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Estudos / História do Brasil / Lutas de classes / Era Vargas e República de 1946 / Greve dos 300 mil

Luta de classes · greve

Greve dos 300 mil

1953 · Cidade de São Paulo e outras cidades paulistas

Em março e abril de 1953, uma greve iniciada pelos operários têxteis de São Paulo se espalhou por outras categorias e chegou a 300 mil trabalhadores, segundo Ernesto Germano Parés. O comitê intersindical de greve conquistou um acordo de 33% de aumento, e do movimento nasceu o Pacto de Unidade Intersindical. Os historiadores divergem sobre o peso do PCB e das comissões de fábrica na direção da greve.

Quando
de 26/03/1953 a 04/1953
Onde
Cidade de São Paulo e outras cidades paulistas
Quem lutou
Operários e operárias têxteis; Metalúrgicos, gráficos, vidreiros e marceneiros; Estudantes e médicos em solidariedade, segundo Parés
Contra quem
Industriais paulistas, que se recusaram a negociar aumentos; DOPS de São Paulo, que declarou a greve ilegal; Ministério do Trabalho de Segadas Viana, segundo Sukman
Organizações
Comissões de fábrica; Comitê Intersindical de Greve; Pacto de Unidade Intersindical (PUI), criado no fim da greve
Desfecho
Depois de 29 dias, o Comitê Intersindical de Greve aceitou um acordo de 33% de aumento, com liberdade para os presos, pagamento dos dias parados e nenhuma punição, segundo Parés. Do movimento nasceu o Pacto de Unidade Intersindical.

Como aconteceu

Greve dos 300 mil, 1953

  1. 10/03/1953Os têxteis de São Paulo se manifestam por 60% de aumento.Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 23 do PDF
  2. 26/03/1953Começa a greve, com o apoio imediato dos metalúrgicos.Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 23 do PDF
  3. 01/05/1953Em Volta Redonda, um porta-voz dos trabalhadores paulistas acusa o Ministério do Trabalho diante de Vargas.Sukman, O novo trabalhismo, pp. 1 e 2
  4. 06/1953Em meio à greve dos marítimos, João Goulart é nomeado ministro do Trabalho.Sukman, O novo trabalhismo, pp. 1 e 2
  5. 07/1953Prestes cita as grandes greves de São Paulo na revista Problemas.Prestes, União para salvar o Brasil da guerra e da ruína, § 2 da página do MIA

Leitura marxista

Quem estava de cada lado

Carestia e greves em 1953

Em 1953, o Brasil teve um conjunto de grandes greves por reajuste de salário e pelo fim da carestia, a alta do custo de vida, segundo o historiador Márcio André Sukman. Ernesto Germano Parés, assessor sindical que escreveu uma história do movimento operário para cursos de formação de trabalhadores, liga essa onda à industrialização do segundo governo Vargas, quando a inflação disparou e os salários sumiram dos bolsos. Ele registra que, em janeiro de 1953, 50 mil têxteis do Rio de Janeiro pararam por 60% de aumento e conseguiram 42% depois de negociar. (Sukman, O novo trabalhismo, p. 1; Parés, História do movimento sindical no Brasil, pp. 1, 22 e 23 do PDF)

A greve de março e abril

Em 10 de março de 1953, os operários têxteis de São Paulo fizeram uma manifestação para exigir 60% de aumento e medidas do governo contra a alta dos preços dos alimentos, e os patrões declararam nos jornais que não negociariam. Os trabalhadores organizaram comissões de fábrica, grupos de operários formados no próprio local de trabalho, para pressionar o sindicato, e a greve começou no dia 26, com o apoio imediato dos metalúrgicos. Outras categorias aderiram, e a greve chegou a outras cidades paulistas. (Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 23 do PDF)

Segundo o historiador Murilo Leal, citado por Éverton Adriano da Silva, pararam têxteis, metalúrgicos, gráficos, vidreiros, marceneiros e outras categorias, que formaram comissões centrais de greve. Depois de 15 dias de negociação, foi criado o Comitê Intersindical de Greve, e os trabalhadores avisaram que não voltariam às fábricas se algum companheiro fosse demitido. O DOPS, a polícia política de São Paulo, declarou a greve ilegal com base na Lei 9.070, do governo Dutra, mas o movimento ganhou força no interior e recebeu a solidariedade de estudantes e de médicos. (Silva, O movimento da copa e cozinha, p. 7; Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 23 do PDF)

O acordo e o Pacto de Unidade Intersindical

Os patrões ofereceram 20% de aumento, a Delegacia Regional do Trabalho subiu a proposta para 23% e o Tribunal Regional do Trabalho chegou a 28%, e os operários recusaram as três propostas. Quando o movimento começou a rachar e alguns sindicatos falaram em negociar, o Comitê aceitou um acordo de 33%, com liberdade para os presos, aumento também para quem não fez greve, pagamento dos dias parados e nenhuma punição aos grevistas. Segundo Parés, a greve durou 29 dias, envolveu 300 mil trabalhadores e, em algumas categorias, o aumento chegou a 75%. (Parés, História do movimento sindical no Brasil, pp. 22 e 23 do PDF)

Do movimento nasceu o Pacto de Unidade Intersindical (PUI), uma articulação de sindicatos de várias categorias, criada fora da estrutura sindical oficial. Parés registra que o Comando Geral de Greve se transformou numa Comissão Intersindical e que, no PUI, comunistas e governistas, os sindicalistas ligados ao governo, dividiam a liderança. (Parés, História do movimento sindical no Brasil, pp. 22 e 23 do PDF)

A greve e o Ministério do Trabalho

No 1º de maio de 1953, em Volta Redonda, Nelson Rustici falou diante de Vargas em nome dos trabalhadores de São Paulo e disse que a greve não teria ocorrido se o Ministério do Trabalho tivesse agido de outro modo, segundo o jornal Última Hora citado por Sukman. Para Sukman, a greve dos 300 mil encerrou na prática a gestão do ministro do Trabalho Segadas Viana, cuja política anticomunista combinava cooptação, controle e repressão. Em junho, em meio à greve dos marítimos, João Goulart foi nomeado ministro do Trabalho no lugar de Viana. (Sukman, O novo trabalhismo, pp. 1 e 2)

Partido, comissões de fábrica ou base

Em julho de 1953, Luiz Carlos Prestes, na revista Problemas, apontou as grandes greves de São Paulo como prova de que o povo não aceitava a política de fome e de preparação para a guerra do governo Vargas. Sukman registra que a greve foi vista como o símbolo da volta dos comunistas à atividade sindical oficial, depois de cerca de cinco anos de afastamento. (Prestes, União para salvar o Brasil da guerra e da ruína, § 2 da página do MIA; Sukman, O novo trabalhismo, p. 1)

O historiador Joel Wolfe, resumido por Oliver Dinius, deu o peso decisivo às comissões de fábrica e ao ativismo independente das operárias têxteis. Para Wolfe, o movimento operário paulista sofreu sempre uma divisão entre a direção oficial dos sindicatos e a base, e os ativistas de base só tomaram os sindicatos nos anos 1950, quando criaram o movimento unificado que sustentou a greve. Murilo Leal, citado por Silva, encontrou nos dossiês do DOPS uma rede de comissões de greve que cuidava de assistência médica, assistência social e piquetes, com intensa participação dos operários de base. (Dinius, Resenha de Working women, working men, de Joel Wolfe, pp. 221 e 222; Silva, O movimento da copa e cozinha, p. 7)

Parés lê a história da classe operária como parte da luta de classes no capitalismo e da sua transformação em socialismo. Para ele, o PUI e o Pacto de Unidade e Ação, que viria depois, nasceram de comissões de fábrica e de comandos de greve, mas logo passaram a ser dirigidos por lideranças de federações e sindicatos e perderam a sua penetração na base do movimento. (Parés, História do movimento sindical no Brasil, pp. 1 e 23 do PDF)

O que se reivindicava

Para se aprofundar

Principal
  • PARÉS, Ernesto Germano. História do movimento sindical no Brasil. 1990. Onde ler: pp. 1, 22 e 23 do PDF.

    “O PUI e o PUA foram criados a partir de comissões de fábricas e comandos de greve, mas logo tornaram-se articulações dirigidas por lideranças de federações e sindicatos perdendo sua penetração na base do movimento.”

    p. 23 do PDF

    Ler grátis: História do movimento sindical no Brasil ↗

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (24)
  • Interpretação · Murilo Leal, citado por Éverton Adriano da SilvaOs dossiês do DOPS mostram comissões formadas para resolver conflitos no dia a dia do trabalho e, nas campanhas salariais e greves, comissões de fábrica que duravam o período da mobilização; nas greves de 1953, as comissões de greve administravam departamentos de assistência médica, assistência social e piquetes, com intensa participação dos operários de base.Silva, O movimento da copa e cozinha, p. 7
  • Interpretação · Murilo Leal, citado por Éverton Adriano da SilvaNa greve dos 300 mil, em São Paulo, têxteis, metalúrgicos, gráficos, vidreiros, marceneiros e outras categorias formaram comissões centrais de greve, que constituíram o Comitê Intersindical de Greve, depois Comissão Intersindical do Estado de São Paulo.Silva, O movimento da copa e cozinha, p. 7
  • FatoEm 10 de março de 1953, os operários têxteis de São Paulo fizeram uma manifestação para exigir 60% de aumento e medidas do governo para baixar os preços dos gêneros alimentícios, e os patrões declararam nos jornais que não negociariam aumentos.Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 23 do PDF
  • FatoA greve durou 29 dias, atingiu 300 mil trabalhadores e terminou com o surgimento do Pacto de Unidade Intersindical, o PUI.Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 23 do PDF
  • FatoA greve iniciada pelos têxteis de São Paulo em 1953 se espalhou por outras categorias, chegou a 300 mil trabalhadores de braços cruzados e terminou com a vitória dos grevistas, que em algumas categorias conquistaram até 75% de aumento; por atingir várias categorias, criou-se um Comando Geral de Greve, que se transformou numa Comissão Intersindical.Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 22 do PDF
  • FatoCom o movimento começando a rachar e alguns sindicatos falando em negociar, o Comitê aceitou um acordo de 33% com liberdade para todos os trabalhadores presos, aumento para todos os trabalhadores, mesmo os que não fizeram greve, pagamento dos dias parados e nenhuma punição para os grevistas.Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 23 do PDF
  • FatoErnesto Germano Parés, assessor sindical, escreveu a sua história do movimento sindical no Brasil em 1990 para cursos com operários da Companhia Siderúrgica Nacional e a revisou em 1996 e em 2005 para cursos de formação da CUT do Rio de Janeiro.Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 1 do PDF, nota 1
  • Interpretação · Ernesto Germano ParésO PUI e o PUA foram criados a partir de comissões de fábrica e de comandos de greve, mas logo se tornaram articulações dirigidas por lideranças de federações e sindicatos e perderam a penetração na base do movimento.Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 23 do PDF
  • FatoDepois de 15 dias de negociação, foi criado o Comitê Intersindical de Greve, e os trabalhadores avisaram que não voltariam às fábricas se qualquer companheiro fosse demitido.Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 23 do PDF
  • FatoO DOPS de São Paulo declarou a greve ilegal com base na Lei 9.070, do tempo de Dutra, mas o movimento ganhou força no interior do estado e começou a receber a solidariedade da classe média, de estudantes e de médicos.Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 23 do PDF
  • Interpretação · Ernesto Germano ParésNa época da grande industrialização nacional, a inflação disparou e os salários sumiram dos bolsos, o que levou o movimento sindical a uma nova etapa de lutas e de greves.Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 22 do PDF
  • FatoOs trabalhadores organizaram comissões de fábrica para pressionar o sindicato e, depois de várias assembleias, a greve começou no dia 26 de março, recebendo logo o apoio dos metalúrgicos; outras categorias aderiram, e a greve se estendeu a outras cidades paulistas.Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 23 do PDF
  • FatoOs patrões ofereceram 20% de aumento, a Delegacia Regional do Trabalho elevou a proposta para 23% e o Tribunal Regional do Trabalho chegou a 28%, e os operários recusaram as três propostas e mantiveram a greve.Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 23 do PDF
  • FatoO PUI e o Pacto de Unidade e Ação nasceram fora da estrutura sindical vigente, mas logo passaram a se articular dentro dela, e neles comunistas e governistas dividiam a liderança.Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 23 do PDF
  • Interpretação · Ernesto Germano ParésA história do movimento operário é parte da história da luta de classes no capitalismo e da sua transformação em socialismo.Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 1 do PDF
  • FatoEm janeiro de 1953, 50 mil têxteis do Rio de Janeiro entraram em greve exigindo 60% de aumento e, depois de negociar, conseguiram 42%.Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 23 do PDF
  • Interpretação · Luiz Carlos PrestesAs últimas lutas do povo brasileiro, especialmente as grandes greves de São Paulo e a unidade nacional dos trabalhadores marítimos, demonstram que o povo não está disposto a morrer de fome nem a ser arrastado às aventuras guerreiras do imperialismo americano, contra a política de traição nacional do governo Vargas.Prestes, União para salvar o Brasil da guerra e da ruína, § 2 da página do MIA
  • Interpretação · historiografia resumida por Márcio André SukmanA greve dos 300 mil foi atribuída como o grande símbolo do retorno dos comunistas à atividade sindical oficial, depois de cerca de cinco anos de afastamento.Sukman, O novo trabalhismo, p. 1
  • FatoA greve dos marítimos, em junho de 1953, teria causado a queda do ministro do Trabalho Segadas Viana, e João Goulart foi nomeado para o seu lugar em meio a essa greve.Sukman, O novo trabalhismo, pp. 1 e 2
  • FatoA greve dos marítimos de junho de 1953 fez parte de um conjunto de grandes greves iniciadas naquele ano, que buscavam reajustes salariais e o fim da carestia.Sukman, O novo trabalhismo, p. 1
  • FatoEm 1º de maio de 1953, nas comemorações do Dia do Trabalho em Volta Redonda, Nelson Rustici falou diante de Vargas em nome dos trabalhadores de São Paulo, acusou o Ministério do Trabalho e disse que, se outra tivesse sido a atuação das autoridades do ministério, a greve não teria ocorrido, segundo o jornal Última Hora.Sukman, O novo trabalhismo, pp. 1 e 2
  • Interpretação · Márcio André SukmanA greve dos 300 mil, ocorrida em São Paulo em março de 1953, foi a verdadeira pá de cal da gestão do ministro do Trabalho Segadas Viana, cuja postura legalista e anticomunista se concretizava em medidas de cooptação, controle e repressão.Sukman, O novo trabalhismo, p. 1
  • Interpretação · Joel Wolfe, segundo Oliver DiniusO movimento trabalhista de São Paulo sofreu sempre um cisma entre a liderança oficial e os quadros de base, e os ativistas de base só tomaram o controle dos sindicatos nos anos 1950, quando criaram o movimento unificado que formou a base da greve dos 300 mil.Dinius, Resenha de Working women, working men, de Joel Wolfe, pp. 221 e 222
  • Interpretação · Joel Wolfe, segundo Oliver DiniusDois fatores específicos do movimento operário de São Paulo foram decisivos para o surgimento de uma frente operária forte e unida nas greves de 1953 e 1954, o papel das comissões de fábrica e o ativismo independente das trabalhadoras das indústrias paulistanas.Dinius, Resenha de Working women, working men, de Joel Wolfe, p. 221

Fontes desta página

  1. SUKMAN, Márcio André. O novo trabalhismo: João Goulart e a greve dos marítimos de 1953. Londrina: ANPUH, XXIII Simpósio Nacional de História (Londrina, 2005), anais, 2005. Abrir ↗
  2. PARÉS, Ernesto Germano. História do movimento sindical no Brasil. 1990. Abrir ↗
  3. SILVA, Éverton Adriano da. O movimento da copa e cozinha: a greve dos trabalhadores hoteleiros do Rio de Janeiro (1953). 2024. Abrir ↗
  4. PRESTES, Luiz Carlos. União para salvar o Brasil da guerra e da ruína. 1953. Abrir ↗
  5. DINIUS, Oliver. Resenha de Working women, working men, de Joel Wolfe. Campinas: História Social (Unicamp), n. 3, pp. 221-226, 1996. Abrir ↗
  6. Ernesto Germano Parés. História do movimento sindical no Brasil (apostila, Centro de Estudos Victor Meyer). centrovictormeyer.org.br. Abrir ↗
  7. Márcio André Sukman. O novo trabalhismo: João Goulart e a greve dos marítimos de 1953 (ANPUH, XXIII Simpósio Nacional de História, 2005). anpuh.org.br. Abrir ↗
  8. Luiz Carlos Prestes. União para salvar o Brasil da guerra e da ruína (Problemas, n. 47, julho de 1953), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  9. Éverton Adriano da Silva. O movimento da copa e cozinha: a greve dos trabalhadores hoteleiros do Rio de Janeiro (1953) (anais da ANPUH, 2024). anpuh.org.br. Abrir ↗
  10. Oliver Dinius. Resenha de Working women, working men, de Joel Wolfe (História Social, n. 3, 1996). ojs.ifch.unicamp.br. Abrir ↗