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Estudos / História do Brasil / Lutas de classes / Ditadura empresarial-militar / Fundação do MST

Luta de classes · organização camponesa

Fundação do MST

1984 · Cascavel, no oeste do Paraná

Em janeiro de 1984, trabalhadores rurais sem terra de vários estados reuniram-se em Cascavel, no Paraná, e criaram o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), com apoio da Comissão Pastoral da Terra. O encontro veio depois de ocupações e de acampamentos como o da Encruzilhada Natalino (RS). Para Vânia Bambirra, o movimento nasceu da expulsão dos trabalhadores do campo.

Quando
de 01/1984 a 01/1984
Onde
Cascavel, no oeste do Paraná
Quem lutou
Trabalhadores rurais sem terra, entre eles parceiros, arrendatários, posseiros e filhos de pequenos produtores; Famílias acampadas na Encruzilhada Natalino, no Rio Grande do Sul; Famílias expulsas pelas obras da hidrelétrica de Itaipu, no Paraná
Contra quem
Latifundiários, que criaram nos anos 1980 a União Democrática Ruralista (UDR); Governo federal, que mandou o major Curió à Encruzilhada Natalino em 1981
Organizações
Comissão Pastoral da Terra (CPT); Comunidades Eclesiais de Base (CEBs); Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
Desfecho
O encontro de Cascavel deu início ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, que realizou o seu I Congresso Nacional em Curitiba, em 1985, e se espalhou pelo país.

Como aconteceu

Fundação do MST, 1984

  1. 30/11/1964O Estatuto da Terra define a reforma agrária.Presidência da República, Lei nº 4.504, de 30 de novembro de 1964, art. 1º, § 1º
  2. 1978Ocupações das fazendas Macali e Brilhante, no Rio Grande do Sul.Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 42 do PDF
  3. 1980Começa o acampamento da Encruzilhada Natalino, que vai até 1983.Brasil. Comissão Nacional Da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, p. 132
  4. 31/08/1981A equipe federal do major Curió deixa o acampamento.Brasil. Comissão Nacional Da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, p. 133
  5. 09/1983O governo gaúcho compra 1.870 hectares para assentar as famílias.Brasil. Comissão Nacional Da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, p. 133
  6. 01/1984Encontro Nacional em Cascavel cria o MST.Coelho, Formação do MST e luta pela terra no estado de Mato Grosso do Sul, p. 1 do PDF
  7. 1985I Congresso Nacional do MST, em Curitiba.Coelho, Formação do MST e luta pela terra no estado de Mato Grosso do Sul, p. 10 do PDF

Leitura marxista

Quem estava de cada lado

A terra depois do golpe

A Lei nº 4.504, de 30 de novembro de 1964, o Estatuto da Terra, definiu a reforma agrária como um conjunto de medidas para distribuir melhor a terra, mudando o regime da sua posse e uso. Para a marxista Vânia Bambirra, a ditadura editou essa lei para responder politicamente aos movimentos camponeses que tinha esmagado, mas o instrumento praticamente não foi usado. A partir de 1978, segundo Ernesto Germano Parés, parceiros, arrendatários, posseiros e filhos de pequenos produtores passaram a lutar pela terra, e no Paraná 10 mil famílias foram expulsas pelas obras da hidrelétrica de Itaipu. (Presidência da República, Lei nº 4.504, de 30 de novembro de 1964, art. 1º, § 1º; Bambirra, Êxodo rural e êxodo urbano, § 21 da página do MIA; Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 42 do PDF)

Do Natalino a Cascavel

No Rio Grande do Sul, 100 famílias ocuparam a fazenda Macali, em Ronda Alta, e outras 240 a fazenda Brilhante, num grupo de 1.400 famílias de posseiros que tinham de deixar uma reserva indígena, segundo Parés. A Comissão Nacional da Verdade (CNV) registra que famílias expulsas da reserva caingangue de Nonoai e vindas dessas ocupações formaram, de 1980 a 1983, o acampamento da Encruzilhada Natalino, no norte do estado. (Parés, História do movimento sindical no Brasil, p. 42 do PDF; Brasil. Comissão Nacional Da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, p. 132)

Segundo a CNV, o governo federal mandou ao acampamento o tenente-coronel Sebastião Rodrigues de Moura, conhecido como major Curió, que montou barreiras policiais, passou a controlar a distribuição de alimentos e proibiu a entrada de padres. A Comissão registra que 130 famílias foram levadas contra a vontade para um projeto de colonização em Lucas do Rio Verde (MT) e que a equipe federal saiu em 31 de agosto de 1981. As famílias que resistiram foram assentadas depois que o governo gaúcho comprou 1.870 hectares, no fim de setembro de 1983. (Brasil. Comissão Nacional Da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, pp. 132 e 133)

Parés conta que, a partir de 1981, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), ligada à Igreja Católica, promoveu encontros entre trabalhadores rurais sem terra, e que em 1984 o I Encontro Nacional dos Sem Terra, em Cascavel, no Paraná, adotou o nome de Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O historiador Fabiano Coelho registra que a criação do MST data oficialmente de janeiro de 1984, mas que a proposta de um movimento nacional vinha do fim dos anos 1970, e que o I Congresso Nacional do MST se reuniu em Curitiba, em 1985. (Parés, História do movimento sindical no Brasil, pp. 42 e 43 do PDF; Coelho, Formação do MST e luta pela terra no estado de Mato Grosso do Sul, pp. 1, 9 e 10 do PDF)

A leitura marxista

Para Bambirra, o MST nasceu da desruralização, a expulsão dos trabalhadores do campo, porque o sem-terra sabe que não terá emprego na cidade e por isso resiste em sair do campo, com acampamentos à beira das estradas e ocupações. Ela registra que em 1985 mil e quinhentas famílias acamparam na Fazenda Anoni e marcharam até Porto Alegre, e que dali o movimento se espalhou pelo país. Para a marxista Virgínia Fontes, o MST foi o movimento social de maior fôlego da década, porque se implantou desde o início em escala nacional e se dedicou cedo à educação e à formação. (Bambirra, Êxodo rural e êxodo urbano, § 27 da página do MIA; Fontes, O Brasil e o capital-imperialismo, p. 233)

Fontes registra que a reforma agrária, principal reivindicação do MST, foi vista por alguns como objetivo apenas reformista, mas sustenta que a luta por ela pôs em xeque a aliança entre grandes proprietários rurais e urbanos que marcou a expansão do capitalismo no Brasil. A CNV registra que os proprietários de terra criaram nos anos 1980 a União Democrática Ruralista (UDR) como reação armada aos movimentos pela reforma agrária. (Fontes, O Brasil e o capital-imperialismo, p. 233; Brasil. Comissão Nacional Da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, p. 97)

A Igreja e os nomes da luta

Dados da CPT citados pela CNV apontam quase mil conflitos de terra em 1980 e 1981, com mais de 250 mil famílias envolvidas. Coelho atribui à Igreja Católica, por meio dos agentes da CPT, um papel crucial na criação do MST, e um trabalhador ouvido por ele lembra que, na reunião de Cascavel, o movimento ainda era a CPT. Bambirra destaca a influência das Comunidades Eclesiais de Base e da Teologia da Libertação, que inspirava o setor progressista da Igreja, mas explica o movimento pela situação dos próprios trabalhadores. (Brasil. Comissão Nacional Da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, p. 126; Coelho, Formação do MST e luta pela terra no estado de Mato Grosso do Sul, pp. 9 a 11 do PDF; Bambirra, Êxodo rural e êxodo urbano, §§ 27 e 28 da página do MIA)

Sobre a disputa entre os nomes ocupação e invasão, Bambirra cita um líder dos sem-terra que disse que eles ocupavam terras ociosas e não estavam invadindo nada. O geógrafo Bernardo Mançano Fernandes define a ocupação como forma de luta popular de resistência do campesinato e afirma que o Estado brasileiro só apresenta políticas para atenuar a expropriação e a exploração sob intensa pressão dos trabalhadores. Ele registra que, nos seus primeiros vinte anos, o MST teve apoio da CPT, dos sindicatos de trabalhadores rurais, da Central Única dos Trabalhadores (CUT), do Partido dos Trabalhadores (PT) e de outras organizações. (Bambirra, Êxodo rural e êxodo urbano, § 60 da página do MIA; Fernandes, Movimento social como categoria geográfica, pp. 61, 62 e 65)

O que se reivindicava

Para se aprofundar

Principal
Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (24)

Fontes desta página

  1. Presidência da República. Lei nº 4.504, de 30 de novembro de 1964 (Estatuto da Terra). planalto.gov.br, 30/11/1964. Abrir ↗
  2. BAMBIRRA, Vânia. Êxodo rural e êxodo urbano: a luta pela reforma agrária no Brasil. 1997. Abrir ↗
  3. PARÉS, Ernesto Germano. História do movimento sindical no Brasil. 1990. Abrir ↗
  4. BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Relatório da Comissão Nacional da Verdade. Brasília: Comissão Nacional da Verdade (recurso eletrônico em 3 v.; o v. I tem 976 p.; v. I e II lidos nas cópias do portal gov.br/memoriasreveladas), 2014. Abrir ↗
  5. COELHO, Fabiano. Formação do MST e luta pela terra no estado de Mato Grosso do Sul. 2024. Abrir ↗
  6. FONTES, Virgínia. O Brasil e o capital-imperialismo: teoria e história. Rio de Janeiro: EPSJV/Fiocruz; Editora UFRJ (Pensamento Crítico, 15), 2010. Abrir ↗
  7. FERNANDES, Bernardo Mançano. Movimento social como categoria geográfica. 2000. Abrir ↗
  8. Ernesto Germano Parés. História do movimento sindical no Brasil (apostila, Centro de Estudos Victor Meyer). centrovictormeyer.org.br. Abrir ↗
  9. Comissão Nacional da Verdade. Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, textos temáticos (dezembro de 2014). gov.br. Abrir ↗
  10. Vânia Bambirra. Êxodo rural e êxodo urbano: a luta pela reforma agrária no Brasil (janeiro de 1997), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  11. Fabiano Coelho. Formação do MST e luta pela terra no estado de Mato Grosso do Sul (anais da ANPUH, 2024). anpuh.org.br. Abrir ↗
  12. Virgínia Fontes. O Brasil e o capital-imperialismo: teoria e história (2. ed., EPSJV/Editora UFRJ, 2010; PDF da EPSJV). epsjv.fiocruz.br. Abrir ↗
  13. Bernardo Mançano Fernandes. Movimento social como categoria geográfica (Terra Livre, n. 15, 2000). publicacoes.agb.org.br. Abrir ↗