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Conceitos / Economia política / Trabalho e exploração

Mais-valia

Em poucas palavras

Mais-valia é o valor que o trabalhador produz além do valor da sua força de trabalho, que o salário paga. Ela vem do trabalho não pago, e o capital a aumenta de duas formas, alongando a jornada, a mais-valia absoluta, ou barateando o que o trabalhador consome, o que encurta o tempo de trabalho necessário, a mais-valia relativa. A taxa de mais-valia mede o grau de exploração.

Eixo e tema
Economia política · Trabalho e exploração
Nível
Para começar
Obra principal
O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital, de Karl Marx
Na trilha
Economia política em 4 passos, passo 1
Relacionados
SalárioJornada de trabalhoCapital constante e capital variávelTaxa de lucroExército de reservaConflito distributivoSuperexploração da força de trabalhoLuta de classes

Explicação

De onde vem o lucro

Lênin resume o ponto de partida de Marx. Na circulação capitalista, o dinheiro compra mercadorias para vendê-las depois por mais dinheiro, e é esse acréscimo que Marx chama de mais-valia. Ela não pode nascer da simples troca, em que se trocam valores iguais, nem da alta dos preços, porque o que um ganha como vendedor perde como comprador. (Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção A mais-valia, 1º parágrafo)

O capitalista precisa achar no mercado uma mercadoria cujo uso crie valor, e essa mercadoria é a força de trabalho. O valor dela é o valor dos meios de vida de que o trabalhador precisa, mas o uso dela, o trabalho, pode durar mais tempo do que o necessário para repor esse valor. Se meio dia de trabalho basta para produzir o equivalente do que o trabalhador consome, o resto do dia produz um valor novo que fica com o capitalista. (Marx, O capital, Livro I, cap. 5, seção 2, § 24; Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção A mais-valia, 1º parágrafo)

Marx dá um exemplo com números. O capitalista adianta 27 xelins em algodão, desgaste dos fusos e força de trabalho, e o fio produzido em 12 horas vale 30 xelins, o que deixa uma mais-valia de 3 xelins. Como a força de trabalho foi paga pelo seu valor, Marx diz que esse resultado é uma sorte para o comprador, mas de modo algum uma injustiça contra o vendedor pelas leis da troca de mercadorias. (Marx, O capital, Livro I, cap. 5, seção 2, §§ 24 e 25)

Trabalho necessário e sobretrabalho

Marx divide o dia de trabalho em duas partes. No tempo de trabalho necessário, o trabalhador produz o equivalente do valor da sua força de trabalho, e no tempo de sobretrabalho ele trabalha além disso e produz a mais-valia. Para Marx, o que distingue as formações econômicas da sociedade, como a escravista e a do trabalho assalariado, é só a forma em que esse sobretrabalho é arrancado de quem produz. (Marx, O capital, Livro I, cap. 7, seção 1, §§ 10 e 11)

A taxa de mais-valia é a razão entre a mais-valia e o capital variável, a parte do capital gasta em salários, e é igual à razão entre o sobretrabalho e o trabalho necessário. Marx diz que ela é a expressão exata do grau de exploração da força de trabalho pelo capital. Ela não se confunde com a taxa de lucro, que divide a mais-valia por todo o capital adiantado, e no exemplo de Marx a taxa de mais-valia é de 100%, enquanto o cálculo habitual dá 18%. (Marx, O capital, Livro I, cap. 7, seção 1, §§ 9, 12, 13 e 14)

Absoluta e relativa

Marx chama de mais-valia absoluta a que nasce do prolongamento da jornada além do tempo necessário, e de mais-valia relativa a que nasce do encurtamento do tempo de trabalho necessário, que muda a proporção entre as duas partes do dia. A mais-valia absoluta é a base geral do sistema capitalista e o ponto de partida da relativa, que revoluciona os processos técnicos e a organização social do trabalho. (Marx, O capital, Livro I, cap. 10, § 5; Livro I, cap. 14, § 4)

Para encurtar o tempo necessário, a produtividade tem de subir nos ramos que produzem os meios de vida do trabalhador ou os meios de produção usados para fazê-los. Quando esses bens ficam mais baratos, cai o valor da força de trabalho, e a mesma jornada passa a ter mais sobretrabalho. Marx resume dizendo que o capital tem a tendência constante de aumentar a força produtiva para baratear a mercadoria e, com isso, baratear o próprio trabalhador. (Marx, O capital, Livro I, cap. 10, §§ 6 e 11)

O capitalista que adota antes dos outros um método mais produtivo vende a mercadoria acima do seu valor individual e embolsa uma mais-valia extra, que desaparece quando o novo método se generaliza. A mesma lei do valor que lhe dá esse ganho obriga os concorrentes, pela concorrência, a adotar o novo método. (Marx, O capital, Livro I, cap. 10, §§ 9 e 10)

Pago e não pago

Em 1875, Marx escreveu que o salário é uma forma mascarada do valor da força de trabalho e que o trabalhador só pode trabalhar para viver se trabalhar de graça um certo tempo para o capitalista. Para ele, todo o sistema capitalista gira em torno de prolongar esse trabalho grátis, pela extensão da jornada ou pelo aumento da produtividade e da tensão da força de trabalho, quer o trabalhador receba um pagamento melhor, quer pior. (Marx, Crítica do Programa de Gotha, parte II, crítica da lei de bronze do salário)

No Brasil

Os pesquisadores Pedro Sampaio, Alessandro Miebach e Henrique Morrone estimaram a taxa de mais-valia do Brasil com dados do IBGE, pelo método de Shaikh e Tonak, que separa os setores que produzem mais-valor dos que só o consomem. Pelos seus cálculos, a mais-valia produzida foi 3,11 vezes o capital variável, a soma das remunerações ligadas à produção, em 2010, e 2,58 vezes em 2015, uma queda de 17,04%. Os autores registram que o capital variável cresceu mais de 10% ao ano entre 2010 e 2012 e citam Freitas, que viu a taxa de exploração cair durante o governo Dilma e voltar a subir em 2016, com a agenda liberal. (Sampaio e Miebach e Morrone, Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil, pp. 210, 219, 224 e 225)

No Brasil

Mais-valia no Brasil

Pelos cálculos de Sampaio, Miebach e Morrone, com dados do IBGE, a mais-valia produzida no Brasil foi 3,11 vezes o capital variável em 2010 e 2,58 vezes em 2015. (Sampaio e Miebach e Morrone, Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil, p. 224, tabela 4)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Onde ler: Livro I, cap. 5, seção 2; Livro I, cap. 7, seção 1; Livro I, cap. 10; Livro I, cap. 14.

    “A mais-valia produzida através do prolongamento do dia de trabalho chamo eu mais-valia absoluta; pelo contrário, à mais-valia que resulta do encurtamento do tempo de trabalho necessário e de correspondente modificação na relação de magnitude de ambas as partes componentes do dia de trabalho [...] mais-valia relativa.”

    Livro I, cap. 10, § 5

    Ler grátis: O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital ↗Ficha da obra: O capital, livro I

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (21)
  • Interpretação · Karl MarxA mais-valia produzida pelo prolongamento do dia de trabalho é a mais-valia absoluta; a que resulta do encurtamento do tempo de trabalho necessário e da mudança na proporção entre as partes do dia é a mais-valia relativa.Marx, O capital, Livro I, cap. 10, § 5
  • Interpretação · Karl MarxO valor das mercadorias está na razão inversa da força produtiva do trabalho, e a mais-valia relativa, na razão direta; é impulso imanente e tendência constante do capital elevar a força produtiva para baratear a mercadoria e, pelo barateamento da mercadoria, baratear o próprio operário.Marx, O capital, Livro I, cap. 10, § 11
  • Interpretação · Karl MarxA produção da mais-valia absoluta forma a base universal do sistema capitalista e o ponto de partida da mais-valia relativa, que revoluciona de ponta a ponta os processos técnicos do trabalho e os agrupamentos sociais.Marx, O capital, Livro I, cap. 14, § 4
  • Interpretação · Karl MarxO trabalho passado contido na força de trabalho e o trabalho vivo que ela pode prestar são duas grandezas diferentes; que meio dia de trabalho baste para manter o operário durante 24 horas não o impede de trabalhar um dia inteiro, e o valor de uso específico da força de trabalho é ser fonte de mais valor do que ela própria tem.Marx, O capital, Livro I, cap. 5, seção 2, § 24
  • Interpretação · Karl MarxNo exemplo de Marx, 27 xelins adiantados em algodão, fusos e força de trabalho se transformam em fio de 30 xelins, produzido em 12 horas, com uma mais-valia de 3 xelins.Marx, O capital, Livro I, cap. 5, seção 2, § 25
  • Interpretação · Karl MarxO capitalista que emprega um método mais produtivo vende a mercadoria acima do seu valor individual e realiza uma mais-valia extra, que desaparece quando o novo modo de produção se generaliza; a lei do valor impele os concorrentes, como lei coerciva da concorrência, a introduzir o novo método.Marx, O capital, Livro I, cap. 10, §§ 9 e 10
  • Interpretação · Karl MarxO salário não é o valor ou preço do trabalho, mas uma forma mascarada do valor ou preço da força de trabalho; o operário só pode trabalhar para a própria vida desde que trabalhe de graça um certo tempo para o capitalista, e todo o sistema de produção capitalista gira em torno de prolongar esse trabalho grátis, pela extensão do dia de trabalho ou pelo desenvolvimento da produtividade e da tensão da força de trabalho, quer o operário receba pagamento melhor ou pior.Marx, Crítica do Programa de Gotha, parte II, crítica da lei de bronze do salário
  • FatoMarx escreveu a Crítica do Programa de Gotha em abril ou no começo de maio de 1875.Marx, Crítica do Programa de Gotha, cabeçalho da página do MIA
  • Interpretação · Vladímir LêninNa fórmula geral do capital, dinheiro compra mercadorias para vendê-las depois com lucro, e Marx chama de mais-valia esse crescimento do valor do dinheiro posto em circulação; ela não pode provir da circulação, que troca equivalentes, nem da alta dos preços, porque as perdas e os ganhos de compradores e vendedores se equilibram.Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção A mais-valia, 1º parágrafo
  • Interpretação · Vladímir LêninPara obter mais-valia, o possuidor de dinheiro precisa encontrar uma mercadoria cujo valor de uso crie valor, a força humana de trabalho; numa jornada de 12 horas, em 6 horas de trabalho necessário o operário cobre o seu sustento, e nas outras 6 horas cria um produto suplementar, que é a mais-valia.Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção A mais-valia, 1º parágrafo
  • Interpretação · Karl MarxA taxa da mais-valia não é a mais-valia dividida pelo capital total, como no cálculo habitual que a confunde com a taxa de lucro; no exemplo de Marx, ela é de 100%, e não de 18%.Marx, O capital, Livro I, cap. 7, seção 1, § 14
  • Interpretação · Karl MarxNa parte do dia em que o operário produz o valor diário da sua força de trabalho, ele produz só um equivalente do valor já pago pelo capitalista; essa parte é o tempo de trabalho necessário.Marx, O capital, Livro I, cap. 7, seção 1, § 10
  • Interpretação · Karl MarxPara abater o valor da força de trabalho, a subida da força produtiva tem de atingir os ramos que produzem os meios de vida habituais ou os meios de produção usados para produzi-los.Marx, O capital, Livro I, cap. 10, § 6
  • Interpretação · Pedro Henrique Feliciano Dias Sampaio, Alessandro Donadio Miebach e Henrique MorroneNo método usado, a massa de mais-valor é o valor adicionado marxiano menos o capital variável, e a taxa de mais-valor é a massa de mais-valor dividida pelo capital variável, estimado pelas remunerações ligadas à produção nos setores produtivos.Sampaio e Miebach e Morrone, Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil, p. 219
  • Interpretação · Freitas (2020), segundo Sampaio, Miebach e MorroneFreitas (2020) identifica a queda da taxa de exploração ao longo do governo Dilma e a retomada da sua trajetória ascendente em 2016, reflexo da agenda liberal-reformista.Sampaio e Miebach e Morrone, Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil, p. 225
  • Interpretação · Pedro Henrique Feliciano Dias Sampaio, Alessandro Donadio Miebach e Henrique MorroneSampaio, Miebach e Morrone estimam o capital variável, a massa de mais-valor e as taxas de exploração e de lucro do Brasil com as matrizes de insumo-produto do IBGE de 2010 e 2015, pela metodologia de Shaikh e Tonak, que separa atividades produtivas e não produtivas pela sua capacidade de produzir mais-valor.Sampaio e Miebach e Morrone, Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil, pp. 209 e 210
  • Interpretação · Pedro Henrique Feliciano Dias Sampaio, Alessandro Donadio Miebach e Henrique MorroneA taxa de mais-valor estimada para o Brasil foi de 3,10696 em 2010 e de 2,577499 em 2015, a preços de 2010, uma variação de -17,04%.Sampaio e Miebach e Morrone, Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil, p. 224, tabela 4
  • Interpretação · Pedro Henrique Feliciano Dias Sampaio, Alessandro Donadio Miebach e Henrique MorroneO capital variável cresceu mais de 10% ao ano entre 2010 e 2012 e menos de 1% entre 2014 e 2015.Sampaio e Miebach e Morrone, Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil, p. 225
  • Interpretação · Karl MarxO segundo período do processo de trabalho, além do trabalho necessário, forma mais-valia; Marx o chama de tempo de sobretrabalho, e só a forma em que esse sobretrabalho é extorquido ao produtor imediato distingue as formações econômicas da sociedade, como a sociedade escravista e a do trabalho assalariado.Marx, O capital, Livro I, cap. 7, seção 1, § 11
  • Interpretação · Karl MarxO fato de o valor criado pelo uso diário da força de trabalho ser maior do que o seu valor diário é uma felicidade particular para o comprador, mas de modo algum uma injustiça contra o vendedor.Marx, O capital, Livro I, cap. 5, seção 2, § 24
  • Interpretação · Karl MarxA taxa da mais-valia é a razão entre a mais-valia e o capital variável, igual à razão entre sobretrabalho e trabalho necessário, e é a expressão exata do grau de exploração da força de trabalho pelo capital.Marx, O capital, Livro I, cap. 7, seção 1, §§ 9, 12 e 13

Fontes desta página

  1. LÊNIN, Vladímir Ilitch. Karl Marx (breve esboço biográfico seguido de uma exposição do marxismo). 1915. Abrir ↗
  2. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Abrir ↗
  3. MARX, Karl. Crítica do Programa de Gotha. Trad. José Barata-Moura. Lisboa; Moscovo: Editorial Avante!; Edições Progresso (Obras escolhidas em três tomos), 1982. Abrir ↗
  4. SAMPAIO, Pedro Henrique Feliciano Dias; MIEBACH, Alessandro Donadio; MORRONE, Henrique. Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil: uma análise clássico-marxiana, 2010-2015. Uberlândia: Revista Economia Ensaios (UFU), v. 37, n. esp., pp. 209-231, 2022. Abrir ↗
  5. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 10. Conceito de mais-valia relativa (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  6. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 14. Mais-valia absoluta e relativa (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  7. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 5, seção 2. Processo de valorização (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  8. Karl Marx. Crítica do Programa de Gotha, glosas marginais ao programa do Partido Operário Alemão, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  9. Karl Marx. Crítica do Programa de Gotha (índice e ficha), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  10. Vladímir Ilitch Lênin. Figuras do movimento operário: Karl Marx (Problemas, n. 18, 1949), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  11. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 7, seção 1. O grau de exploração da força de trabalho (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  12. Pedro Henrique Feliciano Dias Sampaio, Alessandro Donadio Miebach e Henrique Morrone. Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil: uma análise clássico-marxiana, 2010-2015 (Revista Economia Ensaios, 2022). seer.ufu.br, 31/01/2022. Abrir ↗