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Conceitos / Economia política / Capital e concorrência

Centralização do capital

Em poucas palavras

Centralização do capital é a reunião de capitais já existentes em poucas mãos, pela ruína ou compra dos concorrentes e por fusões. Marx a distingue da concentração, que é o crescimento de cada capital pela acumulação de mais-valia. A concorrência e o crédito são as suas alavancas, e Lênin mostrou que, num certo grau, a concentração leva ao monopólio.

Eixo e tema
Economia política · Capital e concorrência
Nível
Intermediário
Obra principal
O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital, de Karl Marx
Na trilha
Economia política em 4 passos, passo 4
Relacionados
Taxa de lucroPreços e custosCapital constante e capital variávelExército de reservaAcumulação primitivaCrise capitalistaJuros e créditoImperialismoCapital financeiroPrivatizaçãoClasse dominante

Explicação

Dois movimentos

Cada capital individual reúne meios de produção e comanda um número maior ou menor de trabalhadores. Marx chama de concentração o crescimento desse capital pela acumulação, isto é, pela transformação de parte da mais-valia em novo capital, e mostra que ela tem um limite, porque depende do crescimento da riqueza social. Enquanto isso, o capital da sociedade continua repartido entre muitos capitalistas, que se enfrentam como produtores independentes e concorrem entre si. (Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 2, § 9)

Contra essa dispersão age a atração dos capitais uns pelos outros. Marx chama de centralização a reunião de capitais já formados, com a supressão da autonomia de cada um, a expropriação de capitalista por capitalista e a transformação de muitos capitais pequenos em poucos capitais grandes. Como ela só muda a repartição do capital que já existe, a centralização não depende do crescimento absoluto da riqueza. (Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 2, § 10)

Concorrência e crédito

A concorrência é feita pelo barateamento das mercadorias, e o preço baixo depende da produtividade do trabalho, que depende da escala de produção. Por isso os capitais maiores batem os menores, e o capital mínimo para operar um negócio em condições normais cresce com o desenvolvimento do capitalismo. Marx diz que essa luta termina sempre com a ruína de muitos pequenos capitalistas, cujos capitais passam em parte para as mãos do vencedor e em parte se perdem. (Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 2, § 11)

O crédito começa como um modesto auxílio da acumulação, juntando o dinheiro espalhado pela sociedade, e vira uma arma da concorrência e um enorme mecanismo social de centralização. Marx chama a concorrência e o crédito de as duas alavancas mais poderosas da centralização. A fusão pode vir pelo caminho violento da anexação ou pelo caminho mais suave da sociedade por ações, e o efeito econômico é o mesmo. (Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 2, §§ 11, 12 e 13)

O que a centralização acelera

Marx dá o exemplo das ferrovias, que o mundo ainda estaria esperando se dependesse da acumulação de capitais isolados e que a centralização ergueu por meio das sociedades por ações. Ao acelerar a acumulação, a centralização também acelera as mudanças técnicas que aumentam a parte do capital gasta em meios de produção e diminuem a procura relativa de trabalho. Marx liga esse movimento à formação da população operária excessiva, o exército industrial de reserva. (Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 2, § 14; Livro I, cap. 23, seção 3, § 2)

Na seção sobre a tendência histórica da acumulação capitalista, Marx escreve que um capitalista mata sempre muitos. Com o número cada vez menor de magnatas do capital, crescem a miséria e a exploração, mas também a revolta da classe operária, organizada pelo próprio processo de produção. Para Marx, a centralização dos meios de produção e a socialização do trabalho chegam a um ponto em que não cabem mais no invólucro capitalista, e os expropriadores são expropriados. (Marx, O capital, Livro I, cap. 24, seção 7, § 6)

Do monopólio ao imperialismo

Lênin partiu dessa análise para estudar o capitalismo do começo do século XX. Ele mostra que, nos Estados Unidos de 1909, 1,1% das empresas industriais respondia por 43,8% do valor da produção, e conclui que, num certo grau, a concentração conduz por si mesma ao monopólio, porque poucas dezenas de empresas gigantes chegam facilmente a acordo entre si. Para Lênin, Marx tinha demonstrado que a livre concorrência gera a concentração da produção, e a transformação da concorrência em monopólio é um dos fenômenos mais importantes da economia capitalista do seu tempo. (Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. 1, §§ 5, 6 e 14)

Os economistas Giliad Silva e Eduardo Maldonado Filho registram que a teoria do capital monopolista, inspirada em Baran e Sweezy, liga a inflação ao poder crescente dos monopólios. Eles criticam essa leitura lembrando que, para Marx, é um erro achar que o poder de monopólio permite ao produtor fixar preços acima do valor da mercadoria. (Silva e Maldonado Filho, Teorias marxistas da inflação, pp. 24 e 33)

No Brasil

Segundo o Cadastro Central de Empresas do IBGE, em 2023 as empresas e outras organizações com 250 pessoas ou mais eram 0,2% do total, mas reuniam 43,9% do pessoal ocupado, 55,0% dos assalariados e 69,1% dos salários e outras remunerações. Esses números mostram o peso das grandes organizações num único ano e não indicam se elas cresceram pela própria acumulação ou pela compra de concorrentes. (IBGE, Estatísticas do Cadastro Central de Empresas 2023, p. 24)

No Brasil

Centralização do capital no Brasil

Em 2023, as empresas e outras organizações com 250 pessoas ou mais eram 0,2% do total no cadastro do IBGE e reuniam 55,0% dos assalariados e 69,1% dos salários e outras remunerações. É o mesmo tipo de dado, sobre o tamanho das empresas, que Lênin tirou dos censos industriais para mostrar a concentração da produção. (IBGE, Estatísticas do Cadastro Central de Empresas 2023, p. 24; Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. 1, §§ 5 e 6)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Onde ler: Livro I, cap. 23, seção 2; Livro I, cap. 24, seção 7, § 6.

    “Não se trata já de simples concentração, idêntica à acumulação, de meios de produção e do comando sobre o trabalho. É concentração de capitais já formados, supressão da sua autonomia individual, expropriação de capitalista por capitalista, transformação de muitos pequenos capitais em poucos grandes capitais.”

    Livro I, cap. 23, seção 2, § 10

    Ler grátis: O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital ↗Ficha da obra: O capital, livro I

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (21)
  • Interpretação · Karl MarxCom a produção e a acumulação capitalistas desenvolvem-se a concorrência e o crédito, as duas alavancas mais poderosas da centralização.Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 2, § 12
  • Interpretação · Karl MarxA centralização pode completar-se pelo caminho violento da anexação ou pela fusão de capitais por meio das sociedades por ações; o efeito econômico permanece o mesmo.Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 2, § 13
  • Interpretação · Karl MarxA luta concorrencial é conduzida pelo barateamento das mercadorias, que depende da produtividade do trabalho e esta da escala da produção; os capitais maiores batem os mais pequenos, e cresce o volume mínimo de capital requerido para explorar um negócio em condições normais.Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 2, § 11
  • Interpretação · Karl MarxA centralização acelera os revolucionamentos na composição técnica do capital, que aumentam a sua parte constante à custa da variável e diminuem a procura relativa de trabalho.Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 2, § 14
  • Interpretação · Karl MarxCada capital individual é uma concentração de meios de produção com o comando sobre um exército de operários; com a acumulação, cresce a concentração da riqueza que funciona como capital nas mãos de capitalistas individuais.Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 2, § 9
  • Interpretação · Karl MarxA concentração que repousa sobre a acumulação é limitada pelo grau de crescimento da riqueza social, e o capital social de cada esfera está repartido por muitos capitalistas que se defrontam como produtores independentes e concorrem entre si.Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 2, § 9
  • Interpretação · Karl MarxO sistema de crédito, que começa como modesto auxílio da acumulação reunindo os meios monetários dispersos, torna-se uma arma na luta concorrencial e um enorme mecanismo social para a centralização dos capitais.Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 2, § 11
  • Interpretação · Karl MarxA centralização é a concentração de capitais já formados, a supressão da sua autonomia individual, a expropriação de capitalista por capitalista, a transformação de muitos pequenos capitais em poucos grandes capitais.Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 2, § 10
  • Interpretação · Karl MarxCom o número decrescente de magnatas do capital cresce a miséria e a exploração, mas também a revolta da classe operária; a centralização dos meios de produção e a socialização do trabalho tornam-se incompatíveis com o invólucro capitalista, e os expropriadores são expropriados.Marx, O capital, Livro I, cap. 24, seção 7, § 6
  • Interpretação · Karl MarxO mundo ainda estaria sem caminhos de ferro se tivesse de esperar que a acumulação pusesse alguns capitais à altura dessa construção; a centralização realizou isso por meio das sociedades por ações.Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 2, § 14
  • FatoEm 2023, 0,2% das empresas e outras organizações tinham 250 pessoas ou mais e obtiveram 43,9% do pessoal ocupado total, 55,0% do pessoal ocupado assalariado e 69,1% dos salários e outras remunerações.IBGE, Estatísticas do Cadastro Central de Empresas 2023, p. 24
  • Interpretação · Vladímir LêninNos Estados Unidos, em 1909, 3.060 empresas, 1,1% do total, empregavam 30,5% dos operários e respondiam por 43,8% do valor da produção anual.Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. 1, § 5
  • Interpretação · Vladímir LêninTambém na Inglaterra, país do livre-câmbio, a concentração conduz ao monopólio, ainda que um pouco mais tarde e talvez de outra forma.Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. 1, § 12
  • Interpretação · Vladímir LêninMarx tinha demonstrado, com uma análise teórica e histórica do capitalismo, que a livre concorrência gera a concentração da produção e que esta, num certo grau, conduz ao monopólio.Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. 1, § 14
  • Interpretação · Vladímir LêninNum determinado grau do seu desenvolvimento, a concentração conduz por si mesma ao monopólio, porque é fácil para umas dezenas de empresas gigantes chegarem a acordo entre si; essa transformação da concorrência em monopólio é um dos fenômenos mais importantes da economia do capitalismo da época.Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. 1, § 6
  • Interpretação · Karl MarxA expropriação dos capitalistas completa-se pelas leis imanentes da produção capitalista, pela centralização dos capitais; um capitalista mata sempre muitos.Marx, O capital, Livro I, cap. 24, seção 7, § 6
  • Interpretação · Karl MarxA acumulação e a centralização crescentes tornam-se fonte de uma diminuição acelerada da parte variável do capital, e a acumulação produz uma população operária excessiva para as necessidades médias de valorização do capital.Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 3, § 2
  • Interpretação · Karl MarxA concorrência termina sempre com a ruína de muitos pequenos capitalistas, cujos capitais em parte passam para as mãos do vencedor e em parte se perdem.Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 2, § 11
  • Interpretação · Karl MarxA centralização apenas altera a repartição dos capitais já existentes, por isso o seu espaço não é limitado pelo crescimento absoluto da riqueza social.Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 2, § 10
  • Interpretação · Giliad de Souza Silva e Eduardo Augusto de Lima Maldonado FilhoUma das explicações marxistas da inflação a vincula ao crescente poder dos monopólios, reforçado pelas políticas intervencionistas do Estado, e é constitutiva da abordagem baseada em Baran e Sweezy.Silva e Maldonado Filho, Teorias marxistas da inflação, p. 24
  • Interpretação · Giliad de Souza Silva e Eduardo Augusto de Lima Maldonado FilhoA conclusão da teoria do capital monopolista de que setores monopolistas fixam preços de modo discricionário e persistente acima dos valores médios já era criticada por Marx, para quem é um erro entender que o poder de monopólio capacite o produtor a estabelecer preços acima do valor da mercadoria.Silva e Maldonado Filho, Teorias marxistas da inflação, p. 33

Fontes desta página

  1. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Abrir ↗
  2. LÊNIN, Vladímir Ilitch. O imperialismo, fase superior do capitalismo. 1917. Abrir ↗
  3. SILVA, Giliad de Souza; MALDONADO FILHO, Eduardo Augusto de Lima. Teorias marxistas da inflação: uma revisão crítica. Belo Horizonte: Nova Economia (UFMG), v. 27, n. 2, pp. 21-49, 2017. Abrir ↗
  4. IBGE. Estatísticas do Cadastro Central de Empresas 2023. biblioteca.ibge.gov.br. Abrir ↗
  5. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 23, seção 2. Diminuição relativa da parte variável do capital no decurso da acumulação e da concentração que a acompanha (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  6. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 24, seção 7. Tendência histórica da acumulação capitalista (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  7. Vladímir Ilitch Lênin. O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. 1. A concentração da produção e os monopólios, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  8. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 23, seção 3. Progressiva produção de uma sobrepopulação relativa ou de um exército industrial de reserva (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  9. Giliad de Souza Silva e Eduardo Augusto de Lima Maldonado Filho. Teorias marxistas da inflação: uma revisão crítica (Nova Economia, 2017). revistas.face.ufmg.br. Abrir ↗