Explicação
De onde vem o lucro
Lênin resume o ponto de partida de Marx. Na circulação capitalista, o dinheiro compra mercadorias para vendê-las depois por mais dinheiro, e é esse acréscimo que Marx chama de mais-valia. Ela não pode nascer da simples troca, em que se trocam valores iguais, nem da alta dos preços, porque o que um ganha como vendedor perde como comprador. (Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção A mais-valia, 1º parágrafo)
O capitalista precisa achar no mercado uma mercadoria cujo uso crie valor, e essa mercadoria é a força de trabalho. O valor dela é o valor dos meios de vida de que o trabalhador precisa, mas o uso dela, o trabalho, pode durar mais tempo do que o necessário para repor esse valor. Se meio dia de trabalho basta para produzir o equivalente do que o trabalhador consome, o resto do dia produz um valor novo que fica com o capitalista. (Marx, O capital, Livro I, cap. 5, seção 2, § 24; Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção A mais-valia, 1º parágrafo)
Marx dá um exemplo com números. O capitalista adianta 27 xelins em algodão, desgaste dos fusos e força de trabalho, e o fio produzido em 12 horas vale 30 xelins, o que deixa uma mais-valia de 3 xelins. Como a força de trabalho foi paga pelo seu valor, Marx diz que esse resultado é uma sorte para o comprador, mas de modo algum uma injustiça contra o vendedor pelas leis da troca de mercadorias. (Marx, O capital, Livro I, cap. 5, seção 2, §§ 24 e 25)
Trabalho necessário e sobretrabalho
Marx divide o dia de trabalho em duas partes. No tempo de trabalho necessário, o trabalhador produz o equivalente do valor da sua força de trabalho, e no tempo de sobretrabalho ele trabalha além disso e produz a mais-valia. Para Marx, o que distingue as formações econômicas da sociedade, como a escravista e a do trabalho assalariado, é só a forma em que esse sobretrabalho é arrancado de quem produz. (Marx, O capital, Livro I, cap. 7, seção 1, §§ 10 e 11)
A taxa de mais-valia é a razão entre a mais-valia e o capital variável, a parte do capital gasta em salários, e é igual à razão entre o sobretrabalho e o trabalho necessário. Marx diz que ela é a expressão exata do grau de exploração da força de trabalho pelo capital. Ela não se confunde com a taxa de lucro, que divide a mais-valia por todo o capital adiantado, e no exemplo de Marx a taxa de mais-valia é de 100%, enquanto o cálculo habitual dá 18%. (Marx, O capital, Livro I, cap. 7, seção 1, §§ 9, 12, 13 e 14)
Absoluta e relativa
Marx chama de mais-valia absoluta a que nasce do prolongamento da jornada além do tempo necessário, e de mais-valia relativa a que nasce do encurtamento do tempo de trabalho necessário, que muda a proporção entre as duas partes do dia. A mais-valia absoluta é a base geral do sistema capitalista e o ponto de partida da relativa, que revoluciona os processos técnicos e a organização social do trabalho. (Marx, O capital, Livro I, cap. 10, § 5; Livro I, cap. 14, § 4)
Para encurtar o tempo necessário, a produtividade tem de subir nos ramos que produzem os meios de vida do trabalhador ou os meios de produção usados para fazê-los. Quando esses bens ficam mais baratos, cai o valor da força de trabalho, e a mesma jornada passa a ter mais sobretrabalho. Marx resume dizendo que o capital tem a tendência constante de aumentar a força produtiva para baratear a mercadoria e, com isso, baratear o próprio trabalhador. (Marx, O capital, Livro I, cap. 10, §§ 6 e 11)
O capitalista que adota antes dos outros um método mais produtivo vende a mercadoria acima do seu valor individual e embolsa uma mais-valia extra, que desaparece quando o novo método se generaliza. A mesma lei do valor que lhe dá esse ganho obriga os concorrentes, pela concorrência, a adotar o novo método. (Marx, O capital, Livro I, cap. 10, §§ 9 e 10)
Pago e não pago
Em 1875, Marx escreveu que o salário é uma forma mascarada do valor da força de trabalho e que o trabalhador só pode trabalhar para viver se trabalhar de graça um certo tempo para o capitalista. Para ele, todo o sistema capitalista gira em torno de prolongar esse trabalho grátis, pela extensão da jornada ou pelo aumento da produtividade e da tensão da força de trabalho, quer o trabalhador receba um pagamento melhor, quer pior. (Marx, Crítica do Programa de Gotha, parte II, crítica da lei de bronze do salário)
No Brasil
Os pesquisadores Pedro Sampaio, Alessandro Miebach e Henrique Morrone estimaram a taxa de mais-valia do Brasil com dados do IBGE, pelo método de Shaikh e Tonak, que separa os setores que produzem mais-valor dos que só o consomem. Pelos seus cálculos, a mais-valia produzida foi 3,11 vezes o capital variável, a soma das remunerações ligadas à produção, em 2010, e 2,58 vezes em 2015, uma queda de 17,04%. Os autores registram que o capital variável cresceu mais de 10% ao ano entre 2010 e 2012 e citam Freitas, que viu a taxa de exploração cair durante o governo Dilma e voltar a subir em 2016, com a agenda liberal. (Sampaio e Miebach e Morrone, Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil, pp. 210, 219, 224 e 225)