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Luta de classes · greve

Greve geral de 1917

1917 · Cidade de São Paulo, a partir do bairro operário da Mooca, com greves também no Rio de Janeiro e em Porto Alegre

Em julho de 1917, uma greve iniciada na fábrica de tecidos Crespi, na Mooca, parou São Paulo, com cerca de 100 mil trabalhadores, segundo Edilene Toledo. O Comitê de Defesa Proletária, de anarquistas e socialistas, conseguiu nos acordos aumento de salário e a libertação de presos. Para Astrojildo Pereira, as greves de 1917 a 1920 mostraram a falta de um partido operário, e essa lição levou à fundação do PCB.

Quando
de 08/06/1917 a 16/07/1917
Onde
Cidade de São Paulo, a partir do bairro operário da Mooca, com greves também no Rio de Janeiro e em Porto Alegre
Quem lutou
Operários têxteis, homens, mulheres e crianças; Trabalhadores de várias categorias da cidade; Militantes anarquistas e socialistas
Contra quem
Industriais, como Rodolfo Crespi e Nami Jafet; Polícia e governo do estado de São Paulo; Governo federal, que mandou tropas e navios de guerra a Santos
Organizações
Comitê de Defesa Proletária; Liga Operária da Mooca; Federação Operária de São Paulo, refundada em agosto de 1917
Desfecho
Entre 14 e 16 de julho, empresários assinaram acordos com direito de reunião, aumento de 20% nos salários, libertação dos presos e nenhuma demissão de grevistas, segundo Toledo. A greve impulsionou a reorganização sindical.

Como aconteceu

Greve geral de 1917, 1917

  1. 08/06/1917Começa a greve no Cotonifício Crespi, na Mooca.Toledo, Um ano extraordinário, p. 499
  2. 30/06/1917Param os 1.600 operários da fábrica Ipiranga.Toledo, Um ano extraordinário, p. 503
  3. 09/07/1917O sapateiro José Martinez é morto durante a greve, no Brás.Câmara Municipal de São Paulo (vereador Antonio Donato), Justificativa do Projeto de Lei nº 88/2016 da Câmara Municipal de São Paulo, justificativa
  4. 14/07/1917Começam a ser assinados os acordos com os empresários, até o dia 16.Toledo, Um ano extraordinário, p. 503
  5. 18/07/1917Começam as greves de várias categorias no Rio de Janeiro.Toledo, Um ano extraordinário, p. 505
  6. 21/07/1917A Plebe publica as reivindicações do Comitê de Defesa Proletária.Toledo, Um ano extraordinário, p. 504
  7. 26/08/1917É refundada a Federação Operária de São Paulo.Toledo, Um ano extraordinário, p. 504

Leitura marxista

Quem estava de cada lado

A greve começa na Mooca

Em 8 de junho de 1917, cerca de 400 operários do Cotonifício Crespi, uma fábrica de tecidos do bairro da Mooca, em São Paulo, pararam o trabalho. Segundo a historiadora Edilene Toledo, eles pediam aumento de 15% a 20% e protestavam contra a extensão do trabalho noturno, porque já cumpriam 13 horas por dia e estavam sendo obrigados a ficar até a meia-noite. A decisão foi tomada na Liga Operária da Mooca, e a fábrica, do italiano Rodolfo Crespi, empregava 1.305 operários em 1912. (Toledo, Um ano extraordinário, pp. 499 e 502)

A greve se espalhou por outras categorias. Em 30 de junho, os 1.600 operários da fábrica Ipiranga, de Nami Jafet, também pararam, e em 3 de julho os socialistas do jornal Avanti! distribuíram 10 mil cópias de um manifesto de apoio aos grevistas. (Toledo, Um ano extraordinário, p. 503)

Julho de 1917

Em 9 de julho, o sapateiro José Martinez, de 21 anos, foi morto pela polícia quando participava da greve na porta da fábrica Mariângela, no Brás, segundo a justificativa do projeto que, em 2017, fez dessa data o Dia da Luta Operária da cidade de São Paulo. Toledo, que o chama de José Gimenez Martinez, conta que ele era um militante anarquista espanhol e que mais de 10 mil pessoas acompanharam o seu enterro até o cemitério do Araçá. O enterro foi o ponto máximo da agitação. (Câmara Municipal de São Paulo (vereador Antonio Donato), Justificativa do Projeto de Lei nº 88/2016 da Câmara Municipal de São Paulo, justificativa; Câmara Municipal de São Paulo, Lei nº 16.634, de 17 de abril de 2017, do Município de São Paulo, art. 1º; Toledo, Um ano extraordinário, p. 503)

Astrojildo Pereira registrou que a greve geral paralisou completamente a vida da cidade por alguns dias. Toledo estima em cerca de 100 mil os trabalhadores envolvidos, homens, mulheres e crianças, e o Arquivo Nacional, em cerca de 50 mil. O governo mobilizou tropas e mandou dois navios de guerra ao porto de Santos para intimidar os grevistas. (Pereira, Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil, § 51; Toledo, Um ano extraordinário, p. 499; Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 20)

A greve era coordenada pelo Comitê de Defesa Proletária, que reunia o anarquista Edgard Leuenroth, gráfico e jornalista, e o socialista italiano Teodoro Monicelli. Enquanto isso, o secretário de Justiça, Eloy Chaves, se reunia com os grandes empresários, e uma comissão de diretores de jornais fazia a mediação. Entre 14 e 16 de julho, empresários assinaram acordos que reconheciam o direito de reunião, davam 20% de aumento, libertavam os presos e proibiam a demissão dos grevistas. No dia em que o Comitê apresentou esses acordos em comícios, quase 44 mil operários estavam parados. (Toledo, Um ano extraordinário, p. 503)

O que pedia o Comitê

Em 21 de julho, o jornal anarquista A Plebe publicou a lista de reivindicações do Comitê de Defesa Proletária. Ela pedia a libertação dos presos, o direito de associação, nenhuma demissão pela greve, o fim do trabalho de menores de 14 anos e do trabalho noturno de mulheres e de menores de 18, aumentos de 35% e 25% conforme a faixa de salário, a jornada de oito horas e a semana inglesa, com descanso no sábado à tarde. Pedia ainda o barateamento dos alimentos e a redução dos aluguéis, e Toledo conclui que as reivindicações eram, em sua maioria, trabalhistas. (Toledo, Um ano extraordinário, p. 504)

Depois da greve

Em 26 de agosto de 1917, foi refundada a Federação Operária de São Paulo. No Rio de Janeiro, greves de várias categorias começaram em 18 de julho, com um programa de salário mínimo e de salário igual para homens e mulheres, e em Porto Alegre houve greves entre 31 de julho e 4 de agosto. Para Astrojildo, o período de 1917 a 1920 foi de greves de massa por todo o país, estimuladas pelo exemplo da Revolução Russa. (Toledo, Um ano extraordinário, pp. 504-505; Pereira, Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil, § 51)

Espontaneidade, anarquismo e partido

Toledo resume o debate dos historiadores. Nos anos 1960 e 1970, Boris Fausto e outros viram uma greve espontânea e desorganizada, e a partir dos anos 1980 Yara Aun Khoury e Cristina Hebling Campos passaram a vê-la como capítulo da organização operária. Para Cristina Lopreato, a auto-organização dos operários foi efeito da propaganda das correntes anarquistas, e Luigi Biondi destaca o peso da crise econômica e a desorganização dos patrões. Toledo mostra que anarquistas, socialistas, sindicalistas revolucionários e muitos trabalhadores sem corrente nenhuma participaram do movimento. (Toledo, Um ano extraordinário, pp. 510-511)

Astrojildo escreveu que o anarcossindicalismo, o sindicalismo de ação direta dos anarquistas, predominou no movimento operário de 1906 a 1920. Para ele, as lutas de 1917 a 1920 foram mais ou menos espontâneas, sem a direção política que só um partido da classe operária poderia dar, e mostraram a incapacidade do anarquismo de dirigir um movimento revolucionário. Octávio Brandão também pôs a ascensão operária até 1919 sob a influência do anarquismo e situou o seu apogeu entre o fim de 1917 e meados de 1919. Nelson Werneck Sodré, que data as primeiras greves de 1918, viu nelas a entrada da classe operária no quadro político. (Pereira, Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil, §§ 5 e 55; Brandão, Agrarismo e industrialismo, pp. 118-119; Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 316)

O que se reivindicava

Para se aprofundar

Principal
  • PEREIRA, Astrojildo. Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil. 1952. Onde ler: §§ 5, 51 e 55.

    “As grandes greves e agitações de massa do período 1917-1920 puseram a nu a incapacidade teórica, política e orgânica do anarquismo para resolver os problemas de direção de um movimento revolucionário de envergadura histórica”

    § 55

    Ler grátis: Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil ↗

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (28)

Fontes desta página

  1. TOLEDO, Edilene. Um ano extraordinário: greves, revoltas e circulação de ideias no Brasil em 1917. Rio de Janeiro: Estudos Históricos (FGV), v. 30, n. 61, pp. 497-518, maio a agosto de 2017, 2017. Abrir ↗
  2. Câmara Municipal de São Paulo (vereador Antonio Donato). Justificativa do Projeto de Lei nº 88/2016 da Câmara Municipal de São Paulo (Dia da Luta Operária). saopaulo.sp.leg.br, 16/03/2016. Abrir ↗
  3. Câmara Municipal de São Paulo. Lei nº 16.634, de 17 de abril de 2017, do Município de São Paulo (Dia da Luta Operária, 9 de julho). saopaulo.sp.leg.br, 18/04/2017. Abrir ↗
  4. PEREIRA, Astrojildo. Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil. 1952. Abrir ↗
  5. Arquivo Nacional. Os presidentes e a República: Deodoro da Fonseca a Dilma Rousseff, 3. ed. rev. e ampl. (2012). gov.br. Abrir ↗
  6. BRANDÃO, Octávio. Agrarismo e industrialismo: ensaio marxista-leninista sobre a revolta de São Paulo e a guerra de classes no Brasil, 1924. São Paulo: Anita Garibaldi, 2006. Abrir ↗
  7. SODRÉ, Nelson Werneck. Formação histórica do Brasil. 1962. Abrir ↗
  8. Edilene Toledo. Um ano extraordinário: greves, revoltas e circulação de ideias no Brasil em 1917 (Estudos Históricos, v. 30, n. 61, 2017). periodicos.fgv.br. Abrir ↗
  9. Astrojildo Pereira. Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil (Problemas, n. 39, mar.-abr. 1952). marxists.org. Abrir ↗
  10. Octávio Brandão. Agrarismo e industrialismo (PDF da 2. ed., Anita Garibaldi, 2006). marxists.org. Abrir ↗
  11. Nelson Werneck Sodré. Formação histórica do Brasil (PDF digitalizado da edição Brasiliense, com marca da Biblioteca Nacional). marxists.org. Abrir ↗