Explicação
Dois movimentos
Cada capital individual reúne meios de produção e comanda um número maior ou menor de trabalhadores. Marx chama de concentração o crescimento desse capital pela acumulação, isto é, pela transformação de parte da mais-valia em novo capital, e mostra que ela tem um limite, porque depende do crescimento da riqueza social. Enquanto isso, o capital da sociedade continua repartido entre muitos capitalistas, que se enfrentam como produtores independentes e concorrem entre si. (Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 2, § 9)
Contra essa dispersão age a atração dos capitais uns pelos outros. Marx chama de centralização a reunião de capitais já formados, com a supressão da autonomia de cada um, a expropriação de capitalista por capitalista e a transformação de muitos capitais pequenos em poucos capitais grandes. Como ela só muda a repartição do capital que já existe, a centralização não depende do crescimento absoluto da riqueza. (Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 2, § 10)
Concorrência e crédito
A concorrência é feita pelo barateamento das mercadorias, e o preço baixo depende da produtividade do trabalho, que depende da escala de produção. Por isso os capitais maiores batem os menores, e o capital mínimo para operar um negócio em condições normais cresce com o desenvolvimento do capitalismo. Marx diz que essa luta termina sempre com a ruína de muitos pequenos capitalistas, cujos capitais passam em parte para as mãos do vencedor e em parte se perdem. (Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 2, § 11)
O crédito começa como um modesto auxílio da acumulação, juntando o dinheiro espalhado pela sociedade, e vira uma arma da concorrência e um enorme mecanismo social de centralização. Marx chama a concorrência e o crédito de as duas alavancas mais poderosas da centralização. A fusão pode vir pelo caminho violento da anexação ou pelo caminho mais suave da sociedade por ações, e o efeito econômico é o mesmo. (Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 2, §§ 11, 12 e 13)
O que a centralização acelera
Marx dá o exemplo das ferrovias, que o mundo ainda estaria esperando se dependesse da acumulação de capitais isolados e que a centralização ergueu por meio das sociedades por ações. Ao acelerar a acumulação, a centralização também acelera as mudanças técnicas que aumentam a parte do capital gasta em meios de produção e diminuem a procura relativa de trabalho. Marx liga esse movimento à formação da população operária excessiva, o exército industrial de reserva. (Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 2, § 14; Livro I, cap. 23, seção 3, § 2)
Na seção sobre a tendência histórica da acumulação capitalista, Marx escreve que um capitalista mata sempre muitos. Com o número cada vez menor de magnatas do capital, crescem a miséria e a exploração, mas também a revolta da classe operária, organizada pelo próprio processo de produção. Para Marx, a centralização dos meios de produção e a socialização do trabalho chegam a um ponto em que não cabem mais no invólucro capitalista, e os expropriadores são expropriados. (Marx, O capital, Livro I, cap. 24, seção 7, § 6)
Do monopólio ao imperialismo
Lênin partiu dessa análise para estudar o capitalismo do começo do século XX. Ele mostra que, nos Estados Unidos de 1909, 1,1% das empresas industriais respondia por 43,8% do valor da produção, e conclui que, num certo grau, a concentração conduz por si mesma ao monopólio, porque poucas dezenas de empresas gigantes chegam facilmente a acordo entre si. Para Lênin, Marx tinha demonstrado que a livre concorrência gera a concentração da produção, e a transformação da concorrência em monopólio é um dos fenômenos mais importantes da economia capitalista do seu tempo. (Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. 1, §§ 5, 6 e 14)
Os economistas Giliad Silva e Eduardo Maldonado Filho registram que a teoria do capital monopolista, inspirada em Baran e Sweezy, liga a inflação ao poder crescente dos monopólios. Eles criticam essa leitura lembrando que, para Marx, é um erro achar que o poder de monopólio permite ao produtor fixar preços acima do valor da mercadoria. (Silva e Maldonado Filho, Teorias marxistas da inflação, pp. 24 e 33)
No Brasil
Segundo o Cadastro Central de Empresas do IBGE, em 2023 as empresas e outras organizações com 250 pessoas ou mais eram 0,2% do total, mas reuniam 43,9% do pessoal ocupado, 55,0% dos assalariados e 69,1% dos salários e outras remunerações. Esses números mostram o peso das grandes organizações num único ano e não indicam se elas cresceram pela própria acumulação ou pela compra de concorrentes. (IBGE, Estatísticas do Cadastro Central de Empresas 2023, p. 24)