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Estudos / História do Brasil / Lutas de classes / Era Vargas e República de 1946 / Trombas e Formoso

Luta de classes

Trombas e Formoso

1950–1964 · Povoados de Trombas e Formoso, na região de Uruaçu, norte de Goiás

Nos anos 1950, posseiros do norte de Goiás resistiram à expulsão por grileiros e fazendeiros, organizados numa associação de lavradores e em conselhos de córrego, com apoio de militantes do PCB. Em 1962, o governo de Goiás concedeu 20 mil títulos de terra, segundo a Comissão Nacional da Verdade. O golpe de 1964 dissolveu a associação, e o líder José Porfírio desapareceu em 1973.

Quando
de 1950 a 03/1964
Onde
Povoados de Trombas e Formoso, na região de Uruaçu, norte de Goiás
Quem lutou
Posseiros e lavradores sem terra vindos do Maranhão, do Piauí, de Minas Gerais e de Goiás; Militantes do PCB que se fixaram como posseiros na região
Contra quem
Grileiros e fazendeiros que cobravam arrendamento; Jagunços e polícias local e estadual; Governo de Goiás, até o recuo do fim de 1957
Organizações
Associação dos Lavradores de Trombas e Formoso, fundada em 1955, segundo Cunha; Conselhos de Córrego; Partido Comunista do Brasil (PCB)
Desfecho
Os posseiros permaneceram na terra, e em 1962 o governo de Goiás concedeu 20 mil títulos aos posseiros, segundo a CNV. Com o golpe de 1964, a associação foi dissolvida, os títulos foram revogados e os líderes foram perseguidos.

Como aconteceu

Trombas e Formoso, 1950–1964

  1. 1949Organização de uma colônia agrícola no município de Ceres, que atraiu camponeses sem terra.Comissão Nacional da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v, p. 108
  2. 1951No fim do ano, os fazendeiros decidem expulsar os colonos de Trombas e Formoso.Comissão Nacional da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v, p. 108
  3. 04/1954Confronto conhecido como Batalha da Tataíra, com o recuo das tropas policiais.Comissão Nacional da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v, p. 109
  4. 1955Fundação da Associação de Lavradores.Cunha, Redescobrindo a história, p. 89
  5. 1957Goiânia forma uma comissão de solidariedade aos posseiros, e o governo estadual recua no fim do ano.Comissão Nacional da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v, p. 109
  6. 1962José Porfírio é eleito deputado estadual, e o governo de Goiás concede 20 mil títulos.Comissão Nacional da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v, p. 109
  7. 03/1964Com o golpe, a associação e os conselhos são dissolvidos.Comissão Nacional da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v, p. 109
  8. 07/07/1973José Porfírio é solto do DOI-CODI em Brasília e desaparece.Comissão Nacional da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v, p. 110

Leitura marxista

Quem estava de cada lado

Posseiros no norte de Goiás

Trombas e Formoso foi um movimento de posseiros, os lavradores que ocupam e cultivam terras sem título de propriedade, no norte de Goiás, na década de 1950. Segundo a Comissão Nacional da Verdade (CNV), a origem foi a campanha de Vargas para ocupar as terras de Goiás, com uma colônia agrícola no município de Ceres, em 1949, que atraiu camponeses sem terra do Maranhão, do Piauí, de Minas Gerais e do próprio estado. Como os lotes não bastavam, posseiros seguiram para o norte, onde havia matas férteis e terras devolutas, as terras públicas sem dono particular. José Porfírio e seu irmão João levaram as suas famílias para a região, a 400 km de Goiânia, derrubaram matas, fizeram roças e se apossaram das terras. (Comissão Nacional da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v, p. 108; Cunha, Redescobrindo a história, p. 84)

Grilagem e resistência

A partir de 1950 surgiram as primeiras tentativas de grilagem, a apropriação de terras com documentos falsos, segundo o cientista político Paulo Ribeiro da Cunha. No relato citado por ele, os grileiros usaram um requerimento de sesmaria de 1775 e falsos herdeiros para obter escrituras das terras em cartório. Os fazendeiros passaram a cobrar uma porcentagem do que os posseiros produziam, embora não fossem os donos da área, e os lavradores se negaram a pagar. (Cunha, Redescobrindo a história, pp. 84 e 85; Comissão Nacional da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v, p. 108)

No fim de 1951, os fazendeiros decidiram expulsar todos os colonos, barracos foram queimados e roças foram pisoteadas pelo gado, e policiais se uniram aos jagunços, os pistoleiros a serviço dos fazendeiros. José Firmino, em Formoso, e José Porfírio, em Trombas, buscaram até 1954 o registro das terras pela via legal, e em 1953 uma comitiva de 120 posseiros foi ao governador, sem êxito. A CNV registra que os posseiros então se armaram e se organizaram em mutirões para defender as terras e as roças e dificultar a entrada da polícia. (Comissão Nacional da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v, p. 108; Cunha, Redescobrindo a história, pp. 85 e 86)

A associação e os conselhos de córrego

A partir de 1954, membros do PCB chegaram à região para ajudar a organizar a resistência, e os posseiros formaram os Conselhos de Córrego, um para cada curso d'água, que discutiam os problemas e defendiam a área. Segundo Cunha, um núcleo do partido enviou à região Geraldo Marques, João Soares, José Ribeiro e Dirce Machado, e a Associação de Lavradores foi fundada em 1955, com apoio de advogados do PCB de Goiânia. A CNV data de abril de 1954 o confronto conhecido como Batalha da Tataíra, em que as tropas policiais recuaram da região. (Comissão Nacional da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v, p. 109; Cunha, Redescobrindo a história, pp. 86, 89 e 91)

Grileiros e fazendeiros divulgaram que a resistência era uma revolta comunista que se espalharia por Goiás. Em 1957, a Câmara Municipal de Goiânia formou uma Comissão de Solidariedade aos Posseiros, e uma comissão de mulheres da associação foi à capital pedir escolas e postos de saúde. No fim daquele ano, o governo estadual enviou reforços, mas recuou diante da resistência dos posseiros, da rede de solidariedade articulada pelo PCB, das denúncias da imprensa e da oposição parlamentar. (Comissão Nacional da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v, p. 109; Cunha, Redescobrindo a história, pp. 91 e 92)

Os títulos de 1962 e o golpe de 1964

Em 1961, a associação funcionava com 21 Conselhos de Córrego, segundo a CNV, e, de acordo com Geraldo Marques em entrevista a Cunha, decidiu que cada posse teria no máximo 103 alqueires. José Porfírio se elegeu deputado estadual em 1962 pela coligação PTB-PSB, porque o PCB estava na ilegalidade, e o posseiro Bartolomeu Gomes da Silva se elegeu prefeito de Formoso. Segundo a CNV, o governador Mauro Borges cedeu à pressão e concedeu, em 1962, 20 mil títulos de terra aos posseiros. (Comissão Nacional da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v, p. 109; Cunha, Redescobrindo a história, p. 96)

Com o golpe de 1964, a associação e os conselhos foram dissolvidos, os títulos foram revogados, dezenas de lavradores foram presos e torturados, e Porfírio e Bartolomeu tiveram os mandatos cassados. Porfírio se refugiou no Maranhão, foi preso em 1972 e, segundo a CNV, desapareceu depois de ser solto do DOI-CODI de Brasília, em 7 de julho de 1973. Seu filho Durvalino, preso e torturado em 1964 aos 17 anos para revelar o paradeiro do pai, desapareceu no mesmo ano de 1973. (Comissão Nacional da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v, pp. 108 a 110)

Luta pela terra ou poder camponês

Para Cunha, a fase armada foi resultado coerente da linha do Manifesto de Agosto de 1950, em que o PCB propôs o confisco dos latifúndios sem indenização e a entrega gratuita da terra aos camponeses, e durou até o fim de 1957. Ele vê a associação como o governo efetivo do território, mas chama de mítica a história da República ou território livre de Formoso e Trombas, nascida do rígido controle da região até 1962. Para ele, a normalização trouxe uma diferenciação social entre os posseiros e o afastamento de dirigentes da militância. (Cunha, Redescobrindo a história, pp. 88, 89, 93, 94, 97 e 98; Prestes, Manifesto de Agosto, § 45 da página do MIA)

O geógrafo Ycarim Melgaço Barbosa escreveu que o PCB dirigiu o movimento para criar uma guerrilha no campo e estendê-la ao resto do país, em busca de uma reforma agrária radical. Mas, para ele, a região não teve governo próprio, porque essa ideia era uma ideologia da classe dominante para justificar as incursões militares, e os posseiros tinham apenas a sua associação para se defender e manter a terra. A CNV, por sua vez, fala na formação de uma República de Trombas e Formoso, coordenada pelos conselhos, e a classifica como uma das poucas lutas camponesas vitoriosas no país. (Barbosa, O movimento camponês de Trombas e Formoso, pp. 29 e 33; Comissão Nacional da Verdade, Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v, pp. 108 e 109)

O que se reivindicava

Para se aprofundar

Principal
  • CUNHA, Paulo Ribeiro da. Redescobrindo a história: a República de Formoso e Trombas. Campinas: Cadernos AEL (Arquivo Edgard Leuenroth, Unicamp), n. 7, pp. 83-103, 1997. Onde ler: pp. 83 a 102.

    “Estes vários elementos conjugados e o rígido controle social, político e até militar em toda a região até meados de 1962 deram origem à mítica história da existência da "República ou território livre de Formoso e Trombas".”

    p. 94

    Ler grátis: Redescobrindo a história: a República de Formoso e Trombas ↗

Complementar
  • CARNEIRO, Maria Esperança Fernandes. A revolta camponesa de Formoso e Trombas. Onde ler: não lido; citado por Cunha (1997, pp. 88, 89 e 103) e por Barbosa (1989, p. 34).

  • CUNHA, Paulo Ribeiro da. Aconteceu longe demais: a luta pela terra dos posseiros de Formoso e Trombas e a política revolucionária do PCB no período 1950-1964. 1994. Onde ler: não lido; dissertação de mestrado em que se baseia o artigo de Cunha (1997, p. 83, nota 1).

  • PRESTES, Luiz Carlos. Manifesto de Agosto (Nossa política: Prestes aponta aos brasileiros o caminho da libertação). 1950. Onde ler: § 45 da página do MIA.

    Ler grátis: Manifesto de Agosto (Nossa política: Prestes aponta aos brasileiros o caminho da libertação) ↗

  • BARBOSA, Ycarim Melgaço. O movimento camponês de Trombas e Formoso. São Paulo: Terra Livre (Associação dos Geógrafos Brasileiros), n. 6, pp. 29-34, 1989. Onde ler: pp. 29, 32 e 33.

    Ler grátis: O movimento camponês de Trombas e Formoso ↗

De onde vem cada afirmação desta página (39)

Fontes desta página

  1. Comissão Nacional da Verdade. Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v. II, textos temáticos (dezembro de 2014). gov.br. Abrir ↗
  2. CUNHA, Paulo Ribeiro da. Redescobrindo a história: a República de Formoso e Trombas. Campinas: Cadernos AEL (Arquivo Edgard Leuenroth, Unicamp), n. 7, pp. 83-103, 1997. Abrir ↗
  3. PRESTES, Luiz Carlos. Manifesto de Agosto (Nossa política: Prestes aponta aos brasileiros o caminho da libertação). 1950. Abrir ↗
  4. BARBOSA, Ycarim Melgaço. O movimento camponês de Trombas e Formoso. São Paulo: Terra Livre (Associação dos Geógrafos Brasileiros), n. 6, pp. 29-34, 1989. Abrir ↗
  5. Paulo Ribeiro da Cunha. Redescobrindo a história: a República de Formoso e Trombas (Cadernos AEL, n. 7, 1997). ojs.ifch.unicamp.br. Abrir ↗
  6. Ycarim Melgaço Barbosa. O movimento camponês de Trombas e Formoso (Terra Livre, n. 6, 1989). publicacoes.agb.org.br. Abrir ↗
  7. Luiz Carlos Prestes. Nossa política: Prestes aponta aos brasileiros o caminho da libertação (Manifesto de Agosto, 1º de agosto de 1950). marxists.org, 01/08/1950. Abrir ↗