Leitura marxista
Quem estava de cada lado
A reposição salarial
Segundo o economista Ruy Mauro Marini, o próprio governo denunciou que os índices de preços de 1973 tinham sido adulterados para limitar os reajustes, e a mobilização pela reposição das perdas reforçou os sindicatos. O Arquivo Nacional registra que Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema desde 1975, lançou a campanha pela recuperação das perdas de 1973 e 1974. O marxista Erico Sachs escreveu em 1982 que essa campanha, no fim de 1977, mobilizou pela primeira vez assembleias de 5 mil operários, embora sem atingir os seus objetivos. (Marini, Brasil, pp. 4 e 5; Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 59; Sachs, Sindicalismo hoje, p. 1 do PDF)
1978, as máquinas paradas
Em 12 de maio de 1978, os trabalhadores da Scania, em São Bernardo, entraram e não ligaram as máquinas, numa decisão do turno da ferramentaria, e só depois chamaram o sindicato. Segundo o sociólogo Marco Aurélio Santana, a parada durou quatro dias, e a empresa trocou os 20% reivindicados por 6,5%. Para Marini, foi a primeira grande greve metalúrgica do ABC em dez anos, feita com a ocupação branca das fábricas, isto é, com os operários parados dentro delas, e obteve êxito. Sachs registra que essa primeira onda de greves se apoiou em comissões de fábrica, uma resposta à estrutura sindical oficial atrelada ao Estado. (Santana, Classe trabalhadora, confronto político e democracia, pp. 20 e 29; Marini, Brasil, p. 5; Sachs, Sindicalismo hoje, p. 1 do PDF)
1979, a greve da categoria
Em 13 de março de 1979, a Ford e a Volkswagen amanheceram paradas, o presidente do sindicato falou a mais de 60 mil trabalhadores no Estádio de Vila Euclides, e no quarto dia eram cerca de 170 mil parados no ABC. Em 23 de março, o Ministério do Trabalho interveio nos sindicatos, e os grevistas passaram a se reunir na Igreja Matriz de São Bernardo, com apoio da Pastoral Operária. Segundo Ernesto Germano Parés, a greve resistiu porque os comandos e o fundo de greve funcionavam fora do prédio do sindicato, e depois do Primeiro de Maio o governo revogou a intervenção. O acordo com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) foi aprovado em assembleia em 13 de maio. (Santana, Classe trabalhadora, confronto político e democracia, pp. 38 a 40; Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 32 do PDF)
A Comissão Nacional da Verdade (CNV) registra que em 1979 mais de três milhões de trabalhadores fizeram greve em 15 dos 23 estados. Na greve dos metalúrgicos da capital paulista, o operário Santo Dias da Silva foi morto num confronto entre a polícia e um piquete, em 30 de outubro, segundo Parés. No mesmo dia, a Lei nº 6.708 passou a corrigir os salários a cada seis meses, mudança que Parés explica como resposta do governo à onda de greves. (Brasil. Comissão Nacional Da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, p. 396; Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 32 do PDF; Congresso Nacional, Lei nº 6.708, de 30 de outubro de 1979, art. 1º)
1980, 41 dias
Em 30 de março de 1980, a assembleia dos metalúrgicos do ABC decidiu parar a partir de 1º de abril, e no primeiro dia 90% da categoria aderiu em São Bernardo. Em 17 de abril, o governo interveio nos sindicatos de São Bernardo e de Santo André, e dois dias depois treze líderes foram presos e enquadrados na Lei de Segurança Nacional, entre eles Lula, segundo o Arquivo Nacional. O Primeiro de Maio reuniu mais de 100 mil metalúrgicos em Vila Euclides, mas a greve refluiu e terminou depois de 41 dias, com demissões e choques com tropas da polícia e do Exército. (Santana, Classe trabalhadora, confronto político e democracia, pp. 45 a 47; Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 32 do PDF; Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, pp. 49, 50 e 59)
A CNV registra documentos que comprovam a cooperação da Volkswagen com o DOPS, a polícia política, entre eles um relatório sobre um comício da diretoria do sindicato na porta da fábrica, em 26 de março de 1980, feito com um resumo da segurança da empresa. Segundo a Comissão, a diretoria do sindicato foi cassada, e o fundo de greve e o Comitê de Solidariedade levaram o repúdio à ditadura a todo o país. (Brasil. Comissão Nacional Da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, pp. 67 e 396)
Ruptura ou continuidade
Para a CNV, o novo sindicalismo nascido em 1978 rompeu de forma definitiva com o sindicalismo populista de antes de 1964, e as greves do ABC foram fundamentais para a criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), em 1983. Sachs via nos sindicatos autênticos e nas oposições sindicais os dois esteios da luta contra a estrutura herdada e atribuiu a derrota de 1980 sobretudo a essa estrutura, que prendia o sindicato ao município e proibia o fundo de greve. Parés registra que em 1980 se separaram os reformistas, que temiam um retrocesso político, e os autênticos, que defendiam a organização de base e o fim do atrelamento ao Estado, e que o PCB se colocou contra a greve por temer um confronto que paralisasse a abertura. (Brasil. Comissão Nacional Da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, pp. 395 e 396; Sachs, Sindicalismo hoje, pp. 2 e 3 do PDF; Parés, História do movimento sindical no Brasil, pp. 32 e 33 do PDF)
Em março de 1980, Luiz Carlos Prestes escreveu que a orientação do PCB estava superada e que a classe operária já não aceitava a democracia imposta pelas classes dominantes. Armando Boito Jr. considera que a luta sindical contra a política econômica foi a principal forma de luta popular contra a ditadura, mas sustenta que a estrutura sindical corporativa de Estado, reformada em 1988, continuou de pé. Para o historiador Demian Bezerra de Melo, as greves mostraram a explosão das contradições do modelo econômico da ditadura, e Santana, apoiado em Ricardo Antunes, liga as greves a experiências e organizações anteriores do cotidiano operário. (Prestes, Carta aos comunistas, §§ 5 e 30; Boito Jr., Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil, pp. 84 e 85; Melo, Ditadura "civil-militar"? Controvérsias historiográficas sobre o processo político brasileiro no pós-1964 e os desafios do tempo presente, p. 49; Santana, Classe trabalhadora, confronto político e democracia, pp. 24, 33 e 34)
O que se reivindicava
- Recuperação das perdas salariais de 1973 e 1974, campanha do Sindicato de São Bernardo, segundo o Arquivo Nacional (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 59)
- Aumento de 20% na Scania, em maio de 1978, segundo Santana (Santana, Classe trabalhadora, confronto político e democracia, p. 29)
- Liberdade e autonomia sindical em relação às diretrizes oficiais, segundo a CNV (Brasil. Comissão Nacional Da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, p. 395)