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Conceitos / Ideologia e disputa de ideias / Esquerda e direita

Progressismo

Em poucas palavras

Danilo Peixoto de Miranda chama de progressistas os governos do PT de 2003 a 2016, que, segundo Boito e Berringer, buscaram o desenvolvimento possível dentro do capitalismo neoliberal. Florestan Fernandes alertou que a esquerda não pode confundir democracia com socialismo, e Nancy Fraser, contraponto de fora do marxismo-leninismo, chama de neoliberalismo progressista a aliança de movimentos liberais com Wall Street.

Eixo e tema
Ideologia e disputa de ideias · Esquerda e direita
Obra principal
Democracia e socialismo, de Florestan Fernandes

Explicação

Os progressistas no Brasil recente

Danilo Peixoto de Miranda chama de progressistas os governos federais do PT e diz que, entre 2003 e 2016, o Brasil e parte da América Latina viveram um período de esperança progressista, com avanços e decepções. Sávio Cavalcante chama de progressistas as bandeiras que deram origem aos protestos de 2013, como o direito à cidade e um reformismo forte. Para ele, essas bandeiras foram depois superadas por um sentimento patriótico contra a corrupção, e a classe média se tornou dominante nas manifestações. (Miranda, A reemergência da direita reacionária, pp. 169 e 171; Cavalcante, Classe média e ameaça neofascista no Brasil de Bolsonaro, p. 124)

A frente dos governos Lula e Dilma

Segundo Armando Boito Jr. e Tatiana Berringer, Lula e Dilma se apoiaram numa frente política, a frente neodesenvolvimentista, dirigida pela grande burguesia interna, isto é, a fração dos capitalistas brasileiros que tem base própria de acumulação e disputa espaço com o capital financeiro internacional. A frente reunia ainda a baixa classe média, o operariado urbano, o campesinato e um amplo setor de desempregados e subempregados, e enfrentava o campo neoliberal ortodoxo, que faz a apologia do mercado e da empresa privada, representado principalmente pelo PSDB. O programa da frente era o desenvolvimento possível dentro do capitalismo neoliberal, e os dois governos não romperam com esse modelo. (Boito Jr. e Berringer, Brasil, p. 31; Boito Jr., Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil, p. 80)

Em 1996, Boito já tinha usado a palavra progressiva para um tipo de hegemonia, que ele, seguindo Gramsci, define como direção ideológica apoiada em concessões econômicas das classes dominantes aos setores subalternos. Ele chamou de progressiva a hegemonia do período populista, porque impunha às classes dominantes sacrifícios em favor das classes populares, e de regressiva a hegemonia neoliberal, que impõe sacrifícios às classes populares em favor das classes e frações que estão no poder. (Boito Jr., Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil, p. 81)

O neoliberalismo progressista

A filósofa feminista estadunidense Nancy Fraser, que entra aqui como contraponto de fora da tradição marxista-leninista, criou a expressão neoliberalismo progressista. Ela a usa para a aliança entre uma fração da elite capitalista, centrada em Wall Street, no Vale do Silício e em Hollywood, e a parte liberal dos movimentos feministas, antirracistas, ambientalistas e LGBTQIA+. Segundo Fraser, Bill Clinton, nos Estados Unidos, e Tony Blair, no Reino Unido, usaram essa aliança para liberalizar a economia, transformar mais coisas em mercadoria e dar mais peso ao mercado financeiro, com efeitos muito negativos para a segurança e o bem-estar das classes trabalhadoras. A fusão com um feminismo meritocrático, antirracista e ambientalista, para ela, deu a esse projeto econômico feito para os ricos uma imagem emancipatória. (Fraser, Feminismo atual é voltado para uma minoria privilegiada, resposta à 1ª pergunta)

Fraser separa a política de distribuição, que trata de trabalho, salário e impostos, da política de reconhecimento, que trata dos direitos de grupos historicamente marginalizados, e diz que uma sociedade justa precisa das duas. Para ela, os movimentos progressistas deixaram a distribuição de lado justamente nas décadas em que o neoliberalismo avançava. Perguntada pela BBC se esse bloco ajudou a eleger Trump e Bolsonaro, Fraser respondeu que sim e explicou o caso dos Estados Unidos, onde o bloco marginalizou a ala pró-trabalhista do Partido Democrata. (Fraser, Feminismo atual é voltado para uma minoria privilegiada, respostas à 2ª e à 4ª pergunta)

A crítica de Florestan e de Losurdo

Florestan Fernandes escreveu, no fim de 1989, que a reforma capitalista do capitalismo surgiu na Europa como alternativa ao socialismo e como suposta via gradual até ele, o que significou uma opção contra o socialismo revolucionário e em favor do aburguesamento. Ele via o perigo de a esquerda confundir democracia com socialismo e fazer das condições de existência da democracia o seu objetivo central. Para Florestan, a democracia é vital para a luta de classes e para a libertação dos oprimidos, mas os partidos de esquerda não podem imitar o falso centro burguês nem adiar sempre a preparação dos trabalhadores para lutar pelo socialismo. (Fernandes, Democracia e socialismo, §§ 7 e 8)

Por isso, Florestan defendia uma democracia com um polo social de classe e popular, voltada para as tarefas revolucionárias, que não enterrasse o socialismo proletário nem o sonho de igualdade com liberdade dos trabalhadores e oprimidos. (Fernandes, Democracia e socialismo, § 9)

Domenico Losurdo escreveu, em 2015, que a esquerda do Ocidente, moderada ou radical, muitas vezes foi a reboque da ideologia dominante. Para ele, essa esquerda defende o Estado social, isto é, os direitos e serviços garantidos pelo Estado, e ao mesmo tempo espalha filosofias e ideologias muito úteis ao neoliberalismo. (Losurdo, A esquerda ausente, §§ 28 e 29)

No Brasil

Progressismo no Brasil

Os governos do PT de 2003 a 2016, que Danilo Peixoto de Miranda chama de progressistas, se apoiaram, segundo Boito e Berringer, numa frente dirigida pela grande burguesia interna e com apoio de setores populares, cujo programa era o desenvolvimento possível dentro do capitalismo neoliberal. (Danilo Peixoto de Miranda, A reemergência da direita reacionária, resenha de MBL, crise política e conflitos de classe no Brasil, pp. 169 e 171; Boito Jr. e Berringer, Brasil, p. 31)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • FERNANDES, Florestan. Democracia e socialismo. 1989. Onde ler: §§ 7 a 9 da página do MIA.

    “Essas considerações nascem de uma convicção: enfrentamos o perigo de ver abater-se sobre nós o restabelecimento da confusão entre democracia e socialismo. Para muitos "social-democratas", "socialistas" e "comunistas", o objetivo central resume-se a instauração de condições econômicas, sociais, culturais e políticas da existência da democracia.”

    § 8 da página do MIA

    Ler grátis: Democracia e socialismo ↗

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (19)
  • Interpretação · Armando Boito Jr. e Tatiana BerringerA frente neodesenvolvimentista reúne a grande burguesia interna, a sua força dirigente, a baixa classe média, o operariado urbano e o campesinato, além de desempregados, subempregados e outros setores da massa marginal, e enfrenta o campo conservador de orientação neoliberal ortodoxa, representado principalmente pelo PSDB.Boito Jr. e Berringer, Brasil, p. 31
  • Interpretação · Armando Boito Jr. e Tatiana BerringerNos governos Lula e Dilma, a grande burguesia interna, fração da classe capitalista que mantém base própria de acumulação e disputa posições com o capital financeiro internacional, ascendeu politicamente apoiada numa frente política, a frente neodesenvolvimentista, representada principalmente pelo PT.Boito Jr. e Berringer, Brasil, p. 31
  • Interpretação · Armando Boito Jr. e Tatiana BerringerO neodesenvolvimentismo, programa político dessa frente, é a política de desenvolvimento possível nos marcos do capitalismo neoliberal, e os governos Lula e Dilma não romperam com esse modelo.Boito Jr. e Berringer, Brasil, p. 31
  • Interpretação · Armando Boito Jr.Hegemonia, no sentido gramsciano, é a direção ideológica assentada em concessões econômicas das classes hegemônicas aos setores subalternos.Boito Jr., Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil, p. 81
  • Interpretação · Armando Boito Jr.A apologia do mercado e da empresa privada, como espaços da eficiência, e a condenação do Estado e das empresas públicas, como espaços do desperdício, ganharam no Brasil a condição de senso comum com a hegemonia neoliberal.Boito Jr., Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil, p. 80
  • Interpretação · Armando Boito Jr.Convém reservar o qualificativo progressiva para a hegemonia populista, que implicava sacrifícios de interesses imediatos das classes dominantes em proveito das classes populares; a hegemonia neoliberal é regressiva, porque implica sacrifícios das classes populares em proveito das classes e frações do bloco no poder.Boito Jr., Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil, p. 81
  • Interpretação · Sávio CavalcanteAs bandeiras progressistas que deram origem aos protestos de 2013, como o direito à cidade e um reformismo forte, foram suplantadas por um sentimento patriótico contra a corrupção, e a classe média se tornou dominante nas manifestações.Cavalcante, Classe média e ameaça neofascista no Brasil de Bolsonaro, p. 124
  • Interpretação · Florestan FernandesHá o perigo de restabelecer a confusão entre democracia e socialismo; para muitos social-democratas, socialistas e comunistas, o objetivo central se resume à instauração das condições da existência da democracia, que é vital para a livre manifestação da luta de classes e a libertação dos oprimidos, mas não se pode transferir sempre para o futuro a preparação dos trabalhadores para lutar pelo socialismo, e os partidos da esquerda não podem imitar o falso centro burguês e a demagogia populista.Fernandes, Democracia e socialismo, § 8 da página do MIA
  • FatoO texto Democracia e socialismo foi escrito por Florestan Fernandes em fins de 1989 e publicado na Crítica Marxista, n. 11, em 2000.Fernandes, Democracia e socialismo, ficha da página
  • Interpretação · Florestan FernandesÉ preciso promover uma democracia com um polo social de classe e popular, voltada para as tarefas revolucionárias, que não seja o túmulo do socialismo proletário e dos sonhos de igualdade com liberdade dos trabalhadores e oprimidos.Fernandes, Democracia e socialismo, § 9 da página do MIA
  • Interpretação · Florestan FernandesA reforma capitalista do capitalismo brotou como alternativa ao socialismo e como via de transição gradual até ele, o que implicou, por toda a Europa, uma opção contra o socialismo revolucionário e em favor do aburguesamento.Fernandes, Democracia e socialismo, § 7 da página do MIA
  • Interpretação · Nancy FraserClinton e Blair juntaram feministas, antirracistas, ambientalistas e ativistas LGBTQIA+ com uma parte cosmopolita e tecnológica do empresariado para promover a liberalização, a mercantilização e a financeirização da economia, com efeitos muito negativos na segurança econômica e no bem-estar das classes trabalhadoras; fundida com um feminismo meritocrático, antirracista e ambientalista, essa política feita para os ricos ganhou imagem emancipatória.Fraser, Feminismo atual é voltado para uma minoria privilegiada, resposta à 1ª pergunta
  • Interpretação · Nancy FraserO neoliberalismo progressista é um termo cunhado por Fraser para descrever uma aliança entre uma fração da elite capitalista, centrada em Wall Street, no Vale do Silício e em Hollywood, e parte dos liberais dos movimentos feministas, antirracistas, ambientalistas e LGBTQIA+.Fraser, Feminismo atual é voltado para uma minoria privilegiada, resposta à 1ª pergunta
  • Interpretação · Nancy FraserUma sociedade justa precisa de políticas de reconhecimento e de distribuição; nas décadas de 1980, 1990 e 2000 a ênfase mudou só para o reconhecimento, e o foco dos movimentos sociais progressistas não estava na distribuição justamente quando o neoliberalismo se desenrolava.Fraser, Feminismo atual é voltado para uma minoria privilegiada, resposta à 2ª pergunta
  • FatoNancy Fraser é filósofa estadunidense, feminista e professora titular de ciências políticas e sociais da New School for Social Research, em Nova York.Fraser, Feminismo atual é voltado para uma minoria privilegiada, apresentação da entrevista
  • Interpretação · Nancy FraserPerguntada se o neoliberalismo progressista ajudou na eleição de Trump e de Bolsonaro, Fraser respondeu que sim, com certeza, e explicou que nos Estados Unidos o bloco consolidou o neoliberalismo e marginalizou a parte pró-trabalhista do Partido Democrata.Fraser, Feminismo atual é voltado para uma minoria privilegiada, resposta à 4ª pergunta
  • FatoO prefácio de A esquerda ausente foi publicado em 2015, como prefácio do livro de Losurdo editado em espanhol como La izquierda ausente.Losurdo, A esquerda ausente, ficha da página
  • Interpretação · Domenico LosurdoNo Ocidente, a esquerda, moderada ou radical, não poucas vezes foi a reboque da ideologia dominante; embora saia em defesa do Estado social, promove ao mesmo tempo a difusão de filosofias e ideologias extremamente úteis ao neoliberalismo.Losurdo, A esquerda ausente, §§ 28 e 29 da página do MIA
  • Interpretação · Danilo Peixoto de MirandaApós seguidos governos federais progressistas liderados pelo PT, houve no Brasil uma guinada à direita; nos governos Lula e Dilma, entre 2003 e 2016, vigorou no Brasil e em parte da América Latina um período de esperança progressista, com altos e baixos, avanços e decepções.Miranda, A reemergência da direita reacionária, pp. 169 e 171

Fontes desta página

  1. MIRANDA, Danilo Peixoto de. A reemergência da direita reacionária (resenha de MBL, crise política e conflitos de classe no Brasil, de Kiane Follmann da Silva). 2020. Abrir ↗
  2. CAVALCANTE, Sávio. Classe média e ameaça neofascista no Brasil de Bolsonaro. 2020. Abrir ↗
  3. BOITO JR., Armando; BERRINGER, Tatiana. Brasil: classes sociais, neodesenvolvimentismo e política externa nos governos Lula e Dilma. Curitiba: Revista de Sociologia e Política (UFPR), v. 21, n. 47, pp. 31-38, 2013. Abrir ↗
  4. BOITO JR., Armando. Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil. Crítica Marxista, n. 3, pp. 80-105, 1996. Abrir ↗
  5. FRASER, Nancy. Feminismo atual é voltado para uma minoria privilegiada (entrevista à BBC News Brasil). 2023. Abrir ↗
  6. FERNANDES, Florestan. Democracia e socialismo. 1989. Abrir ↗
  7. LOSURDO, Domenico. A esquerda ausente (prefácio). 2015. Abrir ↗
  8. Danilo Peixoto de Miranda. A reemergência da direita reacionária, resenha de MBL, crise política e conflitos de classe no Brasil (Lutas Sociais, v. 24, n. 44, 2020). revistas.pucsp.br. Abrir ↗
  9. Armando Boito Jr. e Tatiana Berringer. Brasil: classes sociais, neodesenvolvimentismo e política externa nos governos Lula e Dilma (Revista de Sociologia e Política, v. 21, n. 47, 2013). revistas.ufpr.br. Abrir ↗
  10. Armando Boito Jr.. Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil (Crítica Marxista, n. 3, 1996). econtents.sbu.unicamp.br. Abrir ↗
  11. Sávio Cavalcante. Classe média e ameaça neofascista no Brasil de Bolsonaro (Crítica Marxista, n. 50, 2020). econtents.sbu.unicamp.br. Abrir ↗
  12. Florestan Fernandes. Democracia e socialismo (escrito em 1989; Crítica Marxista, n. 11, 2000), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  13. Vinicius Pereira (BBC News Brasil), entrevista com Nancy Fraser. Feminismo atual é voltado para uma minoria privilegiada, diz Nancy Fraser (Blog da Boitempo, entrevista à BBC News Brasil). blogdaboitempo.com.br, 28/06/2023. Abrir ↗
  14. Domenico Losurdo. A esquerda ausente, prefácio (Resistir.info), no MIA. marxists.org. Abrir ↗