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Conceitos / Economia política / Trabalho e exploração

Mercadoria

Em poucas palavras

Mercadoria é o produto do trabalho feito para ser trocado, e não para o consumo de quem o produz. Ela tem um valor de uso, a utilidade para alguém, e um valor, que vem do trabalho humano gasto nela. No capitalismo quase todos os produtos viram mercadoria, inclusive a força de trabalho, e por isso Marx começa O capital por ela.

Eixo e tema
Economia política · Trabalho e exploração
Obra principal
O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital, de Karl Marx

Explicação

O ponto de partida de O capital

Marx abre o livro I de O capital, publicado em 1867, dizendo que a riqueza das sociedades dominadas pelo modo de produção capitalista aparece como um imenso acúmulo de mercadorias. Cada mercadoria é a forma elementar dessa riqueza, e por isso a investigação começa pela análise dela. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 1, § 1)

Lênin, num resumo do marxismo escrito em 1914, explica que a mercadoria é, em primeiro lugar, uma coisa que satisfaz uma necessidade humana e, em segundo lugar, uma coisa que se pode trocar por outra. A utilidade de uma coisa é o seu valor de uso, que pode servir ao consumo direto, como o pão, ou à produção de outra coisa, como um meio de produção. (Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção O valor, 1º parágrafo; Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 1, § 2)

Útil para os outros, por meio da troca

Para Marx, nem toda coisa útil é mercadoria. O ar e o solo virgem são úteis sem custar trabalho, e quem produz para o próprio consumo cria valor de uso, mas não cria mercadoria. Para virar mercadoria, o produto precisa ser útil para outras pessoas e chegar até elas por meio da troca, e por isso o cereal que o camponês medieval entregava ao senhor feudal como tributo não era mercadoria. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 1, § 19)

A troca supõe uma divisão social do trabalho, em que cada produtor faz uma coisa diferente. Marx observa que a divisão do trabalho pode existir sem mercadoria, como na antiga comunidade indiana ou dentro de uma fábrica, onde os operários não trocam entre si o que fazem. Só os produtos de trabalhos privados, feitos de forma independente uns dos outros, se enfrentam como mercadorias. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 2, § 5)

As duas faces da mercadoria

Toda mercadoria tem um valor de uso e um valor. O valor aparece primeiro como valor de troca, que é a proporção em que uma mercadoria se troca por outra, e Marx mostra que, por trás dessa proporção, existe algo comum a coisas tão diferentes quanto o trigo e o ferro. Esse algo comum é o fato de serem produtos do trabalho humano, contado como trabalho igual, sem levar em conta a forma concreta de cada trabalho. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 1, §§ 5, 7, 12 e 13)

A grandeza do valor se mede pelo tempo de trabalho socialmente necessário, isto é, o tempo que se gasta em média para produzir a mercadoria com as técnicas e a habilidade normais da época. Por isso um trabalhador lento não cria mais valor do que um rápido. Quando o tear a vapor chegou à Inglaterra, uma hora do tecelão manual passou a valer só meia hora de trabalho social, mesmo que ele continuasse trabalhando do mesmo jeito. (Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 1, §§ 16 e 17)

Uma forma histórica

Para Marx, a mercadoria tem uma marca histórica. A troca de mercadorias existiu em várias épocas ao lado de uma produção voltada sobretudo ao próprio consumo, mas só no modo de produção capitalista todos ou quase todos os produtos assumem a forma de mercadoria. O economista marxista Marcelo Dias Carcanholo lembra que, numa economia de subsistência, a riqueza é feita para o consumo direto de quem a produz e por isso não é mercadoria. (Marx, O capital, Livro I, cap. 4, seção 3, § 8; Carcanholo, A importância da categoria valor de uso na teoria de Marx, p. 18, nota 2)

No capitalismo, a força de trabalho também é mercadoria. Ela é a capacidade física e mental que uma pessoa põe em movimento quando trabalha. Para que ela apareça à venda, o trabalhador precisa ser livre em dois sentidos, dono da própria força de trabalho e sem nenhum meio de produção que lhe permita viver de outro jeito, e ele a vende sempre por tempo determinado, porque, se a vendesse de uma vez por todas, venderia a si mesmo e viraria escravo. (Marx, O capital, Livro I, cap. 4, seção 3, §§ 2, 3 e 6)

Carcanholo chama o dinheiro, a força de trabalho e o capital de mercadorias especiais. Para ele, o que distingue essas três mercadorias é a utilidade que elas ganham nas relações da economia capitalista, e não as suas propriedades materiais, e a utilidade da força de trabalho para quem a compra é a capacidade de produzir valor. (Carcanholo, A importância da categoria valor de uso na teoria de Marx, pp. 32 e 38)

No Brasil

A PNAD Contínua, pesquisa domiciliar do IBGE, separa o trabalho feito para o próprio consumo do trabalho numa ocupação. Em 2022, 11,8 milhões de pessoas de 14 anos ou mais produziram para o próprio consumo, e 75,4% delas cultivaram, pescaram, caçaram ou criaram animais. Pelo critério de Marx, esses produtos são valores de uso, mas não mercadorias, porque não vão à troca. (IBGE, PNAD Contínua, pp. 1 e 9; Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 1, § 19)

Nesta explicação

No Brasil

Mercadoria no Brasil

Em 2022, 11,8 milhões de pessoas no Brasil produziram para o próprio consumo, a maioria cultivando, pescando, caçando ou criando animais. Esses produtos são valores de uso, mas não são mercadorias, porque não vão à troca, como Marx explica no capítulo 1 de O capital. (IBGE, PNAD Contínua, p. 9; Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 1, § 19)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Onde ler: Livro I, cap. 1, seção 1; Livro I, cap. 1, seção 2, § 5; Livro I, cap. 4, seção 3.

    “A riqueza das sociedades nas quais domina o modo de produção capitalista aparece como um «imenso acumulamento de mercadorias», sendo a mercadoria singular a sua forma elementar. A nossa investigação começa, por isso, com a análise da mercadoria.”

    Livro I, cap. 1, seção 1, § 1

    Ler grátis: O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital ↗Ficha da obra: O capital, livro I

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (24)
  • Interpretação · Karl MarxNa equação de troca entre trigo e ferro existe algo comum de igual magnitude; abstraído o valor de uso, resta aos produtos a propriedade de serem produtos de trabalho humano igual, em abstrato, e como cristais dessa substância social eles são valores.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 1, §§ 7, 12 e 13
  • FatoO livro I de O capital, de Karl Marx, foi publicado em setembro de 1867.Marx, O capital, cabeçalho da página do MIA
  • Interpretação · Marcelo Dias CarcanholoMarx define três mercadorias especiais, o dinheiro, a força de trabalho e a mercadoria-capital, cuja especificidade está no seu valor de uso formal, a utilidade que assumem nas relações da economia mercantil, e não nos valores de uso materiais nem nos seus valores.Carcanholo, A importância da categoria valor de uso na teoria de Marx, p. 32
  • Interpretação · Marcelo Dias CarcanholoO valor de uso formal da força de trabalho, a sua capacidade de produzir valor, é o que a torna uma mercadoria especial.Carcanholo, A importância da categoria valor de uso na teoria de Marx, p. 38
  • Interpretação · Marcelo Dias CarcanholoNuma economia de subsistência, a riqueza é produzida para o consumo direto do seu produtor e por isso não pode ser considerada mercadoria; não faz sentido tratar a mercadoria como categoria a-histórica.Carcanholo, A importância da categoria valor de uso na teoria de Marx, p. 18, nota 2
  • Interpretação · Karl MarxA divisão social do trabalho é condição da produção de mercadorias, mas existe sem ela, como na antiga comunidade indiana ou dentro da fábrica; só produtos de trabalhos privados autônomos e independentes se enfrentam como mercadorias.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 2, § 5
  • Interpretação · Karl MarxForça de trabalho é o conjunto das capacidades físicas e espirituais que existem na corporalidade de um ser humano e que ele põe em movimento sempre que produz valores de uso.Marx, O capital, Livro I, cap. 4, seção 3, § 2
  • Interpretação · Karl MarxA existência do produto como mercadoria supõe condições históricas; só com base no modo de produção capitalista todos ou a maioria dos produtos tomam a forma de mercadoria.Marx, O capital, Livro I, cap. 4, seção 3, § 8
  • FatoEm 2022, 11,8 milhões de pessoas de 14 anos ou mais realizaram produção para o próprio consumo no Brasil, uma taxa de realização de 6,8%.IBGE, PNAD Contínua, p. 9
  • FatoEm 2022, 75,4% das pessoas que realizaram produção para o próprio consumo afirmaram fazer atividades de cultivo, pesca, caça e criação de animais.IBGE, PNAD Contínua, p. 9
  • FatoA PNAD Contínua investiga a produção para o próprio consumo entre as outras formas de trabalho, que não entram no cômputo da ocupação.IBGE, PNAD Contínua, p. 1
  • FatoLênin escreveu o resumo biográfico e a exposição do marxismo intitulados Karl Marx em novembro de 1914.Lênin, Karl Marx, cabeçalho da página do MIA
  • Interpretação · Vladímir LêninA mercadoria é, em primeiro lugar, uma coisa que satisfaz uma necessidade humana e, em segundo lugar, uma coisa que se pode trocar por outra; a utilidade de uma coisa constitui o seu valor de uso.Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção O valor, 1º parágrafo
  • Interpretação · Karl MarxPara transformar dinheiro em capital, o possuidor de dinheiro tem de encontrar no mercado o operário livre em duplo sentido, que dispõe da sua força de trabalho como mercadoria e não tem outras mercadorias para vender nem as coisas necessárias para realizar o seu trabalho.Marx, O capital, Livro I, cap. 4, seção 3, § 6
  • Interpretação · Karl MarxA mercadoria satisfaz necessidades humanas de qualquer espécie, seja imediatamente, como meio de vida, seja por um desvio, como meio de produção.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 1, § 2
  • Interpretação · Karl MarxSe o valor dependesse do tempo de cada produtor, quanto mais preguiçoso ou inábil fosse um homem, mais valiosa seria a sua mercadoria; mas o trabalho que forma o valor é trabalho humano igual, de uma força de trabalho social média.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 1, § 16
  • Interpretação · Karl MarxQuem satisfaz a sua necessidade com o próprio produto cria valor de uso, mas não mercadoria; para produzir mercadoria, é preciso produzir valor de uso para outros e transferir o produto a eles por meio da troca.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 1, § 19
  • Interpretação · Karl MarxNas sociedades em que domina o modo de produção capitalista, a riqueza aparece como um imenso acúmulo de mercadorias, e a mercadoria singular é a sua forma elementar; por isso a investigação começa pela análise da mercadoria.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 1, § 1
  • Interpretação · Karl MarxDepois da introdução do tear a vapor na Inglaterra, o tecelão manual continuou precisando do mesmo tempo, mas o produto de uma hora do seu trabalho individual passou a representar só meia hora de trabalho social.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 1, § 16
  • Interpretação · Karl MarxA grandeza do valor é determinada pelo tempo de trabalho socialmente necessário, o tempo requerido para produzir um valor de uso nas condições de produção socialmente normais e com o grau social médio de habilidade e intensidade do trabalho.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 1, §§ 16 e 17
  • Interpretação · Karl MarxO dono da força de trabalho tem de vendê-la sempre por tempo determinado, porque, se a vendesse de uma vez por todas, venderia a si mesmo e passaria de homem livre a escravo.Marx, O capital, Livro I, cap. 4, seção 3, § 3
  • Interpretação · Karl MarxO cereal do tributo e o do dízimo, produzidos pelo camponês medieval para o senhor feudal e para o clérigo, não se tornavam mercadoria pelo fato de serem produzidos para outros.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 1, § 19
  • Interpretação · Karl MarxUma coisa pode ser valor de uso sem ser valor quando a sua utilidade não é mediada por trabalho, como o ar, o solo virgem e as florestas bravas.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 1, § 19
  • Interpretação · Karl MarxO valor de troca aparece como a proporção em que valores de uso de uma espécie se trocam por valores de uso de outra espécie.Marx, O capital, Livro I, cap. 1, seção 1, § 5

Fontes desta página

  1. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Abrir ↗
  2. LÊNIN, Vladímir Ilitch. Karl Marx (breve esboço biográfico seguido de uma exposição do marxismo). 1915. Abrir ↗
  3. CARCANHOLO, Marcelo Dias. A importância da categoria valor de uso na teoria de Marx. São Paulo: Pesquisa & Debate (PUC-SP), v. 9, n. 2 (14), pp. 17-43, 1998. Abrir ↗
  4. IBGE. PNAD Contínua: outras formas de trabalho 2022 (informativo). biblioteca.ibge.gov.br. Abrir ↗
  5. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 1, seção 1. Os dois factores da mercadoria: valor de uso e valor (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  6. Karl Marx. O capital: crítica da economia política (índice e nota da editora da edição Progresso e Avante!, 1990), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  7. Marcelo Dias Carcanholo. A importância da categoria valor de uso na teoria de Marx (Pesquisa & Debate, 1998). revistas.pucsp.br. Abrir ↗
  8. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 1, seção 2. Carácter duplo do trabalho exposto nas mercadorias (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  9. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 4, seção 3. Compra e venda da força de trabalho (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  10. Vladímir Ilitch Lênin. Figuras do movimento operário: Karl Marx (Problemas, n. 18, 1949), no MIA. marxists.org. Abrir ↗