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Luta de classes

Greves de Contagem e Osasco

1968 · Cidade Industrial de Contagem (MG), na Grande Belo Horizonte, e Osasco (SP), na Grande São Paulo

Em abril de 1968, os metalúrgicos de Contagem (MG) pararam a Cidade Industrial contra o arrocho salarial, e em julho os de Osasco (SP) ocuparam a Cobrasma. As duas greves, conduzidas por comissões eleitas nas fábricas, foram reprimidas com prisões e intervenção no sindicato de Osasco. Para Ernesto Germano Parés, elas serviram de experiência às oposições sindicais dos anos 1970.

Quando
de 16/04/1968 a 07/1968
Onde
Cidade Industrial de Contagem (MG), na Grande Belo Horizonte, e Osasco (SP), na Grande São Paulo
Quem lutou
Metalúrgicos de Contagem, a começar pelos da Belgo-Mineira e da Mannesmann; Metalúrgicos de Osasco, da Cobrasma, da Braseixos, da Lonaflex e de outras fábricas; Operários-estudantes e militantes católicos de Osasco, segundo Rovai
Contra quem
Ministério do Trabalho e Delegacias Regionais do Trabalho, que declararam as greves ilegais; Polícia Militar de Minas Gerais e Força Pública de São Paulo; Empresas como a Cobrasma, que mantinha relações formais com o DOPS desde 1965
Organizações
Comissões de greve eleitas nas fábricas de Contagem; Comissão de fábrica da Cobrasma; Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, presidido por José Ibrahim; Movimento Intersindical Antiarrocho (MIA), criado em 1967
Desfecho
Em Contagem, a assembleia de 25 de abril aceitou os 10% oferecidos pelo Ministério do Trabalho, e em junho uma lei deu um abono de emergência de 10% a várias categorias. Em Osasco, a Força Pública desocupou as fábricas, o governo interveio no sindicato e centenas de operários foram presos.

Como aconteceu

Greves de Contagem e Osasco, 1968

  1. 1967Sindicatos criam o Movimento Intersindical Antiarrocho (MIA).Rovai, A memória na luta contra o trauma, p. 42
  2. 16/04/1968Greve na trefilaria da Belgo-Mineira, em Contagem.Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 28 do PDF
  3. 22/04/1968Treze empresas e mais de 15 mil trabalhadores em greve em Contagem.Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 28 do PDF
  4. 25/04/1968Assembleia aceita os 10% e encerra a greve de Contagem.Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 28 do PDF
  5. 12/06/1968Lei nº 5.451 cria um abono de emergência de 10%.Congresso Nacional, Lei nº 5.451, de 12 de junho de 1968, arts. 3º e 4º
  6. 16/07/1968Operários da Cobrasma e da Braseixos param e ocupam a fábrica em Osasco.Parés, História do movimento sindical no Brasil, pp. 28 e 29 do PDF
  7. 17/07/1968Pela madrugada, a Força Pública desocupa as fábricas e o sindicato fica sob intervenção.Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 29 do PDF
  8. 26/08/1968O padre Pierre Wauthier é expulso do país, segundo Parés.Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 28 do PDF

Leitura marxista

Quem estava de cada lado

O arrocho e a organização nas fábricas

Para o sociólogo Marco Aurélio Santana, a política salarial de arrocho, imposta desde os primeiros anos da ditadura, controlava os reajustes e tratava os salários como vilões da inflação. Em 31 de março de 1968, o governo Costa e Silva anunciou um aumento de 23% do salário mínimo quando a inflação já chegava a 25%, segundo dados do Ministério da Fazenda citados por Ernesto Germano Parés numa apostila de formação sindical. Em 1967, um acordo entre sindicatos, com destaque para o de Contagem, criara o Movimento Intersindical Antiarrocho (MIA), que previa uma paralisação nacional em outubro de 1968, época do dissídio coletivo, a negociação anual de salário dos metalúrgicos. (Santana, Classe trabalhadora, confronto político e democracia, p. 20; Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 28 do PDF; Rovai, A memória na luta contra o trauma, pp. 41 e 42)

Contagem, abril de 1968

Em 16 de abril de 1968, os operários da seção de trefilaria da Belgo-Mineira, na Cidade Industrial de Contagem (MG), pararam, ocuparam a fábrica e elegeram uma comissão para negociar. No dia seguinte, a Delegacia Regional do Trabalho declarou a greve ilegal, e a Polícia Militar tomou a fábrica desocupada pelos grevistas. Em 22 de abril, segundo Parés, eram 13 empresas paradas e mais de 15 mil trabalhadores em greve, entre eles os 4.500 da Mannesmann, e a comissão de greve reunia representantes de todas elas. (Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 28 do PDF)

A Polícia Militar ocupou a Cidade Industrial, proibiu assembleias e prendeu quem distribuía boletins, e em 25 de abril uma assembleia aceitou os 10% oferecidos pelo Ministério do Trabalho, quando o movimento pedia 25%. A Comissão Nacional da Verdade (CNV) registra que centenas de operários foram presos, embora só 64 prisões tenham sido reconhecidas oficialmente nos documentos do DOPS, a polícia política. Em 12 de junho, a Lei nº 5.451 deu a várias categorias um abono de emergência de 10% sobre o salário de 30 de abril, e a historiadora Marta Rovai escreve que os grevistas mineiros conseguiram o aumento salarial que reivindicavam. (Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 28 do PDF; Brasil. Comissão Nacional Da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, p. 74; Congresso Nacional, Lei nº 5.451, de 12 de junho de 1968, arts. 3º e 4º; Rovai, A memória na luta contra o trauma, p. 42, nota 1)

Osasco, julho de 1968

Segundo Rovai, os operários de Osasco (SP) anteciparam o movimento previsto pelo MIA, animados pelo resultado de Contagem, pela aliança com os estudantes e pelo Primeiro de Maio na Praça da Sé, em São Paulo. Na Cobrasma, a comissão de fábrica, isto é, a representação eleita pelos operários dentro da empresa, nascera depois da morte de um operário na caldeira, e Francisco Weffort, num estudo de 1972, chamou de operários-estudantes os que trabalhavam na fábrica de dia e à noite estudavam e debatiam política. Em 16 de julho de 1968, às 8h30, 2 mil operários da Cobrasma e 800 da Braseixos pararam e ocuparam a fábrica, e até o começo da tarde aderiram a Barreto Keller, a Granada e a Lonaflex. (Rovai, A memória na luta contra o trauma, pp. 42 e 44; Parés, História do movimento sindical no Brasil, pp. 28 e 29 do PDF)

No mesmo dia, a Delegacia Regional do Trabalho declarou que a greve e as ocupações indicavam ligações com movimentos subversivos, e à noite a tropa de choque da Força Pública ocupou a cidade e desocupou a Cobrasma e a Lonaflex. Pela madrugada, o sindicato estava sob intervenção, e Parés registra que o movimento refluiu no quarto dia, com reajustes de 15% a 20% negociados por dirigentes sindicais de São Paulo, enquanto Rovai escreve que a greve durou apenas um dia. Segundo o então presidente do sindicato, José Ibrahim, também detido, cerca de 600 trabalhadores foram presos, e a CNV registra que a Cobrasma mantinha relações formais com o DOPS desde 1965 para vigiar operários. (Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 29 do PDF; Rovai, A memória na luta contra o trauma, p. 42; Brasil. Comissão Nacional Da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, p. 74)

Parés conta que 60 sindicalistas presos foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional e que 600 operários foram demitidos. O padre Pierre Wauthier, que atuava com os operários de Osasco e participou da greve, foi expulso do país em 1968, e a CNV lista outros dois religiosos expulsos pela mesma atuação. (Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 28 do PDF; Brasil. Comissão Nacional Da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, p. 175)

Comissões de fábrica ou espontaneidade

Para a CNV, as duas greves não atingiram os seus objetivos centrais, mas mostraram a capacidade de organização dos trabalhadores, porque nasceram à margem dos sindicatos oficiais, ancoradas nas bases e, em Osasco, nas comissões de fábrica. O marxista Erico Sachs, um dos inspiradores da organização Política Operária, escreveu em 1982 que as greves foram três, duas em Contagem e uma em Osasco, conduzidas por comitês de empresa e esmagadas pelo regime. Em 1972, José Ibrahim avaliou que o essencial era a organização independente nos comitês de fábrica, mas que na prática eles dependiam do sindicato, e por isso a greve refluiu quando o governo o fechou. (Brasil. Comissão Nacional Da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, p. 395; Arquivo Marxista na Internet, Erico Sachs, seção de biografia; Sachs, Sindicalismo hoje, p. 1 do PDF; Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 29 do PDF)

Santana registra que o estudo de Weffort, de 1972, leu as greves de 1968 pela espontaneidade, como movimentos que partem do chão de fábrica e só depois chamam o sindicato, e argumenta que elas resultaram de um conjunto de organizações, campanhas e experiências anteriores. Para Parés, o Ato Institucional nº 5, de dezembro de 1968, completou o trabalho da repressão, mas as duas greves serviram de experiência às oposições sindicais que surgiram nos anos 1970, isto é, aos grupos que questionavam os dirigentes pelegos, atrelados ao governo, e a própria estrutura sindical, na definição de Sachs. Santana conclui que os caminhos da classe trabalhadora ficaram interditados por uma década, até a greve de 1978 no ABC paulista. (Santana, Classe trabalhadora, confronto político e democracia, pp. 33 e 34; Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 29 do PDF; Sachs, Sindicalismo hoje, p. 2 do PDF)

O que se reivindicava

Para se aprofundar

Principal
  • PARÉS, Ernesto Germano. História do movimento sindical no Brasil. 1990. Onde ler: pp. 28 e 29 do PDF.

    “O AI-5 viria para terminar o trabalho, mas estas duas greves serviram para a experiência das “oposições sindicais” que começam a aparecer na década de 70.”

    p. 29 do PDF

    Ler grátis: História do movimento sindical no Brasil ↗

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (32)

Fontes desta página

  1. SANTANA, Marco Aurélio. Classe trabalhadora, confronto político e democracia: o ciclo de greves do ABC paulista e os desafios do sindicalismo atual. São Paulo: Lua Nova: revista de cultura e política (CEDEC), n. 104, pp. 19-65, maio a agosto de 2018, 2018. Abrir ↗
  2. PARÉS, Ernesto Germano. História do movimento sindical no Brasil. 1990. Abrir ↗
  3. ROVAI, Marta Gouveia de Oliveira. A memória na luta contra o trauma: significados da greve de Osasco em 1968 nas narrativas de trabalhadores. Florianópolis: Revista Mundos do Trabalho, v. 6, n. 11, pp. 41-56, janeiro a junho de 2014, 2014. Abrir ↗
  4. BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Relatório da Comissão Nacional da Verdade. Brasília: Comissão Nacional da Verdade (recurso eletrônico em 3 v.; o v. I tem 976 p.; v. I e II lidos nas cópias do portal gov.br/memoriasreveladas), 2014. Abrir ↗
  5. Congresso Nacional. Lei nº 5.451, de 12 de junho de 1968 (reajustamento salarial e abono de emergência). planalto.gov.br, 12/06/1968. Abrir ↗
  6. Arquivo Marxista na Internet. Erico Sachs (1922-1986): página do autor no MIA, com biografia. marxists.org. Abrir ↗
  7. SACHS, Erico. Sindicalismo hoje. 1982. Abrir ↗
  8. Ernesto Germano Parés. História do movimento sindical no Brasil (apostila, Centro de Estudos Victor Meyer). centrovictormeyer.org.br. Abrir ↗
  9. Comissão Nacional da Verdade. Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, textos temáticos (dezembro de 2014). gov.br. Abrir ↗
  10. Marta Gouveia de Oliveira Rovai. A memória na luta contra o trauma: significados da greve de Osasco em 1968 (Revista Mundos do Trabalho, v. 6, n. 11, 2014). periodicos.ufsc.br. Abrir ↗
  11. Arquivo Nacional. Os presidentes e a República: Deodoro da Fonseca a Dilma Rousseff, 3. ed. rev. e ampl. (2012). gov.br. Abrir ↗
  12. Erico Sachs. Sindicalismo hoje (Revista do CEACULT, v. 1, 1982), PDF no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  13. Marco Aurélio Santana. Classe trabalhadora, confronto político e democracia: o ciclo de greves do ABC paulista (Lua Nova, n. 104, 2018). redalyc.org. Abrir ↗