael de Jesus Pinheiro Privado e Telma Bonifácio dos Santos ReinaldoO recrutamento obrigatório e a Lei dos Prefeitos foram relevantes para o nascimento da Balaiada.Privado e Reinaldo, A Balaiada no Maranhão, p. 70
  • Interpretação · Sandra Regina Rodrigues dos Santos, citada por JanottiA Balaiada juntou fatores sociais, como desrespeito, opressão, exploração e miséria, a reivindicações políticas como a suspensão da Lei dos Prefeitos e Subprefeitos, a expulsão do presidente da província e a expulsão dos portugueses.Janotti, Balaiada, p. 58
  • Interpretação · Maria de Lourdes Monaco JanottiA repressão de Luís Alves de Lima, enviado pelo governo central, teve o apoio de todas as facções liberais e cabanas, e os primeiros grupos que se renderam ou aceitaram a anistia foram obrigados a combater os antigos companheiros.Janotti, Balaiada, p. 55

Fontes desta página

  1. REIS, João José. Quilombos e revoltas escravas no Brasil. São Paulo: Revista USP, n. 28, dossiê Povo negro, 300 anos, pp. 14-39, dezembro de 1995 a fevereiro de 1996, 1996. Abrir ↗
  2. MOURA, Clóvis. Cem anos de abolição do escravismo no Brasil. 1988. Abrir ↗
  3. JANOTTI, Maria de Lourdes Monaco. Balaiada: construção da memória histórica. São Paulo: História (Unesp), v. 24, n. 1, pp. 41-76, 2005. Abrir ↗
  4. PRIVADO, Rafael de Jesus Pinheiro; REINALDO, Telma Bonifácio dos Santos. A Balaiada no Maranhão: uma revisão historiográfica. Imperatriz: Revista Humanidades e Educação (UFMA), v. 2, n. 3, pp. 65-76, julho a dezembro de 2020, 2020. Abrir ↗
  5. MOURA, Clóvis. A quilombagem como expressão de protesto radical. 2001. Abrir ↗
  6. Rafael de Jesus Pinheiro Privado e Telma Bonifácio dos Santos Reinaldo. A Balaiada no Maranhão: uma revisão historiográfica (Revista Humanidades e Educação, v. 2, n. 3, 2020). periodicoseletronicos.ufma.br. Abrir ↗
  7. Maria de Lourdes Monaco Janotti. Balaiada: construção da memória histórica (História, v. 24, n. 1, 2005), no SciELO. scielo.br. Abrir ↗
  8. João José Reis. Quilombos e revoltas escravas no Brasil (Revista USP, n. 28, 1996). revistas.usp.br. Abrir ↗
  9. Clóvis Moura. A quilombagem como expressão de protesto radical (2001), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  10. Clóvis Moura. Cem anos de abolição do escravismo no Brasil (Princípios, n. 15, 1988), no MIA. marxists.org. Abrir ↗