Leitura marxista
Quem estava de cada lado
A ferrovia e a madeireira
O verbete do CPDOC chama o movimento que começou em 1912 no planalto de Santa Catarina de uma das maiores revoltas sociais do campo brasileiro, numa região de limites disputada com o Paraná. Paulo Pinheiro Machado lembra que a concessão da ferrovia entre São Paulo e o Rio Grande do Sul, dada em 1889, garantia juros sobre o capital e terras devolutas, as terras públicas sem dono, ao lado da linha. Em 1890 a faixa foi limitada a 15 km de cada lado, e em 1907 a concessão foi comprada pela Brazil Railway Company, do norte-americano Percival Farquhar, que terminou a linha sul em dezembro de 1910. Segundo Machado, o vale do rio do Peixe, ao longo de 380 km, sofreu um processo de expropriação dos posseiros, os lavradores sem título que viviam na terra. (Rogério Rosa Rodrigues (CPDOC/FGV), GUERRA DO CONTESTADO, abertura do verbete; Machado, A questão de terras no Contestado, p. 611)
Tarcísio Motta de Carvalho mostra que Farquhar criou em 1904 a Light do Rio de Janeiro e que o seu grupo passou a controlar boa parte das ferrovias e dos portos do país, além de negócios de madeira e de terras. Em novembro de 1911, a Southern Brazil Lumber and Colonization Company, do mesmo grupo, abriu em Três Barras uma serraria considerada a maior da América Latina e comprou 180 mil hectares de florestas de araucária e imbuia. (Carvalho, Coerção e consenso na Primeira República, pp. 130-131 e 140)
Do Irani às cidades santas
Em 1912, o superintendente de Curitibanos denunciou ao governo catarinense um ajuntamento de fanáticos em torno do monge José Maria, curandeiro a quem atribuía, sem fundamento segundo o CPDOC, o plano de proclamar a monarquia. Perseguido, o grupo chegou em outubro a Irani, terra disputada pelos dois estados, e o governo do Paraná mandou o seu Regimento de Segurança expulsá-lo. No combate morreram 11 soldados, seis seguidores, o próprio monge e o comandante, João Gualberto Gomes de Sá. (Rogério Rosa Rodrigues (CPDOC/FGV), GUERRA DO CONTESTADO, seção A revolta social)
Em 1913, os fiéis voltaram a se reunir em Taquaruçu, e o movimento passou a agregar opositores dos coronéis, desempregados da ferrovia, ex-funcionários da madeireira e os pobres despossuídos das suas terras pela grilagem, a ocupação de terras com títulos falsos, que cresceu com o capital estrangeiro. Carvalho acrescenta os ervateiros, que viviam da colheita da erva-mate, e antigas lideranças federalistas. Em 8 de fevereiro de 1914, segundo Machado, 750 soldados atacaram Taquaruçu, num massacre que matou grande número de mulheres e crianças. (Rogério Rosa Rodrigues (CPDOC/FGV), GUERRA DO CONTESTADO, seção A revolta social; Carvalho, Coerção e consenso na Primeira República, pp. 16-17; Machado, A questão de terras no Contestado, p. 611)
Depois disso multiplicaram-se as cidades santas, como Caraguatá, Bom Sossego e Santa Maria, e o domínio dos sertanejos chegou a 28 mil quilômetros quadrados. O CPDOC estima a população de Santa Maria em 25 mil pessoas, e Carvalho, a partir de depoimentos, em mais de 10 mil. Os redutos tinham uma guarda especial, os Pares de São Sebastião, também chamados Pares de França, segundo Machado. (Rogério Rosa Rodrigues (CPDOC/FGV), GUERRA DO CONTESTADO, seção A revolta social; Carvalho, Coerção e consenso na Primeira República, p. 18; Machado, A questão de terras no Contestado, p. 618)
O que os sertanejos pediam
As exigências registradas pelo CPDOC incluíam a deposição de coronéis da região, a retirada da Lumber, a punição dos crimes contra mulheres e crianças e a distribuição de títulos de terra aos sertanejos. Pediam também a solução dos limites a favor de Santa Catarina e a deposição do presidente Hermes da Fonseca. Um bilhete que teria sido achado no bolso de um sertanejo morto em 1914 dizia que o governo tirava os brasileiros das terras da nação para vendê-las ao estrangeiro. Machado adverte que não se sabe quem achou o bilhete nem onde ele está, mas considera a linguagem verossímil. (Rogério Rosa Rodrigues (CPDOC/FGV), GUERRA DO CONTESTADO, seção A revolta social; Machado, A questão de terras no Contestado, pp. 610-611)
A campanha do Exército
Em setembro de 1914, o governo federal interveio, e o general Fernando Setembrino de Carvalho levou cerca de seis mil soldados e contratou mais de dois mil vaqueanos, que Carvalho descreve como milícias dos coronéis. Em fevereiro e março de 1915, Santa Maria foi arrasada, com a execução de muitos rebeldes. Ao sair, em maio de 1915, o governo federal deixou presa a maioria dos líderes, protegidos os interesses da madeireira e armados os coronéis e os seus capangas, segundo o CPDOC. Em 1916, o último líder, Adeodato Ramos, foi preso, e os dois estados assinaram o acordo de limites no palácio do Catete. (Rogério Rosa Rodrigues (CPDOC/FGV), GUERRA DO CONTESTADO, abertura do verbete e seção A campanha militar; Carvalho, Coerção e consenso na Primeira República, p. 18)
Messianismo ou guerra camponesa
Carvalho resume as leituras clássicas. Para Maria Isaura Pereira de Queiroz, o Contestado foi um movimento messiânico rústico, sem conflito de classe entre sertanejos e coronéis, e para Duglas Teixeira Monteiro, o choque de dois mundos incompatíveis. Maurício Vinhas de Queiroz, autor de Messianismo e conflito social, de 1966, viu uma revolta alienada, e Marli Auras, a resistência dos caboclos ao capitalismo que chegava à região. (Carvalho, Coerção e consenso na Primeira República, pp. 20 a 23)
Na tradição marxista, Nelson Werneck Sodré viu no Contestado, como em Canudos, a luta dos sem-terra coberta pelo fanatismo religioso. Carvalho, que se apoia no conceito de hegemonia do marxista italiano Antonio Gramsci, vê na intervenção armada um instrumento de dominação de classe contra caboclos que resistiam a uma modernização que submetia a terra e o trabalho rural à lógica do capital. Para ele, a guerra, com milhares de mortos, foi um momento da formação do capitalismo no Brasil que expôs o seu lado mais violento. (Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 309; Carvalho, Coerção e consenso na Primeira República, pp. 7, 9 e 169)
Machado, de fora da tradição marxista, critica o negacionismo agrário de políticos e fazendeiros do planalto, que atribuíam a revolta ao fanatismo e ao banditismo. Ele também matiza a questão da terra, porque o núcleo inicial do movimento não vivia uma concentração fundiária séria, e a disputa agrária pesou mais nas regiões para onde a revolta se expandiu. (Machado, A questão de terras no Contestado, pp. 608 a 610 e 618)
O que se reivindicava
- Distribuição e reconhecimento de títulos de terra aos sertanejos (Rogério Rosa Rodrigues (CPDOC/FGV), GUERRA DO CONTESTADO, seção A revolta social)
- Retirada da Southern Brazil Lumber and Colonization Company da região (Rogério Rosa Rodrigues (CPDOC/FGV), GUERRA DO CONTESTADO, seção A revolta social)
- Deposição dos coronéis da região e do presidente Hermes da Fonseca (Rogério Rosa Rodrigues (CPDOC/FGV), GUERRA DO CONTESTADO, seção A revolta social)
- Punição dos crimes cometidos contra mulheres e crianças nas ações militares (Rogério Rosa Rodrigues (CPDOC/FGV), GUERRA DO CONTESTADO, seção A revolta social)
- Solução da questão de limites a favor de Santa Catarina (Rogério Rosa Rodrigues (CPDOC/FGV), GUERRA DO CONTESTADO, seção A revolta social)