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Conceitos / Ideologia e disputa de ideias / Liberalismo

Liberalismo econômico

Em poucas palavras

Liberalismo econômico é a ideologia de mercado que defende as liberdades individuais, o Estado mínimo e as privatizações. Marx mostrou que a liberdade e a igualdade do contrato de trabalho escondem a exploração e que o livre-câmbio é a liberdade do capital. Para Armando Boito Jr., o neoliberalismo dá a essa velha ideologia a função de servir aos monopólios contra os direitos sociais.

Eixo e tema
Ideologia e disputa de ideias · Liberalismo
Obra principal
O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital, de Karl Marx

Explicação

A doutrina do mercado livre

Diego Oliveira e Eliel Machado definem o liberalismo econômico como uma ideologia de mercado, baseada na defesa das liberdades individuais, do Estado mínimo e das privatizações. Segundo Jacob Gorender, essa teoria teve em Adam Smith o seu principal nome no século XVIII e pregava a liberdade de produzir, trocar e fazer circular mercadorias, contra as regras feudais da monarquia absolutista. (Oliveira e Machado, Vem pra Rua e MBL no contexto do golpe parlamentar no Brasil, p. 99, nota 2; Gorender, Liberalismo e escravidão, § 7 da página do MIA)

O paraíso da troca, segundo Marx

Marx mostrou, em O capital, que a compra e venda da força de trabalho, isto é, da capacidade de trabalhar que o operário vende ao patrão, parece um paraíso dos direitos do homem. Ali reinam a liberdade, porque comprador e vendedor fazem contrato como pessoas livres, a igualdade, porque trocam um valor por outro igual, e a propriedade, porque cada um dispõe do que é seu. Marx acrescenta o nome de Bentham, porque cada um só cuida do próprio interesse. Quando os dois deixam o mercado, o dono do dinheiro segue como capitalista e o operário vai atrás dele como quem levou a própria pele ao mercado e só pode esperar ser esfolado. (Marx, O capital, Livro I, cap. 4, seção 3, §§ 2, 23 e 24)

Na disputa pela jornada, o capitalista quer o dia de trabalho o mais longo possível e o operário quer limitá-lo, e os dois apoiam o seu direito na mesma lei da troca. Marx conclui que, entre direitos iguais, decide a força, e por isso a regulamentação da jornada aparece na história como luta entre a classe dos capitalistas e a classe operária. (Marx, O capital, Livro I, cap. 8, seção 1, § 9)

Livre-câmbio, liberdade de quem?

Em 1848, num discurso em Bruxelas sobre o livre-câmbio, isto é, o comércio sem tarifas de proteção entre os países, Marx perguntou de quem era a liberdade defendida pelos economistas. Para ele, naquela sociedade, o livre-câmbio era a liberdade do capital de esmagar o trabalhador, e enquanto existisse a relação entre trabalho assalariado e capital haveria sempre uma classe que explora e outra que é explorada. Marx lembrou ainda que David Ricardo, que ele chamou de apóstolo dos livre-cambistas ingleses, admitia que o trigo mais barato levaria a salários mais baixos. (Marx, Sobre a questão do livre-câmbio, §§ 53, 92 e 95)

Marx avisou que criticar o livre-comércio não era defender o protecionismo. Ele dizia votar pelo livre-câmbio num único sentido, o de que esse sistema leva ao extremo o antagonismo entre burguesia e proletariado e apressa a revolução social. (Marx, Sobre a questão do livre-câmbio, §§ 104 e 106)

Do velho liberalismo ao neoliberalismo

Armando Boito Jr. explica que o neoliberalismo retoma a velha ideologia econômica burguesa do capitalismo concorrencial do século XIX, que exalta a empresa privada e o mercado, e lhe dá uma função nova, a de exaltar o mercado em benefício dos monopólios e contra os direitos sociais. Boito lembra, com Perry Anderson, que um pequeno grupo de liberais ortodoxos reunidos na Sociedade Mont Pelerin guardou essas ideias enquanto o liberalismo econômico clássico esteve isolado e parecia morto. (Boito Jr., Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil, pp. 80 e 81 e nota 1)

No Brasil dos anos 1990, segundo Boito, a defesa do mercado e da empresa privada e a condenação do Estado e das empresas públicas viraram senso comum, inclusive nas classes populares. A plataforma neoliberal tinha três pilares, a abertura da economia ao capital imperialista, a privatização de empresas e serviços públicos e a desregulamentação das relações de trabalho, e buscava abrir ao capital privado áreas como previdência, educação, saúde e transporte. (Boito Jr., Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil, pp. 80 e 81)

Liberalismo, austeridade e privatização

Clara Mattei mostra que a austeridade, que junta cortes fiscais, juros altos e pressão sobre os salários, se veste com a linguagem do trabalho duro e da poupança exaltada pelos economistas desde Adam Smith e David Ricardo. Para ela, a austeridade prosperou tanto no liberalismo britânico quanto no fascismo italiano, que tinham em comum o objetivo de reabilitar a acumulação de capital. A privatização, por sua vez, é um dos pilares da plataforma neoliberal descrita por Boito. (Mattei, A ordem do capital, introdução, livreto da Boitempo, pp. 3, 6 e 17; Boito Jr., Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil, p. 81)

No Brasil

Gorender conta que os plantadores e os comerciantes do Brasil receberam bem a pregação econômica liberal e que José da Silva Lisboa, leitor de Adam Smith, recomendou a abertura dos portos brasileiros ao príncipe regente João, quando este chegou a Salvador. (Gorender, Liberalismo e escravidão, § 8 da página do MIA)

Em 2017, a Lei nº 13.467, a reforma trabalhista, deu à convenção e ao acordo coletivo prevalência sobre a lei em temas como jornada, banco de horas e intervalo, o chamado negociado sobre o legislado. Boito põe essa reforma entre as derrotas do campo operário e popular que antecederam a eleição de Bolsonaro, e Oliveira e Machado ligam a desregulamentação do mercado de trabalho às reformas pró-mercado que favorecem frações da burguesia. (Congresso Nacional, Lei nº 13.467, de 13 de julho de 2017, art. 1º, art. 611-A da CLT; Boito Jr., Por que caracterizar o bolsonarismo como neofascismo, p. 116; Oliveira e Machado, Vem pra Rua e MBL no contexto do golpe parlamentar no Brasil, p. 107)

Em 2019, a Lei nº 13.874 instituiu a Declaração de Direitos de Liberdade Econômica, que tem entre os seus princípios a liberdade no exercício de atividades econômicas e a intervenção do Estado apenas de forma subsidiária e excepcional, isto é, secundária e fora da regra. O Arquivo Nacional registra que, sob o ministro Paulo Guedes, o governo Bolsonaro buscou uma agenda liberal, com foco na redução do Estado, em privatizações e no ajuste fiscal, e Sávio Cavalcante e Danilo Martuscelli escrevem que esse governo seguiu à risca os ditames neoliberais. (Congresso Nacional, Lei nº 13.874, de 20 de setembro de 2019, arts. 1º e 2º; Arquivo Nacional, Jair Messias Bolsonaro, parágrafo sobre a economia; Cavalcante e Martuscelli, A importância teórica da obra de Nicos Poulantzas para a análise da extrema direita contemporânea, p. 43, nota 12)

No Brasil

Liberalismo econômico no Brasil

A Lei nº 13.467, de 2017, deu à convenção e ao acordo coletivo prevalência sobre a lei em temas como jornada e banco de horas, e Armando Boito Jr. põe essa reforma trabalhista entre as derrotas do campo operário e popular. (Congresso Nacional, Lei nº 13.467, de 13 de julho de 2017, art. 1º, art. 611-A da CLT; Boito Jr., Por que caracterizar o bolsonarismo como neofascismo, p. 116)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Onde ler: Livro I, cap. 4, seção 3, §§ 2, 23 e 24, e cap. 8, seção 1, § 9.

    “A esfera da circulação ou da troca de mercadorias, dentro de cujos limites se move a compra e venda da força de trabalho, era de facto um verdadeiro Éden dos direitos humanos inatos. O que aí impera somente é liberdade, igualdade, propriedade e Bentham.”

    Livro I, cap. 4, seção 3, § 23

    Ler grátis: O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital ↗Ficha da obra: O capital, livro I

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (26)

Fontes desta página

  1. OLIVEIRA, Diego Batista Rodrigues de; MACHADO, Eliel Ribeiro. Vem pra Rua e MBL no contexto do golpe parlamentar no Brasil. 2019. Abrir ↗
  2. GORENDER, Jacob. Liberalismo e escravidão (entrevista a Estudos Avançados). 2002. Abrir ↗
  3. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Abrir ↗
  4. MARX, Karl. Sobre a questão do livre-câmbio (discurso na Associação Democrática de Bruxelas). 1848. Abrir ↗
  5. BOITO JR., Armando. Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil. Crítica Marxista, n. 3, pp. 80-105, 1996. Abrir ↗
  6. MATTEI, Clara E.. A ordem do capital: como economistas inventaram a austeridade e abriram caminho para o fascismo. Trad. Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2023.
  7. Congresso Nacional. Lei nº 13.467, de 13 de julho de 2017 (reforma trabalhista). planalto.gov.br, 13/07/2017. Abrir ↗
  8. BOITO JR., Armando. Por que caracterizar o bolsonarismo como neofascismo. Crítica Marxista, n. 50, pp. 111-119, 2020. Abrir ↗
  9. Congresso Nacional. Lei nº 13.874, de 20 de setembro de 2019 (Declaração de Direitos de Liberdade Econômica). planalto.gov.br, 20/09/2019. Abrir ↗
  10. Arquivo Nacional. Jair Messias Bolsonaro (biografia, Centro de Referência de Acervos Privados Presidenciais). presidentes.an.gov.br. Abrir ↗
  11. CAVALCANTE, Sávio; MARTUSCELLI, Danilo Enrico. A importância teórica da obra de Nicos Poulantzas para a análise da extrema direita contemporânea. 2025. Abrir ↗
  12. Armando Boito Jr.. Por que caracterizar o bolsonarismo como neofascismo (Crítica Marxista, n. 50, 2020). econtents.sbu.unicamp.br. Abrir ↗
  13. Armando Boito Jr.. Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil (Crítica Marxista, n. 3, 1996). econtents.sbu.unicamp.br. Abrir ↗
  14. Sávio Cavalcante e Danilo Enrico Martuscelli. A importância teórica da obra de Nicos Poulantzas para a análise da extrema direita contemporânea (Crítica Marxista, n. 58, 2025). econtents.sbu.unicamp.br. Abrir ↗
  15. Jacob Gorender. Liberalismo e escravidão (entrevista a Estudos Avançados, v. 16, n. 46, 2002), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  16. Karl Marx. Sobre a questão do livre-câmbio (discurso de 7 de janeiro de 1848, tradução de Miguel Macedo), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  17. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 8, seção 1. Os limites do dia de trabalho (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  18. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 4, seção 3. Compra e venda da força de trabalho (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  19. Clara E. Mattei. Austeridade, antes e agora (livreto da Boitempo, fev. 2026, com o texto de A ordem do capital, pp. 24-39). blogdaboitempo.com.br, 01/02/2026. Abrir ↗
  20. Diego Batista Rodrigues de Oliveira e Eliel Ribeiro Machado. Vem pra Rua e MBL no contexto do golpe parlamentar no Brasil (Lutas Sociais, v. 23, n. 42, 2019). revistas.pucsp.br. Abrir ↗