Leitura marxista
Quem estava de cada lado
O começo, em dezembro de 1838
A Balaiada foi uma revolta do sertão do Maranhão, com ramificações no Piauí e no Ceará, que durou de 1838 a 1841. A documentação oficial marca o início no episódio de Raimundo Gomes na vila da Manga, em 13 de dezembro de 1838. A pesquisadora Sandra Regina Rodrigues dos Santos, citada por Maria de Lourdes Monaco Janotti, mostra que um dia antes Francisco Ferreira, o Balaio, tinha arrombado a cadeia da cidade do Brejo e soltado presos, o que era comum no sertão. (Reis, Quilombos e revoltas escravas no Brasil, p. 29; Moura, Cem anos de abolição do escravismo no Brasil, § 11; Janotti, Balaiada, p. 58)
O nome Balaiada vem, segundo a historiografia, do ofício de Manuel Francisco dos Anjos Ferreira, que tecia e vendia balaios, cestos de palha. Santos duvida dessa origem, porque ele era pequeno proprietário, tinha gado e liderava o maior bando armado rebelde. (Janotti, Balaiada, p. 58)
O que os rebeldes queriam
Santos lista entre as reivindicações a suspensão da Lei dos Prefeitos e Subprefeitos, a expulsão do presidente da província e a expulsão dos portugueses. A Lei dos Prefeitos criou prefeitos nomeados só pelo governo da província, com poderes para interferir no cotidiano da população, e Rafael Privado e Telma Reinaldo apontam o recrutamento obrigatório como outra causa da revolta. Para Santos, essas leis viraram uma rede de aço de injustiças no sertão. (Janotti, Balaiada, pp. 57 e 58; Privado e Reinaldo, A Balaiada no Maranhão, pp. 70 e 71)
No manifesto de 14 de dezembro de 1838, Raimundo Gomes chamou os cidadãos brasileiros e amigos da pátria, mas, segundo Maria Januária Vilela Santos, citada por Janotti, deixou os escravos de fora do chamado. (Janotti, Balaiada, p. 50)
Quem lutou
Sandra Santos descreve os rebeldes como uma parte grande da população do sertão, com vaqueiros, escravos fugidos, pequenos artesãos, agricultores, sem-terra e desertores da Guarda Nacional, mas também pequenos comerciantes, políticos e fazendeiros. Matthias Röhrig Assunção, citado por Janotti, vê no campesinato maranhense, formado por indígenas, descendentes de escravos libertos ou fugidos e migrantes nordestinos, o suporte principal da revolta. Para ele, esse caráter camponês explica o sucesso da resistência na mata e o fracasso dos ataques. (Janotti, Balaiada, pp. 56 a 58)
Os escravizados tiveram um movimento próprio, liderado por Cosme Bento das Chagas, um liberto, que se dizia tutor e imperador da liberdade. Segundo João José Reis, Cosme escreveu em 1840 que a república servia para acabar com a escravidão, enquanto os balaios, ou liberais bem-te-vis, não tinham programa abolicionista, e os dois movimentos só se juntaram na fase final. Privado e Reinaldo contam que Cosme liderou mais de dois mil escravos e quilombolas. (Reis, Quilombos e revoltas escravas no Brasil, pp. 29 e 35; Privado e Reinaldo, A Balaiada no Maranhão, p. 73)
Caxias, a anistia e a repressão
Os balaios tomaram Caxias, a segunda cidade da província, em julho de 1839. Segundo Maria Januária Vilela Santos, o movimento se radicalizou depois disso, e no segundo semestre de 1840 Raimundo Gomes tentou levantar o maior número possível de escravos, quando a insurreição escrava já assustava mais do que a própria Balaiada. (Janotti, Balaiada, pp. 50 e 54)
O governo central mandou Luís Alves de Lima e Silva, futuro duque de Caxias, cuja repressão teve o apoio de todos os grupos políticos da elite maranhense, segundo Janotti. Reis escreve que o abolicionismo de Cosme levou muitos bem-te-vis a passar para o lado do governo. Os primeiros grupos que se renderam ou aceitaram a anistia foram obrigados a combater os antigos companheiros, e o fim da revolta foi marcado por prisões, deserções e torturas. (Janotti, Balaiada, p. 55; Reis, Quilombos e revoltas escravas no Brasil, p. 29)
Cosme foi enforcado em praça pública, na vila de Itapecuru, como punição exemplar para a população. (Janotti, Balaiada, p. 55; Privado e Reinaldo, A Balaiada no Maranhão, p. 74)
Revolta das elites ou revolta popular
Janotti, autora de um livro sobre a Balaiada em 1987, conta que os historiadores do século XIX trataram a revolta como barbárie contra a civilização da monarquia. Para ela, a Balaiada marcou a subida de brasileiros ao poder provincial e nacional, o poder dos coronéis e um pacto de dominação entre os partidos da elite maranhense, que aumentou a marginalização dos pobres, sobretudo dos negros. Ela escreve que, naquele momento, estavam se formando as classes dominantes do Maranhão. (Janotti, Balaiada, pp. 41, 48, 50 e 54)
Clóvis Moura trata a Balaiada como uma revolta em que os negros escravos se levantaram junto com camponeses e foram esmagados. Ele põe Preto Cosme ao lado de Zumbi e de outros líderes quilombolas, numa mesma linha contínua de desgaste da escravidão. (Moura, Cem anos de abolição do escravismo no Brasil, § 11; Moura, A quilombagem como expressão de protesto radical, § 54)
O que se reivindicava
- Suspensão da Lei dos Prefeitos e Subprefeitos (Janotti, Balaiada, p. 58)
- Expulsão do presidente da província (Janotti, Balaiada, p. 58)
- Expulsão dos portugueses (Janotti, Balaiada, p. 58)
- Fim da escravidão, no movimento dos escravizados liderado por Cosme Bento das Chagas (Reis, Quilombos e revoltas escravas no Brasil, p. 29)