Explicação
Os progressistas no Brasil recente
Danilo Peixoto de Miranda chama de progressistas os governos federais do PT e diz que, entre 2003 e 2016, o Brasil e parte da América Latina viveram um período de esperança progressista, com avanços e decepções. Sávio Cavalcante chama de progressistas as bandeiras que deram origem aos protestos de 2013, como o direito à cidade e um reformismo forte. Para ele, essas bandeiras foram depois superadas por um sentimento patriótico contra a corrupção, e a classe média se tornou dominante nas manifestações. (Miranda, A reemergência da direita reacionária, pp. 169 e 171; Cavalcante, Classe média e ameaça neofascista no Brasil de Bolsonaro, p. 124)
A frente dos governos Lula e Dilma
Segundo Armando Boito Jr. e Tatiana Berringer, Lula e Dilma se apoiaram numa frente política, a frente neodesenvolvimentista, dirigida pela grande burguesia interna, isto é, a fração dos capitalistas brasileiros que tem base própria de acumulação e disputa espaço com o capital financeiro internacional. A frente reunia ainda a baixa classe média, o operariado urbano, o campesinato e um amplo setor de desempregados e subempregados, e enfrentava o campo neoliberal ortodoxo, que faz a apologia do mercado e da empresa privada, representado principalmente pelo PSDB. O programa da frente era o desenvolvimento possível dentro do capitalismo neoliberal, e os dois governos não romperam com esse modelo. (Boito Jr. e Berringer, Brasil, p. 31; Boito Jr., Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil, p. 80)
Em 1996, Boito já tinha usado a palavra progressiva para um tipo de hegemonia, que ele, seguindo Gramsci, define como direção ideológica apoiada em concessões econômicas das classes dominantes aos setores subalternos. Ele chamou de progressiva a hegemonia do período populista, porque impunha às classes dominantes sacrifícios em favor das classes populares, e de regressiva a hegemonia neoliberal, que impõe sacrifícios às classes populares em favor das classes e frações que estão no poder. (Boito Jr., Hegemonia neoliberal e sindicalismo no Brasil, p. 81)
O neoliberalismo progressista
A filósofa feminista estadunidense Nancy Fraser, que entra aqui como contraponto de fora da tradição marxista-leninista, criou a expressão neoliberalismo progressista. Ela a usa para a aliança entre uma fração da elite capitalista, centrada em Wall Street, no Vale do Silício e em Hollywood, e a parte liberal dos movimentos feministas, antirracistas, ambientalistas e LGBTQIA+. Segundo Fraser, Bill Clinton, nos Estados Unidos, e Tony Blair, no Reino Unido, usaram essa aliança para liberalizar a economia, transformar mais coisas em mercadoria e dar mais peso ao mercado financeiro, com efeitos muito negativos para a segurança e o bem-estar das classes trabalhadoras. A fusão com um feminismo meritocrático, antirracista e ambientalista, para ela, deu a esse projeto econômico feito para os ricos uma imagem emancipatória. (Fraser, Feminismo atual é voltado para uma minoria privilegiada, resposta à 1ª pergunta)
Fraser separa a política de distribuição, que trata de trabalho, salário e impostos, da política de reconhecimento, que trata dos direitos de grupos historicamente marginalizados, e diz que uma sociedade justa precisa das duas. Para ela, os movimentos progressistas deixaram a distribuição de lado justamente nas décadas em que o neoliberalismo avançava. Perguntada pela BBC se esse bloco ajudou a eleger Trump e Bolsonaro, Fraser respondeu que sim e explicou o caso dos Estados Unidos, onde o bloco marginalizou a ala pró-trabalhista do Partido Democrata. (Fraser, Feminismo atual é voltado para uma minoria privilegiada, respostas à 2ª e à 4ª pergunta)
A crítica de Florestan e de Losurdo
Florestan Fernandes escreveu, no fim de 1989, que a reforma capitalista do capitalismo surgiu na Europa como alternativa ao socialismo e como suposta via gradual até ele, o que significou uma opção contra o socialismo revolucionário e em favor do aburguesamento. Ele via o perigo de a esquerda confundir democracia com socialismo e fazer das condições de existência da democracia o seu objetivo central. Para Florestan, a democracia é vital para a luta de classes e para a libertação dos oprimidos, mas os partidos de esquerda não podem imitar o falso centro burguês nem adiar sempre a preparação dos trabalhadores para lutar pelo socialismo. (Fernandes, Democracia e socialismo, §§ 7 e 8)
Por isso, Florestan defendia uma democracia com um polo social de classe e popular, voltada para as tarefas revolucionárias, que não enterrasse o socialismo proletário nem o sonho de igualdade com liberdade dos trabalhadores e oprimidos. (Fernandes, Democracia e socialismo, § 9)
Domenico Losurdo escreveu, em 2015, que a esquerda do Ocidente, moderada ou radical, muitas vezes foi a reboque da ideologia dominante. Para ele, essa esquerda defende o Estado social, isto é, os direitos e serviços garantidos pelo Estado, e ao mesmo tempo espalha filosofias e ideologias muito úteis ao neoliberalismo. (Losurdo, A esquerda ausente, §§ 28 e 29)