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Luta de classes · greve

Greves do ABC

1978–1980 · São Bernardo do Campo, Santo André, São Caetano do Sul e Diadema, no ABC paulista, e outras cidades da Grande São Paulo

De 1978 a 1980, os metalúrgicos do ABC paulista fizeram greves contra o arrocho salarial e a tutela do Estado sobre os sindicatos. A ditadura interveio no Sindicato de São Bernardo em 1979 e 1980 e prendeu dirigentes pela Lei de Segurança Nacional, e a greve de 1980 durou 41 dias. Para a Comissão Nacional da Verdade, o novo sindicalismo rompeu com o sindicalismo anterior a 1964 e levou à CUT.

Quando
de 12/05/1978 a 05/1980
Onde
São Bernardo do Campo, Santo André, São Caetano do Sul e Diadema, no ABC paulista, e outras cidades da Grande São Paulo
Quem lutou
Metalúrgicos das montadoras e das autopeças do ABC paulista; Trabalhadores de outras categorias que entraram em greve em 1979; Moradores, setores da Igreja católica e entidades que apoiaram os grevistas
Contra quem
Ministério do Trabalho, que interveio nos sindicatos em 1979 e 1980; Montadoras e indústrias reunidas na Fiesp; Polícia Militar, DOPS e Exército, na repressão de 1979 e 1980
Organizações
Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema; Comissões de fábrica; Fundo de greve e Comitê de Solidariedade; Central Única dos Trabalhadores (CUT), criada em 1983
Desfecho
A greve de 1980 terminou depois de 41 dias, com a diretoria do sindicato cassada, demissões e líderes presos e processados pela Lei de Segurança Nacional. As greves abriram caminho para a CUT, criada em 1983.

Como aconteceu

Greves do ABC, 1978–1980

  1. 12/05/1978Os trabalhadores da Scania param as máquinas em São Bernardo.Santana, Classe trabalhadora, confronto político e democracia, pp. 20 e 29
  2. 13/03/1979Começa a greve geral dos metalúrgicos do ABC, com assembleia em Vila Euclides.Santana, Classe trabalhadora, confronto político e democracia, p. 38
  3. 23/03/1979O Ministério do Trabalho intervém nos sindicatos.Santana, Classe trabalhadora, confronto político e democracia, p. 39
  4. 13/05/1979Assembleia aprova o acordo com a Fiesp.Santana, Classe trabalhadora, confronto político e democracia, p. 40
  5. 30/10/1979A Lei nº 6.708 cria a correção semestral dos salários.Congresso Nacional, Lei nº 6.708, de 30 de outubro de 1979, art. 1º
  6. 01/04/1980Começa a greve dos metalúrgicos do ABC, que dura 41 dias.Santana, Classe trabalhadora, confronto político e democracia, pp. 45 e 47
  7. 17/04/1980Nova intervenção nos sindicatos de São Bernardo e Santo André.Santana, Classe trabalhadora, confronto político e democracia, p. 46
  8. 1983Criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT).Brasil. Comissão Nacional Da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, p. 396

Leitura marxista

Quem estava de cada lado

A reposição salarial

Segundo o economista Ruy Mauro Marini, o próprio governo denunciou que os índices de preços de 1973 tinham sido adulterados para limitar os reajustes, e a mobilização pela reposição das perdas reforçou os sindicatos. O Arquivo Nacional registra que Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema desde 1975, lançou a campanha pela recuperação das perdas de 1973 e 1974. O marxista Erico Sachs escreveu em 1982 que essa campanha, no fim de 1977, mobilizou pela primeira vez assembleias de 5 mil operários, embora sem atingir os seus objetivos. (Marini, Brasil, pp. 4 e 5; Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 59; Sachs, Sindicalismo hoje, p. 1 do PDF)

1978, as máquinas paradas

Em 12 de maio de 1978, os trabalhadores da Scania, em São Bernardo, entraram e não ligaram as máquinas, numa decisão do turno da ferramentaria, e só depois chamaram o sindicato. Segundo o sociólogo Marco Aurélio Santana, a parada durou quatro dias, e a empresa trocou os 20% reivindicados por 6,5%. Para Marini, foi a primeira grande greve metalúrgica do ABC em dez anos, feita com a ocupação branca das fábricas, isto é, com os operários parados dentro delas, e obteve êxito. Sachs registra que essa primeira onda de greves se apoiou em comissões de fábrica, uma resposta à estrutura sindical oficial atrelada ao Estado. (Santana, Classe trabalhadora, confronto político e democracia, pp. 20 e 29; Marini, Brasil, p. 5; Sachs, Sindicalismo hoje, p. 1 do PDF)

1979, a greve da categoria

Em 13 de março de 1979, a Ford e a Volkswagen amanheceram paradas, o presidente do sindicato falou a mais de 60 mil trabalhadores no Estádio de Vila Euclides, e no quarto dia eram cerca de 170 mil parados no ABC. Em 23 de março, o Ministério do Trabalho interveio nos sindicatos, e os grevistas passaram a se reunir na Igreja Matriz de São Bernardo, com apoio da Pastoral Operária. Segundo Ernesto Germano Parés, a greve resistiu porque os comandos e o fundo de greve funcionavam fora do prédio do sindicato, e depois do Primeiro de Maio o governo revogou a intervenção. O acordo com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) foi aprovado em assembleia em 13 de maio. (Santana, Classe trabalhadora, confronto político e democracia, pp. 38 a 40; Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 32 do PDF)

A Comissão Nacional da Verdade (CNV) registra que em 1979 mais de três milhões de trabalhadores fizeram greve em 15 dos 23 estados. Na greve dos metalúrgicos da capital paulista, o operário Santo Dias da Silva foi morto num confronto entre a polícia e um piquete, em 30 de outubro, segundo Parés. No mesmo dia, a Lei nº 6.708 passou a corrigir os salários a cada seis meses, mudança que Parés explica como resposta do governo à onda de greves. (Brasil. Comissão Nacional Da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, p. 396; Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 32 do PDF; Congresso Nacional, Lei nº 6.708, de 30 de outubro de 1979, art. 1º)

1980, 41 dias

Em 30 de março de 1980, a assembleia dos metalúrgicos do ABC decidiu parar a partir de 1º de abril, e no primeiro dia 90% da categoria aderiu em São Bernardo. Em 17 de abril, o governo interveio nos sindicatos de São Bernardo e de Santo André, e dois dias depois treze líderes foram presos e enquadrados na Lei de Segurança Nacional, entre eles Lula, segundo o Arquivo Nacional. O Primeiro de Maio reuniu mais de 100 mil metalúrgicos em Vila Euclides, mas a greve refluiu e terminou depois de 41 dias, com demissões e choques com tropas da polícia e do Exército. (Santana, Classe trabalhadora, confronto político e democracia, pp. 45 a 47; Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 32 do PDF; Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, pp. 49, 50 e 59)

A CNV registra documentos que comprovam a cooperação da Volkswagen com o DOPS, a polícia política, entre eles um relatório sobre um comício da diretoria do sindicato na porta da fábrica, em 26 de março de 1980, feito com um resumo da segurança da empresa. Segundo a Comissão, a diretoria do sindicato foi cassada, e o fundo de greve e o Comitê de Solidariedade levaram o repúdio à ditadura a todo o país. (Brasil. Comissão Nacional Da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, pp. 67 e 396)

Ruptura ou continuidade

Para a CNV, o novo sindicalismo nascido em 1978 rompeu de forma definitiva com o sindicalismo populista de antes de 1964, e as greves do ABC foram fundamentais para a criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), em 1983. Sachs via nos sindicatos autênticos e nas oposições sindicais os dois esteios da luta contra a estrutura herdada e atribuiu a derrota de 1980 sobretudo a essa estrutura, que prendia o sindicato ao município e proibia o fundo de greve. Parés registra que em 1980 se separaram os reformistas, que temiam um retrocesso político, e os autênticos, que defendiam a organização de base e o fim do atrelamento ao Estado, e que o PCB se colocou contra a greve por temer um confronto que paralisasse a abertura. (Brasil. Comissão Nacional Da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, pp. 395 e 396; Sachs, Sindicalismo hoje, pp. 2 e 3 do PDF; Parés, História do movimento sindical no Brasil, pp. 32 e 33 do PDF)

Em março de 1980, Luiz Carlos Prestes escreveu que a orientação do PCB estava superada e que a classe operária já não aceitava a democracia imposta pelas classes dominantes. Armando Boito Jr. considera que a luta sindical contra a política econômica foi a principal forma de luta popular contra a ditadura, mas sustenta que a estrutura sindical corporativa de Estado, reformada em 1988, continuou de pé. Para o historiador Demian Bezerra de Melo, as greves mostraram a explosão das contradições do modelo econômico da ditadura, e Santana, apoiado em Ricardo Antunes, liga as greves a experiências e organizações anteriores do cotidiano operário. (Prestes, Carta aos comunistas, §§ 5 e 30; Boito Jr., Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil, pp. 84 e 85; Melo, Ditadura "civil-militar"? Controvérsias historiográficas sobre o processo político brasileiro no pós-1964 e os desafios do tempo presente, p. 49; Santana, Classe trabalhadora, confronto político e democracia, pp. 24, 33 e 34)

O que se reivindicava

Para se aprofundar

Principal
  • SACHS, Erico. Sindicalismo hoje. 1982. Onde ler: pp. 1 a 3 do PDF.

    “Tratava-se da resposta espontânea da classe operária ao fato de o sindicalismo oficial, atrelado e enfraquecido por intervenções e outras formas de repressão, não ter estado em condições para defender as reivindicações mais elementares da classe operária durante a ditadura militar.”

    p. 1 do PDF

    Ler grátis: Sindicalismo hoje ↗

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (34)

Fontes desta página

  1. MARINI, Ruy Mauro. Brasil: da ditadura à democracia, 1964-1990. 1991. Abrir ↗
  2. Arquivo Nacional. Os presidentes e a República: Deodoro da Fonseca a Dilma Rousseff, 3. ed. rev. e ampl. (2012). gov.br. Abrir ↗
  3. SACHS, Erico. Sindicalismo hoje. 1982. Abrir ↗
  4. SANTANA, Marco Aurélio. Classe trabalhadora, confronto político e democracia: o ciclo de greves do ABC paulista e os desafios do sindicalismo atual. São Paulo: Lua Nova: revista de cultura e política (CEDEC), n. 104, pp. 19-65, maio a agosto de 2018, 2018. Abrir ↗
  5. PARÉS, Ernesto Germano. História do movimento sindical no Brasil. 1990. Abrir ↗
  6. BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Relatório da Comissão Nacional da Verdade. Brasília: Comissão Nacional da Verdade (recurso eletrônico em 3 v.; o v. I tem 976 p.; v. I e II lidos nas cópias do portal gov.br/memoriasreveladas), 2014. Abrir ↗
  7. Congresso Nacional. Lei nº 6.708, de 30 de outubro de 1979 (correção semestral dos salários). planalto.gov.br, 30/10/1979. Abrir ↗
  8. PRESTES, Luiz Carlos. Carta aos comunistas. 1980. Abrir ↗
  9. BOITO JR., Armando. Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil. Crítica Marxista, n. 3, pp. 80-105, 1996. Abrir ↗
  10. MELO, Demian Bezerra de. Ditadura "civil-militar"? Controvérsias historiográficas sobre o processo político brasileiro no pós-1964 e os desafios do tempo presente. Marechal Cândido Rondon: Espaço Plural (Universidade Estadual do Oeste do Paraná), v. 13, n. 27, pp. 39-53, 2012. Abrir ↗
  11. Marco Aurélio Santana. Classe trabalhadora, confronto político e democracia: o ciclo de greves do ABC paulista (Lua Nova, n. 104, 2018). redalyc.org. Abrir ↗
  12. Comissão Nacional da Verdade. Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, textos temáticos (dezembro de 2014). gov.br. Abrir ↗
  13. Ernesto Germano Parés. História do movimento sindical no Brasil (apostila, Centro de Estudos Victor Meyer). centrovictormeyer.org.br. Abrir ↗
  14. Armando Boito Jr.. Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil (Crítica Marxista, n. 3, 1996). econtents.sbu.unicamp.br. Abrir ↗
  15. Ruy Mauro Marini. Brasil: da ditadura à democracia, 1964-1990 (Archivo de Ruy Mauro Marini, UNAM). marini-escritos.unam.mx. Abrir ↗
  16. Demian Bezerra de Melo. Ditadura "civil-militar"? Controvérsias historiográficas sobre o processo político brasileiro no pós-1964 (Espaço Plural, v. 13, n. 27, 2012). redalyc.org. Abrir ↗
  17. Luiz Carlos Prestes. Carta aos comunistas (março de 1980). marxists.org. Abrir ↗
  18. Erico Sachs. Sindicalismo hoje (Revista do CEACULT, v. 1, 1982), PDF no MIA. marxists.org. Abrir ↗