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Luta de classes · massacre

Massacre de Eldorado dos Carajás

1996 · Curva do S da rodovia PA-150, hoje BR-155, no município de Eldorado dos Carajás (PA)

Em 17 de abril de 1996, a Polícia Militar do Pará cercou cerca de 1.500 sem-terra do MST que bloqueavam a rodovia PA-150, em Eldorado dos Carajás, e 19 trabalhadores foram mortos. Dos 144 policiais processados, só o coronel e o major que comandaram a ação foram condenados. A data virou o Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária.

Quando
de 17/04/1996 a 17/04/1996
Onde
Curva do S da rodovia PA-150, hoje BR-155, no município de Eldorado dos Carajás (PA)
Quem lutou
Famílias sem terra acampadas perto da fazenda Macaxeira, organizadas pelo MST, segundo Barreira; Cerca de 1.500 trabalhadores rurais que marchavam para Belém
Contra quem
Polícia Militar do Pará, com tropas de Parauapebas e de Marabá; Governo do Pará, que mandou a PM liberar a rodovia, segundo a Agência Brasil; Fazendeiros da região, que cobraram do governo estadual a reintegração de posse, segundo Barreira
Organizações
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST); Centro pela Justiça e o Direito Internacional (CEJIL), que levou o caso à CIDH com o MST
Desfecho
No segundo júri, em 2002, foram condenados o coronel e o major que comandaram a ação, e 142 policiais foram absolvidos, segundo as peticionárias na CIDH. Os dois só foram presos em 2012, depois de recursos que chegaram ao STF.

Como aconteceu

Massacre de Eldorado dos Carajás, 1996

  1. 09/1995Cerca de 3.500 famílias acampam perto da fazenda Macaxeira.Barreira, Crônica de um massacre anunciado, p. 137
  2. 05/03/1996As famílias ocupam a fazenda Macaxeira.Barreira, Crônica de um massacre anunciado, p. 137
  3. 10/04/1996Cerca de 1.500 famílias começam a marcha rumo a Belém.Barreira, Crônica de um massacre anunciado, p. 138
  4. 17/04/1996A PM cerca os trabalhadores na curva do S, e 19 são mortos.Supremo Tribunal Federal, Negado HC a coronel condenado sob acusação de comandar o massacre de Eldorado do Carajás, notícia de 29/06/2011
  5. 16/08/1999Primeiro júri, depois anulado pelo Tribunal de Justiça do Pará.Comissão Interamericana de Direitos Humanos, Relatório nº 21/03, admissibilidade, petição 11.820, Eldorado dos Carajás, Brasil, § 14
  6. 14/05/2002Começa o segundo júri, que condena o coronel e o major.Comissão Interamericana de Direitos Humanos, Relatório nº 21/03, admissibilidade, petição 11.820, Eldorado dos Carajás, Brasil, § 14
  7. 25/06/2002Lei institui o 17 de abril como Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária.Congresso Nacional, Lei nº 10.469, de 25 de junho de 2002, art. 1º
  8. 07/05/2012O coronel se apresenta à polícia depois da ordem de prisão.Agência Brasil, Coronel responsável pelo Massacre de Eldorado de Carajás é preso, notícia de 07/05/2012

Leitura marxista

Quem estava de cada lado

Da fazenda Macaxeira à rodovia

Em setembro de 1995, cerca de 3.500 famílias de trabalhadores rurais organizadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) acamparam à beira da estrada, perto da fazenda Macaxeira, no Pará, e pediram a desapropriação da área, que consideravam improdutiva. Pelo artigo 184 da Constituição, citado por César Barreira, professor da Universidade Federal do Ceará, desapropriar é a União tomar para a reforma agrária, com indenização em títulos da dívida agrária, o imóvel que não cumpre sua função social. O INCRA vistoriou a fazenda e o laudo a deu como produtiva, e em 5 de março de 1996 as famílias ocuparam a Macaxeira, abrindo nova negociação. Os fazendeiros se reuniram com o governo do Pará para exigir a reintegração de posse, segundo Barreira. (Barreira, Crônica de um massacre anunciado, p. 137)

As promessas de enviar 12 toneladas de alimentos e 70 caixas de remédios ao acampamento, feitas com mediação do instituto de terras do Pará, não foram cumpridas. Em 10 de abril de 1996, cerca de 1.500 famílias começaram a caminhar rumo a Belém, a 800 km, para cobrar as promessas e a desapropriação. No dia 16, bloquearam a rodovia PA-150 perto de Eldorado dos Carajás, pedindo comida e ônibus, e o comandante da companhia local da Polícia Militar (PM) prometeu os dois. Na manhã de 17 de abril, os trabalhadores souberam que a negociação estava cancelada e voltaram a bloquear a estrada na curva do S. (Barreira, Crônica de um massacre anunciado, p. 138)

A ação da Polícia Militar em 17 de abril

Por determinação do governo estadual, a PM foi enviada para liberar a estrada, e por volta das 16 horas os trabalhadores ficaram cercados por policiais do quartel de Parauapebas, de um lado, e do batalhão de Marabá, do outro. Barreira registra controvérsia sobre quem atacou primeiro; os trabalhadores jogaram paus e pedras, e os policiais chegaram lançando bombas de gás lacrimogêneo. O Supremo Tribunal Federal (STF) registra que dezenove sem-terra foram mortos pela PM do Pará naquele dia. Segundo a Agência Brasil, laudos oficiais posteriores apontaram característica de execução em algumas mortes, e das 79 pessoas feridas duas morreram no hospital; em 2012, a mesma agência contava 21 integrantes do MST mortos. (Agência Brasil, Há 25 anos, data de massacre de Eldorado motiva mobilização no campo, notícia de 17/04/2021; Barreira, Crônica de um massacre anunciado, p. 138; Supremo Tribunal Federal, Negado HC a coronel condenado sob acusação de comandar o massacre de Eldorado do Carajás, notícia de 29/06/2011; Agência Brasil, Coronel responsável pelo Massacre de Eldorado de Carajás é preso, notícia de 07/05/2012)

As contagens de feridos variam, e Barreira conta 56, enquanto a petição levada à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) pelo MST e pelo Centro pela Justiça e o Direito Internacional (CEJIL) fala em 69 feridos graves. Segundo a petição, seis trabalhadores morreram com os primeiros disparos e treze foram executados depois de a estrada ser liberada, por não conseguirem fugir feridos. Em 2003, a CIDH aceitou examinar o caso e afirmou que a Polícia Militar não tem a independência necessária para investigar com imparcialidade violações atribuídas a policiais militares. (Barreira, Crônica de um massacre anunciado, p. 138; Comissão Interamericana de Direitos Humanos, Relatório nº 21/03, admissibilidade, petição 11.820, Eldorado dos Carajás, Brasil, §§ 1, 4, 11 e 27)

Os júris e os recursos

Segundo a Agência Brasil, 155 policiais participaram da ação, e o processo correu contra 144. Um primeiro júri, em agosto de 1999, absolveu o coronel que comandava o batalhão de Marabá, mas o Tribunal de Justiça do Pará anulou o julgamento em 2000 por irregularidades. No segundo júri, entre maio e junho de 2002, foram condenados o coronel, a 228 anos de reclusão por homicídio qualificado, e o major que comandou a operação, a 158 anos e 4 meses, e as peticionárias na CIDH informam que os outros 142 acusados foram absolvidos. Os dois puderam recorrer em liberdade. (Supremo Tribunal Federal, Negado HC a coronel condenado sob acusação de comandar o massacre de Eldorado do Carajás, notícia de 29/06/2011; Agência Brasil, Há 25 anos, data de massacre de Eldorado motiva mobilização no campo, notícia de 17/04/2021; Comissão Interamericana de Direitos Humanos, Relatório nº 21/03, admissibilidade, petição 11.820, Eldorado dos Carajás, Brasil, §§ 14 e 15)

Em 2005, uma liminar do STF mandou soltar o coronel, que estava preso, para que aguardasse decisões do tribunal sobre a execução da pena antes do trânsito em julgado, o momento em que não cabe mais recurso. Em 28 de junho de 2011, a Segunda Turma do STF negou, por maioria, o habeas corpus em que ele pedia a anulação do processo. Em 7 de maio de 2012, depois que o Tribunal de Justiça do Pará mandou prender os dois oficiais, o coronel se apresentou à polícia, e os dois foram presos naquele ano. O coronel cumpria prisão domiciliar quando morreu de covid-19, em novembro de 2020, segundo a Agência Brasil. (Supremo Tribunal Federal, Ex-comandante preso por participação no caso Eldorado dos Carajás obtém alvará de soltura, notícia de 23/09/2005; Supremo Tribunal Federal, Negado HC a coronel condenado sob acusação de comandar o massacre de Eldorado do Carajás, notícia de 29/06/2011; Agência Brasil, Coronel responsável pelo Massacre de Eldorado de Carajás é preso, notícia de 07/05/2012; Agência Brasil, Há 25 anos, data de massacre de Eldorado motiva mobilização no campo, notícia de 17/04/2021)

O nome, a data e as leituras

A notícia do STF de 2011 chama o caso de massacre no título e de confronto no corpo do texto, e o Arquivo Nacional registra que 19 integrantes do MST foram mortos em confronto com a polícia. A Lei nº 10.469, de 2002, fez do 17 de abril o Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária, e a data é também o Dia Internacional de Luta Camponesa da Via Campesina. O massacre motivou a Jornada Nacional da Luta por Reforma Agrária, feita todo mês de abril e conhecida como Abril Vermelho. Para João Paulo Rodrigues, da direção nacional do MST, foi o primeiro grande momento de popularização da questão agrária. (Supremo Tribunal Federal, Negado HC a coronel condenado sob acusação de comandar o massacre de Eldorado do Carajás, notícia de 29/06/2011; Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, pp. 56-57; Congresso Nacional, Lei nº 10.469, de 25 de junho de 2002, art. 1º; Agência Brasil, Coronel responsável pelo Massacre de Eldorado de Carajás é preso, notícia de 07/05/2012; Agência Brasil, Há 25 anos, data de massacre de Eldorado motiva mobilização no campo, notícia de 17/04/2021)

Os movimentos sociais avaliam que a investigação falhou por não individualizar a conduta dos policiais e por poupar a cúpula do governo do Pará, segundo a Agência Brasil. Paulo Sérgio Pinheiro, do Núcleo de Estudos da Violência da USP, escreveu em 1996 que as mortes resultaram de uma cilada preparada pela PM com a colaboração de fazendeiros, e a marxista Vânia Bambirra, que o cita, considerava os responsáveis impunes em 1997. Barreira vê no caso a articulação entre o poder público e o poder privado dos grandes proprietários de terra e afirma que ele não foi isolado, porque forças policiais e privadas aparecem juntas nos conflitos agrários. Bernardo Mançano Fernandes inclui Eldorado entre os conflitos violentos que acontecem quando as negociações dos sem-terra chegam a um impasse. (Agência Brasil, Há 25 anos, data de massacre de Eldorado motiva mobilização no campo, notícia de 17/04/2021; Bambirra, Êxodo rural e êxodo urbano, § 46 da página do MIA; Barreira, Crônica de um massacre anunciado, pp. 137 e 139; Fernandes, Movimento social como categoria geográfica, p. 78)

Na leitura marxista de Lucas Oliveira Menditi do Amaral e Murilo Amadio Cipollone, os camponeses que lutam pela terra enfrentam a força armada de um Estado a serviço do latifúndio, a grande propriedade rural. Para eles, questionar a concentração da terra é questionar a própria forma do Estado capitalista na periferia do sistema, e por isso a luta pela terra fica fora das regras do jogo. Lutar pela reforma agrária é lutar contra as elites agrárias, o que traz repressão violenta, e a impunidade do caso mostra o pouco interesse das classes dominantes em resolver a questão. (Amaral e Cipollone, Luta por terras e concentração fundiária no Brasil, pp. 446, 447 e 449)

O que se reivindicava

Para se aprofundar

Principal
  • AMARAL, Lucas Oliveira Menditi do; CIPOLLONE, Murilo Amadio. Luta por terras e concentração fundiária no Brasil: a forma estatal e a repressão dos movimentos de trabalhadores rurais. São Paulo: Revista da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, v. 116, n. 2, pp. 427-452, jul./dez. 2021, 2021. Onde ler: pp. 446 a 449.

    “Como se tentou aqui demonstrar, a luta pelo acesso à terra está fora das “regras do jogo” no capitalismo dependente, já que questionar a estrutura fundiária é, antes de tudo, questionar a própria forma estatal capitalista-periférica.”

    p. 447

    Ler grátis: Luta por terras e concentração fundiária no Brasil: a forma estatal e a repressão dos movimentos de trabalhadores rurais ↗

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (46)

Fontes desta página

  1. BARREIRA, César. Crônica de um massacre anunciado: Eldorado dos Carajás. São Paulo: São Paulo em Perspectiva (Fundação Seade), v. 13, n. 4, pp. 136-143, 1999, 1999. Abrir ↗
  2. Agência Brasil. Há 25 anos, data de massacre de Eldorado motiva mobilização no campo (Agência Brasil, 17/04/2021). agenciabrasil.ebc.com.br, 17/04/2021. Abrir ↗
  3. Supremo Tribunal Federal. Negado HC a coronel condenado sob acusação de comandar o massacre de Eldorado do Carajás (notícia do STF, 29/06/2011). noticias.stf.jus.br, 29/06/2011. Abrir ↗
  4. Agência Brasil. Coronel responsável pelo Massacre de Eldorado de Carajás é preso (Agência Brasil, 07/05/2012). memoria.ebc.com.br, 07/05/2012. Abrir ↗
  5. Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Relatório nº 21/03, admissibilidade, petição 11.820, Eldorado dos Carajás, Brasil (20 de fevereiro de 2003), versão em português no portal da CIDH. cidh.oas.org, 20/02/2003. Abrir ↗
  6. Supremo Tribunal Federal. Ex-comandante preso por participação no caso Eldorado dos Carajás obtém alvará de soltura (notícia do STF, 23/09/2005). noticias.stf.jus.br, 23/09/2005. Abrir ↗
  7. Arquivo Nacional. Os presidentes e a República: Deodoro da Fonseca a Dilma Rousseff, 3. ed. rev. e ampl. (2012). gov.br. Abrir ↗
  8. Congresso Nacional. Lei nº 10.469, de 25 de junho de 2002 (Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária). planalto.gov.br, 25/06/2002. Abrir ↗
  9. BAMBIRRA, Vânia. Êxodo rural e êxodo urbano: a luta pela reforma agrária no Brasil. 1997. Abrir ↗
  10. FERNANDES, Bernardo Mançano. Movimento social como categoria geográfica. 2000. Abrir ↗
  11. AMARAL, Lucas Oliveira Menditi do; CIPOLLONE, Murilo Amadio. Luta por terras e concentração fundiária no Brasil: a forma estatal e a repressão dos movimentos de trabalhadores rurais. São Paulo: Revista da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, v. 116, n. 2, pp. 427-452, jul./dez. 2021, 2021. Abrir ↗
  12. César Barreira. Crônica de um massacre anunciado: Eldorado dos Carajás (São Paulo em Perspectiva, v. 13, n. 4, 1999). scielo.br. Abrir ↗
  13. Lucas Oliveira Menditi do Amaral e Murilo Amadio Cipollone. Luta por terras e concentração fundiária no Brasil: a forma estatal e a repressão dos movimentos de trabalhadores rurais (Revista da Faculdade de Direito da USP, v. 116, n. 2, 2021). revistas.usp.br. Abrir ↗
  14. Vânia Bambirra. Êxodo rural e êxodo urbano: a luta pela reforma agrária no Brasil (janeiro de 1997), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  15. Bernardo Mançano Fernandes. Movimento social como categoria geográfica (Terra Livre, n. 15, 2000). publicacoes.agb.org.br. Abrir ↗