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Conceitos / Economia política / Gasto público e austeridade

Austeridade

Em poucas palavras

Austeridade é o conjunto de políticas fiscais, monetárias e industriais que corta gastos sociais, mantém juros altos e enfraquece os sindicatos em nome das contas equilibradas. Para Clara Mattei, ela nasceu depois da Primeira Guerra como reação contra as conquistas dos trabalhadores e serve para amansar o conflito de classes. Kalecki mostrou por que os capitalistas combatem o gasto público.

Eixo e tema
Economia política · Gasto público e austeridade
Obra principal
A ordem do capital: como economistas inventaram a austeridade e abriram caminho para o fascismo, de Clara E. Mattei

Explicação

O que é austeridade

A economista Clara Mattei, autora de A ordem do capital, lembra que a austeridade se apresenta na linguagem da economia honesta e sacrificada, com o elogio do trabalho duro e da poupança. Para ela, a austeridade moderna nasceu depois da Primeira Guerra Mundial como um projeto técnico conduzido pelo Estado, num momento em que os trabalhadores tinham acabado de conquistar o voto e pediam democracia também na economia. Mattei conclui que a austeridade deve ser entendida como uma reação antidemocrática às ameaças de mudança social vindas de baixo. (Mattei, A ordem do capital, introdução, livreto da Boitempo, p. 3 e introdução, livreto da Boitempo, p. 4)

A trindade da austeridade

Mattei descreve três formas de austeridade que agem juntas para empurrar os salários para baixo. A austeridade fiscal combina impostos regressivos, isto é, que pesam mais sobre quem ganha menos, com cortes nos gastos sociais, como saúde e educação, e dá prioridade ao pagamento da dívida aos credores. A austeridade monetária, feita com juros altos e menos dinheiro em circulação, protege os credores e enfraquece o poder de barganha dos trabalhadores, e a austeridade industrial corta salários de servidores e enfraquece greves e sindicatos. (Mattei, A ordem do capital, introdução, livreto da Boitempo, p. 6 e introdução, livreto da Boitempo, p. 7)

Para Mattei, o objetivo dessas políticas era transferir a riqueza nacional para as classes altas, que os especialistas consideravam as únicas capazes de poupar e investir. Ela sustenta que a fixação dos economistas no pagamento de dívidas, no orçamento equilibrado e no controle da inflação esconde um propósito mais fundamental, o de amansar o conflito de classes. Esse controle, diz Mattei, é essencial para que o capitalismo continue se reproduzindo. (Mattei, A ordem do capital, introdução, livreto da Boitempo, p. 6 e introdução, livreto da Boitempo, p. 7)

Consenso, coerção e tecnocracia

Mattei mostra que os especialistas montaram a austeridade com duas estratégias, o consenso, que buscava convencer o público da necessidade de reformas dolorosas, e a coerção. A coerção consistia em tirar do povo as decisões econômicas e entregá-las a instituições técnicas, sobretudo aos bancos centrais, cuja independência foi formalizada nas conferências financeiras de Bruxelas e de Gênova. Ela registra que a Grã-Bretanha liberal e a Itália fascista de Mussolini aplicaram programas parecidos, com o mesmo fim de recuperar a acumulação de capital. (Mattei, A ordem do capital, introdução, livreto da Boitempo, p. 5, introdução, livreto da Boitempo, p. 17 e introdução, livreto da Boitempo, p. 18)

Na Grã-Bretanha, segundo Mattei, a austeridade monetária provocou uma recessão em que o desemprego chegou a 17% dos trabalhadores cobertos pelo seguro social em 1921. Com o poder de barganha enfraquecido, os salários nominais caíram 41% de 1920 a 1923, e a taxa de lucro se recuperou. Para a autora, a principal vantagem da recessão foi a restauração da estrutura de classes capitalista. (Mattei, A ordem do capital, introdução, livreto da Boitempo, p. 20 e introdução, livreto da Boitempo, p. 21)

Kalecki e o estado de confiança

O economista polonês Michał Kalecki, próximo da tradição marxista, explicou em 1943 que, sem intervenção do governo, o nível de emprego depende do chamado estado de confiança dos empresários. Se essa confiança piora, o investimento privado cai e com ele a produção e o emprego, o que dá aos capitalistas um controle indireto sobre a política do governo. Para Kalecki, a função social da doutrina das finanças sólidas, que exige orçamento sempre equilibrado, é manter o emprego dependente desse estado de confiança. (Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 12)

Kalecki previu um ciclo político em que o governo gasta para sair da crise e, no auge seguinte, uma aliança entre as grandes empresas e os rentistas o pressiona a cortar o déficit, o que leva a nova queda. Ele cita como exemplo os Estados Unidos, onde a redução drástica do déficit derrubou a economia no segundo semestre de 1937. (Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, §§ 28, 29 e 30)

A austeridade no Brasil

A Emenda Constitucional nº 95, de 2016, limitou por vinte anos as despesas primárias da União, isto é, todos os gastos menos os juros e as amortizações da dívida, ao valor do ano anterior corrigido pela inflação medida pelo IPCA. A Lei Complementar nº 200, de 2023, criou o regime fiscal sustentável, em que o limite de gastos cresce, acima da inflação, 70% do crescimento real da receita, ou 50% se a meta fiscal não for cumprida, com aumento real entre 0,6% e 2,5% ao ano. (Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 95, de 15 de dezembro de 2016, arts. 106 e 107, § 1º, II, do ADCT; Congresso Nacional, Lei Complementar nº 200, de 30 de agosto de 2023, art. 5º)

Para Ricardo Souza Araujo, a Emenda nº 95 proibiu qualquer aumento real das despesas sociais por vinte anos, e o novo arcabouço retoma a austeridade com perdas em direitos sociais garantidos pela Constituição. Ele alerta que os novos limites põem em risco os pisos constitucionais da saúde e da educação. A economista Leda Paulani registra que, em 2003, o governo elevou o superávit primário a 4,25% do PIB, acima dos 3,75% exigidos pelo FMI. (Araujo, Arcabouço fiscal, pp. 594, 600 e 602; Paulani, Quando o medo vence a esperança, p. 12)

No Brasil

Austeridade no Brasil

A Emenda Constitucional nº 95, de 2016, limitou por vinte anos as despesas primárias da União ao valor do ano anterior corrigido pelo IPCA; em 2023, a Lei Complementar nº 200 criou um limite que cresce no máximo 70% do crescimento real da receita. (Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 95, de 15 de dezembro de 2016, arts. 106 e 107 do ADCT; Mattei, A ordem do capital, introdução, livreto da Boitempo, p. 6)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • MATTEI, Clara E.. A ordem do capital: como economistas inventaram a austeridade e abriram caminho para o fascismo. Trad. Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2023. Onde ler: introdução, pp. 24-39 do livro, lidas no livreto da Boitempo (2026), pp. 3 a 21.

    “Desse modo, a austeridade deve ser entendida pelo que é e continua sendo: uma reação antidemocrática às ameaças de mudança social vindas de baixo para cima.”

    introdução, livreto da Boitempo, p. 4

    Ficha da obra: A ordem do capital

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (20)
  • Interpretação · Clara E. MatteiSob o verniz de ciência apolítica, os economistas tecnocratas realizavam a ação mais política de todas, a de submeter as classes trabalhadoras às vontades e necessidades das classes proprietárias.Mattei, A ordem do capital, introdução, livreto da Boitempo, p. 12
  • Interpretação · Ricardo Souza AraujoOs novos limites do arcabouço põem em risco os pisos constitucionais da saúde e da educação.Araujo, Arcabouço fiscal, p. 602
  • Interpretação · Ricardo Souza AraujoO Novo Arcabouço Fiscal reatualiza os expedientes de austeridade fiscal das últimas décadas, com retrocessos em direitos sociais constitucionalizados, como educação e saúde.Araujo, Arcabouço fiscal, p. 594
  • Interpretação · Ricardo Souza AraujoA Emenda 95 proíbe qualquer reajuste real nas despesas sociais nos vinte anos seguintes.Araujo, Arcabouço fiscal, p. 600
  • Interpretação · Clara E. MatteiAs conferências financeiras internacionais de Bruxelas e de Gênova formalizaram a independência dos bancos centrais como passo para liberar as instituições econômicas do controle democrático.Mattei, A ordem do capital, introdução, livreto da Boitempo, p. 18
  • Interpretação · Clara E. MatteiA fixação dos especialistas no pagamento de dívidas, em orçamentos equilibrados, câmbio e inflação revela um propósito mais fundamental, o de amansar o conflito de classes, essencial para a reprodução continuada do capitalismo.Mattei, A ordem do capital, introdução, livreto da Boitempo, p. 7
  • Interpretação · Clara E. MatteiOs especialistas conceberam a austeridade com duas estratégias, o consenso, que buscava convencer o público da necessidade de reformas dolorosas, e a coerção, que excluía o público das decisões econômicas e as delegava a instituições tecnocráticas, especialmente os bancos centrais.Mattei, A ordem do capital, introdução, livreto da Boitempo, p. 5
  • Interpretação · Clara E. MatteiNa Grã-Bretanha, a austeridade monetária provocou uma recessão com desemprego de até 17% dos trabalhadores com direito à seguridade social em 1921, o que enfraqueceu o poder de barganha dos trabalhadores.Mattei, A ordem do capital, introdução, livreto da Boitempo, p. 20
  • FatoA Emenda Constitucional nº 95, de 2016, instituiu o Novo Regime Fiscal por vinte exercícios, com limites para as despesas primárias iguais ao limite do ano anterior corrigido pela variação do IPCA.Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 95, de 15 de dezembro de 2016, arts. 106 e 107, § 1º, II, do ADCT
  • Interpretação · Clara E. MatteiA austeridade fiscal vem como tributação regressiva e cortes em gastos sociais, como saúde e educação, com a prioridade declarada de pagar a dívida aos credores; a austeridade monetária, com aumento dos juros e redução da moeda em circulação, protege os credores e diminui o poder de barganha dos trabalhadores.Mattei, A ordem do capital, introdução, livreto da Boitempo, p. 6
  • Interpretação · Clara E. MatteiA austeridade industrial assume a forma de políticas autoritárias, como reduções salariais de funcionários públicos e enfraquecimento de greves e sindicatos, e fomenta o arrocho salarial em favor de um lucro maior.Mattei, A ordem do capital, introdução, livreto da Boitempo, p. 7
  • Interpretação · Michał KaleckiNa crise, o governo adotará o investimento público financiado por empréstimos; no auge seguinte, uma aliança entre grandes negócios e rentistas induzirá o governo a reduzir o déficit, e virá nova queda, como ocorreu nos Estados Unidos em 1937 e 1938, quando o colapso do auge se deveu à redução drástica do déficit.Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, §§ 28, 29 e 30
  • Interpretação · Michał KaleckiSob o laissez-faire, o nível de emprego depende do estado de confiança; se ele piora, o investimento privado cai, o que dá aos capitalistas um poderoso controle indireto sobre a política do governo, e a função social da doutrina das finanças sólidas é tornar o nível de emprego dependente do estado de confiança.Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 12
  • FatoA Lei Complementar nº 200, de 2023, que institui o regime fiscal sustentável, limita a variação real do limite de despesa primária a 70% da variação real da receita primária, ou a 50% se a meta de resultado primário do ano anterior não tiver sido cumprida, com crescimento real não inferior a 0,6% nem superior a 2,5% ao ano.Congresso Nacional, Lei Complementar nº 200, de 30 de agosto de 2023, art. 5º
  • Interpretação · Clara E. MatteiA austeridade transcendeu as diferenças entre o liberalismo britânico e o fascismo italiano, que promoveram ambientes parecidos para ela, com o objetivo comum de reabilitar a acumulação de capital.Mattei, A ordem do capital, introdução, livreto da Boitempo, p. 17
  • Interpretação · Clara E. MatteiParte do que torna a austeridade eficaz é que ela se envolve na linguagem da economia honesta e sofrida, com sentimentos como o do trabalho duro e o da parcimônia, exaltados por economistas desde Adam Smith, David Ricardo e Malthus.Mattei, A ordem do capital, introdução, livreto da Boitempo, p. 3
  • Interpretação · Leda Maria PaulaniNo início de 2003, o superávit primário foi elevado a 4,25% do PIB, acima dos 3,75% exigidos pelo FMI.Paulani, Quando o medo vence a esperança, p. 12
  • Interpretação · Clara E. MatteiComo fenômeno do século XX, a austeridade se materializou num projeto tecnocrata liderado pelo Estado num momento de emancipação política dos cidadãos, que conquistavam o voto, e de demandas por democracia econômica, e deve ser entendida como uma reação antidemocrática às ameaças de mudança social vindas de baixo para cima.Mattei, A ordem do capital, introdução, livreto da Boitempo, p. 4
  • Interpretação · Clara E. MatteiOs salários nominais britânicos caíram 41% de 1920 a 1923, o que permitiu a recuperação da taxa de lucro, e a principal vantagem da recessão foi a restauração da estrutura de classes capitalista.Mattei, A ordem do capital, introdução, livreto da Boitempo, p. 21
  • Interpretação · Clara E. MatteiAs três formas de austeridade, fiscal, monetária e industrial, trabalharam em uníssono para pressionar os salários para baixo, com o objetivo de transferir a riqueza e os recursos nacionais para as classes altas, consideradas pelos especialistas as únicas capazes de poupar e investir.Mattei, A ordem do capital, introdução, livreto da Boitempo, p. 6

Fontes desta página

  1. MATTEI, Clara E.. A ordem do capital: como economistas inventaram a austeridade e abriram caminho para o fascismo. Trad. Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2023.
  2. KALECKI, Michał. Aspectos políticos do pleno emprego. 1943. Abrir ↗
  3. Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Emenda Constitucional nº 95, de 15 de dezembro de 2016 (Novo Regime Fiscal). planalto.gov.br, 15/12/2016. Abrir ↗
  4. Congresso Nacional. Lei Complementar nº 200, de 30 de agosto de 2023 (regime fiscal sustentável). planalto.gov.br, 30/08/2023. Abrir ↗
  5. ARAUJO, Ricardo Souza. Arcabouço fiscal: uma análise crítica da atual política econômica do Governo Lula. São Luís: Revista de Políticas Públicas (UFMA), v. 29, n. 2, pp. 594-609, 2025. Abrir ↗
  6. PAULANI, Leda Maria. Quando o medo vence a esperança (um balanço da política econômica do primeiro ano do governo Lula). Crítica Marxista, n. 19, pp. 11-26, 2004. Abrir ↗
  7. Clara E. Mattei. Austeridade, antes e agora (livreto da Boitempo, fev. 2026, com o texto de A ordem do capital, pp. 24-39). blogdaboitempo.com.br, 01/02/2026. Abrir ↗
  8. Ricardo Souza Araujo. Arcabouço fiscal: uma análise crítica da atual política econômica do Governo Lula (Revista de Políticas Públicas, v. 29, n. 2, 2025). periodicoseletronicos.ufma.br. Abrir ↗
  9. Michał Kalecki. Aspectos políticos do pleno emprego (tradução de José Carlos Ruy, do Portal Vermelho), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  10. Leda Maria Paulani. Quando o medo vence a esperança (Crítica Marxista, n. 19, 2004). econtents.sbu.unicamp.br. Abrir ↗