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Estudos / História do Brasil / Lutas de classes / República Oligárquica / Coluna Prestes

Luta de classes · marcha armada

Coluna Prestes

1924–1927 · Do Rio Grande do Sul e do Paraná ao Nordeste, por cerca de 25 mil quilômetros do interior, até a Bolívia

A Coluna Prestes foi uma marcha armada de cerca de 25 mil quilômetros pelo interior do Brasil, de 1924 a 1927, formada por tenentes que se levantaram contra o governo de Artur Bernardes. No sertão, Luiz Carlos Prestes viu camponeses sem terra submetidos aos latifundiários. Para Nelson Werneck Sodré, o tenentismo foi um fenômeno de classe média, e o próprio Prestes passou ao marxismo depois da marcha.

Quando
de 29/10/1924 a 03/02/1927
Onde
Do Rio Grande do Sul e do Paraná ao Nordeste, por cerca de 25 mil quilômetros do interior, até a Bolívia
Quem lutou
Jovens oficiais do Exército, os tenentes, filhos da pequena burguesia urbana, segundo Prestes; Soldados e revolucionários civis do Rio Grande do Sul e de São Paulo
Contra quem
Governo de Artur Bernardes; Tropas federais e polícias estaduais; Cangaceiros e jagunços chefiados por Horácio de Matos e outros chefes locais
Organizações
1ª Divisão Revolucionária, sob o comando de Miguel Costa, com as brigadas Rio Grande e São Paulo
Desfecho
Em 3 de fevereiro de 1927, cerca de 620 homens entraram na Bolívia e depuseram as armas. Prestes saiu da marcha com grande prestígio popular e, no exílio, passou ao marxismo.

Como aconteceu

Coluna Prestes, 1924–1927

  1. 05/07/1924Começa em São Paulo a revolta tenentista contra Bernardes.Alzira Alves de Abreu (CPDOC/FGV), COLUNA PRESTES, seção Antecedentes
  2. 29/10/1924Levante das guarnições gaúchas, entre elas a de Santo Ângelo, comandada por Prestes.Alzira Alves de Abreu (CPDOC/FGV), COLUNA PRESTES, seção Antecedentes
  3. 27/12/1924O núcleo inicial da coluna deixa São Luís, no Rio Grande do Sul.Alzira Alves de Abreu (CPDOC/FGV), COLUNA PRESTES, seção A formação da coluna
  4. 12/04/1925Conferência com Isidoro Dias Lopes acerta o novo plano de campanha.Alzira Alves de Abreu (CPDOC/FGV), COLUNA PRESTES, seção A formação da coluna
  5. 19/10/1925Manifesto de Porto Nacional, assinado por Miguel Costa, Prestes e Juarez Távora.Miguel Costa, Luiz Carlos Prestes e Juarez Távora, Manifesto da Coluna Prestes, § 13
  6. 02/1926Manifesto Motivos e ideais da revolução.Alzira Alves de Abreu (CPDOC/FGV), COLUNA PRESTES, seção A marcha
  7. 03/02/1927Cerca de 620 homens entram na Bolívia e depõem as armas.Alzira Alves de Abreu (CPDOC/FGV), COLUNA PRESTES, seção O encerramento da marcha
  8. 12/1927Prestes recebe na Bolívia Astrojildo Pereira, emissário do Partido Comunista.Prestes, Como cheguei ao comunismo, § 23

Leitura marxista

Quem estava de cada lado

Os tenentes contra Bernardes

O verbete do CPDOC conta que, depois da eleição de Artur Bernardes, os levantes de julho de 1922 foram os primeiros movimentos armados dos tenentes, oficiais em sua maioria de baixa patente. Em 5 de julho de 1924 começou em São Paulo uma nova revolta tenentista, que queria derrubar Bernardes. Os revoltosos falavam em nome dos interesses nacionais e defendiam o voto secreto, o combate à corrupção e à fraude eleitoral, a liberdade de imprensa e a limitação dos poderes do presidente. (Alzira Alves de Abreu (CPDOC/FGV), COLUNA PRESTES, seção Antecedentes)

Em 29 de outubro de 1924, por ordem do general Isidoro Dias Lopes, chefe da revolta paulista, levantaram-se unidades do Exército no Rio Grande do Sul, entre elas a de Santo Ângelo, comandada pelo capitão Luiz Carlos Prestes. O manifesto de Santo Ângelo pedia o voto secreto, o confisco das fortunas feitas por membros do governo com o dinheiro público e a libertação dos oficiais presos em 1922. Ele dizia também que era preciso recuperar o dinheiro desviado para evitar que, em 1927, o governo inglês tomasse as alfândegas brasileiras para cobrar a dívida externa. (Luiz Carlos Prestes, Manifesto de Santo Ângelo, §§ 3, 4, 8 e 9; Alzira Alves de Abreu (CPDOC/FGV), COLUNA PRESTES, seção Antecedentes)

A marcha

Prestes contou em 1973 que os gaúchos se uniram às forças de São Paulo numa coluna de pouco mais de mil homens, mal armados, cujo propósito era atrair as forças do governo para que os colegas da capital pudessem depor o presidente. Segundo ele, a coluna não tinha outro objetivo político ou social claro. O CPDOC registra que, em abril de 1925, no Paraná, as tropas formaram a 1ª Divisão Revolucionária, sob o comando de Miguel Costa, com a brigada de Prestes, de cerca de oitocentos homens, e a de Juarez Távora, de cerca de setecentos. (Prestes, Como cheguei ao comunismo, § 14; Alzira Alves de Abreu (CPDOC/FGV), COLUNA PRESTES, seção A formação da coluna)

Em 29 de abril de 1925, a coluna atravessou o rio Paraná e seguiu por Mato Grosso, Goiás, Maranhão, Piauí, Ceará e outros estados do Nordeste, até a Bahia e Minas Gerais. Prestes descreve uma guerra de movimento, com marchas rápidas e ataques de surpresa, contra forças dez e vinte vezes maiores, do governo federal, dos estados e de caudilhos locais. Em fevereiro de 1926, segundo o CPDOC, três colunas do governo, com 15 mil homens, tentaram cercá-la em Pernambuco, e na Bahia ela enfrentou também cangaceiros e jagunços chefiados por Horácio de Matos e outros chefes locais. (Alzira Alves de Abreu (CPDOC/FGV), COLUNA PRESTES, seção A marcha; Prestes, Como cheguei ao comunismo, § 15)

No mesmo mês, Prestes e Miguel Costa lançaram o manifesto Motivos e ideais da revolução, contra os impostos exorbitantes, a desonestidade administrativa, a mentira do voto e a censura à imprensa. O texto defendia o ensino primário gratuito, o ensino técnico, a liberdade de pensamento e o voto secreto e obrigatório. O manifesto anterior, assinado em Porto Nacional em outubro de 1925, pedia a volta do país aos princípios liberais da Constituição. (Alzira Alves de Abreu (CPDOC/FGV), COLUNA PRESTES, seção A marcha; Miguel Costa, Luiz Carlos Prestes e Juarez Távora, Manifesto da Coluna Prestes, §§ 3 e 13-14)

O sertão visto de perto

Prestes conta que os revoltosos, filhos da pequena burguesia urbana, se surpreenderam com a miséria de uma população explorada por uma minoria dona da terra. Eles viram camponeses sem um palmo de terra, obrigados a viver nas terras dos grandes proprietários, e autoridades locais aparentadas aos latifundiários. Ao longo dos 25 mil quilômetros percorridos, concluíram que esses problemas não se resolveriam com a troca de homens na presidência. Para ele, os camponeses simpatizavam com a coluna, mas, salvo raras exceções, não se juntaram a ela, porque não tinham a consciência política que os próprios tenentes eram incapazes de lhes transmitir. (Prestes, Como cheguei ao comunismo, §§ 16, 17 e 19)

O fim da marcha

No fim de 1926, segundo Prestes, os chefes compreenderam a inutilidade do esforço, porque as consequências da luta caíam sobre a parte mais pobre da população. Em 3 de fevereiro de 1927, cerca de 620 homens entraram na Bolívia e depuseram as armas, depois de percorrer 11 estados e cerca de 25 mil quilômetros, e Prestes saiu da marcha com grande prestígio popular. Em dezembro de 1927, ele recebeu na Bolívia Astrojildo Pereira, emissário do Partido Comunista, e em 1928, em Buenos Aires, a leitura de O Estado e a revolução, de Lênin, o levou a rever a ideia do Estado acima das classes. (Prestes, Como cheguei ao comunismo, §§ 19 e 23 a 25; Alzira Alves de Abreu (CPDOC/FGV), COLUNA PRESTES, seção O encerramento da marcha)

Classe média, liberalismo ou luta contra o latifúndio

Nelson Werneck Sodré viu no tenentismo um fenômeno típico da classe média, que achava que bastava trocar os homens no poder, via na corrupção o vício principal de um regime em si bom e não enxergava a aliança dos senhores de terras com o imperialismo. Para ele, a popularidade dos tenentes era um sintoma importante, que quase ninguém percebeu. Octávio Brandão leu a revolta de 1924 como a luta do pequeno-burguês Isidoro, manobrado pela burguesia industrial, contra Bernardes, representante dos grandes proprietários rurais. (Sodré, Formação histórica do Brasil, pp. 320-321; Brandão, Agrarismo e industrialismo, pp. 138-139)

A historiadora Anita Leocádia Prestes, em entrevista ao Brasil de Fato, descreve o tenentismo como um movimento liberal, cujas palavras de ordem não tocavam a população rural, e conta a marcha a partir de 1924, no Rio Grande do Sul, enquanto o CPDOC a faz começar em abril de 1925. O próprio Prestes, já comunista, escreveu em 1973 que a coluna, mesmo sem programa claro, foi a primeira manifestação concreta da luta do povo contra o poder central e, portanto, contra o latifúndio e o imperialismo. (Walmaro Paz (Brasil de Fato), Cem anos da Coluna Prestes, uma epopeia brasileira, seções Um movimento liberal e abertura da reportagem; Alzira Alves de Abreu (CPDOC/FGV), COLUNA PRESTES, abertura do verbete; Prestes, Como cheguei ao comunismo, § 20)

O que se reivindicava

Para se aprofundar

Principal
  • PRESTES, Luiz Carlos. Como cheguei ao comunismo. 1973. Onde ler: §§ 14 a 17, 19 a 21 e 23 a 25.

    “Descobrimos rapidamente que no Brasil, rico e imenso, uma parte considerável dos camponeses não possuía um palmo de terra, via-se obrigada a viver nas terras dos grandes proprietários, submetida a seu arbítrio e sem ter a quem apelar”

    § 16

    Ler grátis: Como cheguei ao comunismo ↗

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (33)

Fontes desta página

  1. Alzira Alves de Abreu (CPDOC/FGV). COLUNA PRESTES (verbete do Dicionário da Primeira República (CPDOC/FGV)). cpdoc.fgv.br. Abrir ↗
  2. Luiz Carlos Prestes. Manifesto de Santo Ângelo (29 de outubro de 1924), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  3. PRESTES, Luiz Carlos. Como cheguei ao comunismo. 1973. Abrir ↗
  4. Miguel Costa, Luiz Carlos Prestes e Juarez Távora. Manifesto da Coluna Prestes (Porto Nacional, 19 de outubro de 1925), no MIA. marxists.org, 19/10/1925. Abrir ↗
  5. SODRÉ, Nelson Werneck. Formação histórica do Brasil. 1962. Abrir ↗
  6. BRANDÃO, Octávio. Agrarismo e industrialismo: ensaio marxista-leninista sobre a revolta de São Paulo e a guerra de classes no Brasil, 1924. São Paulo: Anita Garibaldi, 2006. Abrir ↗
  7. Walmaro Paz (Brasil de Fato). Cem anos da Coluna Prestes, uma epopeia brasileira (Brasil de Fato, 5 de setembro de 2024). brasildefato.com.br, 05/09/2024. Abrir ↗
  8. Luiz Carlos Prestes. Como cheguei ao comunismo (1973), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  9. Octávio Brandão. Agrarismo e industrialismo (PDF da 2. ed., Anita Garibaldi, 2006). marxists.org. Abrir ↗
  10. Nelson Werneck Sodré. Formação histórica do Brasil (PDF digitalizado da edição Brasiliense, com marca da Biblioteca Nacional). marxists.org. Abrir ↗