Pular para o conteúdo

Estudos / História do Brasil / Lutas de classes / Colônia e Império / Abolição da escravidão

Luta de classes

Abolição da escravidão

1850–1888 · Todo o Império, com fugas em massa nas fazendas de café de São Paulo

A Lei Áurea, de 13 de maio de 1888, declarou extinta a escravidão no Brasil, depois de décadas de leis graduais e de fugas em massa das fazendas. Para Jacob Gorender, as fugas tornaram o escravo uma propriedade insegura, e Clóvis Moura vê na Abolição o fim de uma longa luta dos escravizados. Moura lembra que ela não acabou com o latifúndio nem integrou os libertos.

Quando
de 04/09/1850 a 13/05/1888
Onde
Todo o Império, com fugas em massa nas fazendas de café de São Paulo
Quem lutou
Escravizados das fazendas de café; População livre que apoiava as fugas; Abolicionistas, como Antônio Bento em São Paulo
Contra quem
Senhores de escravos e cafeicultores do Oeste Paulista; Governo e legisladores do Império, que fizeram leis para conservar a mão de obra escrava
Desfecho
A Lei Áurea, de 13 de maio de 1888, declarou extinta a escravidão em dois artigos; segundo Moura, a Abolição não acabou com o latifúndio, e a imigração europeia estimulada depois dela marginalizou os ex-escravos.

Como aconteceu

Abolição da escravidão, 1850–1888

  1. 04/09/1850Lei nº 581 trata como pirataria a importação de escravos.Império do Brasil (Assembleia Geral), Lei nº 581, de 4 de setembro de 1850, art. 4º
  2. 18/09/1850Lei de Terras proíbe adquirir terras devolutas a não ser pela compra.Império do Brasil (Assembleia Geral), Lei nº 601, de 18 de setembro de 1850, art. 1º
  3. 28/09/1871Lei do Ventre Livre declara livres os filhos de escravas.Império do Brasil (Assembleia Geral), Lei nº 2.040, de 28 de setembro de 1871, art. 1º
  4. 1882As seis principais províncias têm 656.540 escravos e 1.433.170 trabalhadores livres, segundo Moura.Moura, Cem anos de abolição do escravismo no Brasil, § 29
  5. 28/09/1885Lei dos Sexagenários liberta os escravos de 60 anos, com três anos de serviço ao ex-senhor.Império do Brasil (Assembleia Geral), Lei nº 3.270, de 28 de setembro de 1885, art. 3º, § 10
  6. 13/05/1888Lei Áurea declara extinta a escravidão no Brasil.Império do Brasil (Assembleia Geral), Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888, art. 1º

Leitura marxista

Quem estava de cada lado

O fim do tráfico e as leis graduais

Em 1850, a Lei nº 581, conhecida como Lei Eusébio de Queirós, passou a tratar como pirataria a entrada de africanos escravizados no Império. Para Clóvis Moura, começou aí o escravismo tardio, a fase final da escravidão, em que o preço do escravo subiu muito e os senhores passaram a fazer leis protetoras para conservar a sua mão de obra. No mesmo ano, a Lei de Terras proibiu adquirir terras devolutas, as que não tinham uso público nem dono com título legítimo, de outro modo que não fosse a compra. Regina Gadelha, que estuda o tema numa perspectiva marxista, mostra que a lei barrou a ocupação de terras pela posse no Sudeste e garantiu trabalhadores livres para as grandes fazendas de café. (Império do Brasil (Assembleia Geral), Lei nº 581, de 4 de setembro de 1850, arts. 1º e 4º; Moura, Cem anos de abolição do escravismo no Brasil, § 21; Império do Brasil (Assembleia Geral), Lei nº 601, de 18 de setembro de 1850, arts. 1º e 3º; Gadelha, A lei de terras, pp. 153 e 157)

A Lei do Ventre Livre, de 1871, declarou livres os filhos de escravas nascidos dali em diante, mas deixou o senhor da mãe escolher entre receber do Estado 600 mil réis quando a criança fizesse oito anos ou usar o trabalho dela até os 21. A Lei dos Sexagenários, de 1885, libertou os escravos de 60 anos, mas obrigou-os a servir aos antigos senhores por mais três anos, a título de indenização pela libertação. (Império do Brasil (Assembleia Geral), Lei nº 2.040, de 28 de setembro de 1871, art. 1º, § 1º; Império do Brasil (Assembleia Geral), Lei nº 3.270, de 28 de setembro de 1885, art. 3º, § 10)

As fugas da década de 1880

Moura escreve que, em 1882, as seis principais províncias tinham 656.540 escravos, 1.433.170 trabalhadores livres e 2.822.583 desocupados, e que a escravidão já se decompunha. Jacob Gorender mostra que os cafeicultores do Oeste Paulista preferiram o escravo até a década de 1880 e, depois do fim do tráfico africano, compraram escravos vindos do Nordeste. Na década de 1880, segundo ele, as fugas cresceram sob a influência do abolicionismo, e os escravos viraram uma propriedade insegura, porque fugiam, achavam apoio na população livre e se abrigavam em Santos. (Moura, Cem anos de abolição do escravismo no Brasil, § 29; Gorender, Liberalismo e escravidão, §§ 52 e 54)

João José Reis registra fugas em massa das fazendas de café nos meses anteriores ao 13 de maio, com ou sem ajuda de agentes abolicionistas. Para Décio Saes, o movimento dos escravos de plantação buscava acima de tudo o fim imediato do trabalho forçado e usava as fugas em massa, e por isso não houve um movimento popular pela reforma agrária. Gorender conta que o governo paulista passou a pagar a passagem dos imigrantes europeus, o que ele chama de uma espécie de indenização aos cafeicultores. (Reis, Quilombos e revoltas escravas no Brasil, p. 30; Saes, Capitalismo e processo político no Brasil, p. 3; Gorender, Liberalismo e escravidão, §§ 55 e 62)

O 13 de maio

A Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888, a Lei Áurea, tem dois artigos, um que declara extinta a escravidão no Brasil e outro que revoga as disposições em contrário. Para Moura, o país fez a Abolição sem acabar com o latifúndio, a grande propriedade da terra, e isso estrangulou a sua dinâmica social. Ele mostra que, com a Abolição, criaram-se estímulos à imigração europeia, que tomou o lugar dos trabalhadores brasileiros e marginalizou os descendentes de escravos, sob a ideologia do branqueamento. (Império do Brasil (Assembleia Geral), Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888, arts. 1º e 2º; Moura, Cem anos de abolição do escravismo no Brasil, § 29)

Concessão de cima ou conquista dos escravizados

Gorender conta que a tese de que os fazendeiros do Oeste Paulista preferiam o trabalho livre foi lançada por Sérgio Buarque de Holanda e desenvolvida por Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni, Boris Fausto, Paula Beiguelman e Warren Dean. Nessa leitura, a modernização dos fazendeiros teria levado ao trabalho livre antes da Abolição. Gorender contesta a tese com os dados de compra de escravos e de imigração e atribui a mudança dos anos 1880 às fugas, que tornaram o escravo uma propriedade insegura. (Gorender, Liberalismo e escravidão, §§ 49 a 52 e 54)

Moura vê a Abolição como resultado de uma luta longa. Para ele, o escravo nunca aceitou o cativeiro, o Brasil foi, depois do Haiti, o país com mais revoltas e fugas de escravos, e a quilombagem, a sequência de quilombos, desgastou sem parar o poder escravista até o fim da escravidão. Reis acrescenta que o tema da abolição já estava nas revoltas escravas antes da campanha abolicionista. (Moura, Cem anos de abolição do escravismo no Brasil, § 11; Moura, A quilombagem como expressão de protesto radical, § 56; Reis, Quilombos e revoltas escravas no Brasil, p. 30)

Saes põe a Abolição dentro da revolução política burguesa, que ele data de 1888 a 1891, com a Proclamação da República e a Assembleia Constituinte. Para ele, esses episódios trocaram o Estado escravista pelo Estado burguês, e a Abolição foi o primeiro deles. (Saes, Capitalismo e processo político no Brasil, p. 7)

O que se reivindicava

Para se aprofundar

Principal
Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (22)

Fontes desta página

  1. Império do Brasil (Assembleia Geral). Lei nº 581, de 4 de setembro de 1850 (Lei Eusébio de Queirós). planalto.gov.br, 04/09/1850. Abrir ↗
  2. MOURA, Clóvis. Cem anos de abolição do escravismo no Brasil. 1988. Abrir ↗
  3. Império do Brasil (Assembleia Geral). Lei nº 601, de 18 de setembro de 1850 (Lei de Terras). planalto.gov.br, 18/09/1850. Abrir ↗
  4. GADELHA, Regina Maria d'Aquino Fonseca. A lei de terras (1850) e a abolição da escravidão: capitalismo e força de trabalho no Brasil do século XIX. São Paulo: Revista de História (USP), n. 120, pp. 153-162, 1989. Abrir ↗
  5. Império do Brasil (Assembleia Geral). Lei nº 2.040, de 28 de setembro de 1871 (Lei do Ventre Livre). planalto.gov.br, 28/09/1871. Abrir ↗
  6. Império do Brasil (Assembleia Geral). Lei nº 3.270, de 28 de setembro de 1885 (Lei dos Sexagenários). planalto.gov.br, 28/09/1885. Abrir ↗
  7. GORENDER, Jacob. Liberalismo e escravidão (entrevista a Estudos Avançados). 2002. Abrir ↗
  8. REIS, João José. Quilombos e revoltas escravas no Brasil. São Paulo: Revista USP, n. 28, dossiê Povo negro, 300 anos, pp. 14-39, dezembro de 1995 a fevereiro de 1996, 1996. Abrir ↗
  9. SAES, Décio Azevedo Marques de. Capitalismo e processo político no Brasil: a via brasileira para o desenvolvimento do capitalismo. 2015. Abrir ↗
  10. Império do Brasil (Assembleia Geral). Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888 (Lei Áurea). planalto.gov.br, 13/05/1888. Abrir ↗
  11. MOURA, Clóvis. A quilombagem como expressão de protesto radical. 2001. Abrir ↗
  12. Clóvis Moura. Cem anos de abolição do escravismo no Brasil (Princípios, n. 15, 1988), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  13. Décio Azevedo Marques de Saes. Capitalismo e processo político no Brasil: a via brasileira para o desenvolvimento do capitalismo (Novos Rumos, v. 52, n. 1, 2015). revistas.marilia.unesp.br. Abrir ↗
  14. João José Reis. Quilombos e revoltas escravas no Brasil (Revista USP, n. 28, 1996). revistas.usp.br. Abrir ↗
  15. Regina Maria d'Aquino Fonseca Gadelha. A lei de terras (1850) e a abolição da escravidão: capitalismo e força de trabalho no Brasil do século XIX (Revista de História, n. 120, 1989). revistas.usp.br. Abrir ↗
  16. Jacob Gorender. Liberalismo e escravidão (entrevista a Estudos Avançados, v. 16, n. 46, 2002), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  17. Clóvis Moura. A quilombagem como expressão de protesto radical (2001), no MIA. marxists.org. Abrir ↗