Leitura marxista
Quem estava de cada lado
Carestia e greves em 1953
Em 1953, o Brasil teve um conjunto de grandes greves por reajuste de salário e pelo fim da carestia, a alta do custo de vida, segundo o historiador Márcio André Sukman. Ernesto Germano Parés, assessor sindical que escreveu uma história do movimento operário para cursos de formação de trabalhadores, liga essa onda à industrialização do segundo governo Vargas, quando a inflação disparou e os salários sumiram dos bolsos. Ele registra que, em janeiro de 1953, 50 mil têxteis do Rio de Janeiro pararam por 60% de aumento e conseguiram 42% depois de negociar. (Sukman, O novo trabalhismo, p. 1; Parés, História do movimento sindical no Brasil, pp. 1, 22 e 23 do PDF)
A greve de março e abril
Em 10 de março de 1953, os operários têxteis de São Paulo fizeram uma manifestação para exigir 60% de aumento e medidas do governo contra a alta dos preços dos alimentos, e os patrões declararam nos jornais que não negociariam. Os trabalhadores organizaram comissões de fábrica, grupos de operários formados no próprio local de trabalho, para pressionar o sindicato, e a greve começou no dia 26, com o apoio imediato dos metalúrgicos. Outras categorias aderiram, e a greve chegou a outras cidades paulistas. (Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 23 do PDF)
Segundo o historiador Murilo Leal, citado por Éverton Adriano da Silva, pararam têxteis, metalúrgicos, gráficos, vidreiros, marceneiros e outras categorias, que formaram comissões centrais de greve. Depois de 15 dias de negociação, foi criado o Comitê Intersindical de Greve, e os trabalhadores avisaram que não voltariam às fábricas se algum companheiro fosse demitido. O DOPS, a polícia política de São Paulo, declarou a greve ilegal com base na Lei 9.070, do governo Dutra, mas o movimento ganhou força no interior e recebeu a solidariedade de estudantes e de médicos. (Silva, O movimento da copa e cozinha, p. 7; Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 23 do PDF)
O acordo e o Pacto de Unidade Intersindical
Os patrões ofereceram 20% de aumento, a Delegacia Regional do Trabalho subiu a proposta para 23% e o Tribunal Regional do Trabalho chegou a 28%, e os operários recusaram as três propostas. Quando o movimento começou a rachar e alguns sindicatos falaram em negociar, o Comitê aceitou um acordo de 33%, com liberdade para os presos, aumento também para quem não fez greve, pagamento dos dias parados e nenhuma punição aos grevistas. Segundo Parés, a greve durou 29 dias, envolveu 300 mil trabalhadores e, em algumas categorias, o aumento chegou a 75%. (Parés, História do movimento sindical no Brasil, pp. 22 e 23 do PDF)
Do movimento nasceu o Pacto de Unidade Intersindical (PUI), uma articulação de sindicatos de várias categorias, criada fora da estrutura sindical oficial. Parés registra que o Comando Geral de Greve se transformou numa Comissão Intersindical e que, no PUI, comunistas e governistas, os sindicalistas ligados ao governo, dividiam a liderança. (Parés, História do movimento sindical no Brasil, pp. 22 e 23 do PDF)
A greve e o Ministério do Trabalho
No 1º de maio de 1953, em Volta Redonda, Nelson Rustici falou diante de Vargas em nome dos trabalhadores de São Paulo e disse que a greve não teria ocorrido se o Ministério do Trabalho tivesse agido de outro modo, segundo o jornal Última Hora citado por Sukman. Para Sukman, a greve dos 300 mil encerrou na prática a gestão do ministro do Trabalho Segadas Viana, cuja política anticomunista combinava cooptação, controle e repressão. Em junho, em meio à greve dos marítimos, João Goulart foi nomeado ministro do Trabalho no lugar de Viana. (Sukman, O novo trabalhismo, pp. 1 e 2)
Partido, comissões de fábrica ou base
Em julho de 1953, Luiz Carlos Prestes, na revista Problemas, apontou as grandes greves de São Paulo como prova de que o povo não aceitava a política de fome e de preparação para a guerra do governo Vargas. Sukman registra que a greve foi vista como o símbolo da volta dos comunistas à atividade sindical oficial, depois de cerca de cinco anos de afastamento. (Prestes, União para salvar o Brasil da guerra e da ruína, § 2 da página do MIA; Sukman, O novo trabalhismo, p. 1)
O historiador Joel Wolfe, resumido por Oliver Dinius, deu o peso decisivo às comissões de fábrica e ao ativismo independente das operárias têxteis. Para Wolfe, o movimento operário paulista sofreu sempre uma divisão entre a direção oficial dos sindicatos e a base, e os ativistas de base só tomaram os sindicatos nos anos 1950, quando criaram o movimento unificado que sustentou a greve. Murilo Leal, citado por Silva, encontrou nos dossiês do DOPS uma rede de comissões de greve que cuidava de assistência médica, assistência social e piquetes, com intensa participação dos operários de base. (Dinius, Resenha de Working women, working men, de Joel Wolfe, pp. 221 e 222; Silva, O movimento da copa e cozinha, p. 7)
Parés lê a história da classe operária como parte da luta de classes no capitalismo e da sua transformação em socialismo. Para ele, o PUI e o Pacto de Unidade e Ação, que viria depois, nasceram de comissões de fábrica e de comandos de greve, mas logo passaram a ser dirigidos por lideranças de federações e sindicatos e perderam a sua penetração na base do movimento. (Parés, História do movimento sindical no Brasil, pp. 1 e 23 do PDF)
O que se reivindicava
- Aumento de 60% nos salários (Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 23 do PDF)
- Medidas do governo para baixar os preços dos gêneros alimentícios (Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 23 do PDF)
- Nenhuma demissão de grevistas (Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 23 do PDF)