Leitura marxista
Quem estava de cada lado
Os tenentes contra Bernardes
O verbete do CPDOC conta que, depois da eleição de Artur Bernardes, os levantes de julho de 1922 foram os primeiros movimentos armados dos tenentes, oficiais em sua maioria de baixa patente. Em 5 de julho de 1924 começou em São Paulo uma nova revolta tenentista, que queria derrubar Bernardes. Os revoltosos falavam em nome dos interesses nacionais e defendiam o voto secreto, o combate à corrupção e à fraude eleitoral, a liberdade de imprensa e a limitação dos poderes do presidente. (Alzira Alves de Abreu (CPDOC/FGV), COLUNA PRESTES, seção Antecedentes)
Em 29 de outubro de 1924, por ordem do general Isidoro Dias Lopes, chefe da revolta paulista, levantaram-se unidades do Exército no Rio Grande do Sul, entre elas a de Santo Ângelo, comandada pelo capitão Luiz Carlos Prestes. O manifesto de Santo Ângelo pedia o voto secreto, o confisco das fortunas feitas por membros do governo com o dinheiro público e a libertação dos oficiais presos em 1922. Ele dizia também que era preciso recuperar o dinheiro desviado para evitar que, em 1927, o governo inglês tomasse as alfândegas brasileiras para cobrar a dívida externa. (Luiz Carlos Prestes, Manifesto de Santo Ângelo, §§ 3, 4, 8 e 9; Alzira Alves de Abreu (CPDOC/FGV), COLUNA PRESTES, seção Antecedentes)
A marcha
Prestes contou em 1973 que os gaúchos se uniram às forças de São Paulo numa coluna de pouco mais de mil homens, mal armados, cujo propósito era atrair as forças do governo para que os colegas da capital pudessem depor o presidente. Segundo ele, a coluna não tinha outro objetivo político ou social claro. O CPDOC registra que, em abril de 1925, no Paraná, as tropas formaram a 1ª Divisão Revolucionária, sob o comando de Miguel Costa, com a brigada de Prestes, de cerca de oitocentos homens, e a de Juarez Távora, de cerca de setecentos. (Prestes, Como cheguei ao comunismo, § 14; Alzira Alves de Abreu (CPDOC/FGV), COLUNA PRESTES, seção A formação da coluna)
Em 29 de abril de 1925, a coluna atravessou o rio Paraná e seguiu por Mato Grosso, Goiás, Maranhão, Piauí, Ceará e outros estados do Nordeste, até a Bahia e Minas Gerais. Prestes descreve uma guerra de movimento, com marchas rápidas e ataques de surpresa, contra forças dez e vinte vezes maiores, do governo federal, dos estados e de caudilhos locais. Em fevereiro de 1926, segundo o CPDOC, três colunas do governo, com 15 mil homens, tentaram cercá-la em Pernambuco, e na Bahia ela enfrentou também cangaceiros e jagunços chefiados por Horácio de Matos e outros chefes locais. (Alzira Alves de Abreu (CPDOC/FGV), COLUNA PRESTES, seção A marcha; Prestes, Como cheguei ao comunismo, § 15)
No mesmo mês, Prestes e Miguel Costa lançaram o manifesto Motivos e ideais da revolução, contra os impostos exorbitantes, a desonestidade administrativa, a mentira do voto e a censura à imprensa. O texto defendia o ensino primário gratuito, o ensino técnico, a liberdade de pensamento e o voto secreto e obrigatório. O manifesto anterior, assinado em Porto Nacional em outubro de 1925, pedia a volta do país aos princípios liberais da Constituição. (Alzira Alves de Abreu (CPDOC/FGV), COLUNA PRESTES, seção A marcha; Miguel Costa, Luiz Carlos Prestes e Juarez Távora, Manifesto da Coluna Prestes, §§ 3 e 13-14)
O sertão visto de perto
Prestes conta que os revoltosos, filhos da pequena burguesia urbana, se surpreenderam com a miséria de uma população explorada por uma minoria dona da terra. Eles viram camponeses sem um palmo de terra, obrigados a viver nas terras dos grandes proprietários, e autoridades locais aparentadas aos latifundiários. Ao longo dos 25 mil quilômetros percorridos, concluíram que esses problemas não se resolveriam com a troca de homens na presidência. Para ele, os camponeses simpatizavam com a coluna, mas, salvo raras exceções, não se juntaram a ela, porque não tinham a consciência política que os próprios tenentes eram incapazes de lhes transmitir. (Prestes, Como cheguei ao comunismo, §§ 16, 17 e 19)
O fim da marcha
No fim de 1926, segundo Prestes, os chefes compreenderam a inutilidade do esforço, porque as consequências da luta caíam sobre a parte mais pobre da população. Em 3 de fevereiro de 1927, cerca de 620 homens entraram na Bolívia e depuseram as armas, depois de percorrer 11 estados e cerca de 25 mil quilômetros, e Prestes saiu da marcha com grande prestígio popular. Em dezembro de 1927, ele recebeu na Bolívia Astrojildo Pereira, emissário do Partido Comunista, e em 1928, em Buenos Aires, a leitura de O Estado e a revolução, de Lênin, o levou a rever a ideia do Estado acima das classes. (Prestes, Como cheguei ao comunismo, §§ 19 e 23 a 25; Alzira Alves de Abreu (CPDOC/FGV), COLUNA PRESTES, seção O encerramento da marcha)
Classe média, liberalismo ou luta contra o latifúndio
Nelson Werneck Sodré viu no tenentismo um fenômeno típico da classe média, que achava que bastava trocar os homens no poder, via na corrupção o vício principal de um regime em si bom e não enxergava a aliança dos senhores de terras com o imperialismo. Para ele, a popularidade dos tenentes era um sintoma importante, que quase ninguém percebeu. Octávio Brandão leu a revolta de 1924 como a luta do pequeno-burguês Isidoro, manobrado pela burguesia industrial, contra Bernardes, representante dos grandes proprietários rurais. (Sodré, Formação histórica do Brasil, pp. 320-321; Brandão, Agrarismo e industrialismo, pp. 138-139)
A historiadora Anita Leocádia Prestes, em entrevista ao Brasil de Fato, descreve o tenentismo como um movimento liberal, cujas palavras de ordem não tocavam a população rural, e conta a marcha a partir de 1924, no Rio Grande do Sul, enquanto o CPDOC a faz começar em abril de 1925. O próprio Prestes, já comunista, escreveu em 1973 que a coluna, mesmo sem programa claro, foi a primeira manifestação concreta da luta do povo contra o poder central e, portanto, contra o latifúndio e o imperialismo. (Walmaro Paz (Brasil de Fato), Cem anos da Coluna Prestes, uma epopeia brasileira, seções Um movimento liberal e abertura da reportagem; Alzira Alves de Abreu (CPDOC/FGV), COLUNA PRESTES, abertura do verbete; Prestes, Como cheguei ao comunismo, § 20)
O que se reivindicava
- Voto secreto (Luiz Carlos Prestes, Manifesto de Santo Ângelo, § 3)
- Confisco das grandes fortunas feitas por membros do governo com o dinheiro público (Luiz Carlos Prestes, Manifesto de Santo Ângelo, § 3)
- Libertação dos oficiais presos pela revolta de 5 de julho de 1922 (Luiz Carlos Prestes, Manifesto de Santo Ângelo, § 4)
- Ensino primário gratuito e ensino profissional e técnico em todo o país (Alzira Alves de Abreu (CPDOC/FGV), COLUNA PRESTES, seção A marcha)
- Liberdade de imprensa e de pensamento e combate à fraude eleitoral (Alzira Alves de Abreu (CPDOC/FGV), COLUNA PRESTES, seção Antecedentes)