Leitura marxista
Quem estava de cada lado
A tomada de Belém
Cabano era o apelido dos homens que moravam em casas simples cobertas de palha, explica Magda Ricci, professora de História da Universidade Federal do Pará. Em 7 de janeiro de 1835, grupos vindos do Acará invadiram Belém e mataram o presidente da província do Grão-Pará, Bernardo Lobo de Souza, e o comandante das armas, os dois nomeados pela Regência, o governo do período em que Pedro II era menor de idade. Segundo Débora Bendocchi Alves, Lobo de Souza tinha ficado mais impopular ao recrutar os seus opositores para o Exército e a Armada. (Ricci, Cabanagem, cidadania e identidade revolucionária, pp. 6, 12 e 13; Alves, Reação francesa às ameaças de Cabanos e Bonis no território litigioso entre o Brasil e a Guiana Francesa, pp. 164 e 165)
Félix Clemente Malcher, grande proprietário de engenho e de escravos, foi aclamado presidente, e Francisco Vinagre ficou com o comando das armas. Em fevereiro, Malcher foi morto em disputas entre as facções do movimento, e Vinagre virou o segundo presidente cabano. Em agosto de 1835, o governo nomeado pelo Império teve de deixar Belém, Vinagre morreu em combate, e Eduardo Angelim governou a cidade por nove meses. (Alves, Reação francesa às ameaças de Cabanos e Bonis no território litigioso entre o Brasil e a Guiana Francesa, p. 165; Ricci, Cabanagem, cidadania e identidade revolucionária, p. 12)
Alves escreve que a Cabanagem foi a única revolta do período em que os rebeldes controlaram por bastante tempo o aparelho de Estado da província, e que eles ocuparam Belém três vezes. (Alves, Reação francesa às ameaças de Cabanos e Bonis no território litigioso entre o Brasil e a Guiana Francesa, p. 164)
A retomada e a repressão
Em abril de 1836, o brigadeiro Francisco José de Sousa Soares assumiu a presidência com uma força naval, 800 soldados e mais 500 homens vindos de Pernambuco. Em maio, com a cidade bloqueada pelo governo imperial e por esquadras estrangeiras, Angelim e o seu grupo deixaram Belém por falta de munição. Soares prendeu Angelim, dividiu a província em nove comandos militares e alistou os desocupados, inclusive rebeldes, em corpos de trabalho, numa pacificação que muitos historiadores chamam, segundo Alves, de guerra de extermínio. (Alves, Reação francesa às ameaças de Cabanos e Bonis no território litigioso entre o Brasil e a Guiana Francesa, pp. 165 e 166)
A luta continuou no interior até 25 de março de 1840, quando o último chefe rebelde, Jorge de Magalhães, se rendeu. Ricci registra, com dados de Domingos Antonio Raiol, que a Cabanagem deixou mais de 30 mil mortos, entre mestiços, índios e africanos pobres ou escravos e também parte da elite amazônica. A população da região só voltou a crescer de forma significativa em 1860. (Alves, Reação francesa às ameaças de Cabanos e Bonis no território litigioso entre o Brasil e a Guiana Francesa, p. 166; Ricci, Cabanagem, cidadania e identidade revolucionária, p. 6)
Quem eram os cabanos
Alves lista entre os revoltosos uma elite regional de brasileiros natos, tapuios, que eram índios submetidos a trabalho forçado e falantes da língua geral amazônica, vários grupos indígenas, negros escravos e libertos e muitos mestiços. Para Ricci, indígenas, negros e mestiços criaram ali uma identidade comum, apoiada no ódio ao mandonismo branco e português e na luta por direitos e liberdades. O principal alvo dos cabanos, segundo ela, eram os brancos, sobretudo os portugueses mais ricos. (Alves, Reação francesa às ameaças de Cabanos e Bonis no território litigioso entre o Brasil e a Guiana Francesa, p. 166 e nota 19; Ricci, Cabanagem, cidadania e identidade revolucionária, pp. 6 e 7)
Os grupos não queriam as mesmas coisas. Segundo Leandro Lima, citado por Alves, os líderes lutavam para tirar os luso-brasileiros dos principais cargos da província, enquanto os rebeldes do interior queriam manter as suas próprias formas de organização. José Maia Bezerra Neto, também citado por ela, mostra que os escravos e libertos liam o movimento como liberdade geral para todos. (Alves, Reação francesa às ameaças de Cabanos e Bonis no território litigioso entre o Brasil e a Guiana Francesa, p. 166)
Motim das elites ou revolução popular
O primeiro autor a estudar a Cabanagem, Domingos Antonio Raiol, o Barão de Guajará, tratou o movimento como motim político, nascido da influência das classes superiores da província. Ricci lembra que Raiol era um anticabano notório e que muitos autores tiraram dos livros dele as falas dos líderes. Ela mesma, de fora da tradição marxista-leninista, chama a Cabanagem de revolução social, mais ampla do que o rótulo de revolta regional sugere. (Ricci, Cabanagem, cidadania e identidade revolucionária, pp. 5, 8, 11 e 12)
A leitura marxista começou com Caio Prado Júnior, nos anos 1930, que escreveu que a Cabanagem foi a primeira insurreição popular a sair da simples agitação e tomar de fato o poder. Segundo Ricci, foi com ele que a historiografia marxista se voltou para o movimento. Clóvis Moura, na mesma linha, escreve que na Cabanagem os camponeses pobres, aliados a negros rebeldes e índios, chegaram a tomar o poder e a estabelecer um Estado próprio. (Ricci, Cabanagem, cidadania e identidade revolucionária, p. 9 e nota 10; Moura, Cem anos de abolição do escravismo no Brasil, § 11)
O que se reivindicava
- Tirar os luso-brasileiros dos principais cargos da província, segundo Leandro Lima, citado por Alves (Alves, Reação francesa às ameaças de Cabanos e Bonis no território litigioso entre o Brasil e a Guiana Francesa, p. 166)
- Liberdade geral para os escravizados, na leitura dos escravos e libertos, segundo Bezerra Neto, citado por Alves (Alves, Reação francesa às ameaças de Cabanos e Bonis no território litigioso entre o Brasil e a Guiana Francesa, p. 166)
- Direitos e liberdades contra o mandonismo branco e português, segundo Ricci (Ricci, Cabanagem, cidadania e identidade revolucionária, p. 7)