Explicação
Um movimento liberal e conservador
O Movimento Brasil Livre, o MBL, é, segundo Diego Oliveira e Eliel Machado, um movimento de cunho liberal e conservador e, junto com o Vem Pra Rua, o grupo de maior relevância da direita na campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff. Para esses autores, liberal é a ideologia de mercado, da liberdade individual, do Estado mínimo e das privatizações, e conservador é quem se opõe às práticas coletivistas de defesa da igualdade e da inclusão social, no plano dos costumes. (Oliveira e Machado, Vem pra Rua e MBL no contexto do golpe parlamentar no Brasil, pp. 98, 99 e 102)
A origem
Oliveira e Machado contam que o MBL nasceu de quadros do Estudantes pela Liberdade, foi criado em junho de 2013, no calor dos protestos iniciados pelo Movimento Passe Livre em São Paulo, e se destacou a partir de novembro de 2014, quando passou a promover protestos contra Dilma e o PT. O próprio MBL diz ter sido fundado em 1º de novembro de 2014 por Renan Santos, Kim Kataguiri, Alexandre Santos, Rafael Rizzo e outros. Segundo o movimento, a primeira manifestação foi no MASP, em São Paulo, e em 2015 ele fez uma marcha de 1.100 quilômetros até Brasília para entregar à oposição um pedido de impeachment. (Oliveira e Machado, Vem pra Rua e MBL no contexto do golpe parlamentar no Brasil, p. 102; Movimento Brasil Livre, Academia MBL, apresentação; Movimento Brasil Livre, MBL | Movimento Brasil Livre, linha do tempo)
O MBL se apresentou de início como apartidário e, depois dos protestos, passou a se dizer suprapartidário, recusando todos os partidos de esquerda e se aliando a partidos que considerava neutros. Segundo Oliveira e Machado, o grupo chegou a ter mais de 2,6 milhões de seguidores na sua página do Facebook, e Sávio Cavalcante registra que, em 2018, só o MBL e o Vem Pra Rua passavam de 5 milhões de seguidores nas suas páginas na internet. (Oliveira e Machado, Vem pra Rua e MBL no contexto do golpe parlamentar no Brasil, pp. 102 e 103; Cavalcante, Classe média e ameaça neofascista no Brasil de Bolsonaro, p. 124)
Classe média em movimento
Oliveira e Machado analisam o MBL pela teoria marxista das classes e o tratam como um movimento-apoio, isto é, uma organização de frações da classe média que apoia as frações da burguesia em disputa pela hegemonia no bloco no poder, que Armando Boito Jr. define como a unidade contraditória da burguesia organizada como classe dominante. Para eles, esse apoio não é pura ilusão, porque envolve interesses materiais, como a preservação de privilégios da classe média sob o neoliberalismo. (Oliveira e Machado, Vem pra Rua e MBL no contexto do golpe parlamentar no Brasil, pp. 98 e 102; Boito Jr., A burguesia no governo Lula, p. 54)
Os autores mostram que o MBL juntou pautas econômicas liberais, antipetismo, crítica à corrupção e apoio às contrarreformas dos governos Temer e Bolsonaro, e passou a disputar as chamadas guerras culturais com um discurso que pede punições mais duras e é contrário às bandeiras dos movimentos LGBT, feministas e negros. Segundo eles, as bandeiras do grupo tocam só em parte os interesses da sua base e atendem sobretudo às frações burguesas mais beneficiadas pelas reformas pró-mercado. Uma pesquisa citada pelos autores mostrou que os manifestantes pelo impeachment eram a favor da gratuidade da saúde, com 92%, e da educação, com 74%. (Oliveira e Machado, Vem pra Rua e MBL no contexto do golpe parlamentar no Brasil, pp. 103, 105, 106 e 107)
Kiane Follmann da Silva, segundo a resenha de Danilo Peixoto de Miranda, viu no MBL o principal articulador da direita naquela conjuntura, com bandeiras como o antipetismo, o combate à corrupção e uma agenda ultraliberal. Para ela, o MBL capturou o descontentamento de parcelas da classe média com a política do governo e adotou ideias muito próximas às da UDN, partido de direita e conservador fundado em 1945. (Miranda, A reemergência da direita reacionária, pp. 169 a 171)
O MBL e o bolsonarismo
Armando Boito Jr. explica que o movimento de massa reacionário que surgiu em 2015 na campanha pela deposição de Dilma deu origem, depois de uma depuração, ao bolsonarismo. Sávio Cavalcante registra que o MBL e o Vem Pra Rua declararam voto em Bolsonaro no segundo turno de 2018 e considera essa declaração decisiva, pelo alcance das páginas dos dois grupos. (Boito Jr., Por que caracterizar o bolsonarismo como neofascismo, p. 115; Cavalcante, Classe média e ameaça neofascista no Brasil de Bolsonaro, p. 124)
Do movimento ao partido
O MBL lançou os primeiros candidatos em 2016 e, segundo Oliveira e Machado, conquistou cargos nas eleições municipais desse ano e, em 2018, nas assembleias estaduais e no Legislativo federal. O site do Partido Missão diz que ele nasceu em 2025, usa o número 14 e tem Renan Santos como presidente nacional. (Movimento Brasil Livre, MBL | Movimento Brasil Livre, linha do tempo; Oliveira e Machado, Vem pra Rua e MBL no contexto do golpe parlamentar no Brasil, p. 102; Partido Missão, Missão 14, página inicial)
No cadastro de candidaturas do TSE para 2026, o Partido Missão lançou Renan Antonio Ferreira dos Santos, o Renan Santos, à Presidência, e ele teve 2.675.887 votos no primeiro turno, 2,24% dos válidos, sem ser eleito. Pelo mesmo partido, Kim Kataguiri foi eleito deputado federal por São Paulo, e Rafa Minato, deputado estadual, também em São Paulo. (Tribunal Superior Eleitoral, Candidatos das eleições de 2026, consulta_cand_2026_BRASIL.csv; Tribunal Superior Eleitoral, Relatório Resultado da Totalização da eleição presidencial de 2026, 1º e 2º turnos, 1º turno)