Leitura marxista
Quem estava de cada lado
Salvador em 1835
Salvador tinha cerca de 65.500 moradores em 1835, e perto de 42% deles eram escravos, a maioria nascida na África, segundo João José Reis. Predominavam os africanos do golfo do Benim, sobretudo os nagôs, formados por vários grupos de língua iorubá. Reis conta que muitos chegaram como prisioneiros de guerra, vindos de uma região conflagrada pela queda do império iorubano de Oyo e pela expansão muçulmana. (Reis, Quilombos e revoltas escravas no Brasil, pp. 24 e 26)
Uma revolta planejada
Para Clóvis Moura, a revolta de 1835 foi dirigida por escravos nagôs, com dirigentes de outras nações africanas, e foi planejada nos detalhes, depois de um período de organização e preparação. Ele descreve dois núcleos dirigentes, um espalhado pela cidade e outro reunido num clube de escravos na Barra, e conta que os rebeldes juntaram aos poucos um fundo para as despesas do movimento. Um dos líderes era Pacífico Licutã, um alufá, mestre que ensinava as rezas malês e pregava a insurreição, preso por uma dívida do seu senhor quando o levante começou. (Moura, A grande insurreição dos escravos baianos, §§ 2, 4, 9, 14, 16 e 17)
Reis escreve que a liderança foi formada por mestres muçulmanos e que o levante foi marcado para o fim do Ramadã, o mês sagrado do islã, na noite de 24 para 25 de janeiro. A conspiração foi denunciada às autoridades por duas libertas, ex-escravas, e, segundo Moura, a delação tirou dos rebeldes o fator surpresa e os obrigou a antecipar o levante. (Reis, Quilombos e revoltas escravas no Brasil, pp. 31 e 35; Moura, A grande insurreição dos escravos baianos, §§ 19 e 20)
A noite de 24 de janeiro
Moura conta que os primeiros tiros partiram da casa de Manuel Calafate, na Ladeira da Praça, quando a polícia cercou o lugar, e que cerca de 60 africanos armados saíram de lá. Os rebeldes tentaram libertar Licutã da cadeia, enfrentaram a polícia em vários pontos e seguiram para Água de Meninos, na Cidade Baixa. Na madrugada de 25 de janeiro, a cavalaria e a infantaria do governo, sob o comando do chefe de polícia, derrotaram os revoltosos, e cerca de quarenta morreram ali. (Moura, A grande insurreição dos escravos baianos, §§ 21 a 24)
A repressão
Depois da derrota, o governo prendeu 281 escravos e libertos, vasculhou as casas dos africanos e passou a exigir que os escravos só saíssem à rua com ordem escrita do senhor. Quase todos os julgados foram condenados, muitos a penas de açoite, como Licutã e Luís Sanim, com seiscentos açoites cada. Moura estima que os mortos entre os escravos chegaram a cerca de cem, em combate, afogados ou nas prisões. (Moura, A grande insurreição dos escravos baianos, §§ 27, 29 e 32)
Em 14 de maio de 1835, segundo Moura, cinco condenados foram fuzilados, porque o governo não achou carrasco para enforcá-los. Reis, citado por Marcos Ferreira de Andrade, conta quatro fuzilados, e o próprio Moura, num texto de 1988, fala em quatro líderes enforcados. Em 10 de junho de 1835, a Lei nº 4 passou a punir com a morte o escravo que matasse ou ferisse gravemente o senhor, a família dele ou o feitor, com júri extraordinário e sentença sem recurso. (Moura, A grande insurreição dos escravos baianos, § 30; Andrade, A pena de morte e a revolta dos escravos de Carrancas, p. 282; Moura, Cem anos de abolição do escravismo no Brasil, § 16; Império do Brasil (Assembleia Geral; Regência Permanente), Lei nº 4, de 10 de junho de 1835, arts. 1º, 2º e 4º)
Andrade mostra que a lei nasceu de um projeto de 1833, ligado ao impacto da revolta de escravos de Carrancas, em Minas Gerais, e que o levante dos malês acelerou a sua aprovação. Segundo Reis, depois de 1835 os senhores reforçaram o controle, e os nagôs não fizeram outro levante na Bahia. (Andrade, A pena de morte e a revolta dos escravos de Carrancas, pp. 276, 282 e 283; Reis, Quilombos e revoltas escravas no Brasil, p. 26)
Religião ou luta pela liberdade
Reis, que entra aqui como contraponto declarado, de fora da tradição marxista-leninista, dá à religião um papel central. Para ele, o islã se juntou à solidariedade étnica e permitiu a aliança entre nagôs e haussás, escravos e libertos, numa revolta basicamente nagô, já que os nagôs foram 77% dos réus. Ainda assim, Reis recusa a leitura do levante como jihad, a guerra santa muçulmana. (Reis, Quilombos e revoltas escravas no Brasil, pp. 26 e 35 e p. 38, nota 54)
Moura põe no centro a luta contra a escravidão. Para ele, os revoltosos não tinham programa político, e a única bandeira capaz de uni-los era a conquista da liberdade, o fim do cativeiro. Num texto de 1988, ele vê nas insurreições baianas do século XIX o ponto máximo da resistência escrava e escreve que a de 1835 quase tomou o poder na capital da província. (Moura, A grande insurreição dos escravos baianos, § 3; Moura, Cem anos de abolição do escravismo no Brasil, § 14)
Os dois autores divergem também sobre as mulheres. Moura cita Luísa Mahin, escrava jeje e mãe de Luiz Gama, entre os participantes, mas diz que não achou documentos sobre a atuação dela. Reis escreve que nenhuma mulher foi às ruas em 1835, embora muitas muçulmanas apoiassem o levante, e que 31 delas foram investigadas. (Moura, A grande insurreição dos escravos baianos, § 26; Reis, Quilombos e revoltas escravas no Brasil, p. 33)
O que se reivindicava
- Liberdade, o fim do cativeiro, segundo Clóvis Moura (Moura, A grande insurreição dos escravos baianos, § 3)