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Conceitos / Ideologia e disputa de ideias / Esquerda e direita

Critério da igualdade

Em poucas palavras

O critério da igualdade é a proposta do autor italiano Norberto Bobbio, um liberal de esquerda que entra aqui como contraponto declarado, para separar a esquerda da direita pela postura diante do ideal da igualdade. Para Engels e Lênin, a igualdade que interessa à classe trabalhadora é a abolição das classes, que vai além da igualdade perante a lei proclamada pela burguesia.

Eixo e tema
Ideologia e disputa de ideias · Esquerda e direita
Obra principal
Anti-Dühring, de Friedrich Engels

Explicação

O critério de Bobbio

O critério da igualdade é a proposta do autor italiano Norberto Bobbio, que não era marxista, para separar a esquerda da direita, e entra aqui como contraponto declarado. Segundo Wainer Antonio Silva e Renato Almeida de Moraes, Bobbio mede a diferença pela postura de cada lado diante do ideal da igualdade. A esquerda seria mais igualitária e a direita, mais inigualitária, sem que a primeira queira eliminar todas as desigualdades nem a segunda conservar todas. Para Bobbio, o igualitário condena a desigualdade social em nome de uma igualdade natural entre as pessoas, e o inigualitário condena a igualdade social em nome de uma desigualdade natural. (Silva e Moraes, Direita e esquerda no pensamento de Norberto Bobbio, pp. 184 a 186)

Os mesmos autores contam que Bobbio usa outra régua, a postura diante da liberdade, para separar a ala moderada da ala extremista dentro de cada lado. Eles registram também que Bobbio sempre se colocou dentro da doutrina liberal, com reservas, e que a sua posição pode ser descrita como socialismo liberal. (Silva e Moraes, Direita e esquerda no pensamento de Norberto Bobbio, pp. 178 e 188)

A igualdade como produto da história

Friedrich Engels mostrou, no Anti-Dühring, que a ideia moderna de igualdade foi proclamada pela burguesia. No interesse da indústria e do comércio, essa classe exigiu a igualdade jurídica, isto é, a igualdade de todos perante a lei, contra os privilégios da nobreza feudal, e por isso a liberdade e a igualdade viraram direitos humanos. Engels lembra que a Constituição dos Estados Unidos, a primeira a definir os direitos do homem, aprovava ao mesmo tempo a escravidão dos negros. Para ele, a ideia de igualdade, burguesa ou proletária, é um produto histórico, que só pôde surgir em certas condições. (Engels, Anti-Dühring, parte I, cap. X, §§ 20, 22 e 25)

Junto com a igualdade burguesa nasceu, segundo Engels, a igualdade reivindicada pelos proletários, que tomam a burguesia pela palavra. Eles exigem que a igualdade saia da aparência e da esfera do Estado e chegue à vida social e econômica. Para Engels, o conteúdo real dessa reivindicação é a abolição das classes, e qualquer exigência de igualdade que vá além disso cai no absurdo. (Engels, Anti-Dühring, parte I, cap. X, §§ 23 e 24)

Igualdade de direitos e igualdade de classe

Em 1914, o professor liberal Tugán-Baranovski disse que o socialismo é um absurdo porque a experiência mostra que as pessoas não são iguais. Lênin respondeu que essa igualdade de força física e de inteligência não tem relação com o socialismo e que os socialistas entendem por igualdade, na política, a igualdade de direitos e, na economia, a supressão das classes. (Lênin, Um catedrático liberal fala de igualdade, §§ 1 a 5 e 7)

Lênin lembrou que a igualdade de direitos foi uma bandeira da burguesia contra os privilégios feudais. Nos Estados Unidos, o burguês e o proletário tinham os mesmos direitos políticos, mas não a mesma situação de classe, porque uns possuíam a terra, as fábricas e o capital e os outros só tinham a força de trabalho para vender. Suprimir as classes, para ele, é pôr todos os cidadãos na mesma situação diante dos meios de produção, isto é, da terra e das fábricas com que a sociedade produz. (Lênin, Um catedrático liberal fala de igualdade, §§ 8, 9 e 13 a 15)

O igual direito ainda é burguês

Na Crítica do Programa de Gotha, de 1875, Marx mostrou que a primeira fase da sociedade comunista, que ainda paga cada trabalhador conforme o trabalho que ele fornece, aplica um igual direito que continua a ser, pelos princípios, direito burguês. Esse direito mede pessoas diferentes pela mesma régua, o trabalho, e assim trata como privilégio natural a força maior de um e deixa mais pobre quem tem mais filhos para criar. Só numa fase superior a sociedade poderia dar a cada um segundo as suas necessidades e pedir de cada um segundo as suas capacidades. (Marx, Crítica do Programa de Gotha, parte I, glosa ao § 3 do programa)

Marx criticou também o projeto de programa do partido operário alemão por pedir a eliminação de toda desigualdade social e política. Para ele, o programa deveria dizer que, com a abolição das diferenças de classe, desaparece por si a desigualdade social e política que nasce delas. (Marx, Crítica do Programa de Gotha, parte II, § 9)

Igualdade e liberdade

Domenico Losurdo chamou de preconceito a ideia de que Marx teria defendido a igualdade e esquecido a liberdade. Ele lembra que o Manifesto fala da luta contra o despotismo na fábrica e cita Hegel, para quem a pessoa que corre o risco de morrer de fome fica sem direito nenhum, na condição de um escravo. Para Losurdo, a desigualdade material, a partir de certo grau, vira falta de liberdade. (Losurdo, Acerca do liberalismo, §§ 25 e 26)

No Brasil

A Constituição de 1988 diz que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, e põe entre os objetivos da República reduzir as desigualdades sociais e regionais. Em 2024, segundo o IBGE, o 1% da população com maiores rendimentos recebia em média R$ 21.767 por mês por pessoa do domicílio, 36,2 vezes o que recebiam os 40% com menores rendimentos. (Assembleia Nacional Constituinte, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988, arts. 3º, III, e 5º; IBGE, PNAD Contínua, p. 13)

O IBGE ordena a população pelo rendimento do domicílio, que soma o trabalho, as aposentadorias, os programas sociais, os aluguéis e outras fontes. Lênin, por sua vez, define a supressão das classes pela posição de cada pessoa diante dos meios de produção. (IBGE, PNAD Contínua, p. 9; Lênin, Um catedrático liberal fala de igualdade, § 15)

No Brasil

Critério da igualdade no Brasil

A Constituição de 1988 declara todos iguais perante a lei, e o IBGE registrou em 2024 que o 1% com maiores rendimentos recebia 36,2 vezes o que recebiam os 40% com menores rendimentos. Lênin mostrou, para os Estados Unidos de 1914, que o burguês e o proletário podiam ter os mesmos direitos políticos sem ter a mesma situação de classe. (IBGE, PNAD Contínua, p. 13; Lênin, Um catedrático liberal fala de igualdade, §§ 13 a 15)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • ENGELS, Friedrich. Anti-Dühring. 1878. Onde ler: parte I, cap. X, §§ 20 e 22 a 25.

    “Tanto num como noutro caso, o verdadeiro conteúdo do postulado da igualdade proletária é a aspiração de alcançar a abolição das classes. Qualquer outra aspiração de igualdade que transcenda a tais limites desborda, necessariamente, para o absurdo.”

    parte I, cap. X, § 24

    Ler grátis: Anti-Dühring ↗Ficha da obra: Anti-Dühring

Complementar
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Fontes desta página

  1. SILVA, Wainer Antonio; MORAES, Renato Almeida de. Direita e esquerda no pensamento de Norberto Bobbio. 2019. Abrir ↗
  2. ENGELS, Friedrich. Anti-Dühring. 1878. Abrir ↗
  3. LÊNIN, Vladímir Ilitch. Um catedrático liberal fala de igualdade. 1914. Abrir ↗
  4. MARX, Karl. Crítica do Programa de Gotha. Trad. José Barata-Moura. Lisboa; Moscovo: Editorial Avante!; Edições Progresso (Obras escolhidas em três tomos), 1982. Abrir ↗
  5. LOSURDO, Domenico. Acerca do liberalismo (entrevista ao L'Humanité). 2008. Abrir ↗
  6. Assembleia Nacional Constituinte. Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988. planalto.gov.br, 05/10/1988. Abrir ↗
  7. IBGE. PNAD Contínua: rendimento de todas as fontes 2024, informativo. biblioteca.ibge.gov.br. Abrir ↗
  8. Wainer Antonio Silva e Renato Almeida de Moraes. Direita e esquerda no pensamento de Norberto Bobbio (Agenda Política, v. 7, n. 1, 2019). agendapolitica.ufscar.br. Abrir ↗
  9. Friedrich Engels. Anti-Dühring, parte I, cap. X. A igualdade, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  10. Vladímir Ilitch Lênin. Um catedrático liberal fala de igualdade (Put Pravdy, n. 33, 1914), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  11. Domenico Losurdo. Acerca do liberalismo (entrevista ao L'Humanité, Resistir.info), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  12. Karl Marx. Crítica do Programa de Gotha, glosas marginais ao programa do Partido Operário Alemão, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  13. Karl Marx. Crítica do Programa de Gotha (índice e ficha), no MIA. marxists.org. Abrir ↗