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Conceitos / Economia política / Trabalho e exploração

Salário

Em poucas palavras

Salário é o preço da força de trabalho, a capacidade de trabalhar que o trabalhador vende ao capitalista. O valor dela é o dos meios de vida de que o trabalhador e a sua família precisam, com um elemento histórico e moral que muda com as lutas e os costumes de cada país. A forma do salário faz o dia inteiro parecer pago e esconde o trabalho não pago que gera a mais-valia.

Eixo e tema
Economia política · Trabalho e exploração
Obra principal
O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital, de Karl Marx

Explicação

O que o salário paga

Na superfície da sociedade capitalista, o salário aparece como o preço do trabalho, uma quantia de dinheiro paga por uma quantidade de trabalho. Marx mostra que essa expressão é imaginária, porque o que o trabalhador vende ao capitalista é a sua força de trabalho, a capacidade de trabalhar, por um tempo determinado. Ele explicou isso em 1865, num informe ao Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores, lembrando que, se a força de trabalho fosse vendida sem limite de tempo, voltaria a escravidão. (Marx, O capital, Livro I, cap. 17, §§ 1 e 7; Marx, Salário, preço e lucro, cap. 7, §§ 1 e 2)

O valor da força de trabalho é o valor dos meios de vida necessários para produzir, desenvolver, manter e perpetuar essa força. Ele inclui o sustento dos filhos, que vão substituir o trabalhador no mercado, e os custos da sua formação, e muda quando muda o valor desses meios de vida. (Marx, Salário, preço e lucro, cap. 7, § 7; Marx, O capital, Livro I, cap. 4, seção 3, §§ 12, 13 e 14)

Um elemento histórico e moral

As necessidades que o salário cobre vão além das físicas. Para Marx, o volume das necessidades imprescindíveis e o modo de atendê-las são um produto histórico, que depende do grau de civilização de cada país e das condições em que se formou a sua classe trabalhadora, e por isso o valor da força de trabalho contém um elemento histórico e moral. (Marx, O capital, Livro I, cap. 4, seção 3, § 11)

No informe de 1865, Marx explicou que esse valor tem um limite mínimo, dado pelo que é fisicamente indispensável para a classe trabalhadora se manter e se reproduzir, e um elemento histórico e social, o padrão de vida tradicional de cada país, que pode crescer, encolher ou até desaparecer. Entre esses limites, o nível efetivo do salário e do lucro é decidido pela luta incessante entre o capital e o trabalho. (Marx, Salário, preço e lucro, cap. 14, §§ 3, 4, 5 e 9)

Na Crítica do Programa de Gotha, de 1875, Marx combateu a lei de bronze do salário, defendida pelos seguidores de Ferdinand Lassalle. Para Marx, essa lei se apoiava na teoria da população de Malthus e, se fosse verdadeira, valeria em qualquer sociedade, o que tornaria inútil abolir o trabalho assalariado. Ele comparou essa ideia à de um escravo que pedisse o fim da escravidão porque o sustento dos escravos não pode passar de um certo máximo baixo. (Marx, Crítica do Programa de Gotha, parte II, crítica da lei de bronze do salário)

A forma que esconde

A forma do salário apaga a divisão do dia entre trabalho pago e não pago. O servo sabia quando trabalhava para si e quando trabalhava para o senhor, e no trabalho escravo até a parte em que o escravo repunha o próprio sustento parecia trabalho para o dono. No trabalho assalariado acontece o contrário, e até o sobretrabalho, que não é pago, parece pago. (Marx, O capital, Livro I, cap. 17, § 12)

Por isso, para Marx, pedir um salário justo dentro do sistema assalariado é como pedir liberdade dentro da escravidão. Ele aconselhou os trabalhadores a não abandonar a luta por salários, que em 99% dos casos só defende o valor da força de trabalho, mas a trocar o lema de um salário justo por uma jornada justa pela bandeira da abolição do trabalho assalariado. Marx viu nos sindicatos centros de resistência contra o capital, que falham quando se limitam a uma luta de guerrilhas contra os efeitos do sistema, em vez de usar a sua força organizada para abolir o trabalho assalariado. (Marx, Salário, preço e lucro, cap. 7, § 6; cap. 14, §§ 16, 17 e 21)

No Brasil

A Constituição de 1988 manda que o salário mínimo atenda às necessidades vitais básicas do trabalhador e da sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social. Marx também conta no valor da força de trabalho o sustento dos filhos e um elemento histórico e moral. (Assembleia Nacional Constituinte, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988, art. 7º, IV; Marx, O capital, Livro I, cap. 4, seção 3, §§ 11 e 12)

O Decreto nº 12.797, de 23 de dezembro de 2025, que cita as Leis nº 14.663, de 2023, e nº 15.077, de 2024, fixou o salário mínimo de 2026 em R$ 1.621,00 por mês. O DIEESE calcula todo mês o salário mínimo necessário para cumprir o que manda a Constituição, a partir do custo da cesta básica de maior valor entre as capitais pesquisadas, para uma família de dois adultos e duas crianças. Em setembro de 2026, esse valor era de R$ 7.750,01, cerca de 4,78 vezes o salário mínimo em vigor. (Presidência da República, Decreto nº 12.797, de 23 de dezembro de 2025, art. 1º; DIEESE, Salário mínimo nominal e necessário, tabela de 2026; DIEESE, Metodologia da Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, seção 5)

No Brasil

Salário no Brasil

A Constituição manda que o salário mínimo atenda às necessidades vitais do trabalhador e da família. Em setembro de 2026, o mínimo era de R$ 1.621,00, e o DIEESE calculava em R$ 7.750,01 o salário mínimo necessário para cumprir essa regra. (DIEESE, Salário mínimo nominal e necessário, tabela de 2026, setembro; Marx, O capital, Livro I, cap. 4, seção 3, §§ 11 e 12)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (25)
  • Interpretação · Karl MarxA forma do salário apaga todo vestígio da divisão do dia de trabalho em trabalho pago e não pago; no trabalho servil, o trabalho do servo para si e para o senhor se distinguem no espaço e no tempo; no escravo, até a parte em que ele repõe os seus meios de vida aparece como trabalho para o dono; no assalariado, até o sobretrabalho aparece como pago.Marx, O capital, Livro I, cap. 17, § 12
  • FatoA Constituição de 1988 garante salário mínimo fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender às necessidades vitais básicas do trabalhador e da sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social.Assembleia Nacional Constituinte, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988, art. 7º, IV
  • FatoO Decreto nº 12.797, de 23 de dezembro de 2025, editado tendo em vista as Leis nº 14.663, de 2023, e nº 15.077, de 2024, fixou o salário mínimo em R$ 1.621,00 a partir de 1º de janeiro de 2026.Presidência da República, Decreto nº 12.797, de 23 de dezembro de 2025, preâmbulo e art. 1º
  • FatoPara calcular o salário mínimo necessário, o DIEESE parte do preceito do art. 7º, IV, da Constituição e considera uma família de dois adultos e duas crianças, que consomem como um adulto; o custo familiar de alimentação é três vezes a cesta básica de maior valor, e o salário necessário é esse custo dividido por 0,3571, a parcela da alimentação no orçamento das famílias de baixa renda.DIEESE, Metodologia da Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, seção 5 (pp. 10 e 11 do PDF)
  • FatoEm setembro de 2026, o salário mínimo nominal era de R$ 1.621,00 e o salário mínimo necessário calculado pelo DIEESE era de R$ 7.750,01.DIEESE, Salário mínimo nominal e necessário, tabela de 2026, setembro
  • Interpretação · Karl MarxA soma dos meios de vida necessários para a produção da força de trabalho inclui os meios de vida dos substitutos, os filhos dos operários.Marx, O capital, Livro I, cap. 4, seção 3, § 12
  • Interpretação · Karl MarxOs custos de formação da força de trabalho, maiores ou menores segundo a sua qualificação, entram no valor despendido para produzi-la.Marx, O capital, Livro I, cap. 4, seção 3, § 13
  • Interpretação · Karl MarxDa lei de bronze do salário só as palavras de bronze pertencem a Lassalle; a sua fundamentação é a teoria da população de Malthus, e, se ela fosse correta, a lei dominaria qualquer sistema social e não se poderia aboli-la nem abolindo cem vezes o trabalho assalariado.Marx, Crítica do Programa de Gotha, parte II, crítica da lei de bronze do salário
  • FatoMarx escreveu a Crítica do Programa de Gotha em abril ou no começo de maio de 1875.Marx, Crítica do Programa de Gotha, cabeçalho da página do MIA
  • Interpretação · Karl MarxDefender a abolição da escravatura porque o sustento dos escravos não pode exceder um certo máximo baixo seria como fazer o programa de uma rebelião de escravos a partir de representações antiquadas.Marx, Crítica do Programa de Gotha, parte II, crítica da lei de bronze do salário
  • Interpretação · Karl MarxO âmbito das necessidades imprescindíveis e o modo da sua satisfação são um produto histórico, que depende do estádio de civilização de um país e das condições em que se formou a classe dos trabalhadores livres; por isso a determinação do valor da força de trabalho contém um elemento histórico e moral.Marx, O capital, Livro I, cap. 4, seção 3, § 11
  • Interpretação · Karl MarxNa expressão valor do trabalho, o conceito de valor está apagado e invertido; ela é uma expressão imaginária, que brota das próprias relações de produção como categoria de uma forma fenomênica de relações essenciais.Marx, O capital, Livro I, cap. 17, § 7
  • Interpretação · Karl MarxO valor da força de trabalho se resolve no valor de uma soma de meios de vida e muda com o valor desses meios de vida.Marx, O capital, Livro I, cap. 4, seção 3, § 14
  • FatoEm setembro de 2026, o salário mínimo necessário calculado pelo DIEESE equivalia a cerca de 4,78 vezes o salário mínimo nominal (cálculo nosso, 7.750,01 dividido por 1.621,00).DIEESE, Salário mínimo nominal e necessário, tabela de 2026, setembro
  • Interpretação · Karl MarxAs lutas da classe operária em torno do salário são inseparáveis do sistema do salariado, e em 99% dos casos os esforços para elevar os salários só mantêm o valor dado do trabalho; se a classe operária renunciasse a essa defesa, seria degradada a uma massa de homens famintos.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 14, § 16
  • Interpretação · Karl MarxA classe operária luta contra os efeitos, e não contra as causas; em vez do lema conservador de um salário justo por uma jornada de trabalho justa, deve inscrever na sua bandeira a divisa da abolição do sistema de trabalho assalariado.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 14, § 17
  • Interpretação · Karl MarxPedir uma retribuição igual ou simplesmente justa na base do sistema do salariado é o mesmo que pedir liberdade na base do sistema da escravatura.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 7, § 6
  • Interpretação · Karl MarxEntre o mínimo físico do salário e o máximo físico da jornada cabe uma escala imensa de variantes, e o grau efetivo só se fixa pela luta incessante entre o capital e o trabalho.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 14, § 9
  • Interpretação · Karl MarxO valor da força de trabalho é formado por um elemento puramente físico e outro histórico e social; o limite mínimo é dado pelos meios de subsistência fisicamente indispensáveis para a classe operária se manter e se reproduzir.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 14, § 3
  • Interpretação · Karl MarxNão existe valor do trabalho no sentido corrente da palavra; o que o operário vende não é diretamente o seu trabalho, mas a sua força de trabalho, cedendo temporariamente ao capitalista o direito de dispor dela; se pudesse vendê-la sem limitação de tempo, a escravatura estaria restabelecida.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 7, §§ 1 e 2
  • FatoSalário, preço e lucro é um informe pronunciado por Marx em 20 e 27 de junho de 1865 nas sessões do Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores, publicado em folheto em Londres em 1898.Marx, Salário, preço e lucro, página de índice do MIA
  • Interpretação · Karl MarxAlém do elemento físico, entra no valor do trabalho o padrão de vida tradicional de cada país, e esse elemento histórico ou social pode acentuar-se, debilitar-se e até extinguir-se, restando só o limite físico.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 14, §§ 4 e 5
  • Interpretação · Karl MarxOs sindicatos trabalham bem como centros de resistência contra as usurpações do capital, mas falham quando se limitam a uma luta de guerrilhas contra os efeitos do sistema, em vez de usar a sua força organizada para a abolição do sistema de trabalho assalariado.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 14, § 21
  • Interpretação · Karl MarxO valor da força de trabalho é determinado pelo valor dos artigos de primeira necessidade exigidos para produzir, desenvolver, manter e perpetuar a força de trabalho.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 7, § 7
  • Interpretação · Karl MarxNa superfície da sociedade burguesa, o salário do operário aparece como preço do trabalho, uma quantidade de dinheiro paga em troca de uma quantidade de trabalho.Marx, O capital, Livro I, cap. 17, § 1

Fontes desta página

  1. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Abrir ↗
  2. MARX, Karl. Salário, preço e lucro. 1865. Abrir ↗
  3. MARX, Karl. Crítica do Programa de Gotha. Trad. José Barata-Moura. Lisboa; Moscovo: Editorial Avante!; Edições Progresso (Obras escolhidas em três tomos), 1982. Abrir ↗
  4. Assembleia Nacional Constituinte. Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988. planalto.gov.br, 05/10/1988. Abrir ↗
  5. Presidência da República. Decreto nº 12.797, de 23 de dezembro de 2025 (salário mínimo a partir de 1º de janeiro de 2026). planalto.gov.br, 23/12/2025. Abrir ↗
  6. DIEESE. Salário mínimo nominal e necessário (Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos). dieese.org.br. Abrir ↗
  7. DIEESE. Metodologia da Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos. dieese.org.br. Abrir ↗
  8. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 17. Transformação de valor ou preço da força de trabalho em salário (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  9. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 4, seção 3. Compra e venda da força de trabalho (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  10. Karl Marx. Crítica do Programa de Gotha, glosas marginais ao programa do Partido Operário Alemão, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  11. Karl Marx. Crítica do Programa de Gotha (índice e ficha), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  12. Karl Marx. Salário, preço e lucro, 14. A luta entre o capital e o trabalho e seus resultados, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  13. Karl Marx. Salário, preço e lucro, 7. Força de trabalho, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  14. Karl Marx. Salário, preço e lucro (índice e origem do texto), no MIA. marxists.org. Abrir ↗