Leitura marxista
Quem estava de cada lado
A greve começa na Mooca
Em 8 de junho de 1917, cerca de 400 operários do Cotonifício Crespi, uma fábrica de tecidos do bairro da Mooca, em São Paulo, pararam o trabalho. Segundo a historiadora Edilene Toledo, eles pediam aumento de 15% a 20% e protestavam contra a extensão do trabalho noturno, porque já cumpriam 13 horas por dia e estavam sendo obrigados a ficar até a meia-noite. A decisão foi tomada na Liga Operária da Mooca, e a fábrica, do italiano Rodolfo Crespi, empregava 1.305 operários em 1912. (Toledo, Um ano extraordinário, pp. 499 e 502)
A greve se espalhou por outras categorias. Em 30 de junho, os 1.600 operários da fábrica Ipiranga, de Nami Jafet, também pararam, e em 3 de julho os socialistas do jornal Avanti! distribuíram 10 mil cópias de um manifesto de apoio aos grevistas. (Toledo, Um ano extraordinário, p. 503)
Julho de 1917
Em 9 de julho, o sapateiro José Martinez, de 21 anos, foi morto pela polícia quando participava da greve na porta da fábrica Mariângela, no Brás, segundo a justificativa do projeto que, em 2017, fez dessa data o Dia da Luta Operária da cidade de São Paulo. Toledo, que o chama de José Gimenez Martinez, conta que ele era um militante anarquista espanhol e que mais de 10 mil pessoas acompanharam o seu enterro até o cemitério do Araçá. O enterro foi o ponto máximo da agitação. (Câmara Municipal de São Paulo (vereador Antonio Donato), Justificativa do Projeto de Lei nº 88/2016 da Câmara Municipal de São Paulo, justificativa; Câmara Municipal de São Paulo, Lei nº 16.634, de 17 de abril de 2017, do Município de São Paulo, art. 1º; Toledo, Um ano extraordinário, p. 503)
Astrojildo Pereira registrou que a greve geral paralisou completamente a vida da cidade por alguns dias. Toledo estima em cerca de 100 mil os trabalhadores envolvidos, homens, mulheres e crianças, e o Arquivo Nacional, em cerca de 50 mil. O governo mobilizou tropas e mandou dois navios de guerra ao porto de Santos para intimidar os grevistas. (Pereira, Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil, § 51; Toledo, Um ano extraordinário, p. 499; Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 20)
A greve era coordenada pelo Comitê de Defesa Proletária, que reunia o anarquista Edgard Leuenroth, gráfico e jornalista, e o socialista italiano Teodoro Monicelli. Enquanto isso, o secretário de Justiça, Eloy Chaves, se reunia com os grandes empresários, e uma comissão de diretores de jornais fazia a mediação. Entre 14 e 16 de julho, empresários assinaram acordos que reconheciam o direito de reunião, davam 20% de aumento, libertavam os presos e proibiam a demissão dos grevistas. No dia em que o Comitê apresentou esses acordos em comícios, quase 44 mil operários estavam parados. (Toledo, Um ano extraordinário, p. 503)
O que pedia o Comitê
Em 21 de julho, o jornal anarquista A Plebe publicou a lista de reivindicações do Comitê de Defesa Proletária. Ela pedia a libertação dos presos, o direito de associação, nenhuma demissão pela greve, o fim do trabalho de menores de 14 anos e do trabalho noturno de mulheres e de menores de 18, aumentos de 35% e 25% conforme a faixa de salário, a jornada de oito horas e a semana inglesa, com descanso no sábado à tarde. Pedia ainda o barateamento dos alimentos e a redução dos aluguéis, e Toledo conclui que as reivindicações eram, em sua maioria, trabalhistas. (Toledo, Um ano extraordinário, p. 504)
Depois da greve
Em 26 de agosto de 1917, foi refundada a Federação Operária de São Paulo. No Rio de Janeiro, greves de várias categorias começaram em 18 de julho, com um programa de salário mínimo e de salário igual para homens e mulheres, e em Porto Alegre houve greves entre 31 de julho e 4 de agosto. Para Astrojildo, o período de 1917 a 1920 foi de greves de massa por todo o país, estimuladas pelo exemplo da Revolução Russa. (Toledo, Um ano extraordinário, pp. 504-505; Pereira, Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil, § 51)
Espontaneidade, anarquismo e partido
Toledo resume o debate dos historiadores. Nos anos 1960 e 1970, Boris Fausto e outros viram uma greve espontânea e desorganizada, e a partir dos anos 1980 Yara Aun Khoury e Cristina Hebling Campos passaram a vê-la como capítulo da organização operária. Para Cristina Lopreato, a auto-organização dos operários foi efeito da propaganda das correntes anarquistas, e Luigi Biondi destaca o peso da crise econômica e a desorganização dos patrões. Toledo mostra que anarquistas, socialistas, sindicalistas revolucionários e muitos trabalhadores sem corrente nenhuma participaram do movimento. (Toledo, Um ano extraordinário, pp. 510-511)
Astrojildo escreveu que o anarcossindicalismo, o sindicalismo de ação direta dos anarquistas, predominou no movimento operário de 1906 a 1920. Para ele, as lutas de 1917 a 1920 foram mais ou menos espontâneas, sem a direção política que só um partido da classe operária poderia dar, e mostraram a incapacidade do anarquismo de dirigir um movimento revolucionário. Octávio Brandão também pôs a ascensão operária até 1919 sob a influência do anarquismo e situou o seu apogeu entre o fim de 1917 e meados de 1919. Nelson Werneck Sodré, que data as primeiras greves de 1918, viu nelas a entrada da classe operária no quadro político. (Pereira, Lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Comunista do Brasil, §§ 5 e 55; Brandão, Agrarismo e industrialismo, pp. 118-119; Sodré, Formação histórica do Brasil, p. 316)
O que se reivindicava
- Libertação dos grevistas presos e nenhuma demissão por participação na greve (Toledo, Um ano extraordinário, p. 504)
- Respeito absoluto ao direito de associação dos trabalhadores (Toledo, Um ano extraordinário, p. 504)
- Abolição do trabalho de menores de 14 anos e do trabalho noturno de mulheres e de menores de 18 (Toledo, Um ano extraordinário, p. 504)
- Aumento de 35% para os salários inferiores a 5$000 e de 25% para os superiores (Toledo, Um ano extraordinário, p. 504)
- Jornada de oito horas, semana inglesa e aumento de 50% no trabalho extraordinário (Toledo, Um ano extraordinário, p. 504)
- Barateamento dos gêneros de primeira necessidade e redução dos aluguéis (Toledo, Um ano extraordinário, p. 504)