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Luta de classes · protestos

Jornadas de Junho

2013 · São Paulo, de onde os atos se espalharam para outras capitais e cidades do país

Em junho de 2013, atos do Movimento Passe Livre contra o aumento de R$ 0,20 nas tarifas de São Paulo, reprimidos pela polícia, viraram protestos de massa em várias cidades, e os aumentos de São Paulo e do Rio foram cancelados. Para Armando Boito Jr., os atos começaram populares e, a partir do dia 20, foram disputados pela direita. Valerio Arcary vê ali uma inflexão que tirou o país de uma situação defensiva.

Quando
de 06/06/2013 a 06/2013
Onde
São Paulo, de onde os atos se espalharam para outras capitais e cidades do país
Quem lutou
Jovens trabalhadores e estudantes de origem popular na primeira fase, segundo Boito; Classe média e pequena burguesia, sobretudo depois da nacionalização dos protestos, segundo Cavalcante
Contra quem
Polícia Militar de São Paulo, que reprimiu os primeiros atos; Campo neoliberal, que passou a disputar os protestos contra o governo Dilma, segundo Boito
Organizações
Movimento Passe Livre (MPL), que convocou os primeiros atos em São Paulo; Movimento Brasil Livre (MBL), criado em junho de 2013, segundo Oliveira e Machado
Desfecho
Os reajustes de R$ 0,20 nas tarifas de São Paulo e do Rio de Janeiro foram cancelados em junho de 2013. Os protestos se ampliaram para outras pautas e, segundo Boito, passaram a ter a partir do dia 20 outra composição social e a pauta contra a corrupção.

Como aconteceu

Jornadas de Junho, 2013

  1. 06/06/2013Primeiro ato do MPL contra o aumento da tarifa em São Paulo.Agência Brasil, Junho de 2013, reportagem de 04/06/2023
  2. 13/06/2013Quarto ato, com mais de 100 pessoas levadas à delegacia.Agência Brasil, Mais de 100 pessoas detidas para averiguação em protesto contra o aumento da tarifa em SP, reportagem de 13/06/2013
  3. 17/06/2013Dezenas de milhares nas ruas de São Paulo e atos em outras capitais.Agência Brasil, Junho de 2013, reportagem de 04/06/2023
  4. 20/06/2013Começa a segunda fase, segundo Boito, com a pauta contra a corrupção.Boito Jr., Conflito distributivo de classes inundou e continua inundando o processo político nacional, resposta sobre Junho de 2013

Leitura marxista

Quem estava de cada lado

Os vinte centavos

Em 6 de junho de 2013, no começo da noite, o Movimento Passe Livre (MPL) queimou uma catraca de papelão e parou o trânsito na avenida 23 de Maio, no centro de São Paulo, contra o aumento das tarifas do transporte público de R$ 3 para R$ 3,20. A polícia reprimiu o ato, como tinha feito em protestos de anos anteriores contra outros aumentos, segundo a Agência Brasil. No quarto protesto, em 13 de junho, a Polícia Militar (PM) contou 5 mil manifestantes, e mais de 100 pessoas foram levadas a uma delegacia para averiguação, segundo a Polícia Civil, muitas por carregarem vinagre, que os manifestantes diziam usar contra o gás lacrimogêneo. (Agência Brasil, Junho de 2013, reportagem de 04/06/2023; Agência Brasil, Mais de 100 pessoas detidas para averiguação em protesto contra o aumento da tarifa em SP, reportagem de 13/06/2013)

A repressão de 13 de junho gerou denúncias de violência e de prisões arbitrárias, e o MPL fechou com o secretário estadual de Segurança Pública um acordo para o ato seguinte. Em 17 de junho, mais de 30 mil pessoas tomaram as ruas de São Paulo com pouca presença da PM, segundo a Agência Brasil, e os protestos já tinham chegado a cidades como Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Em Brasília, manifestantes ocuparam a marquise do Congresso Nacional, e no dia 20 participantes dos atos depredaram o prédio do Palácio Itamaraty. A agência registra centenas de prisões e manifestantes feridos por munição menos letal, e avalia que a reação da sociedade a essa violência aumentou a adesão aos protestos. (Agência Brasil, Manifestação contra reajuste do transporte público cresce e paralisa ruas de São Paulo, reportagem de 17/06/2013; Agência Brasil, Junho de 2013, reportagem de 04/06/2023)

Os atos passaram a ter pautas ligadas às condições de vida, como saúde, educação, habitação e transporte, e no ato de 17 de junho muitos cartazes falavam de corrupção e das obras da Copa do Mundo. Os reajustes de R$ 0,20 previstos em São Paulo e no Rio de Janeiro foram cancelados à época como resposta aos protestos. Para o Arquivo Nacional, as manifestações marcaram um ponto de inflexão no governo Dilma Rousseff, e o Datafolha, citado por Diego Batista Rodrigues de Oliveira e Eliel Ribeiro Machado, registrou queda da avaliação positiva do governo de 57% para 30% naquele mês. (Agência Brasil, Junho de 2013, reportagem de 04/06/2023; Agência Brasil, Manifestação contra reajuste do transporte público cresce e paralisa ruas de São Paulo, reportagem de 17/06/2013; Agência Brasil, Junho de 2013, reportagem de 04/06/2023; Arquivo Nacional, Dilma Vana Rousseff, parágrafo sobre junho de 2013; Oliveira e Machado, Vem pra Rua e MBL no contexto do golpe parlamentar no Brasil, p. 103)

Classes e fases

Para o marxista Armando Boito Jr., as manifestações tiveram duas fases. Na primeira, popular pela reivindicação e pela composição social, o MPL era o propulsor e predominavam jovens de origem popular, trabalhadores e estudantes, que tinham entrado no ensino superior com programas como o Prouni, o Reuni e o Fies, mas não achavam empregos qualificados. A partir de 20 de junho, segundo ele, mudaram a composição social e as reivindicações, com a luta dita contra a corrupção, e o campo neoliberal passou a confiscar o movimento, o que a recusa do MPL em dirigi-lo de fato facilitou. (Boito Jr., Conflito distributivo de classes inundou e continua inundando o processo político nacional, resposta sobre Junho de 2013)

Boito atribui a ofensiva neoliberal restauradora ao capital internacional e à burguesia integrada a ele, que tinham começado em janeiro de 2013 a atacar a política de redução dos juros. Em artigo de 2016, ele afirma que essa ofensiva, depois de breve hesitação, passou a estimular os protestos para canalizá-los contra o governo Dilma, e que os atos afastaram do governo a baixa classe média que tinha chegado à universidade. Sávio Cavalcante, também na revista Crítica Marxista, observa que a pauta do direito à cidade perdeu força quando os protestos chegaram a cidades médias e pequenas, onde se mobilizaram mais a classe média e a pequena burguesia. Ele situa em junho de 2013 a origem da adesão da classe média ao bolsonarismo, que entende como ameaça neofascista. (Boito Jr., Conflito distributivo de classes inundou e continua inundando o processo político nacional, resposta sobre Junho de 2013; Boito Jr., A crise política do neodesenvolvimentismo e a instabilidade da democracia, p. 159; Cavalcante, Classe média e ameaça neofascista no Brasil de Bolsonaro, pp. 124 e 130)

Junho em disputa

Valerio Arcary, da tradição trotskista, vê em junho de 2013 uma inflexão que tirou o país de uma situação defensiva para uma situação transitória, com a entrada em cena de uma nova geração, dentro de uma longa etapa política aberta em 1995 com a segunda derrota eleitoral de Lula e a derrota sindical dos petroleiros. Para ele, entre junho de 2013 e fevereiro de 2014 houve mobilizações de milhões contra todos os governos, sem direção nem programa unificados. Arcary considera exagerado ver nas manifestações de 2015 pelo impeachment de Dilma Rousseff uma continuidade de junho. (Arcary, Junho de 2013 a 2015, pp. 147, 148 e 153)

Oliveira e Machado, que analisam o Vem Pra Rua e o MBL em perspectiva classista, registram que os protestos começaram com pequenos atos do MPL, se nacionalizaram, passaram a abrigar grupos com interesses diversos e alimentaram o ressurgimento de organizações de direita. O Movimento Brasil Livre (MBL) foi criado em junho de 2013, no calor dos atos, mas só ganhou destaque em novembro de 2014, com protestos contra Dilma e o PT. Para Paique Duques Santarém, militante do MPL de Brasília ouvido pela Agência Brasil em 2023, os protestos mudaram o debate sobre transporte público e criaram um custo político para os aumentos de tarifa. (Oliveira e Machado, Vem pra Rua e MBL no contexto do golpe parlamentar no Brasil, pp. 98, 99 e 102; Agência Brasil, Junho de 2013, reportagem de 04/06/2023)

O que se reivindicava

Para se aprofundar

Principal
  • ARCARY, Valerio. Junho de 2013 a 2015: as “placas tectônicas” começaram a se mover? Crítica Marxista, n. 42, pp. 147-153, 2016. Onde ler: pp. 147, 148 e 153.

    “O argumento deste artigo é que, a partir de junho de 2013, aconteceu uma inflexão da situação política no Brasil. Saímos de uma situação defensiva, portanto, pior que a atual, para uma situação transitória. Uma nova geração entrou em cena.”

    p. 147

    Ler grátis: Junho de 2013 a 2015: as “placas tectônicas” começaram a se mover? ↗

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (29)

Fontes desta página

  1. Agência Brasil. Junho de 2013: entenda o cenário de insatisfação que levou a protestos (Agência Brasil, 04/06/2023). agenciabrasil.ebc.com.br, 04/06/2023. Abrir ↗
  2. Agência Brasil. Mais de 100 pessoas detidas para averiguação em protesto contra o aumento da tarifa em SP (Agência Brasil, 13/06/2013). memoria.ebc.com.br, 13/06/2013. Abrir ↗
  3. Agência Brasil. Manifestação contra reajuste do transporte público cresce e paralisa ruas de São Paulo (Agência Brasil, 17/06/2013). memoria.ebc.com.br, 17/06/2013. Abrir ↗
  4. Agência Brasil. Junho de 2013: transporte teve menos reajustes, mas gargalos continuam (Agência Brasil, 04/06/2023). agenciabrasil.ebc.com.br, 04/06/2023. Abrir ↗
  5. Arquivo Nacional. Dilma Vana Rousseff (biografia, Centro de Referência de Acervos Privados Presidenciais). presidentes.an.gov.br. Abrir ↗
  6. OLIVEIRA, Diego Batista Rodrigues de; MACHADO, Eliel Ribeiro. Vem pra Rua e MBL no contexto do golpe parlamentar no Brasil. 2019. Abrir ↗
  7. BOITO JR., Armando. Conflito distributivo de classes inundou e continua inundando o processo político nacional (entrevista ao IHU On-Line, julho de 2018). 2018. Abrir ↗
  8. BOITO JR., Armando. A crise política do neodesenvolvimentismo e a instabilidade da democracia. Crítica Marxista, n. 42, pp. 155-162, 2016. Abrir ↗
  9. CAVALCANTE, Sávio. Classe média e ameaça neofascista no Brasil de Bolsonaro. 2020. Abrir ↗
  10. ARCARY, Valerio. Junho de 2013 a 2015: as “placas tectônicas” começaram a se mover? Crítica Marxista, n. 42, pp. 147-153, 2016. Abrir ↗
  11. Diego Batista Rodrigues de Oliveira e Eliel Ribeiro Machado. Vem pra Rua e MBL no contexto do golpe parlamentar no Brasil (Lutas Sociais, v. 23, n. 42, 2019). revistas.pucsp.br. Abrir ↗
  12. Valerio Arcary. Junho de 2013 a 2015: as placas tectônicas começaram a se mover? (Crítica Marxista, n. 42, 2016). econtents.sbu.unicamp.br. Abrir ↗
  13. Armando Boito Jr.. A crise política do neodesenvolvimentismo e a instabilidade da democracia (Crítica Marxista, n. 42, 2016). econtents.sbu.unicamp.br. Abrir ↗
  14. Sávio Cavalcante. Classe média e ameaça neofascista no Brasil de Bolsonaro (Crítica Marxista, n. 50, 2020). econtents.sbu.unicamp.br. Abrir ↗