Leitura marxista
Quem estava de cada lado
Os boletins de 12 de agosto de 1798
Na manhã de domingo, 12 de agosto de 1798, apareceram em locais públicos de Salvador boletins escritos à mão, os pasquins, que chamavam a população para uma revolução que implantaria a República Bahinense. Segundo Patrícia Valim, o boletim intitulado Aviso dizia que 676 pessoas apoiavam o movimento, que queria acabar com o domínio português e com a cobrança abusiva de impostos. Outro anunciava o tempo em que todos seriam irmãos e iguais, e um terceiro prometia a cada soldado um pagamento de 200 réis por dia. (Valim, Da contestação à conversão, p. 14; Lose e Santos, Uma análise diplomático-paleográfica no Brasil setecentista, p. 152)
Alícia Duhá Lose e Libânia da Silva Santos, que estudaram os boletins guardados no Arquivo Público do Estado da Bahia, contam entre as reivindicações o fim dos impostos pesados, a abertura dos portos ao comércio, a liberdade para todos e a igualdade de direitos. Para elas, os boletins pediam uma república com os ideais franceses de liberdade, igualdade e fraternidade. João José Reis acrescenta que o programa incluía o fim da escravidão. (Lose e Santos, Uma análise diplomático-paleográfica no Brasil setecentista, pp. 147 e 152; Reis, Quilombos e revoltas escravas no Brasil, p. 27)
Quem conspirou
Reis escreve que a conspiração teve à frente homens pardos livres e libertos, os ex-escravos, sobretudo artesãos e soldados, com a participação de alguns escravizados. Lose e Santos descrevem uma união de soldados, alfaiates, escravos, militares de patente mais alta e intelectuais contra o domínio português. Reis chama o movimento de Conspiração dos Alfaiates, e Lose e Santos, de Revolta dos Búzios. (Reis, Quilombos e revoltas escravas no Brasil, p. 27; Lose e Santos, Uma análise diplomático-paleográfica no Brasil setecentista, pp. 149 e 151)
A devassa e as execuções
No mesmo dia 12 de agosto, o governador da Bahia, d. Fernando José de Portugal e Castro, mandou abrir uma devassa, o inquérito para identificar e punir os autores dos papéis e os demais envolvidos. Em 16 de agosto, o primeiro suspeito preso foi Domingos da Silva Lisboa, homem pardo livre e alferes de milícias, cuja letra os escrivães compararam com a dos boletins. (Valim, Da contestação à conversão, p. 14; Lose e Santos, Uma análise diplomático-paleográfica no Brasil setecentista, pp. 147 e 153 a 155)
Em 8 de novembro de 1799, quatro homens foram enforcados e esquartejados na Praça da Piedade, em Salvador, condenados por conspirar contra a Coroa de Portugal. Eram os alfaiates João de Deus do Nascimento e Manuel Faustino dos Santos Lira e os soldados Lucas Dantas de Amorim Torres e Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga, homens livres, pobres e pardos. O Tribunal da Relação da Bahia chamou o movimento de Sedição dos Mulatos, e outros condenados seguiram para o degredo, a pena de exílio. (Valim, Combates pela História da Conjuração Baiana de 1798, p. 22; Valim, Da contestação à conversão, p. 16)
Valim mostra que frei José do Monte Carmelo, prior que acompanhou os condenados, deixou no seu relato a sugestão de que eles não foram os únicos culpados. Valim lê nesse relato a sugestão de que o poder local foi iníquo ao delimitar quem tinha participado do movimento. (Valim, Da contestação à conversão, pp. 14 e 15)
Como os historiadores leram a conjuração
Segundo Valim, a historiografia do século XIX tratou o movimento como uma anomalia social abortada pelas autoridades. Autores como Varnhagen usaram a condição dos enforcados para dizer que uma república pensada por gente de fora da política estava fracassada de antemão. No século XX, a conjuração passou a ser vista como a mais popular das revoltas anteriores à Independência. (Valim, Combates pela História da Conjuração Baiana de 1798, pp. 21 e 24)
Caio Prado Júnior tratou do tema em Evolução política do Brasil, de 1933, e, segundo Valim, viu nas ideias revolucionárias de Cipriano Barata, de quem traçou uma biografia no livro, a contradição interna da colonização portuguesa no fim do século XVIII. Affonso Ruy, apoiado nas teses do PCB, chamou o evento de primeira revolução social brasileira, uma revolução burguesa fracassada em que a elite baiana teria doutrinado os alfaiates e soldados pobres. Valim conclui que os dois puseram no centro a aliança entre homens de condições sociais diferentes e a participação política do povo como promessa para o futuro. (Valim, Combates pela História da Conjuração Baiana de 1798, pp. 25 a 29)
O que se reivindicava
- República Bahinense, sem o domínio português (Valim, Da contestação à conversão, p. 14)
- Fim da cobrança abusiva de impostos (Lose e Santos, Uma análise diplomático-paleográfica no Brasil setecentista, p. 152)
- Abertura dos portos e incentivo ao comércio (Lose e Santos, Uma análise diplomático-paleográfica no Brasil setecentista, p. 152)
- Liberdade e igualdade de direitos para a população (Lose e Santos, Uma análise diplomático-paleográfica no Brasil setecentista, p. 152)
- Soldo de 200 réis por dia para cada soldado (Lose e Santos, Uma análise diplomático-paleográfica no Brasil setecentista, p. 152 (boletim do APEB, Seção Colonial, nº 576/04))
- Fim da escravidão, segundo João José Reis (Reis, Quilombos e revoltas escravas no Brasil, p. 27)