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Luta de classes

Conjuração Baiana

1798–1799 · Salvador, capitania da Bahia

A Conjuração Baiana foi uma conspiração de 1798, em Salvador, por uma República Bahinense sem o domínio português e sem os impostos pesados, com liberdade e igualdade de direitos. Teve à frente artesãos e soldados pardos, livres e libertos, com alguns escravizados, e o fim da escravidão no programa, segundo João José Reis. Em 1799, a Coroa enforcou dois alfaiates e dois soldados.

Quando
de 12/08/1798 a 08/11/1799
Onde
Salvador, capitania da Bahia
Quem lutou
Artesãos, sobretudo alfaiates; Soldados; Homens pardos livres e libertos; Alguns escravizados; Militares de patente mais alta e intelectuais
Contra quem
Coroa portuguesa; Governo da capitania da Bahia; Tribunal da Relação da Bahia
Desfecho
A devassa prendeu os suspeitos, e em 8 de novembro de 1799 dois alfaiates e dois soldados pardos foram enforcados em Salvador; outros condenados foram para o degredo.

Como aconteceu

Conjuração Baiana, 1798–1799

  1. 12/08/1798Boletins afixados em Salvador chamam para a República Bahinense, e o governador manda abrir a investigação.Valim, Da contestação à conversão, p. 14
  2. 16/08/1798Domingos da Silva Lisboa é o primeiro suspeito preso.Lose e Santos, Uma análise diplomático-paleográfica no Brasil setecentista, p. 153
  3. 1799O Tribunal da Relação da Bahia julga o movimento como Sedição dos Mulatos.Valim, Combates pela História da Conjuração Baiana de 1798, p. 22
  4. 08/11/1799Quatro condenados são enforcados na Praça da Piedade.Valim, Combates pela História da Conjuração Baiana de 1798, p. 22

Leitura marxista

Quem estava de cada lado

Os boletins de 12 de agosto de 1798

Na manhã de domingo, 12 de agosto de 1798, apareceram em locais públicos de Salvador boletins escritos à mão, os pasquins, que chamavam a população para uma revolução que implantaria a República Bahinense. Segundo Patrícia Valim, o boletim intitulado Aviso dizia que 676 pessoas apoiavam o movimento, que queria acabar com o domínio português e com a cobrança abusiva de impostos. Outro anunciava o tempo em que todos seriam irmãos e iguais, e um terceiro prometia a cada soldado um pagamento de 200 réis por dia. (Valim, Da contestação à conversão, p. 14; Lose e Santos, Uma análise diplomático-paleográfica no Brasil setecentista, p. 152)

Alícia Duhá Lose e Libânia da Silva Santos, que estudaram os boletins guardados no Arquivo Público do Estado da Bahia, contam entre as reivindicações o fim dos impostos pesados, a abertura dos portos ao comércio, a liberdade para todos e a igualdade de direitos. Para elas, os boletins pediam uma república com os ideais franceses de liberdade, igualdade e fraternidade. João José Reis acrescenta que o programa incluía o fim da escravidão. (Lose e Santos, Uma análise diplomático-paleográfica no Brasil setecentista, pp. 147 e 152; Reis, Quilombos e revoltas escravas no Brasil, p. 27)

Quem conspirou

Reis escreve que a conspiração teve à frente homens pardos livres e libertos, os ex-escravos, sobretudo artesãos e soldados, com a participação de alguns escravizados. Lose e Santos descrevem uma união de soldados, alfaiates, escravos, militares de patente mais alta e intelectuais contra o domínio português. Reis chama o movimento de Conspiração dos Alfaiates, e Lose e Santos, de Revolta dos Búzios. (Reis, Quilombos e revoltas escravas no Brasil, p. 27; Lose e Santos, Uma análise diplomático-paleográfica no Brasil setecentista, pp. 149 e 151)

A devassa e as execuções

No mesmo dia 12 de agosto, o governador da Bahia, d. Fernando José de Portugal e Castro, mandou abrir uma devassa, o inquérito para identificar e punir os autores dos papéis e os demais envolvidos. Em 16 de agosto, o primeiro suspeito preso foi Domingos da Silva Lisboa, homem pardo livre e alferes de milícias, cuja letra os escrivães compararam com a dos boletins. (Valim, Da contestação à conversão, p. 14; Lose e Santos, Uma análise diplomático-paleográfica no Brasil setecentista, pp. 147 e 153 a 155)

Em 8 de novembro de 1799, quatro homens foram enforcados e esquartejados na Praça da Piedade, em Salvador, condenados por conspirar contra a Coroa de Portugal. Eram os alfaiates João de Deus do Nascimento e Manuel Faustino dos Santos Lira e os soldados Lucas Dantas de Amorim Torres e Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga, homens livres, pobres e pardos. O Tribunal da Relação da Bahia chamou o movimento de Sedição dos Mulatos, e outros condenados seguiram para o degredo, a pena de exílio. (Valim, Combates pela História da Conjuração Baiana de 1798, p. 22; Valim, Da contestação à conversão, p. 16)

Valim mostra que frei José do Monte Carmelo, prior que acompanhou os condenados, deixou no seu relato a sugestão de que eles não foram os únicos culpados. Valim lê nesse relato a sugestão de que o poder local foi iníquo ao delimitar quem tinha participado do movimento. (Valim, Da contestação à conversão, pp. 14 e 15)

Como os historiadores leram a conjuração

Segundo Valim, a historiografia do século XIX tratou o movimento como uma anomalia social abortada pelas autoridades. Autores como Varnhagen usaram a condição dos enforcados para dizer que uma república pensada por gente de fora da política estava fracassada de antemão. No século XX, a conjuração passou a ser vista como a mais popular das revoltas anteriores à Independência. (Valim, Combates pela História da Conjuração Baiana de 1798, pp. 21 e 24)

Caio Prado Júnior tratou do tema em Evolução política do Brasil, de 1933, e, segundo Valim, viu nas ideias revolucionárias de Cipriano Barata, de quem traçou uma biografia no livro, a contradição interna da colonização portuguesa no fim do século XVIII. Affonso Ruy, apoiado nas teses do PCB, chamou o evento de primeira revolução social brasileira, uma revolução burguesa fracassada em que a elite baiana teria doutrinado os alfaiates e soldados pobres. Valim conclui que os dois puseram no centro a aliança entre homens de condições sociais diferentes e a participação política do povo como promessa para o futuro. (Valim, Combates pela História da Conjuração Baiana de 1798, pp. 25 a 29)

O que se reivindicava

Para se aprofundar

Principal
Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (23)

Fontes desta página

  1. VALIM, Patrícia. Da contestação à conversão: a punição exemplar dos réus da Conjuração Baiana de 1798. Rio de Janeiro: Topoi, v. 10, n. 18, pp. 14-23, janeiro a junho de 2009, 2009. Abrir ↗
  2. LOSE, Alícia Duhá; SANTOS, Libânia da Silva. Uma análise diplomático-paleográfica no Brasil setecentista: quem escreveu os pasquins sediciosos da Conjuração Baiana? Rio de Janeiro: LaborHistórico (UFRJ), v. 7, n. 3, pp. 146-184, setembro a dezembro de 2021, 2021. Abrir ↗
  3. REIS, João José. Quilombos e revoltas escravas no Brasil. São Paulo: Revista USP, n. 28, dossiê Povo negro, 300 anos, pp. 14-39, dezembro de 1995 a fevereiro de 1996, 1996. Abrir ↗
  4. VALIM, Patrícia. Combates pela História da Conjuração Baiana de 1798: idéias de crise e revolução no século XX. Campinas: História Social (IFCH, Unicamp), n. 17, segundo semestre de 2009, 2009. Abrir ↗
  5. Patrícia Valim. Da contestação à conversão: a punição exemplar dos réus da Conjuração Baiana de 1798 (Topoi, v. 10, n. 18, 2009), no SciELO. scielo.br. Abrir ↗
  6. Patrícia Valim. Combates pela História da Conjuração Baiana de 1798 (História Social, n. 17, 2009). ojs.ifch.unicamp.br. Abrir ↗
  7. Alícia Duhá Lose e Libânia da Silva Santos. Uma análise diplomático-paleográfica no Brasil setecentista (LaborHistórico, v. 7, n. 3, 2021). revistas.ufrj.br. Abrir ↗
  8. João José Reis. Quilombos e revoltas escravas no Brasil (Revista USP, n. 28, 1996). revistas.usp.br. Abrir ↗