Pular para o conteúdo

Estudos / História do Brasil / Lutas de classes / República Oligárquica / Revolta da Chibata

Luta de classes · revolta de marinheiros

Revolta da Chibata

1910 · Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, nos encouraçados Minas Gerais, São Paulo e Deodoro e no cruzador Bahia

Em novembro de 1910, marinheiros, em sua maioria negros e mulatos, tomaram os maiores navios da esquadra na baía de Guanabara contra os castigos com a chibata, liderados por João Cândido. O governo aboliu o castigo e deu anistia, mas em dezembro reprimiu uma nova revolta, com centenas de mortos, e desterrou marinheiros. Para Mário Maestri, foi um movimento de classe de um proletariado embarcado.

Quando
de 22/11/1910 a 27/11/1910
Onde
Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, nos encouraçados Minas Gerais, São Paulo e Deodoro e no cruzador Bahia
Quem lutou
Marinheiros, em sua maioria negros, mulatos, pardos e caboclos, segundo Maestri; Fuzileiros navais do Batalhão Naval, na revolta de dezembro
Contra quem
Oficialidade da Marinha; Governo de Hermes da Fonseca
Organizações
Comitê clandestino de marinheiros criado por João Cândido, segundo o CPDOC
Desfecho
O governo aboliu a chibata e anistiou os revoltosos, mas em dezembro reprimiu a revolta da ilha das Cobras, com centenas de mortos, e expulsou, prendeu e desterrou marinheiros. João Cândido recebeu anistia póstuma em 2008.

Como aconteceu

Revolta da Chibata, 1910

  1. 16/11/1910Marcelino Rodrigues Meneses recebe 250 chibatadas no Minas Gerais.Beatriz Coelho Silva (CPDOC/FGV), REVOLTA DA CHIBATA, p. 1 do PDF
  2. 22/11/1910Os marinheiros tomam o Minas Gerais e outros navios na baía de Guanabara.Beatriz Coelho Silva (CPDOC/FGV), REVOLTA DA CHIBATA, p. 1 do PDF
  3. 23/11/1910Ultimato exige anistia e o fim das chibatadas.Beatriz Coelho Silva (CPDOC/FGV), REVOLTA DA CHIBATA, p. 2 do PDF
  4. 25/11/1910O Decreto nº 2.280 concede a anistia aos revoltosos.Presidência da República, Lei nº 11.756, de 23 de julho de 2008, art. 1º
  5. 27/11/1910Os marinheiros depõem as armas e devolvem os navios.Beatriz Coelho Silva (CPDOC/FGV), REVOLTA DA CHIBATA, p. 2 do PDF
  6. 12/1910Revolta dos fuzileiros navais na ilha das Cobras, que o governo bombardeia.Renato Lemos (CPDOC/FGV), FONSECA, Hermes da, seção Presidente da República
  7. 1969Morre João Cândido, aos 89 anos.Beatriz Coelho Silva (CPDOC/FGV), REVOLTA DA CHIBATA, p. 3 do PDF
  8. 23/07/2008A Lei nº 11.756 concede anistia post mortem a João Cândido e aos demais revoltosos.Presidência da República, Lei nº 11.756, de 23 de julho de 2008, ementa e art. 1º

Leitura marxista

Quem estava de cada lado

A chibata depois da Abolição

Desde o Império, os marinheiros brasileiros eram quase todos negros ou mulatos recrutados pela polícia e comandados por oficiais brancos, e o código disciplinar punia as faltas graves com no mínimo 25 chibatadas, segundo o CPDOC. Para o historiador Mário Maestri, mais de duas décadas depois da Abolição, a maioria dos marinheiros, negros, mulatos, pardos e caboclos, ainda era açoitada como nos tempos do cativeiro. Maestri resume a pesquisa de Álvaro Pereira do Nascimento, que mostrou o recrutamento à força e o castigo como meio de manter a autoridade despótica dos oficiais sobre marujos negros e pobres. (Beatriz Coelho Silva (CPDOC/FGV), REVOLTA DA CHIBATA, p. 1 do PDF; Maestri, A Revolta da Chibata faz cem anos, pp. 25 e 35)

Maestri chama esses marinheiros de proletariado embarcado. A compra de navios modernos transformou a tripulação em trabalhadores especializados, como artilheiros, eletricistas, foguistas, mecânicos e telegrafistas, que continuavam tratados como cativos. Segundo ele, a exigência de melhores soldos e condições de trabalho também determinou a revolta, e marinheiros que nunca tinham sido castigados se revoltaram. (Maestri, A Revolta da Chibata faz cem anos, p. 33)

Novembro de 1910

Em 1909, um grupo de marinheiros esteve na Inglaterra e soube das lutas dos marujos britânicos e da revolta do encouraçado russo Potemkin. João Cândido Felisberto, que entrara na Marinha aos 14 anos, criou na volta um comitê clandestino para organizar a revolta. Em 16 de novembro de 1910, o marinheiro Marcelino Rodrigues Meneses recebeu 250 chibatadas no encouraçado Minas Gerais, e o castigo continuou depois que ele desmaiou, o que revoltou a tripulação. (Beatriz Coelho Silva (CPDOC/FGV), REVOLTA DA CHIBATA, p. 1 do PDF)

Na noite de 22 de novembro, os marinheiros do Minas Gerais mataram seis oficiais, entre eles o comandante, e a revolta se estendeu aos encouraçados São Paulo e Deodoro, ao cruzador Bahia e a quatro barcos menores. No dia seguinte, um ultimato atribuído a João Cândido exigiu anistia e o fim das chibatadas, sob a ameaça de bombardear a capital. Maestri acrescenta às reivindicações melhores salários e condições mais dignas de trabalho e de vida. (Beatriz Coelho Silva (CPDOC/FGV), REVOLTA DA CHIBATA, pp. 1-2 do PDF; Maestri, A Revolta da Chibata faz cem anos, p. 25)

Rui Barbosa, derrotado por Hermes da Fonseca na eleição presidencial, considerava os castigos abusivos depois da abolição da escravatura e defendeu a anistia. O Decreto nº 2.280, de 25 de novembro de 1910, deu a anistia, e no dia 26 Hermes declarou abolidos os castigos físicos. No dia 27, os marinheiros depuseram as armas e devolveram os navios. (Beatriz Coelho Silva (CPDOC/FGV), REVOLTA DA CHIBATA, p. 2 do PDF; Presidência da República, Lei nº 11.756, de 23 de julho de 2008, art. 1º)

A repressão de dezembro

Logo depois, alguns marinheiros foram expulsos por indisciplina, e em dezembro os fuzileiros navais da ilha das Cobras se sublevaram. Um verbete do CPDOC data a sublevação de 4 de dezembro e outro, de 9 de dezembro, e os dois registram o bombardeio da ilha. O primeiro conta que, dos seiscentos revoltosos, pouco mais de cem sobreviveram, e que de dezoito presos numa cela escavada na rocha só dois estavam vivos no dia seguinte, entre eles João Cândido. O segundo fala na morte de centenas de marinheiros e de outros na prisão e no desterro nos seringais do Norte, e o primeiro acrescenta que parte dos desterrados foi fuzilada no caminho. (Beatriz Coelho Silva (CPDOC/FGV), REVOLTA DA CHIBATA, pp. 2-3 do PDF; Renato Lemos (CPDOC/FGV), FONSECA, Hermes da, seção Presidente da República)

Para Maestri, a derrota de dezembro foi possivelmente produto de provocação policial e militar, e as conquistas duradouras de novembro tiveram como contraponto a repressão e a expulsão dos marinheiros revolucionários. João Cândido foi expulso da Marinha, detido no Hospital dos Alienados em 1911 e absolvido em 1912. Trabalhou depois como estivador e vendedor de peixes e morreu em 1969. (Maestri, A Revolta da Chibata faz cem anos, p. 37; Beatriz Coelho Silva (CPDOC/FGV), REVOLTA DA CHIBATA, p. 3 do PDF)

A anistia de 2008 e a posição da Marinha

A Lei nº 11.756, de 2008, concedeu anistia post mortem a João Cândido e aos demais participantes. O presidente vetou o parágrafo que dava à anistia efeito sobre promoções e pensões, por falta de cálculo do custo para a União, e afirmou reconhecer os valores de justiça e igualdade pelos quais os revoltosos lutaram. Em abril de 2024, o comandante da Marinha, Marcos Sampaio Olsen, escreveu à Câmara dos Deputados contra a inscrição de João Cândido no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria e chamou a revolta de página deplorável da história. Na mesma carta, ele reconheceu como justo o pedido de fim do açoite, mas acusou os marinheiros de buscar vantagens corporativistas. (Presidência da República, Lei nº 11.756, de 23 de julho de 2008, art. 1º; Presidência da República, Mensagem nº 553, de 23 de julho de 2008, razões do veto; Leo Rodrigues (Agência Brasil), Filho de João Cândido rebate Marinha, §§ 3, 4 e 8)

Motim de marinheiros ou luta de classes

O jornalista Edmar Morel, em A revolta da chibata, de 1959, tirou o episódio do esquecimento e o contou do ponto de vista dos marinheiros, segundo Maestri. Morel não leu a insurreição como luta de classes e a aproximou das grandes revoltas populares do passado brasileiro, como luta pela liberdade e pela cidadania. Já em 1916, Álvaro Bomilcar apontava os preconceitos de classe e de raça entre as causas da revolta. (Maestri, A Revolta da Chibata faz cem anos, pp. 25-26, 32 e 33)

Maestri vê na recusa dos marinheiros em aceitar oficiais e suboficiais na revolta a marca do seu caráter de classe. Ele lembra que os marujos estudaram o Potemkin, de 1905, para não repetir os erros dos russos, mas tiveram dificuldade de se ligar a outros setores populares, num país ainda rural e com um proletariado frágil. Nelson Werneck Sodré viu no levante contra a chibata, em pleno século XX, o sinal de um quadro político novo, e Astrojildo Pereira o lembrou como exemplo do espírito combativo do povo. (Maestri, A Revolta da Chibata faz cem anos, pp. 33-34 e 36; Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 315; Pereira, Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil, § 14)

Do outro lado, o verbete do CPDOC, de Beatriz Coelho Silva, resume a visão de historiadores para quem a revolta não teve projeto de mudança social ou econômica e quis apenas acabar com os castigos e melhorar a vida a bordo. Maestri registra também o livro do contra-almirante Hélio Leôncio Martins, de 1988, que ele considera antipático aos marujos. (Beatriz Coelho Silva (CPDOC/FGV), REVOLTA DA CHIBATA, p. 3 do PDF; Maestri, A Revolta da Chibata faz cem anos, p. 34)

O que se reivindicava

Para se aprofundar

Principal
  • MAESTRI, Mário. A Revolta da Chibata faz cem anos. Londrina: Antíteses (Universidade Estadual de Londrina), v. 3, n. esp., pp. 24-38, 2010. Onde ler: pp. 25-26 e 32 a 37.

    “Verdadeiro proletariado embarcado, os marujos brasileiros empreenderam movimento por realização de direitos civis e sindicais negados, avançando proposta de sociedade cidadã, que deveria necessariamente apoiar-se no mundo do trabalho, para sua efetiva realização.”

    p. 37

    Ler grátis: A Revolta da Chibata faz cem anos ↗

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (35)

Fontes desta página

  1. Beatriz Coelho Silva (CPDOC/FGV). REVOLTA DA CHIBATA (verbete do Dicionário da Primeira República (CPDOC/FGV)). cpdoc.fgv.br. Abrir ↗
  2. MAESTRI, Mário. A Revolta da Chibata faz cem anos. Londrina: Antíteses (Universidade Estadual de Londrina), v. 3, n. esp., pp. 24-38, 2010. Abrir ↗
  3. Presidência da República. Lei nº 11.756, de 23 de julho de 2008 (anistia post mortem a João Cândido Felisberto e aos demais participantes da Revolta da Chibata). planalto.gov.br, 23/07/2008. Abrir ↗
  4. Renato Lemos (CPDOC/FGV). FONSECA, Hermes da (verbete do Dicionário da Primeira República). cpdoc.fgv.br. Abrir ↗
  5. Presidência da República. Mensagem nº 553, de 23 de julho de 2008 (veto parcial ao projeto da anistia a João Cândido). planalto.gov.br, 23/07/2008. Abrir ↗
  6. Leo Rodrigues (Agência Brasil). Filho de João Cândido rebate Marinha: "meu pai é um herói popular" (Agência Brasil, 27 de abril de 2024). agenciabrasil.ebc.com.br, 27/04/2024. Abrir ↗
  7. SODRÉ, Nelson Werneck. Formação histórica do Brasil. 1962. Abrir ↗
  8. PEREIRA, Astrojildo. Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil. 1952. Abrir ↗
  9. Mário Maestri. A Revolta da Chibata faz cem anos (Antíteses, v. 3, n. esp., pp. 24-38, dez. 2010). redalyc.org. Abrir ↗
  10. Astrojildo Pereira. Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil (Problemas, n. 39, mar.-abr. 1952). marxists.org. Abrir ↗
  11. Nelson Werneck Sodré. Formação histórica do Brasil (PDF digitalizado da edição Brasiliense, com marca da Biblioteca Nacional). marxists.org. Abrir ↗