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Luta de classes · organização camponesa

Ligas Camponesas

1955–1964 · Zona da Mata e agreste de Pernambuco e da Paraíba, a partir do Engenho Galileia, em Vitória de Santo Antão (PE), com ligas em outros estados

As Ligas Camponesas nasceram em 1955, no Engenho Galileia, em Pernambuco, entre foreiros que resistiam à expulsão, ao foro e ao cambão, e se espalharam pelo Nordeste com o advogado Francisco Julião. Lutaram pela reforma agrária e conquistaram a desapropriação do Galileia, em 1959. Os latifundiários mandaram matar líderes como João Pedro Teixeira, e o golpe de 1964 desmontou o movimento.

Quando
de 01/01/1955 a 04/1964
Onde
Zona da Mata e agreste de Pernambuco e da Paraíba, a partir do Engenho Galileia, em Vitória de Santo Antão (PE), com ligas em outros estados
Quem lutou
Foreiros, moradores, parceiros, posseiros e pequenos proprietários; Trabalhadores rurais assalariados, como os cortadores de cana
Contra quem
Senhores de engenho, usineiros e latifundiários; Associação dos Proprietários Rurais da Paraíba, a Liga dos Latifundiários; Polícias estaduais e, depois do golpe, o Exército
Organizações
Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores de Pernambuco (SAPPP), a liga do Engenho Galileia; Federação das Ligas Camponesas da Paraíba; União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil (ULTAB), ligada ao PCB; Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), fundada em 1963
Desfecho
As Ligas foram desmontadas pelo golpe de 1964, com a prisão das lideranças camponesas e o desaparecimento de dirigentes da Liga de Sapé. Antes disso, a luta no campo conquistou a desapropriação do Engenho Galileia, em 1959, e o Estatuto do Trabalhador Rural, em 1963.

Como aconteceu

Ligas Camponesas, 1955–1964

  1. 01/01/1955Criação oficial da SAPPP, a liga do Engenho Galileia.Souza e Chasin e Vaisman, Vida e morte das Ligas Camponesas, nota 4, p. 273
  2. 12/07/1957Julião apresenta o primeiro projeto de desapropriação do Galileia.Souza e Chasin e Vaisman, Vida e morte das Ligas Camponesas, nota 4, p. 273
  3. 07/12/1959A Assembleia de Pernambuco aprova a desapropriação do Engenho Galileia.Porfírio, Narrativas sobre o perigo, pp. 213 a 217
  4. 11/1961O congresso camponês de Belo Horizonte aprova o lema da reforma agrária na lei ou na marra.Souza e Chasin e Vaisman, Vida e morte das Ligas Camponesas, nota 13, p. 279
  5. 02/04/1962João Pedro Teixeira, presidente da Liga de Sapé, é assassinado.Comissão Nacional da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v, p. 115
  6. 02/03/1963A Lei nº 4.214 cria o Estatuto do Trabalhador Rural.Congresso Nacional, Lei nº 4.214, de 2 de março de 1963, ementa
  7. 19/11/1963Greve vitoriosa de 200 mil cortadores de cana em Pernambuco e na Paraíba.Gorender, A sociedade cindida, § 20 da página do MIA
  8. 13/03/1964Decreto da SUPRA declara desapropriáveis terras à margem de rodovias e ferrovias federais.Presidência da República, Decreto nº 53.700, de 13 de março de 1964, ementa

Leitura marxista

Quem estava de cada lado

O cambão e o foro

Nos engenhos e fazendas do Nordeste, o morador pagava o foro, o aluguel de um pedaço de terra, e muitas vezes devia o cambão, dias de trabalho sem pagamento para o dono da terra, segundo a Comissão Nacional da Verdade (CNV). Francisco de Assis Lemos e Souza, que presidiu a Federação das Ligas Camponesas da Paraíba, contou em 1982 aos marxistas José Chasin e Ester Vaisman que o camponês dava de um a quatro dias de trabalho por semana para morar na fazenda e plantar a sua lavoura. Para Vânia Noeli Ferreira de Assunção, que apresentou a entrevista em 2016, o cambão e o foro eram formas de a produção capitalista do Nordeste baratear os custos e reservar força de trabalho. (Comissão Nacional da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v, p. 96; Souza e Chasin e Vaisman, Vida e morte das Ligas Camponesas, apresentação, p. 269, e entrevista, pp. 274 e 275)

Os trabalhadores rurais pediam ao Ministério do Trabalho o reconhecimento de sindicatos, que era negado por pressão dos proprietários, segundo o historiador Antônio Torres Montenegro. No início dos anos 1950, apenas seis sindicatos rurais tinham sido reconhecidos, segundo Augusto Buonicore. Em 1945, quando era legal, o PCB tinha criado no Nordeste associações chamadas Ligas Camponesas, que desapareceram depois que o partido foi proscrito, em 1947. (Montenegro, As Ligas Camponesas às vésperas do golpe de 1964, pp. 391 e 394; Buonicore, Livro O camponês e a história, p. 2 do PDF; Souza e Chasin e Vaisman, Vida e morte das Ligas Camponesas, apresentação, p. 270)

Do Engenho Galileia às ligas do Nordeste

Em 1º de janeiro de 1955, foreiros do Engenho Galileia, em Vitória de Santo Antão (PE), criaram oficialmente a Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores de Pernambuco (SAPPP), segundo nota de Vânia Noeli; Montenegro diz que a sociedade foi criada em 1954 e regulamentada em 1955. O dono do engenho, Oscar Beltrão, aceitou ser presidente de honra e depois exigiu o fechamento da sociedade, e os foreiros resistiram e procuraram o advogado Francisco Julião, deputado estadual pelo Partido Socialista Brasileiro. Depois de um congresso da SAPPP com cerca de 3 mil camponeses, a imprensa passou a chamar as sociedades de Ligas Camponesas, para associá-las aos comunistas. (Souza e Chasin e Vaisman, Vida e morte das Ligas Camponesas, apresentação, p. 270, e nota 4, p. 273; Montenegro, As Ligas Camponesas às vésperas do golpe de 1964, pp. 394, 395 e 400; Porfírio, Narrativas sobre o perigo, p. 208)

Em 1957, Julião apresentou o primeiro projeto para desapropriar o Galileia, que não passou. Em 7 de dezembro de 1959, com as galerias cheias de foreiros, a Assembleia Legislativa de Pernambuco aprovou o projeto do deputado Carlos Luiz de Andrade, e o governador Cid Sampaio o sancionou. Segundo Caio Navarro de Toledo, de 1959 a 1962 as Ligas tiveram uma acelerada expansão em todo o Nordeste, e a Liga de Sapé, na Paraíba, chegou a 12 mil associados. (Souza e Chasin e Vaisman, Vida e morte das Ligas Camponesas, nota 4, p. 273, apresentação, p. 270, e entrevista, p. 273; Porfírio, Narrativas sobre o perigo, pp. 213 e 217; Toledo, 1964: o golpe contra as reformas e a democracia, pp. 20 e 21)

Congresso, sindicatos e Estatuto

Em novembro de 1961, no I Congresso Camponês nacional, em Belo Horizonte, a União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil (ULTAB), ligada ao PCB, e os grupos influenciados por Julião se enfrentaram. Venceu, segundo Vânia Noeli, a tese da reforma agrária na lei ou na marra, lema saído das Ligas, contra a proposta de reformar as leis de arrendamento e estender ao campo a política salarial e a seguridade social. Em junho de 1962, um grupo de comunistas dissidentes que propunha a luta armada foi expulso do PCB, e os militares desmontaram em novembro os campos de treinamento que o grupo criou em Goiás. (Buonicore, Livro O camponês e a história, p. 2 do PDF; Souza e Chasin e Vaisman, Vida e morte das Ligas Camponesas, nota 13, p. 279)

Em 2 de março de 1963, a Lei nº 4.214 criou o Estatuto do Trabalhador Rural, que levou ao campo direitos trabalhistas, promulgado, para Vânia Noeli, em grande medida pela pressão das Ligas. A sindicalização cresceu, e em dezembro de 1963 havia 270 sindicatos rurais reconhecidos e 557 em reconhecimento, segundo Jacob Gorender, que registra também a greve vitoriosa de 200 mil cortadores de cana de Pernambuco e da Paraíba, em novembro. A Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) nasceu em dezembro de 1963, com o PCB à frente, aliado à Ação Popular, da esquerda católica. Em 13 de março de 1964, o Decreto nº 53.700 declarou de interesse social, para desapropriação pela Superintendência de Política Agrária (SUPRA), as terras num raio de 10 km das rodovias e ferrovias federais. (Congresso Nacional, Lei nº 4.214, de 2 de março de 1963, ementa; Souza e Chasin e Vaisman, Vida e morte das Ligas Camponesas, apresentação, p. 270; Gorender, A sociedade cindida, §§ 19 e 20 da página do MIA; Buonicore, Livro O camponês e a história, p. 2 do PDF; Presidência da República, Decreto nº 53.700, de 13 de março de 1964, ementa e arts. 1º a 3º)

Assassinatos e golpe

Segundo Toledo, lideranças camponesas eram perseguidas e assassinadas a mando dos latifundiários. A CNV registra que Alfredo Nascimento, da Liga de Sapé, foi morto em 14 de março de 1961, e que João Pedro Teixeira, presidente da mesma liga, foi morto em 2 de abril de 1962, a caminho de casa, com o usineiro Aguinaldo Veloso Borges apontado como mandante. Depois do golpe, Gregório Bezerra foi preso em 2 de abril de 1964, e João Alfredo Dias e Pedro Inácio de Araújo, da Liga de Sapé, desapareceram depois de soltos de um quartel em João Pessoa. Assis Lemos contou que todas as lideranças camponesas da Paraíba foram presas, e Vânia Noeli escreve que o golpe desmontou as Ligas depois de nove anos de atuação. (Toledo, 1964: o golpe contra as reformas e a democracia, p. 21; Comissão Nacional da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v, pp. 114 a 116; Souza e Chasin e Vaisman, Vida e morte das Ligas Camponesas, entrevista, p. 284, e apresentação, p. 270)

Na lei ou na marra

Para Gorender, Julião fez as Ligas avançarem enquanto as manteve nas reivindicações legais, mas voltou de Cuba influenciado pelo foquismo, a teoria cubana da guerrilha rural, e o lema na lei ou na marra assustou também os pequenos proprietários e enfraqueceu as Ligas. Assis Lemos lembrou que, em 1962, um grupo ligado a Julião queria levar o movimento para a guerrilha, e que a sua corrente decidiu transformar as Ligas em sindicatos. Caio Prado Júnior criticou o PCB por imaginar uma revolução antifeudal pela posse da terra e subestimar a luta dos assalariados rurais por direitos, que em 1963 fez, para ele, uma das maiores batalhas da história do campo brasileiro. (Gorender, A sociedade cindida, § 34 da página do MIA; Souza e Chasin e Vaisman, Vida e morte das Ligas Camponesas, entrevista, p. 279; Prado Júnior, A revolução brasileira, §§ 9 e 11 da página do MIA)

O que se reivindicava

Para se aprofundar

Principal
  • SOUZA, Francisco de Assis Lemos e; CHASIN, José; VAISMAN, Ester. Vida e morte das Ligas Camponesas. Verinotio: revista on-line de Filosofia e Ciências Humanas, ano XI, n. 21, pp. 268-287 (republicação, com apresentação e notas de Vânia Noeli Ferreira de Assunção, da entrevista publicada em Nova Escrita/Ensaio, n. 10, pp. 195-205, 1982), 2016. Onde ler: apresentação, pp. 268 a 271; entrevista, pp. 272 a 284; notas 3, 4, 7, 13 e 15.

    “Para demarcar sua importância, basta citar a promulgação, em 2 de março de 1963 (em grande medida, por pressão da sua atuação), da Lei 4.214, o Estatuto do Trabalhador Rural, que garantia direitos e benefícios aos trabalhadores rurais e formalizava direitos e responsabilidades dos sindicatos de trabalhadores rurais.”

    apresentação, p. 270

    Ler grátis: Vida e morte das Ligas Camponesas ↗

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (52)

Fontes desta página

  1. Comissão Nacional da Verdade. Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, textos temáticos (dezembro de 2014). gov.br. Abrir ↗
  2. SOUZA, Francisco de Assis Lemos e; CHASIN, José; VAISMAN, Ester. Vida e morte das Ligas Camponesas. Verinotio: revista on-line de Filosofia e Ciências Humanas, ano XI, n. 21, pp. 268-287 (republicação, com apresentação e notas de Vânia Noeli Ferreira de Assunção, da entrevista publicada em Nova Escrita/Ensaio, n. 10, pp. 195-205, 1982), 2016. Abrir ↗
  3. MONTENEGRO, Antônio Torres. As Ligas Camponesas às vésperas do golpe de 1964. São Paulo: Projeto História (PUC-SP), n. 29, tomo 2, pp. 391-416, dezembro de 2004, 2004. Abrir ↗
  4. BUONICORE, Augusto. Livro O camponês e a história (resenha). 2005. Abrir ↗
  5. PORFÍRIO, Pablo Francisco de Andrade. Narrativas sobre o perigo: a desapropriação do Engenho Galiléia e as Ligas Camponesas. São Paulo: Perseu: história, memória e política (Fundação Perseu Abramo), n. 1, ano I, 2007. Abrir ↗
  6. TOLEDO, Caio Navarro de. 1964: o golpe contra as reformas e a democracia. São Paulo: Revista Brasileira de História (Associação Nacional de História), v. 24, n. 47, pp. 13-28, 2004. Abrir ↗
  7. Congresso Nacional. Lei nº 4.214, de 2 de março de 1963 (Estatuto do Trabalhador Rural). planalto.gov.br, 02/03/1963. Abrir ↗
  8. GORENDER, Jacob. A sociedade cindida. 2004. Abrir ↗
  9. Presidência da República. Decreto nº 53.700, de 13 de março de 1964 (desapropriação de áreas rurais às margens de rodovias, ferrovias e açudes federais). planalto.gov.br, 13/03/1964. Abrir ↗
  10. PRADO JÚNIOR, Caio. A revolução brasileira. 1966. Abrir ↗
  11. Pablo Francisco de Andrade Porfírio. Narrativas sobre o perigo: a desapropriação do Engenho Galiléia e as Ligas Camponesas (Perseu, n. 1, 2007). revistaperseu.fpabramo.org.br. Abrir ↗
  12. Vânia Noeli Ferreira de Assunção, José Chasin, Ester Vaisman e Francisco de Assis Lemos e Souza. Vida e morte das Ligas Camponesas (entrevista de Francisco de Assis Lemos e Souza a J. Chasin e Ester Vaisman, 1982; Verinotio, n. 21, 2016), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  13. Jacob Gorender. A sociedade cindida (Teoria e Debate, n. 57, 2004), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  14. Augusto C. Buonicore. Livro O camponês e a história (resenha, Revista Espaço Acadêmico, n. 46, 2005), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  15. Caio Prado Júnior. A revolução brasileira (trecho, 1966). marxists.org. Abrir ↗
  16. Antônio Torres Montenegro. As Ligas Camponesas às vésperas do golpe de 1964 (Projeto História, n. 29, 2004). revistas.pucsp.br. Abrir ↗
  17. Caio Navarro de Toledo. 1964: o golpe contra as reformas e a democracia (Revista Brasileira de História, v. 24, n. 47, 2004). redalyc.org. Abrir ↗