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Estudos / História do Brasil / Lutas de classes / República Oligárquica / Guerra de Canudos

Luta de classes · comunidade camponesa

Guerra de Canudos

1896–1897 · Arraial de Belo Monte, às margens do rio Vaza-Barris, no sertão da Bahia

Em 1893, Antônio Conselheiro fundou no sertão da Bahia o arraial de Belo Monte, ou Canudos, onde milhares de sertanejos pobres viveram num regime comunal. Entre 1896 e 1897, quatro expedições foram enviadas contra o arraial, destruído pelo Exército com mais de 20 mil mortos, segundo o CPDOC. Para Clóvis Moura, Canudos foi uma luta dos camponeses contra o latifúndio.

Quando
de 11/1896 a 10/1897
Onde
Arraial de Belo Monte, às margens do rio Vaza-Barris, no sertão da Bahia
Quem lutou
Camponeses pobres do sertão, segundo Moura; Andarilhos, ex-escravos, jagunços e vítimas da seca, segundo o CPDOC; Migrantes do Nordeste, de Minas Gerais e de São Paulo
Contra quem
Fazendeiros da região, segundo Moura; Polícia da Bahia; Exército e governo federal de Prudente de Morais
Organizações
Guarda Católica, ou Companhia do Bom Jesus, comandada por João Abade
Desfecho
Em outubro de 1897, a quarta expedição do Exército venceu e incendiou o arraial, com mais de 20 mil mortos, segundo o CPDOC. Para Moura, os grandes proprietários de terras saíram vitoriosos.

Como aconteceu

Guerra de Canudos, 1896–1897

  1. 1893Antônio Conselheiro funda o arraial de Belo Monte numa fazenda abandonada.Eduardo Junqueira (CPDOC/FGV), GUERRA DE CANUDOS, seção Antônio Conselheiro
  2. 11/1896Começa a Guerra de Canudos, no interior da Bahia.Alice Beatriz da Silva Gordo Lang (CPDOC/FGV), MORAIS, Prudente de, seção Presidente da República
  3. 1897No início do ano, a terceira expedição é derrotada e o coronel Moreira César morre.Eduardo Junqueira (CPDOC/FGV), GUERRA DE CANUDOS, seção A campanha
  4. 03/1897Euclides da Cunha compara os conselheiristas aos camponeses da Vendeia em dois artigos.Eduardo Junqueira (CPDOC/FGV), GUERRA DE CANUDOS, seção A campanha
  5. 10/1897A quarta expedição vence e incendeia o arraial.Eduardo Junqueira (CPDOC/FGV), GUERRA DE CANUDOS, seção A campanha
  6. 1902Euclides da Cunha lança Os sertões.Eduardo Junqueira (CPDOC/FGV), GUERRA DE CANUDOS, seção Antônio Conselheiro

Leitura marxista

Quem estava de cada lado

O arraial de Belo Monte

Segundo Clóvis Moura, Antônio Conselheiro pregava pela Bahia e por Sergipe desde 1874 e, em 1893, se fixou numa fazenda abandonada desde 1891, onde fundou o arraial de Belo Monte, depois conhecido como Canudos. O verbete do CPDOC situa a fazenda às margens do rio Vaza-Barris, no interior da Bahia, e conta que chegaram andarilhos, ex-escravos, jagunços e vítimas da seca. Supõe-se que cerca de 30 mil pessoas viveram ali, número próximo do que dá o Arquivo Nacional. Moura acrescenta que vieram pessoas do Ceará, de Pernambuco, de Alagoas, de Minas Gerais e de São Paulo. (Moura, O significado político da Guerra de Canudos, § 12; Eduardo Junqueira (CPDOC/FGV), GUERRA DE CANUDOS, seção Antônio Conselheiro; Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 14)

Moura conta que o arraial cresceu ocupando terras vizinhas abandonadas e que Antônio Vilanova, um dos seus líderes, dava aos sertanejos que chegavam terra para plantar feijão, mandioca, cana e batata. Havia criação de gado, curtumes que exportavam couro, oficinas que faziam machados, facas e foices, uma escola e um comércio ativo. Para Moura, ali se desenvolvia uma economia comunitária, que distribuía a produção melhor do que o latifúndio da região, baseado na exploração dos camponeses, e por isso os fazendeiros temiam e odiavam Canudos. A defesa ficava com a Guarda Católica, de cerca de seiscentos homens, comandada por João Abade. (Moura, O significado político da Guerra de Canudos, §§ 13, 18 e 20 a 22)

Quatro expedições contra o arraial

A guerra começou em novembro de 1896, e o CPDOC aponta como motivos do movimento a contestação do regime e do valor dos impostos e as condições precárias de vida do povo. O primeiro choque nasceu de um desacordo com comerciantes de Juazeiro, que não entregaram na data combinada os materiais para a construção de uma igreja. Quando os moradores marcharam para cobrar a entrega, a polícia baiana os interceptou e foi derrotada, e a tropa seguinte, do major Febrônio de Brito, também foi rechaçada. (Alice Beatriz da Silva Gordo Lang (CPDOC/FGV), MORAIS, Prudente de, seção Presidente da República; Eduardo Junqueira (CPDOC/FGV), GUERRA DE CANUDOS, seção A campanha)

No início de 1897, a terceira expedição, só com tropas do Exército, foi derrotada, e o seu comandante, o coronel Antônio Moreira César, morreu em Canudos. A derrota espalhou a versão de que o arraial tramava a volta da monarquia, e Moura registra que um monarquista foi assassinado no Rio de Janeiro e que jornais monarquistas foram depredados. O próprio Euclides da Cunha publicou em março daquele ano dois artigos que comparavam os seguidores do Conselheiro aos camponeses da Vendeia, que em 1793 lutaram contra a Revolução Francesa. (Eduardo Junqueira (CPDOC/FGV), GUERRA DE CANUDOS, seção A campanha; Moura, O significado político da Guerra de Canudos, § 29)

Moura soma as forças enviadas contra o arraial, com 100 soldados na primeira expedição, 600 na segunda, 1.200 na terceira e cerca de 10 mil na quarta. Ele registra também que mulheres feitas prisioneiras foram degoladas por soldados do Exército. Em outubro de 1897, a quarta expedição, comandada pelo general Artur Oscar de Andrade Guimarães e pelo ministro da Guerra, Carlos Machado de Bittencourt, venceu, e o CPDOC dá o saldo de mais de 20 mil mortos e do arraial incendiado. (Moura, O significado político da Guerra de Canudos, §§ 27 e 33; Eduardo Junqueira (CPDOC/FGV), GUERRA DE CANUDOS, seção A campanha)

A vitória dos donos da terra

Para Moura, os grandes proprietários de terras saíram vitoriosos, ao lado dos republicanos liberais, que mantiveram a estrutura de poder da sociedade escravista. Ele vê na guerra a prova de que a República fez um pacto com a antiga classe senhorial e conservou uma estrutura agrária herdada das sesmarias, as grandes doações de terra da Colônia. Moura põe Canudos ao lado de Palmares e da Cabanagem como os três momentos em que os oprimidos abalaram o sistema de dominação no Brasil. (Moura, O significado político da Guerra de Canudos, §§ 34 e 37)

Fanatismo ou luta pela terra

Em 1902, Euclides lançou Os sertões, livro que fez de Canudos o mais célebre dos movimentos sociais do início da República, segundo o CPDOC. Na nota preliminar, ele chamou a campanha de crime e propôs denunciá-lo. Mas Euclides, que entra aqui como contraponto, explicou o Conselheiro pelas teorias raciais do seu tempo, como um raro documento de atavismo, isto é, de volta a estágios mentais antigos, e atribuiu o misticismo dele às tendências das raças que chamava de inferiores. (Eduardo Junqueira (CPDOC/FGV), GUERRA DE CANUDOS, seção Antônio Conselheiro; Cunha, Os sertões, pp. 2 e 125)

A mesma linha apareceu em 1897, quando o médico Raimundo Nina Rodrigues, seguidor do criminologista Cesare Lombroso, mediu o crânio exumado do Conselheiro para explicar o fanatismo pelas proporções da cabeça. Moura cita esse estudo como exemplo da leitura de Canudos como doença social. (Eduardo Junqueira (CPDOC/FGV), GUERRA DE CANUDOS, seção A campanha; Moura, O significado político da Guerra de Canudos, § 4 e nota 1)

Em 1952, Moura escreveu que Euclides partiu de autores como Spencer, Lombroso e Comte, mas se guiou mais pela realidade do sertão, onde viu o latifúndio produzindo miséria e uma massa camponesa sem terra. Para ele, Os sertões foi uma acusação contra a repressão do governo de Prudente de Morais, que tratava as questões sociais como caso de polícia. (Moura, Sobre o cinquentenário de Os Sertões, §§ 5, 12 e 26)

Em 1993, Moura criticou os estudos que tratam Canudos como movimento de fanáticos, messiânico e pré-político, isto é, sem programa político próprio, porque deixam de fora o protesto social dos camponeses. Ele recusa o conceito de pré-político, do historiador Hobsbawm, por considerá-lo eurocêntrico e elitista, e afirma que Canudos foi um movimento político. Nelson Werneck Sodré também lê, sob o manto do fanatismo religioso, a luta dos sem-terra, gente desprotegida que cobria o desespero com a religião. (Moura, O significado político da Guerra de Canudos, §§ 3 a 5 e 10; Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 309)

Octávio Brandão via em 1926 um Brasil de traços medievais, com o coronel no papel de barão feudal, e pôs o Conselheiro e o padre Cícero entre os heréticos desse quadro. Rui Facó, que estudou Canudos com o referencial marxista, é citado por Moura para dizer que a derrota de Moreira César espalhou pânico entre as classes dominantes do país inteiro. (Brandão, Agrarismo e industrialismo, pp. 48-49; Arquivo Marxista na Internet, Rui Facó, verbete; Moura, O significado político da Guerra de Canudos, § 30)

Para se aprofundar

Principal
  • MOURA, Clóvis. O significado político da Guerra de Canudos. 1993. Onde ler: §§ 3 a 5, 10, 12 a 22, 27, 29, 30, 33, 34 e 37.

    “Desenvolvia-se assim uma economia comunitária e alternativa que era bem superior nas suas relações sociais e distribuição da produção àquela latifundiária, baseada na exploração camponesa do resto da região.”

    § 21

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Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (39)

Fontes desta página

  1. MOURA, Clóvis. O significado político da Guerra de Canudos. 1993. Abrir ↗
  2. Eduardo Junqueira (CPDOC/FGV). GUERRA DE CANUDOS (verbete do Dicionário da Primeira República (CPDOC/FGV)). cpdoc.fgv.br. Abrir ↗
  3. Arquivo Nacional. Os presidentes e a República: Deodoro da Fonseca a Dilma Rousseff, 3. ed. rev. e ampl. (2012). gov.br. Abrir ↗
  4. Alice Beatriz da Silva Gordo Lang (CPDOC/FGV). MORAIS, Prudente de (verbete do Dicionário da Primeira República). cpdoc.fgv.br. Abrir ↗
  5. CUNHA, Euclides da. Os sertões. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais (Biblioteca Virtual de Ciências Humanas; SciELO Livros), 516 pp., 2010. Abrir ↗
  6. MOURA, Clóvis. Sobre o cinquentenário de Os Sertões. 1952. Abrir ↗
  7. SODRÉ, Nelson Werneck. Formação histórica do Brasil. 1962. Abrir ↗
  8. BRANDÃO, Octávio. Agrarismo e industrialismo: ensaio marxista-leninista sobre a revolta de São Paulo e a guerra de classes no Brasil, 1924. São Paulo: Anita Garibaldi, 2006. Abrir ↗
  9. Arquivo Marxista na Internet. Rui Facó (verbete do Dicionário Político do MIA). marxists.org. Abrir ↗
  10. Clóvis Moura. O significado político da Guerra de Canudos (Princípios, n. 30, 1993), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  11. Octávio Brandão. Agrarismo e industrialismo (PDF da 2. ed., Anita Garibaldi, 2006). marxists.org. Abrir ↗
  12. Euclides da Cunha. Os sertões (Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2010), no SciELO Livros. static.scielo.org. Abrir ↗
  13. Clóvis Moura. Sobre o cinquentenário de Os Sertões (Fundamentos, n. 28, 1952), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  14. Nelson Werneck Sodré. Formação histórica do Brasil (PDF digitalizado da edição Brasiliense, com marca da Biblioteca Nacional). marxists.org. Abrir ↗