Leitura marxista
Quem estava de cada lado
Das eleições de 1982 à emenda
Nas eleições diretas de novembro de 1982 para o Congresso e os governos estaduais, a oposição ganhou a maioria da Câmara, e o PDS, partido do governo, manteve a do Senado e a da maioria dos estados, segundo o Arquivo Nacional. O economista Ruy Mauro Marini lembra que as regras do Colégio Eleitoral, o colegiado que escolheria o próximo presidente, davam ao PDS uma vantagem de 17 votos. Em 1983, partidos e entidades de oposição formaram uma frente pela eleição direta do presidente, bandeira que o deputado Dante de Oliveira, do PMDB de Mato Grosso, levou ao Congresso numa emenda constitucional. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 50; Marini, Brasil, p. 14; Delgado, A campanha das Diretas Já, p. 1)
Para a marxista Vânia Bambirra, os movimentos sociais tinham chegado ao auge no fim dos anos 1970 e no começo dos 1980, mas a disputa eleitoral de 1982 os dividiu, e o descenso durou até 1984, quando eclodiu a luta pelas eleições diretas e por uma Assembleia Nacional Constituinte. (Bambirra, A luta pelas "Diretas" e pela Constituinte no Brasil, § 8 da página do MIA)
A campanha nas ruas
A pesquisadora Lucília de Almeida Neves Delgado registra que o PT, o PMDB e o PDT formaram o Comitê Nacional Partidário Pró Diretas, que o PCB e o PCdoB ajudaram a difundir a campanha e que a União Nacional dos Estudantes (UNE), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) estiveram nas ruas. Segundo ela, em 1983 cinco mil pessoas levantaram a bandeira das diretas num ginásio de Goiânia, e em 16 de abril de 1984 mais de um milhão de pessoas se reuniu no Vale do Anhangabaú, em São Paulo. Bambirra fala em mais de trezentas mil pessoas em Belo Horizonte, mais de um milhão no Rio de Janeiro e cerca de dois milhões em São Paulo, e chama a campanha de maior mobilização de massas do país em três décadas. (Delgado, A campanha das Diretas Já, pp. 3 e 6; Bambirra, A luta pelas "Diretas" e pela Constituinte no Brasil, §§ 9 e 10 da página do MIA)
Bambirra cita entre os líderes Ulysses Guimarães, presidente do PMDB, Doutel de Andrade, do PDT, Luiz Inácio da Silva, presidente do PT, Tancredo Neves e Leonel Brizola, o primeiro a defender as diretas depois de voltar do exílio. Delgado registra que o PT recusava qualquer diálogo com o governo militar, enquanto lideranças do PMDB, como Tancredo, então governador de Minas Gerais, combinavam as mobilizações com negociações. Ela cita um estudo de Rodrigues, de 2003, para quem o comitê se dividia entre a lógica da ruptura e a da negociação. (Bambirra, A luta pelas "Diretas" e pela Constituinte no Brasil, § 12 da página do MIA; Delgado, A campanha das Diretas Já, pp. 3 e 4)
A votação de 25 de abril
A Câmara votou a emenda em 25 de abril de 1984, numa sessão que entrou pela madrugada do dia 26, e o governo federal proibiu a transmissão ao vivo. Foram 298 votos a favor, 65 contra, 3 abstenções e 113 deputados ausentes, e faltaram 22 votos para os dois terços exigidos, segundo Delgado. Para Marini, a campanha dividiu os círculos oficiais, mas o papel decisivo na derrota coube ao PMDB, que anunciou antes da votação que iria ao Colégio Eleitoral qualquer que fosse o resultado. (Delgado, A campanha das Diretas Já, pp. 1 e 2; Marini, Brasil, p. 14)
Em janeiro de 1985, o Colégio Eleitoral elegeu Tancredo Neves e José Sarney presidente e vice-presidente, contra os candidatos governistas Paulo Maluf e Flávio Marcílio, segundo o Arquivo Nacional. Bambirra registra que empresários, banqueiros e latifundiários do PDS que tinham votado contra as diretas passaram ao Partido da Frente Liberal (PFL), que apoiou Tancredo. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 50; Bambirra, A luta pelas "Diretas" e pela Constituinte no Brasil, §§ 16 e 17 da página do MIA)
Derrota ou vitória
Delgado considera a campanha o maior movimento cívico e popular da história do Brasil e afirma que a derrota da emenda não pôs ponto final na transição. Para Marini, o episódio mostrou que a elite política preferia as negociações de cúpula e aceitava frustrar a mobilização cívica. Bambirra sustenta que, para a classe dominante, as diretas eram uma tática para obter a hegemonia, isto é, a liderança, dentro de um poder do qual nunca tinha sido excluída. (Delgado, A campanha das Diretas Já, p. 2; Marini, Brasil, pp. 14 e 15; Bambirra, A luta pelas "Diretas" e pela Constituinte no Brasil, §§ 13 a 15 da página do MIA)
Em 1986, Luiz Carlos Prestes disse que a burguesia usou o povo como massa de manobra e aproveitou a derrota da emenda para parar o movimento de massas, quando milhões estavam nas ruas. Florestan Fernandes escreveu em 1987 que a campanha mostrou haver fogo demais sob a cinza da apatia popular e que, para os militares, que não admitiam outra solução, era melhor cortar o mal pela raiz. Delgado registra ainda que os partidos disputam a memória da campanha, e que para o PT ela começou num comício do partido no Pacaembu, em São Paulo, em 1983. (Prestes, Entrevista ao programa Roda Viva, § 20; Fernandes, Adeus à transição, página única do recorte; Delgado, A campanha das Diretas Já, pp. 2 e 6)
O que se reivindicava
- Eleições diretas imediatas para presidente da República, segundo Marini (Marini, Brasil, p. 14)
- Assembleia Nacional Constituinte, bandeira que Bambirra liga à luta pelas diretas (Bambirra, A luta pelas "Diretas" e pela Constituinte no Brasil, § 8 da página do MIA)