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Conceitos / Economia política / Distribuição da riqueza

Conflito distributivo

Em poucas palavras

Conflito distributivo é a disputa entre trabalhadores e capitalistas pela divisão do valor novo que o trabalho cria. Marx mostrou que salário e lucro estão na razão inversa e que a divisão efetiva só se decide pela luta entre capital e trabalho. No Brasil, a parte da remuneração dos empregados no PIB subiu de 2004 a 2016 e caiu até 2021, pelas contas do IBGE.

Eixo e tema
Economia política · Distribuição da riqueza
Nível
Para começar
Obra principal
Trabalho assalariado e capital, de Karl Marx
Na trilha
Economia política em 4 passos, passo 2
Relacionados
SalárioMais-valiaPreços e custosTaxa de lucroSalário e demandaJornada de trabalhoExército de reservaRenda da terraLuta de classes

Explicação

Um valor que se divide

Marx parte do valor que o trabalhador acrescenta à mercadoria, descontado o que só repõe matérias-primas e máquinas. Esse valor novo é o único fundo de onde saem o salário do trabalhador e o lucro do capitalista, e ele não muda conforme a proporção em que se divide. Por isso, quanto mais um recebe, menos obtém o outro, e um aumento geral dos salários diminui a taxa geral de lucro sem alterar os valores. (Marx, Salário, preço e lucro, cap. 12, §§ 1 e 2)

Em Trabalho assalariado e capital, de 1849, Marx diz que o salário e o lucro estão na razão inversa um do outro e chama de salário relativo a parte do valor novo que fica com o trabalho em comparação com a que fica com o capital. O salário real, aquilo que o dinheiro do salário compra, pode até subir enquanto o salário relativo cai, se o lucro sobe mais depressa. Nesse caso a repartição da riqueza social fica mais desigual e cresce o poder da classe capitalista sobre a classe operária. (Marx, Trabalho assalariado e capital, §§ 81, 83, 85 e 91)

A luta decide

Marx mostra que não existe lei que fixe o mínimo do lucro. O máximo de lucro só é limitado pelo mínimo físico do salário e pelo máximo físico da jornada, e entre esses extremos cabe uma escala imensa de variações. O grau efetivo só se fixa pela luta incessante entre o capital e o trabalho, com o capitalista tentando baixar o salário e alongar a jornada e o trabalhador pressionando no sentido contrário, e a questão se reduz à relação de forças dos combatentes. (Marx, Salário, preço e lucro, cap. 14, §§ 9 e 10)

Para Marx, mesmo a situação mais favorável à classe trabalhadora, o crescimento mais rápido possível do capital, não suprime a oposição entre os interesses do trabalho assalariado e os do capital. Lucro e salário continuam na razão inversa um do outro, e os interesses das duas classes continuam diretamente contrapostos. (Marx, Trabalho assalariado e capital, §§ 90 e 95)

Conflito e inflação

Na teoria marxista da inflação por conflito distributivo, ligada a Rowthorn, os preços sobem quando as reivindicações de capitalistas e trabalhadores sobre a renda somam mais do que a renda disponível. A inflação funciona como mecanismo de distribuição quando um dos lados não consegue prevê-la, e os salários nominais podem subir enquanto os reais caem ou ficam parados. Giliad Silva e Eduardo Maldonado Filho, que descrevem essa teoria, a criticam por se aproximar do monetarismo e por se afastar da teoria do valor de Marx. (Silva e Maldonado Filho, Teorias marxistas da inflação, pp. 25, 27 e 28)

O economista polonês Michał Kalecki, próximo da tradição marxista, avaliou que, numa economia em pleno emprego, o aumento de salário conquistado pela força dos trabalhadores tende mais a elevar os preços do que a reduzir os lucros. Essa leitura difere da conclusão de Marx em Salário, preço e lucro, que vê na alta geral dos salários uma baixa da taxa de lucro sem mudança geral dos preços. (Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 16; Marx, Salário, preço e lucro, cap. 14, § 19)

No Brasil

Pelas contas nacionais do IBGE, a remuneração dos empregados, que soma os salários e as contribuições sociais, equivalia a 38,3% do PIB em 2004, subiu para 44,7% em 2016 e caiu para 39,2% em 2021, pela nossa conta com os valores correntes. A tabela do IBGE não traz esse componente para 2022 e 2023. (IBGE, Sistema de Contas Nacionais 2023, tabela sinótica 5, tabela 5, ótica da renda)

Grazziotin, Fornari e Marquetti tratam a parcela dos lucros na renda como a parte da taxa de lucro que representa o conflito distributivo. Pelos dados deles, essa parcela oscilou entre 50% e 60% da renda de 1953 a 2017, subiu de 1995 a 2005, com a estabilização dos preços, e caiu de 2005 a 2015, com as políticas de valorização salarial. Uma dessas políticas foi a Lei nº 12.382, de 2011, que reajustou o salário mínimo de 2012 a 2015 pela inflação e pelo crescimento do PIB de dois anos antes. (Grazziotin e Fornari e Marquetti, Taxa de lucro e acumulação de capital no Brasil, pp. 191, 192, 195 e 196; Congresso Nacional, Lei nº 12.382, de 25 de fevereiro de 2011, art. 2º)

No Brasil

Conflito distributivo no Brasil

Pelas contas nacionais do IBGE, a remuneração dos empregados equivalia a 38,3% do PIB em 2004, a 44,7% em 2016 e a 39,2% em 2021 (proporções calculadas por nós com os valores correntes). (IBGE, Sistema de Contas Nacionais 2023, tabela sinótica 5, tabela 5, ótica da renda; Marx, Trabalho assalariado e capital, § 85)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • MARX, Karl. Trabalho assalariado e capital. Trad. Álvaro Pina e José Barata-Moura. Lisboa; Moscovo: Editorial Avante!; Edições Progresso (Obras escolhidas em três tomos), 1982. Onde ler: §§ 79 a 95.

    “Estão na razão inversa um do outro. A quota-parte do capital, o lucro, sobe na mesma proporção em que a quota-parte do trabalho, a jorna, desce, e inversamente. O lucro sobe na medida em que o salário desce, e desce na medida em que o salário sobe.”

    § 85

    Ler grátis: Trabalho assalariado e capital ↗Ficha da obra: Trabalho assalariado e capital

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (18)
  • Interpretação · Karl MarxMesmo no seio da relação entre capital e trabalho assalariado, os interesses do capital e os do trabalho assalariado estão diretamente contrapostos.Marx, Trabalho assalariado e capital, § 90
  • Interpretação · Karl MarxMesmo a situação mais favorável para a classe operária, o crescimento mais rápido possível do capital, não suprime a oposição entre os seus interesses e os do capitalista; lucro e salário ficam na razão inversa.Marx, Trabalho assalariado e capital, § 95
  • Interpretação · Karl MarxA questão se reduz ao problema da relação de forças dos combatentes.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 14, § 10
  • Interpretação · Henrique de Abreu Grazziotin, Ana Paula Fornari e Adalmir Antonio MarquettiNa decomposição de Weisskopf, a parcela dos lucros na renda é o componente que representa o conflito distributivo, e ela é inversamente proporcional à parcela dos salários; os lucros incluem todas as rendas de propriedade antes dos impostos.Grazziotin e Fornari e Marquetti, Taxa de lucro e acumulação de capital no Brasil, pp. 191 e 192
  • Interpretação · Henrique de Abreu Grazziotin, Ana Paula Fornari e Adalmir Antonio MarquettiA parcela dos lucros oscilou em torno de 50% a 60% da renda entre 1953 e 2017; cresceu de 1995 a 2005, com a estabilização dos preços, e caiu de 2005 a 2015, com as políticas de valorização salarial.Grazziotin e Fornari e Marquetti, Taxa de lucro e acumulação de capital no Brasil, pp. 195 e 196
  • FatoA remuneração dos empregados, soma dos salários e das contribuições sociais, foi de R$ 750.180 milhões em 2004, R$ 2.802.436 milhões em 2016 e R$ 3.534.648 milhões em 2021, com PIB de R$ 1.957.751, 6.269.328 e 9.012.142 milhões; as proporções de 38,3%, 44,7% e 39,2% são cálculo nosso, e a ótica da renda não está disponível para 2022 nem para 2023.IBGE, Sistema de Contas Nacionais 2023, tabela sinótica 5, tabela 5, ótica da renda
  • Interpretação · Karl MarxComo capitalista e operário só podem dividir esse valor limitado, quanto mais um recebe, menos obtém o outro; se os salários sobem, os lucros baixam, e um aumento geral de salários diminuiria a taxa geral de lucro, mas não afetaria os valores.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 12, § 2
  • Interpretação · Michał KaleckiSob pleno emprego, o aumento dos salários resultante do maior poder de barganha dos trabalhadores tem menos probabilidade de reduzir os lucros do que de aumentar os preços.Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 16
  • FatoA Lei nº 12.382, de 25 de fevereiro de 2011, estabeleceu a política de valorização do salário mínimo de 2012 a 2015, com reajuste pelo INPC e aumento real igual ao crescimento do PIB de dois anos antes.Congresso Nacional, Lei nº 12.382, de 25 de fevereiro de 2011, art. 2º
  • Interpretação · Karl MarxNão existe lei que fixe o mínimo do lucro; o máximo de lucro só é limitado pelo mínimo físico dos salários e pelo máximo físico da jornada, e o grau efetivo só se fixa pela luta incessante entre o capital e o trabalho, com o capitalista tentando reduzir os salários e prolongar a jornada e o operário pressionando no sentido contrário.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 14, § 9
  • Interpretação · Karl MarxUm rápido aumento do capital é um rápido aumento do lucro, que só acontece se o salário relativo diminuir; se o salário sobe 5% e o lucro 30%, o salário relativo diminuiu.Marx, Trabalho assalariado e capital, § 91
  • Interpretação · Karl MarxSalário e lucro estão na razão inversa um do outro; o lucro sobe na medida em que o salário desce, e desce na medida em que o salário sobe.Marx, Trabalho assalariado e capital, § 85
  • Interpretação · Karl MarxO salário real pode permanecer o mesmo ou subir e o salário relativo baixar; então a parte do capital sobe em relação à do trabalho, a repartição da riqueza social fica mais desigual e o poder da classe capitalista sobre a classe operária cresce.Marx, Trabalho assalariado e capital, § 83
  • Interpretação · Karl MarxO salário real exprime o preço do trabalho em relação ao preço das outras mercadorias; o salário relativo exprime a parte do trabalho direto no valor por ele criado de novo em relação à parte que cabe ao capital.Marx, Trabalho assalariado e capital, § 81
  • Interpretação · Giliad de Souza Silva e Eduardo Augusto de Lima Maldonado FilhoA abordagem do conflito distributivo tem semelhanças com o monetarismo neoclássico e, ao fazer os preços dependerem das reivindicações em torno da renda, perde o lastro da teoria do valor-trabalho de Marx.Silva e Maldonado Filho, Teorias marxistas da inflação, pp. 27 e 28
  • Interpretação · Giliad de Souza Silva e Eduardo Augusto de Lima Maldonado FilhoNa teoria do conflito distributivo, a inflação surge porque a soma das reivindicações sobre o produto é maior do que a renda real disponível; funciona como mecanismo de distribuição quando um dos agentes não consegue prevê-la, e os salários nominais podem subir enquanto os reais caem ou ficam constantes.Silva e Maldonado Filho, Teorias marxistas da inflação, p. 25
  • Interpretação · Karl MarxUma alta geral da taxa de salários acarretaria uma baixa da taxa geral de lucro, mas não afetaria, em linhas gerais, os preços das mercadorias.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 14, § 19
  • Interpretação · Karl MarxDescontado o valor que repõe as matérias-primas e os meios de produção, o valor restante é o trabalho acrescentado pelo operário, o único fundo de onde ele e o capitalista retiram as suas partes, e esse valor não se altera pelas proporções em que se divide.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 12, § 1

Fontes desta página

  1. MARX, Karl. Salário, preço e lucro. 1865. Abrir ↗
  2. MARX, Karl. Trabalho assalariado e capital. Trad. Álvaro Pina e José Barata-Moura. Lisboa; Moscovo: Editorial Avante!; Edições Progresso (Obras escolhidas em três tomos), 1982. Abrir ↗
  3. SILVA, Giliad de Souza; MALDONADO FILHO, Eduardo Augusto de Lima. Teorias marxistas da inflação: uma revisão crítica. Belo Horizonte: Nova Economia (UFMG), v. 27, n. 2, pp. 21-49, 2017. Abrir ↗
  4. KALECKI, Michał. Aspectos políticos do pleno emprego. 1943. Abrir ↗
  5. IBGE. Sistema de Contas Nacionais 2023, tabela sinótica 5: componentes do PIB sob as três óticas, 2000-2023 (planilha). ftp.ibge.gov.br, 06/11/2025. Abrir ↗
  6. GRAZZIOTIN, Henrique de Abreu; FORNARI, Ana Paula; MARQUETTI, Adalmir Antonio. Taxa de lucro e acumulação de capital no Brasil: concepções teóricas, análise histórica e relação de causalidade. Uberlândia: Revista Economia Ensaios (UFU), v. 37, n. esp., pp. 176-208, 2022. Abrir ↗
  7. Congresso Nacional. Lei nº 12.382, de 25 de fevereiro de 2011 (salário mínimo e sua valorização). planalto.gov.br, 25/02/2011. Abrir ↗
  8. Karl Marx. Trabalho assalariado e capital (com a ficha da edição da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  9. Karl Marx. Salário, preço e lucro, 14. A luta entre o capital e o trabalho e seus resultados, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  10. Henrique de Abreu Grazziotin, Ana Paula Fornari e Adalmir Antonio Marquetti. Taxa de lucro e acumulação de capital no Brasil: concepções teóricas, análise histórica e relação de causalidade (Revista Economia Ensaios, 2022). seer.ufu.br, 31/01/2022. Abrir ↗
  11. Karl Marx. Salário, preço e lucro, 12. A relação geral entre os lucros, salários e preços, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  12. Michał Kalecki. Aspectos políticos do pleno emprego (tradução de José Carlos Ruy, do Portal Vermelho), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  13. Giliad de Souza Silva e Eduardo Augusto de Lima Maldonado Filho. Teorias marxistas da inflação: uma revisão crítica (Nova Economia, 2017). revistas.face.ufmg.br. Abrir ↗