Explicação
O que o salário paga
Na superfície da sociedade capitalista, o salário aparece como o preço do trabalho, uma quantia de dinheiro paga por uma quantidade de trabalho. Marx mostra que essa expressão é imaginária, porque o que o trabalhador vende ao capitalista é a sua força de trabalho, a capacidade de trabalhar, por um tempo determinado. Ele explicou isso em 1865, num informe ao Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores, lembrando que, se a força de trabalho fosse vendida sem limite de tempo, voltaria a escravidão. (Marx, O capital, Livro I, cap. 17, §§ 1 e 7; Marx, Salário, preço e lucro, cap. 7, §§ 1 e 2)
O valor da força de trabalho é o valor dos meios de vida necessários para produzir, desenvolver, manter e perpetuar essa força. Ele inclui o sustento dos filhos, que vão substituir o trabalhador no mercado, e os custos da sua formação, e muda quando muda o valor desses meios de vida. (Marx, Salário, preço e lucro, cap. 7, § 7; Marx, O capital, Livro I, cap. 4, seção 3, §§ 12, 13 e 14)
Um elemento histórico e moral
As necessidades que o salário cobre vão além das físicas. Para Marx, o volume das necessidades imprescindíveis e o modo de atendê-las são um produto histórico, que depende do grau de civilização de cada país e das condições em que se formou a sua classe trabalhadora, e por isso o valor da força de trabalho contém um elemento histórico e moral. (Marx, O capital, Livro I, cap. 4, seção 3, § 11)
No informe de 1865, Marx explicou que esse valor tem um limite mínimo, dado pelo que é fisicamente indispensável para a classe trabalhadora se manter e se reproduzir, e um elemento histórico e social, o padrão de vida tradicional de cada país, que pode crescer, encolher ou até desaparecer. Entre esses limites, o nível efetivo do salário e do lucro é decidido pela luta incessante entre o capital e o trabalho. (Marx, Salário, preço e lucro, cap. 14, §§ 3, 4, 5 e 9)
Na Crítica do Programa de Gotha, de 1875, Marx combateu a lei de bronze do salário, defendida pelos seguidores de Ferdinand Lassalle. Para Marx, essa lei se apoiava na teoria da população de Malthus e, se fosse verdadeira, valeria em qualquer sociedade, o que tornaria inútil abolir o trabalho assalariado. Ele comparou essa ideia à de um escravo que pedisse o fim da escravidão porque o sustento dos escravos não pode passar de um certo máximo baixo. (Marx, Crítica do Programa de Gotha, parte II, crítica da lei de bronze do salário)
A forma que esconde
A forma do salário apaga a divisão do dia entre trabalho pago e não pago. O servo sabia quando trabalhava para si e quando trabalhava para o senhor, e no trabalho escravo até a parte em que o escravo repunha o próprio sustento parecia trabalho para o dono. No trabalho assalariado acontece o contrário, e até o sobretrabalho, que não é pago, parece pago. (Marx, O capital, Livro I, cap. 17, § 12)
Por isso, para Marx, pedir um salário justo dentro do sistema assalariado é como pedir liberdade dentro da escravidão. Ele aconselhou os trabalhadores a não abandonar a luta por salários, que em 99% dos casos só defende o valor da força de trabalho, mas a trocar o lema de um salário justo por uma jornada justa pela bandeira da abolição do trabalho assalariado. Marx viu nos sindicatos centros de resistência contra o capital, que falham quando se limitam a uma luta de guerrilhas contra os efeitos do sistema, em vez de usar a sua força organizada para abolir o trabalho assalariado. (Marx, Salário, preço e lucro, cap. 7, § 6; cap. 14, §§ 16, 17 e 21)
No Brasil
A Constituição de 1988 manda que o salário mínimo atenda às necessidades vitais básicas do trabalhador e da sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social. Marx também conta no valor da força de trabalho o sustento dos filhos e um elemento histórico e moral. (Assembleia Nacional Constituinte, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988, art. 7º, IV; Marx, O capital, Livro I, cap. 4, seção 3, §§ 11 e 12)
O Decreto nº 12.797, de 23 de dezembro de 2025, que cita as Leis nº 14.663, de 2023, e nº 15.077, de 2024, fixou o salário mínimo de 2026 em R$ 1.621,00 por mês. O DIEESE calcula todo mês o salário mínimo necessário para cumprir o que manda a Constituição, a partir do custo da cesta básica de maior valor entre as capitais pesquisadas, para uma família de dois adultos e duas crianças. Em setembro de 2026, esse valor era de R$ 7.750,01, cerca de 4,78 vezes o salário mínimo em vigor. (Presidência da República, Decreto nº 12.797, de 23 de dezembro de 2025, art. 1º; DIEESE, Salário mínimo nominal e necessário, tabela de 2026; DIEESE, Metodologia da Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, seção 5)