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Conceitos / Economia política / Gasto público e austeridade

Privatização

Em poucas palavras

Privatização é a passagem de empresas, serviços ou bens públicos para o capital privado. Marx mostrou que o roubo das terras do Estado foi um dos métodos da acumulação primitiva, e Engels advertiu que a empresa estatal num Estado capitalista continua capitalista. Para Armando Boito Jr., as privatizações brasileiras favoreceram o capital monopolista e o imperialismo.

Eixo e tema
Economia política · Gasto público e austeridade
Obra principal
O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital, de Karl Marx

Explicação

O roubo dos domínios do Estado

No capítulo de O capital sobre a chamada acumulação primitiva, Marx conta que a revolução inglesa de 1688 levou ao poder os grandes proprietários de terra e os capitalistas. Eles inauguraram a nova era com o roubo em grande escala dos domínios do Estado, isto é, das terras públicas, que foram doadas, vendidas a preços ridículos ou simplesmente anexadas a propriedades privadas, sem respeito nem mesmo às formalidades legais. Segundo Marx, os capitalistas apoiaram a operação para transformar a terra num puro artigo de comércio, ampliar a grande empresa agrícola e aumentar a oferta de proletários vindos do campo. (Marx, O capital, livro I, cap. 24, seção 2, § 18)

Marx inclui a alienação fraudulenta dos domínios do Estado, ao lado do roubo das terras da Igreja e das terras comunais, entre os métodos da acumulação primitiva, que conquistaram o campo para a agricultura capitalista. Para ele, esses métodos incorporaram a terra ao capital e criaram para a indústria das cidades a oferta de proletários fora da lei de que ela precisava. (Marx, O capital, livro I, cap. 24, seção 2, § 40)

Estatal não quer dizer socialista

Em Do socialismo utópico ao socialismo científico, de 1880, Engels explica que o crescimento das forças produtivas obriga a própria classe capitalista a tratá-las como forças sociais, primeiro nas sociedades por ações e depois na propriedade do Estado. Essa passagem ao Estado aparece primeiro nos grandes meios de comunicação, como o correio, o telégrafo e as ferrovias. (Engels, Do socialismo utópico ao socialismo científico, parte III, §§ 29 e 31)

Para Engels, nem a sociedade por ações nem a propriedade do Estado acabam com o caráter capitalista das forças produtivas. O Estado moderno, qualquer que seja a sua forma, é uma máquina essencialmente capitalista, o capitalista coletivo ideal, e quanto mais forças produtivas ele assume, mais se torna o capitalista nacional e mais cidadãos explora. Os trabalhadores continuam assalariados, e Engels ironiza quem chamava de socialismo as estatizações de Bismarck, feitas para controlar as ferrovias em caso de guerra e para dar ao governo uma renda independente do parlamento. (Engels, Do socialismo utópico ao socialismo científico, parte III, § 33 e nota 4)

A privatização como expropriação

A historiadora Virgínia Fontes chama de expropriações secundárias os processos que, sem tirar meios de produção de quem já não os tinha, impõem novas condições aos trabalhadores e abrem novos setores para a extração de mais-valia. Para Fontes, boa parte das privatizações de empresas públicas das últimas décadas se parece com as expropriações primárias, porque incidiu sobre bens coletivos, como antes os cercamentos incidiram sobre as terras comunais. A privatização de instituições que proviam educação, saúde, previdência e transporte, diz ela, foi também uma extinção de direitos. (Fontes, O Brasil e o capital-imperialismo, pp. 54 e 60)

Fontes discute com o geógrafo marxista David Harvey, que chamou esses processos de acumulação por espoliação, um renascimento da acumulação primitiva que se volta contra direitos e bens coletivos mesmo nos países plenamente capitalistas. Ela critica em Harvey a ideia de um capitalismo normal, que vive só da reprodução ampliada, separado de um capitalismo predatório. Para Fontes, a expansão capitalista nunca dispensou a especulação, a fraude, o roubo aberto e as expropriações. (Fontes, O Brasil e o capital-imperialismo, pp. 62, 63 e 64)

As privatizações no Brasil

Em 1990, a Lei nº 8.031 criou o Programa Nacional de Desestatização, com os objetivos de transferir à iniciativa privada atividades que o texto chama de indevidamente exploradas pelo setor público e de contribuir para a redução da dívida pública. A Lei nº 9.491, de 1997, refez o programa com os mesmos objetivos, e a Lei nº 14.182, de 2021, determinou que a desestatização da Eletrobras se fizesse por aumento do capital da empresa, com venda pública de novas ações e renúncia da União ao direito de comprá-las. (Congresso Nacional, Lei nº 8.031, de 12 de abril de 1990, art. 1º; Congresso Nacional, Lei nº 9.491, de 9 de setembro de 1997, art. 1º; Congresso Nacional, Lei nº 14.182, de 12 de julho de 2021, art. 1º, § 1º)

Para o cientista político Armando Boito Jr., a privatização de empresas e serviços públicos foi, junto com a abertura da economia ao capital imperialista e a desregulamentação do trabalho, um dos três pilares da plataforma neoliberal que ganhou apoio de grande parte da população nos anos 1990. Boito sustenta que a privatização favoreceu o capital monopolista e o imperialismo e marginalizou o pequeno e o médio capital. Segundo ele, grandes grupos arremataram a preço vil empresas lucrativas da siderurgia, da petroquímica, dos fertilizantes, da mineração, da energia elétrica e da telefonia, pagando em grande parte com as chamadas moedas podres, títulos antigos de dívida do governo aceitos nos leilões, e com empréstimos favorecidos do BNDES. (Boito Jr., Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil, p. 81; Boito Jr., Neoliberalismo e relações de classe no Brasil, pp. 18 e 19)

Nesta explicação

No Brasil

Privatização no Brasil

Em 1990, a Lei nº 8.031 criou o Programa Nacional de Desestatização para transferir à iniciativa privada atividades exploradas pelo setor público e contribuir para a redução da dívida pública. (Congresso Nacional, Lei nº 8.031, de 12 de abril de 1990, art. 1º; Fontes, O Brasil e o capital-imperialismo, p. 60)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Onde ler: livro I, cap. 24, seção 2, §§ 18 e 40.

    “Inauguraram a nova era exercitando numa escala colossal o roubo de domínios do Estado, até então só modestamente cometido. Estes terrenos foram doados, vendidos a preços ridículos ou também anexados a domínios privados por usurpação directa.”

    livro I, cap. 24, seção 2, § 18

    Ler grátis: O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital ↗Ficha da obra: O capital, livro I

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (18)
  • Interpretação · Karl MarxOs capitalistas burgueses favoreceram a operação para transformar a terra num puro artigo de comércio, estender o domínio da grande empresa agrícola e aumentar o seu abastecimento de proletários vindos do campo.Marx, O capital, livro I, cap. 24, seção 2, § 18
  • Interpretação · Armando Boito Jr.Os pilares da política neoliberal formam três círculos concêntricos, o da desregulamentação do trabalho e redução de direitos sociais, o da privatização e o da abertura comercial e financeira.Boito Jr., Neoliberalismo e relações de classe no Brasil, p. 18
  • Interpretação · Armando Boito Jr.A política de privatização favorece uma fração da burguesia, o capital monopolista, e o imperialismo, e marginaliza o pequeno e o médio capital, barrado nos leilões pelas normas do processo.Boito Jr., Neoliberalismo e relações de classe no Brasil, p. 19
  • Interpretação · Armando Boito Jr.Grandes grupos arremataram a preço vil, pagando em grande parte com moedas podres e empréstimos favorecidos do BNDES, empresas lucrativas dos setores siderúrgico, petroquímico, de fertilizantes e de mineração e empresas de serviços urbanos, como as de energia elétrica e de telefonia.Boito Jr., Neoliberalismo e relações de classe no Brasil, p. 19
  • Interpretação · Armando Boito Jr.O tripé da plataforma política neoliberal, composto pela abertura da economia ao capital imperialista, pela privatização de empresas e serviços públicos e pela desregulamentação das relações de trabalho, obteve aceitação junto a grande parte da população.Boito Jr., Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil, p. 81
  • FatoA desestatização da Eletrobras foi executada na modalidade de aumento do capital social, por subscrição pública de ações ordinárias com renúncia do direito de subscrição pela União.Congresso Nacional, Lei nº 14.182, de 12 de julho de 2021, art. 1º, § 1º
  • Interpretação · Friedrich EngelsChamar de socialista toda propriedade do Estado é um socialismo espúrio; quando Bismarck estatizou as principais ferrovias da Prússia para tê-las à mão em caso de guerra e criar para si uma fonte de renda independente do parlamento, a medida não foi socialista.Engels, Do socialismo utópico ao socialismo científico, parte III, nota 4
  • Interpretação · Friedrich EngelsNem a transformação em sociedades por ações nem a propriedade do Estado suprimem o caráter capitalista das forças produtivas; o Estado moderno é essencialmente uma máquina capitalista, a personificação ideal do capital nacional total, e quanto mais forças produtivas assume, mais se torna o capitalista nacional e mais cidadãos explora, enquanto os trabalhadores continuam assalariados.Engels, Do socialismo utópico ao socialismo científico, parte III, § 33
  • Interpretação · Friedrich EngelsO representante oficial da sociedade capitalista, o Estado, terá de assumir a direção da produção, e essa necessidade de conversão em propriedade do Estado se sente primeiro nas grandes instituições de comunicação, o correio, o telégrafo e as ferrovias.Engels, Do socialismo utópico ao socialismo científico, parte III, § 31
  • Interpretação · Friedrich EngelsA rebelião das forças produtivas contra a sua qualidade de capital obriga a própria classe capitalista a tratá-las cada vez mais como forças produtivas sociais, como nas sociedades por ações.Engels, Do socialismo utópico ao socialismo científico, parte III, § 29
  • Interpretação · Virgínia FontesBoa parte das privatizações de empresas públicas das últimas décadas se assemelha às expropriações primárias, porque incidiu sobre bens coletivos, similares às terras comunais, e a privatização de instituições que proviam educação, saúde, previdência e transporte ocorreu como violência e como extinção de direitos.Fontes, O Brasil e o capital-imperialismo, p. 60
  • Interpretação · Virgínia FontesA expansão histórica do capitalismo nunca dispensou a especulação, a fraude, o roubo aberto e as expropriações primárias, de modo que a dualidade entre um capitalismo normalizado e um capitalismo predatório não se sustenta.Fontes, O Brasil e o capital-imperialismo, pp. 63 e 64
  • Interpretação · Virgínia FontesHarvey forjou o termo acumulação por espoliação para indicar o renascimento modificado da acumulação primitiva, que incide também nos países plenamente capitalistas e implica a eliminação de direitos e o controle capitalista de formas de propriedade coletiva.Fontes, O Brasil e o capital-imperialismo, pp. 62 e 63
  • Interpretação · Virgínia FontesAs expropriações secundárias não são, no sentido próprio, uma perda de propriedade de meios de produção, que a maioria dos trabalhadores urbanos já não tinha, mas impõem novas condições aos trabalhadores e abrem novos setores para a extração de mais-valor.Fontes, O Brasil e o capital-imperialismo, p. 54
  • Interpretação · Karl MarxO roubo dos domínios da Igreja, a alienação fraudulenta dos domínios do Estado e o roubo da propriedade comunal foram métodos idílicos da acumulação original, que conquistaram o campo para a agricultura capitalista, incorporaram a terra ao capital e criaram para a indústria das cidades a oferta de proletariado fora da lei de que ela precisava.Marx, O capital, livro I, cap. 24, seção 2, § 40
  • FatoA Lei nº 8.031, de 1990, instituiu o Programa Nacional de Desestatização com os objetivos de transferir à iniciativa privada atividades indevidamente exploradas pelo setor público e de contribuir para a redução da dívida pública.Congresso Nacional, Lei nº 8.031, de 12 de abril de 1990, art. 1º, I e II
  • FatoA Lei nº 9.491, de 1997, fixou como objetivos do Programa Nacional de Desestatização transferir à iniciativa privada atividades indevidamente exploradas pelo setor público e contribuir para a reestruturação do setor público, especialmente pela redução da dívida pública líquida.Congresso Nacional, Lei nº 9.491, de 9 de setembro de 1997, art. 1º, I e II
  • Interpretação · Karl MarxA revolução de 1688 trouxe ao poder o senhor da terra e o capitalista, que inauguraram a nova era com o roubo, em escala colossal, dos domínios do Estado, terrenos que foram doados, vendidos a preços ridículos ou anexados a domínios privados por usurpação direta, sem a mínima observância da etiqueta legal.Marx, O capital, livro I, cap. 24, seção 2, § 18

Fontes desta página

  1. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Abrir ↗
  2. ENGELS, Friedrich. Do socialismo utópico ao socialismo científico. Trad. Edward Aveling. Moscou: Progress Publishers (Marx/Engels Selected Works, v. 3, pp. 95-151), 1970. Abrir ↗
  3. FONTES, Virgínia. O Brasil e o capital-imperialismo: teoria e história. Rio de Janeiro: EPSJV/Fiocruz; Editora UFRJ (Pensamento Crítico, 15), 2010. Abrir ↗
  4. Congresso Nacional. Lei nº 8.031, de 12 de abril de 1990 (cria o Programa Nacional de Desestatização). planalto.gov.br, 12/04/1990. Abrir ↗
  5. Congresso Nacional. Lei nº 9.491, de 9 de setembro de 1997 (Programa Nacional de Desestatização). planalto.gov.br, 09/09/1997. Abrir ↗
  6. Congresso Nacional. Lei nº 14.182, de 12 de julho de 2021 (desestatização da Eletrobras). planalto.gov.br, 12/07/2021. Abrir ↗
  7. BOITO JR., Armando. Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil. Crítica Marxista, n. 3, pp. 80-105, 1996. Abrir ↗
  8. BOITO JR., Armando. Neoliberalismo e relações de classe no Brasil. Campinas: Idéias (IFCH-Unicamp), v. 9, n. 1, pp. 13-48, 2002. Abrir ↗
  9. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 24, seção 2. Expropriação do povo do campo da terra (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  10. Armando Boito Jr.. Neoliberalismo e relações de classe no Brasil (Idéias, v. 9, n. 1, 2002). periodicos.sbu.unicamp.br. Abrir ↗
  11. Armando Boito Jr.. Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil (Crítica Marxista, n. 3, 1996). econtents.sbu.unicamp.br. Abrir ↗
  12. Friedrich Engels. Socialism: Utopian and Scientific, part III. Historical Materialism, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  13. Virgínia Fontes. O Brasil e o capital-imperialismo: teoria e história (2. ed., EPSJV/Editora UFRJ, 2010; PDF da EPSJV). epsjv.fiocruz.br. Abrir ↗