Leitura marxista
Quem estava de cada lado
O arraial de Belo Monte
Segundo Clóvis Moura, Antônio Conselheiro pregava pela Bahia e por Sergipe desde 1874 e, em 1893, se fixou numa fazenda abandonada desde 1891, onde fundou o arraial de Belo Monte, depois conhecido como Canudos. O verbete do CPDOC situa a fazenda às margens do rio Vaza-Barris, no interior da Bahia, e conta que chegaram andarilhos, ex-escravos, jagunços e vítimas da seca. Supõe-se que cerca de 30 mil pessoas viveram ali, número próximo do que dá o Arquivo Nacional. Moura acrescenta que vieram pessoas do Ceará, de Pernambuco, de Alagoas, de Minas Gerais e de São Paulo. (Moura, O significado político da Guerra de Canudos, § 12; Eduardo Junqueira (CPDOC/FGV), GUERRA DE CANUDOS, seção Antônio Conselheiro; Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 14)
Moura conta que o arraial cresceu ocupando terras vizinhas abandonadas e que Antônio Vilanova, um dos seus líderes, dava aos sertanejos que chegavam terra para plantar feijão, mandioca, cana e batata. Havia criação de gado, curtumes que exportavam couro, oficinas que faziam machados, facas e foices, uma escola e um comércio ativo. Para Moura, ali se desenvolvia uma economia comunitária, que distribuía a produção melhor do que o latifúndio da região, baseado na exploração dos camponeses, e por isso os fazendeiros temiam e odiavam Canudos. A defesa ficava com a Guarda Católica, de cerca de seiscentos homens, comandada por João Abade. (Moura, O significado político da Guerra de Canudos, §§ 13, 18 e 20 a 22)
Quatro expedições contra o arraial
A guerra começou em novembro de 1896, e o CPDOC aponta como motivos do movimento a contestação do regime e do valor dos impostos e as condições precárias de vida do povo. O primeiro choque nasceu de um desacordo com comerciantes de Juazeiro, que não entregaram na data combinada os materiais para a construção de uma igreja. Quando os moradores marcharam para cobrar a entrega, a polícia baiana os interceptou e foi derrotada, e a tropa seguinte, do major Febrônio de Brito, também foi rechaçada. (Alice Beatriz da Silva Gordo Lang (CPDOC/FGV), MORAIS, Prudente de, seção Presidente da República; Eduardo Junqueira (CPDOC/FGV), GUERRA DE CANUDOS, seção A campanha)
No início de 1897, a terceira expedição, só com tropas do Exército, foi derrotada, e o seu comandante, o coronel Antônio Moreira César, morreu em Canudos. A derrota espalhou a versão de que o arraial tramava a volta da monarquia, e Moura registra que um monarquista foi assassinado no Rio de Janeiro e que jornais monarquistas foram depredados. O próprio Euclides da Cunha publicou em março daquele ano dois artigos que comparavam os seguidores do Conselheiro aos camponeses da Vendeia, que em 1793 lutaram contra a Revolução Francesa. (Eduardo Junqueira (CPDOC/FGV), GUERRA DE CANUDOS, seção A campanha; Moura, O significado político da Guerra de Canudos, § 29)
Moura soma as forças enviadas contra o arraial, com 100 soldados na primeira expedição, 600 na segunda, 1.200 na terceira e cerca de 10 mil na quarta. Ele registra também que mulheres feitas prisioneiras foram degoladas por soldados do Exército. Em outubro de 1897, a quarta expedição, comandada pelo general Artur Oscar de Andrade Guimarães e pelo ministro da Guerra, Carlos Machado de Bittencourt, venceu, e o CPDOC dá o saldo de mais de 20 mil mortos e do arraial incendiado. (Moura, O significado político da Guerra de Canudos, §§ 27 e 33; Eduardo Junqueira (CPDOC/FGV), GUERRA DE CANUDOS, seção A campanha)
A vitória dos donos da terra
Para Moura, os grandes proprietários de terras saíram vitoriosos, ao lado dos republicanos liberais, que mantiveram a estrutura de poder da sociedade escravista. Ele vê na guerra a prova de que a República fez um pacto com a antiga classe senhorial e conservou uma estrutura agrária herdada das sesmarias, as grandes doações de terra da Colônia. Moura põe Canudos ao lado de Palmares e da Cabanagem como os três momentos em que os oprimidos abalaram o sistema de dominação no Brasil. (Moura, O significado político da Guerra de Canudos, §§ 34 e 37)
Fanatismo ou luta pela terra
Em 1902, Euclides lançou Os sertões, livro que fez de Canudos o mais célebre dos movimentos sociais do início da República, segundo o CPDOC. Na nota preliminar, ele chamou a campanha de crime e propôs denunciá-lo. Mas Euclides, que entra aqui como contraponto, explicou o Conselheiro pelas teorias raciais do seu tempo, como um raro documento de atavismo, isto é, de volta a estágios mentais antigos, e atribuiu o misticismo dele às tendências das raças que chamava de inferiores. (Eduardo Junqueira (CPDOC/FGV), GUERRA DE CANUDOS, seção Antônio Conselheiro; Cunha, Os sertões, pp. 2 e 125)
A mesma linha apareceu em 1897, quando o médico Raimundo Nina Rodrigues, seguidor do criminologista Cesare Lombroso, mediu o crânio exumado do Conselheiro para explicar o fanatismo pelas proporções da cabeça. Moura cita esse estudo como exemplo da leitura de Canudos como doença social. (Eduardo Junqueira (CPDOC/FGV), GUERRA DE CANUDOS, seção A campanha; Moura, O significado político da Guerra de Canudos, § 4 e nota 1)
Em 1952, Moura escreveu que Euclides partiu de autores como Spencer, Lombroso e Comte, mas se guiou mais pela realidade do sertão, onde viu o latifúndio produzindo miséria e uma massa camponesa sem terra. Para ele, Os sertões foi uma acusação contra a repressão do governo de Prudente de Morais, que tratava as questões sociais como caso de polícia. (Moura, Sobre o cinquentenário de Os Sertões, §§ 5, 12 e 26)
Em 1993, Moura criticou os estudos que tratam Canudos como movimento de fanáticos, messiânico e pré-político, isto é, sem programa político próprio, porque deixam de fora o protesto social dos camponeses. Ele recusa o conceito de pré-político, do historiador Hobsbawm, por considerá-lo eurocêntrico e elitista, e afirma que Canudos foi um movimento político. Nelson Werneck Sodré também lê, sob o manto do fanatismo religioso, a luta dos sem-terra, gente desprotegida que cobria o desespero com a religião. (Moura, O significado político da Guerra de Canudos, §§ 3 a 5 e 10; Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 309)
Octávio Brandão via em 1926 um Brasil de traços medievais, com o coronel no papel de barão feudal, e pôs o Conselheiro e o padre Cícero entre os heréticos desse quadro. Rui Facó, que estudou Canudos com o referencial marxista, é citado por Moura para dizer que a derrota de Moreira César espalhou pânico entre as classes dominantes do país inteiro. (Brandão, Agrarismo e industrialismo, pp. 48-49; Arquivo Marxista na Internet, Rui Facó, verbete; Moura, O significado político da Guerra de Canudos, § 30)