Leitura marxista
Quem estava de cada lado
O arrocho e a organização nas fábricas
Para o sociólogo Marco Aurélio Santana, a política salarial de arrocho, imposta desde os primeiros anos da ditadura, controlava os reajustes e tratava os salários como vilões da inflação. Em 31 de março de 1968, o governo Costa e Silva anunciou um aumento de 23% do salário mínimo quando a inflação já chegava a 25%, segundo dados do Ministério da Fazenda citados por Ernesto Germano Parés numa apostila de formação sindical. Em 1967, um acordo entre sindicatos, com destaque para o de Contagem, criara o Movimento Intersindical Antiarrocho (MIA), que previa uma paralisação nacional em outubro de 1968, época do dissídio coletivo, a negociação anual de salário dos metalúrgicos. (Santana, Classe trabalhadora, confronto político e democracia, p. 20; Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 28 do PDF; Rovai, A memória na luta contra o trauma, pp. 41 e 42)
Contagem, abril de 1968
Em 16 de abril de 1968, os operários da seção de trefilaria da Belgo-Mineira, na Cidade Industrial de Contagem (MG), pararam, ocuparam a fábrica e elegeram uma comissão para negociar. No dia seguinte, a Delegacia Regional do Trabalho declarou a greve ilegal, e a Polícia Militar tomou a fábrica desocupada pelos grevistas. Em 22 de abril, segundo Parés, eram 13 empresas paradas e mais de 15 mil trabalhadores em greve, entre eles os 4.500 da Mannesmann, e a comissão de greve reunia representantes de todas elas. (Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 28 do PDF)
A Polícia Militar ocupou a Cidade Industrial, proibiu assembleias e prendeu quem distribuía boletins, e em 25 de abril uma assembleia aceitou os 10% oferecidos pelo Ministério do Trabalho, quando o movimento pedia 25%. A Comissão Nacional da Verdade (CNV) registra que centenas de operários foram presos, embora só 64 prisões tenham sido reconhecidas oficialmente nos documentos do DOPS, a polícia política. Em 12 de junho, a Lei nº 5.451 deu a várias categorias um abono de emergência de 10% sobre o salário de 30 de abril, e a historiadora Marta Rovai escreve que os grevistas mineiros conseguiram o aumento salarial que reivindicavam. (Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 28 do PDF; Brasil. Comissão Nacional Da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, p. 74; Congresso Nacional, Lei nº 5.451, de 12 de junho de 1968, arts. 3º e 4º; Rovai, A memória na luta contra o trauma, p. 42, nota 1)
Osasco, julho de 1968
Segundo Rovai, os operários de Osasco (SP) anteciparam o movimento previsto pelo MIA, animados pelo resultado de Contagem, pela aliança com os estudantes e pelo Primeiro de Maio na Praça da Sé, em São Paulo. Na Cobrasma, a comissão de fábrica, isto é, a representação eleita pelos operários dentro da empresa, nascera depois da morte de um operário na caldeira, e Francisco Weffort, num estudo de 1972, chamou de operários-estudantes os que trabalhavam na fábrica de dia e à noite estudavam e debatiam política. Em 16 de julho de 1968, às 8h30, 2 mil operários da Cobrasma e 800 da Braseixos pararam e ocuparam a fábrica, e até o começo da tarde aderiram a Barreto Keller, a Granada e a Lonaflex. (Rovai, A memória na luta contra o trauma, pp. 42 e 44; Parés, História do movimento sindical no Brasil, pp. 28 e 29 do PDF)
No mesmo dia, a Delegacia Regional do Trabalho declarou que a greve e as ocupações indicavam ligações com movimentos subversivos, e à noite a tropa de choque da Força Pública ocupou a cidade e desocupou a Cobrasma e a Lonaflex. Pela madrugada, o sindicato estava sob intervenção, e Parés registra que o movimento refluiu no quarto dia, com reajustes de 15% a 20% negociados por dirigentes sindicais de São Paulo, enquanto Rovai escreve que a greve durou apenas um dia. Segundo o então presidente do sindicato, José Ibrahim, também detido, cerca de 600 trabalhadores foram presos, e a CNV registra que a Cobrasma mantinha relações formais com o DOPS desde 1965 para vigiar operários. (Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 29 do PDF; Rovai, A memória na luta contra o trauma, p. 42; Brasil. Comissão Nacional Da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, p. 74)
Parés conta que 60 sindicalistas presos foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional e que 600 operários foram demitidos. O padre Pierre Wauthier, que atuava com os operários de Osasco e participou da greve, foi expulso do país em 1968, e a CNV lista outros dois religiosos expulsos pela mesma atuação. (Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 28 do PDF; Brasil. Comissão Nacional Da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, p. 175)
Comissões de fábrica ou espontaneidade
Para a CNV, as duas greves não atingiram os seus objetivos centrais, mas mostraram a capacidade de organização dos trabalhadores, porque nasceram à margem dos sindicatos oficiais, ancoradas nas bases e, em Osasco, nas comissões de fábrica. O marxista Erico Sachs, um dos inspiradores da organização Política Operária, escreveu em 1982 que as greves foram três, duas em Contagem e uma em Osasco, conduzidas por comitês de empresa e esmagadas pelo regime. Em 1972, José Ibrahim avaliou que o essencial era a organização independente nos comitês de fábrica, mas que na prática eles dependiam do sindicato, e por isso a greve refluiu quando o governo o fechou. (Brasil. Comissão Nacional Da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, p. 395; Arquivo Marxista na Internet, Erico Sachs, seção de biografia; Sachs, Sindicalismo hoje, p. 1 do PDF; Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 29 do PDF)
Santana registra que o estudo de Weffort, de 1972, leu as greves de 1968 pela espontaneidade, como movimentos que partem do chão de fábrica e só depois chamam o sindicato, e argumenta que elas resultaram de um conjunto de organizações, campanhas e experiências anteriores. Para Parés, o Ato Institucional nº 5, de dezembro de 1968, completou o trabalho da repressão, mas as duas greves serviram de experiência às oposições sindicais que surgiram nos anos 1970, isto é, aos grupos que questionavam os dirigentes pelegos, atrelados ao governo, e a própria estrutura sindical, na definição de Sachs. Santana conclui que os caminhos da classe trabalhadora ficaram interditados por uma década, até a greve de 1978 no ABC paulista. (Santana, Classe trabalhadora, confronto político e democracia, pp. 33 e 34; Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 29 do PDF; Sachs, Sindicalismo hoje, p. 2 do PDF)
O que se reivindicava
- Reajuste de 25% nos salários, em Contagem, segundo Parés (Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 28 do PDF)
- Fim do arrocho salarial, bandeira do Movimento Intersindical Antiarrocho, segundo Rovai (Rovai, A memória na luta contra o trauma, p. 42)
- Organização autônoma dos trabalhadores, fora das amarras oficiais, segundo a CNV (Brasil. Comissão Nacional Da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, p. 395)