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Luta de classes

Greve dos petroleiros de 1995

1995 · Refinarias, plataformas, terminais e escritórios da Petrobras em todo o país

De 3 de maio a 3 de junho de 1995, os petroleiros da Petrobras, liderados pela FUP, fizeram greve pelo cumprimento de acordos assinados em 1994. O TST julgou a greve abusiva, a empresa demitiu grevistas e o Exército ocupou refinarias. Em novembro, a Emenda Constitucional nº 9 permitiu à União contratar empresas privadas para as atividades do monopólio do petróleo.

Quando
de 03/05/1995 a 03/06/1995
Onde
Refinarias, plataformas, terminais e escritórios da Petrobras em todo o país
Quem lutou
Petroleiros da Petrobras, em refinarias, plataformas, terminais e escritórios; Trabalhadores de outras estatais e do serviço público chamados pela CUT à greve de 3 de maio
Contra quem
Governo Fernando Henrique Cardoso, que não negociou com os grevistas nem aceitou mediação, segundo Lucena; Direção da Petrobras, que demitiu grevistas
Organizações
Federação Única dos Petroleiros (FUP) e seus sindicatos; Central Única dos Trabalhadores (CUT); Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que apoiou a greve, segundo Lucena
Desfecho
A FUP suspendeu a greve em 2 de junho, com as refinarias ocupadas pelo Exército e as multas do TST, e os últimos grevistas deixaram a refinaria de Cubatão no dia 3. Em novembro, a Emenda Constitucional nº 9 permitiu à União contratar empresas privadas no setor do petróleo; as multas foram anistiadas em 1998 e os punidos, em 2003.

Como aconteceu

Greve dos petroleiros de 1995, 1995

  1. 03/05/1995Começa a greve dos petroleiros.Federação Única dos Petroleiros, 1995 Defender a Petrobrás é defender o Brasil 2015, p. 13
  2. 09/05/1995O TST julga a greve abusiva, segundo a FUP.Federação Única dos Petroleiros, 1995 Defender a Petrobrás é defender o Brasil 2015, p. 13
  3. 24/05/1995O Exército ocupa quatro refinarias.Federação Única dos Petroleiros, 1995 Defender a Petrobrás é defender o Brasil 2015, p. 14
  4. 26/05/1995O TST impõe multa diária à FUP e aos sindicatos.Federação Única dos Petroleiros, 1995 Defender a Petrobrás é defender o Brasil 2015, p. 14
  5. 03/06/1995Os últimos grevistas deixam a refinaria de Cubatão.Lucena, Memórias de militantes, p. 80
  6. 09/11/1995A Emenda Constitucional nº 9 muda o monopólio do petróleo.Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 9, de 9 de novembro de 1995, art. 1º
  7. 14/07/1998Lei anistia as multas do TST aos sindicatos de petroleiros.Congresso Nacional, Lei nº 9.689, de 14 de julho de 1998, art. 1º
  8. 28/11/2003Lei anistia os punidos e garante a reintegração dos demitidos.Congresso Nacional, Lei nº 10.790, de 28 de novembro de 2003, art. 1º

Leitura marxista

Quem estava de cada lado

A greve e o acordo de 1994

Os petroleiros da Petrobras entraram em greve à zero hora de 3 de maio de 1995, liderados pela Federação Única dos Petroleiros (FUP), que fala em mais de 90% da categoria parada em refinarias, plataformas, terminais e escritórios. Eles cobravam o cumprimento dos acordos assinados em 1994, ainda no governo Itamar Franco, e pediam reposição de 26,63% das perdas salariais, reintegração dos demitidos na greve anterior e concurso público para recompor o efetivo. Segundo Carlos Lucena, professor da Universidade Federal de Uberlândia e operador da refinaria de Paulínia em 1995, depois da eleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1994, os ministros da Fazenda e do Planejamento disseram que não aceitariam o acordo, porque todas as estatais pediriam o mesmo. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) convocou para o mesmo 3 de maio uma greve unificada de estatais e do serviço público. (Federação Única dos Petroleiros, 1995 Defender a Petrobrás é defender o Brasil 2015, pp. 12 e 13; Lucena, Memórias de militantes, pp. 80, 86, 87 e 89)

Segundo Lucena, o Tribunal Superior do Trabalho (TST), a instância mais alta da Justiça do Trabalho, declarou a greve abusiva após três dias, tirou do acordo coletivo conquistas como a garantia contra demissão sem justa causa e mandou os petroleiros voltarem ao trabalho sob pena de demissão. A FUP data esse julgamento do sétimo dia, 9 de maio. Dois dias depois saiu a primeira lista, com 25 demitidos, entre eles o coordenador da FUP, e no dia seguinte vieram mais 34. Cerca de 300 petroleiros ocuparam a refinaria Presidente Bernardes, em Cubatão, e assumiram o controle da produção. (Lucena, Memórias de militantes, pp. 85, 90 e 92; Federação Única dos Petroleiros, 1995 Defender a Petrobrás é defender o Brasil 2015, p. 13)

O Exército nas refinarias

Na madrugada de 24 de maio, segundo a FUP, o Exército ocupou a refinaria de Araucária, no Paraná, com cerca de 500 soldados, e a cena se repetiu nas refinarias de Paulínia, Mauá e São José dos Campos. Lucena registra que, em Paulínia, a ordem veio do Comando Militar do Sudeste e que o governo federal não negociava com os grevistas nem aceitou a mediação oferecida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Em 26 de maio, o TST julgou de novo a greve abusiva e impôs à FUP e aos sindicatos multa de R$ 100 mil por dia parado, e os petroleiros receberam os contracheques zerados. Mesmo assim, uma assembleia decidiu continuar a greve. (Federação Única dos Petroleiros, 1995 Defender a Petrobrás é defender o Brasil 2015, p. 14; Lucena, Memórias de militantes, pp. 93 a 95)

Os petroleiros tiveram o apoio do MST e dos professores das universidades federais, também em greve, e a CUT promoveu em 31 de maio um dia nacional de solidariedade, mas não convocou greve geral. Com o aumento do retorno ao trabalho e um documento de parlamentares pela reabertura das negociações, a FUP indicou o fim da greve em 2 de junho, condicionado à saída das tropas. Os cerca de 300 trabalhadores que ocupavam a refinaria de Cubatão saíram no dia 3, data que Lucena adota como fim da greve. (Lucena, Memórias de militantes, pp. 80 e 95; Federação Única dos Petroleiros, 1995 Defender a Petrobrás é defender o Brasil 2015, p. 15)

O petróleo depois da greve

Em 9 de novembro de 1995, a Emenda Constitucional nº 9 permitiu à União contratar empresas estatais ou privadas para as atividades do monopólio do petróleo, e a Lei nº 9.478, de 1997, criou a Agência Nacional do Petróleo (ANP) como órgão regulador do setor. A Lei nº 9.689, de 1998, anistiou as multas que o TST tinha imposto aos sindicatos de petroleiros desde setembro de 1994. A Lei nº 10.790, de 2003, anistiou os trabalhadores da Petrobras punidos por participar de movimento reivindicatório entre 1994 e 1996 e assegurou a reintegração dos demitidos. (Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 9, de 9 de novembro de 1995, art. 1º; Congresso Nacional, Lei nº 9.478, de 6 de agosto de 1997, art. 7º; Congresso Nacional, Lei nº 9.689, de 14 de julho de 1998, art. 1º; Congresso Nacional, Lei nº 10.790, de 28 de novembro de 2003, art. 1º)

Defesa do monopólio ou greve corporativa

Segundo Lucena, a grande imprensa dizia em 1995 que os petroleiros seguiam uma estratégia corporativista orquestrada pelo PT para desestabilizar o Plano Real, o plano de estabilização da economia. A FUP sustenta que a greve de 32 dias evitou a privatização da Petrobras. Para Lucena, a greve foi resistência à subordinação da periferia ao centro do capitalismo, que se manifestava nas privatizações e na quebra dos monopólios estatais buscadas pelo governo Fernando Henrique. (Lucena, Memórias de militantes, pp. 80, 82 e 85; Federação Única dos Petroleiros, 1995 Defender a Petrobrás é defender o Brasil 2015, p. 4)

Para a marxista Virgínia Fontes, o governo Fernando Henrique esmagou de modo emblemático a greve da Petrobras e, com o recurso ao Exército, tentou anular por longo tempo o sindicato dos petroleiros. Valerio Arcary, da tradição trotskista, situa em 1995, com a segunda derrota eleitoral de Lula e a derrota sindical dos petroleiros, o começo de uma longa etapa política que teve uma inflexão em junho de 2013. Giovanni Alves vê no balanço de greves do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) um recuo acentuado das greves a partir do governo Cardoso, e na CUT dos anos 1990 um sindicalismo defensivo que enfraquecia a perspectiva de classe. (Fontes, O Brasil e o capital-imperialismo, pp. 245 e 336; Arcary, Junho de 2013 a 2015, p. 147; Alves, Do "novo sindicalismo" à "concertação social", pp. 111 e 121)

Lucena registra que a mídia anunciou a derrota total dos petroleiros e a vitória política do governo, o que o fortaleceria para quebrar o monopólio e criar a ANP, e que a própria CUT difundiu a tese da destruição dos sindicatos pelas multas. Para ele, essa destruição não aconteceu, porque os demitidos foram sustentados pelo fundo de greve, a retenção das mensalidades sindicais não se completou e todos os demitidos foram readmitidos em 2003. (Lucena, Memórias de militantes, p. 96)

O que se reivindicava

Para se aprofundar

Principal
  • LUCENA, Carlos. Memórias de militantes: a greve dos petroleiros de 1995. Niterói: Trabalho Necessário (UFF), v. 18, n. 35, pp. 79-98, jan./abr. 2020, 2020. Onde ler: pp. 80 a 96.

    “Por um lado, a mídia divulgou a derrota total dos petroleiros e a vitória política do governo FHC, condição que o fortaleceria no Congresso Nacional para a aprovação da quebra do monopólio estatal do petróleo e a criação da Agência Nacional do Petróleo.”

    p. 96

    Ler grátis: Memórias de militantes: a greve dos petroleiros de 1995 ↗

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (35)

Fontes desta página

  1. Federação Única dos Petroleiros. 1995 Defender a Petrobrás é defender o Brasil 2015 (cartilha da FUP sobre os 20 anos da greve de 1995). fup.org.br. Abrir ↗
  2. LUCENA, Carlos. Memórias de militantes: a greve dos petroleiros de 1995. Niterói: Trabalho Necessário (UFF), v. 18, n. 35, pp. 79-98, jan./abr. 2020, 2020. Abrir ↗
  3. Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Emenda Constitucional nº 9, de 9 de novembro de 1995 (petróleo). planalto.gov.br, 09/11/1995. Abrir ↗
  4. Congresso Nacional. Lei nº 9.478, de 6 de agosto de 1997 (política energética e Agência Nacional do Petróleo). planalto.gov.br, 06/08/1997. Abrir ↗
  5. Congresso Nacional. Lei nº 9.689, de 14 de julho de 1998 (anistia de multas do TST a sindicatos de petroleiros). planalto.gov.br, 14/07/1998. Abrir ↗
  6. Congresso Nacional. Lei nº 10.790, de 28 de novembro de 2003 (anistia a trabalhadores da Petrobras punidos por movimento reivindicatório). planalto.gov.br, 28/11/2003. Abrir ↗
  7. FONTES, Virgínia. O Brasil e o capital-imperialismo: teoria e história. Rio de Janeiro: EPSJV/Fiocruz; Editora UFRJ (Pensamento Crítico, 15), 2010. Abrir ↗
  8. ARCARY, Valerio. Junho de 2013 a 2015: as “placas tectônicas” começaram a se mover? Crítica Marxista, n. 42, pp. 147-153, 2016. Abrir ↗
  9. ALVES, Giovanni. Do "novo sindicalismo" à "concertação social": ascensão (e crise) do sindicalismo no Brasil (1978-1998). Curitiba: Revista de Sociologia e Política (UFPR), n. 15, pp. 111-124, nov. 2000, 2000. Abrir ↗
  10. Carlos Lucena. Memórias de militantes: a greve dos petroleiros de 1995 (Trabalho Necessário, v. 18, n. 35, 2020). periodicos.uff.br, 23/01/2020. Abrir ↗
  11. Giovanni Alves. Do "novo sindicalismo" à "concertação social": ascensão (e crise) do sindicalismo no Brasil (1978-1998) (Revista de Sociologia e Política, n. 15, 2000). scielo.br. Abrir ↗
  12. Valerio Arcary. Junho de 2013 a 2015: as placas tectônicas começaram a se mover? (Crítica Marxista, n. 42, 2016). econtents.sbu.unicamp.br. Abrir ↗
  13. Virgínia Fontes. O Brasil e o capital-imperialismo: teoria e história (2. ed., EPSJV/Editora UFRJ, 2010; PDF da EPSJV). epsjv.fiocruz.br. Abrir ↗