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Conceitos / Economia política / Capital e concorrência

Taxa de lucro

Em poucas palavras

Taxa de lucro é a mais-valia dividida por todo o capital adiantado, em máquinas, matérias-primas e salários. Marx mostrou que ela tende a cair, porque o capital investe cada vez mais em meios de produção e proporcionalmente menos em trabalho vivo, a única fonte de mais-valia. A queda é uma tendência, freada por forças contrárias como o aumento da exploração e o barateamento das máquinas.

Eixo e tema
Economia política · Capital e concorrência
Obra principal
O capital: crítica da economia política. Livro III: o processo global da produção capitalista, de Karl Marx

Explicação

Mais-valia e lucro

A taxa de mais-valia compara a mais-valia com o capital gasto em salários, e a taxa de lucro compara a mesma mais-valia com todo o capital adiantado, em máquinas, matérias-primas e salários. Marx mostra, no livro III de O capital, que a mesma taxa de mais-valia de 100% pode aparecer em taxas de lucro muito diferentes, conforme o tamanho do capital constante. Com 50 de capital constante para cada 100 de salários, a taxa de lucro é de 66,7%, e com 400 para cada 100 ela cai para 20%. (Marx, O capital, Livro III, cap. 13, §§ 1 e 2)

Lênin resume essa parte da obra dizendo que o lucro é a relação entre a mais-valia e todo o capital empregado numa empresa. Os capitais de composição orgânica alta, com muito capital constante em relação ao variável, dariam taxa de lucro abaixo da média, e a concorrência entre os capitais leva todos à taxa média de lucro. (Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção A mais-valia, 13º parágrafo)

A lei da tendência à queda

Marx parte de um fato que já tinha mostrado no livro I, o capital constante cresce mais depressa do que o variável à medida que o capitalismo se desenvolve. Se essa mudança atinge todos os ramos ou os principais, a composição orgânica média sobe e a taxa geral de lucro cai pouco a pouco, mesmo com o grau de exploração do trabalho constante. Para Marx, essa queda é outra expressão do aumento da produtividade do trabalho, porque o mesmo número de trabalhadores movimenta uma massa cada vez maior de meios de produção. (Marx, O capital, Livro III, cap. 13, § 4)

Como só o trabalho vivo cria mais-valia, cada parcela do capital adiantado absorve cada vez menos trabalho não pago em proporção ao seu tamanho. Lênin resume dizendo que, sendo a mais-valia função apenas do capital variável, a taxa de lucro sofre uma tendência a baixar. (Marx, O capital, Livro III, cap. 13, § 11; Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção A mais-valia, 15º parágrafo)

A queda da taxa não quer dizer queda da massa de lucro. Marx mostra que a massa absoluta de mais-valia e de lucro pode crescer enquanto a taxa cai, desde que o capital total cresça mais depressa do que a taxa diminui, e que as duas coisas vêm da mesma causa. (Marx, O capital, Livro III, cap. 13, §§ 13 e 32)

As forças contrárias

Marx lista influências que freiam a queda, entre elas o aumento da exploração do trabalho, a redução do salário abaixo do valor da força de trabalho, o barateamento dos elementos do capital constante, a sobrepopulação relativa e o comércio exterior. Ele aponta a redução do salário abaixo do valor como um dos fatores mais importantes que contêm a queda. Por causa dessas forças, a lei age apenas como tendência, e os seus efeitos só ficam claros em certas circunstâncias e depois de longos períodos. (Marx, O capital, Livro III, cap. 14, § 2; seção II, § 1; seção V, § 5)

O debate entre marxistas

O economista Francisco Paulo Cipolla mostra que duas das linhagens marxistas da teoria da crise partem da queda da taxa de lucro. Uma a explica pelo aumento dos salários, linha que nasce da crítica de Bauer a Rosa Luxemburgo e na qual ele inclui Uno e Itoh, e a outra pelo aumento da composição orgânica do capital, linha que nasce da crítica de Grossmann a Bauer. (Cipolla, Genealogia das teorias marxistas de crise, pp. 82 e 83)

Pedro Sampaio, Alessandro Miebach e Henrique Morrone estimaram que, no Brasil, a taxa de lucro em termos marxianos caiu 13,02% entre 2010 e 2015. Como a composição orgânica do capital recuou 5,60% no mesmo período, eles concluem que a queda não pode ser atribuída ao aumento da composição orgânica e apontam como causas possíveis a compressão dos lucros e a desproporção entre as esferas produtiva e não produtiva da economia. (Sampaio e Miebach e Morrone, Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil, p. 225)

No Brasil

Henrique Grazziotin, Ana Paula Fornari e Adalmir Marquetti, com estimativas feitas a partir das contas nacionais, descrevem uma tendência de queda de longo prazo da taxa de lucro no Brasil de 1953 a 1989 e uma recomposição entre 1990 e 2017, num patamar bem mais baixo que o do início da série. A queda foi interrompida de 1963 a 1973, período do golpe de 1964 e do chamado milagre econômico, com contenção salarial, e voltou com força de 1974 a 1989, na crise da dívida externa e da inflação alta. (Grazziotin e Fornari e Marquetti, Taxa de lucro e acumulação de capital no Brasil, pp. 194 e 195)

Os mesmos autores concluem que a produtividade do capital, a relação entre o produto e o estoque de capital, explica a maior parte das variações da taxa de lucro no Brasil, enquanto a parcela dos lucros na renda oscilou entre 50% e 60%. Os testes estatísticos deles indicam que, entre 1953 e 2017, a taxa de lucro antecede a taxa de acumulação de capital, resultado que eles consideram coerente com a abordagem marxista, em que a lucratividade precede o investimento. (Grazziotin e Fornari e Marquetti, Taxa de lucro e acumulação de capital no Brasil, pp. 176, 195, 196 e 199)

No Brasil

Taxa de lucro no Brasil

Pelas estimativas de Grazziotin, Fornari e Marquetti, a taxa de lucro no Brasil teve tendência de queda de 1953 a 1989 e se recompôs entre 1990 e 2017, num patamar bem mais baixo que o do início da série. (Henrique de Abreu Grazziotin, Ana Paula Fornari e Adalmir Antonio Marquetti, Taxa de lucro e acumulação de capital no Brasil, pp. 194 e 195; Marx, O capital, Livro III, cap. 13, § 4)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (20)
  • Interpretação · Francisco Paulo CipollaAs teorias de colapso se desenvolveram em oposição às que admitiam a regeneração contínua do capitalismo, como na resposta de Luxemburgo a Tugan-Baranowsky e na de Grossmann a Bauer.Cipolla, Genealogia das teorias marxistas de crise, p. 83
  • Interpretação · Francisco Paulo CipollaEntre as teorias marxistas de crise, uma explica a queda da taxa de lucro pelo aumento dos salários, a partir da crítica de Bauer a Rosa Luxemburgo, e outra pelo aumento da composição orgânica do capital, a partir da crítica de Grossmann a Bauer.Cipolla, Genealogia das teorias marxistas de crise, p. 82, quadro 1
  • Interpretação · Francisco Paulo CipollaDobb pode ser classificado junto com Uno e Itoh, porque partilha a concepção de crise de sobreacumulação causada pelo aumento dos salários.Cipolla, Genealogia das teorias marxistas de crise, p. 82, nota 7
  • Interpretação · Karl MarxAs influências contrárias mais gerais são o aumento da intensidade da exploração, a redução dos salários abaixo do valor da força de trabalho, o barateamento dos elementos do capital constante, a sobrepopulação relativa, o comércio exterior e o aumento do capital por ações.Marx, O capital, Livro III, cap. 14, § 2 e títulos das seções
  • Interpretação · Karl MarxO mesmo desenvolvimento da produtividade do trabalho se expressa numa tendência de queda progressiva da taxa de lucro e num crescimento progressivo da massa absoluta de mais-valia ou lucro, o que só acontece se o capital total crescer mais depressa do que cai a taxa de lucro.Marx, O capital, Livro III, cap. 13, § 32
  • Interpretação · Karl MarxCom capital variável de 100 e capital constante de 50, 100, 200, 300 e 400, a taxa de lucro é de 66 2/3%, 50%, 33 1/3%, 25% e 20%.Marx, O capital, Livro III, cap. 13, § 2
  • Interpretação · Henrique de Abreu Grazziotin, Ana Paula Fornari e Adalmir Antonio MarquettiEntre 1963 e 1973, período do golpe de 1964 e do milagre econômico, a tendência de queda foi contida por políticas de contenção salarial e de investimento por meio de estatais; entre 1974 e 1989 houve queda significativa, no período da crise da dívida e da inflação alta.Grazziotin e Fornari e Marquetti, Taxa de lucro e acumulação de capital no Brasil, p. 195
  • Interpretação · Henrique de Abreu Grazziotin, Ana Paula Fornari e Adalmir Antonio MarquettiOs testes são consistentes com causalidade de Granger unidirecional da taxa de lucro para a taxa de acumulação no Brasil entre 1953 e 2017; na economia política marxiana, a lucratividade precede a transformação do excedente em novo capital.Grazziotin e Fornari e Marquetti, Taxa de lucro e acumulação de capital no Brasil, pp. 176 e 199
  • Interpretação · Henrique de Abreu Grazziotin, Ana Paula Fornari e Adalmir Antonio MarquettiA parcela dos lucros oscila entre 50% e 60% da renda, e a produtividade do capital é o principal elemento explicativo das variações da lucratividade no Brasil.Grazziotin e Fornari e Marquetti, Taxa de lucro e acumulação de capital no Brasil, pp. 195 e 196
  • Interpretação · Henrique de Abreu Grazziotin, Ana Paula Fornari e Adalmir Antonio MarquettiA taxa de lucro no Brasil mostra tendência de queda de longo prazo de 1953 até 1989 e depois um período de recomposição entre 1990 e 2017, num patamar bastante inferior ao do início da série.Grazziotin e Fornari e Marquetti, Taxa de lucro e acumulação de capital no Brasil, pp. 194 e 195
  • Interpretação · Karl MarxSe o crescimento gradual do capital constante em relação ao variável ocorre em todas as esferas, ou nas principais, ele leva necessariamente a uma queda gradual da taxa geral de lucro, enquanto a taxa de mais-valia, ou a intensidade da exploração, permanece a mesma.Marx, O capital, Livro III, cap. 13, § 4
  • Interpretação · Vladímir LêninO lucro é a relação da mais-valia com o conjunto do capital empregado numa empresa; o capital de elevada composição orgânica fornece taxa de lucro inferior à média, e a concorrência entre os capitais reduz as taxas à taxa média.Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção A mais-valia, 13º parágrafo
  • Interpretação · Vladímir LêninO aumento da produtividade do trabalho significa crescimento mais rápido do capital constante em relação ao variável; sendo a mais-valia função apenas do capital variável, a taxa de lucro sofre uma tendência para baixar, e Marx analisa as circunstâncias que a encobrem ou contrariam.Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção A mais-valia, 15º parágrafo
  • Interpretação · Karl MarxA lei da queda progressiva da taxa de lucro não exclui que a massa absoluta de trabalho explorado e de trabalho excedente apropriado pelo capital social cresça.Marx, O capital, Livro III, cap. 13, § 13
  • Interpretação · Karl MarxA diminuição relativa contínua do capital variável em relação ao constante é idêntica à composição orgânica progressivamente mais alta do capital social e é outra expressão do desenvolvimento da produtividade social do trabalho.Marx, O capital, Livro III, cap. 13, § 4
  • Interpretação · Karl MarxA redução dos salários abaixo do valor da força de trabalho pertence à análise da concorrência, mas é um dos fatores mais importantes que contêm a tendência de queda da taxa de lucro.Marx, O capital, Livro III, cap. 14, seção II, § 1
  • Interpretação · Pedro Henrique Feliciano Dias Sampaio, Alessandro Donadio Miebach e Henrique MorroneEntre 2010 e 2015, a taxa de lucro em termos clássico-marxianos caiu 13,02%; como a composição orgânica do capital recuou 5,60%, a queda não pode ser atribuída diretamente ao seu aumento e pode estar ligada à compressão de lucros ou à desproporcionalidade entre as esferas produtiva e não produtiva.Sampaio e Miebach e Morrone, Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil, p. 225
  • Interpretação · Karl MarxCom salário e jornada dados e taxa de mais-valia de 100%, a mesma taxa de mais-valia se expressa em taxas de lucro muito diferentes conforme o volume do capital constante, porque a taxa de lucro é a mais-valia dividida pelo capital total.Marx, O capital, Livro III, cap. 13, § 1
  • Interpretação · Karl MarxAs mesmas influências que produzem a tendência de queda da taxa geral de lucro provocam efeitos contrários que a freiam e em parte a paralisam; por isso a lei age apenas como tendência, e só em certas circunstâncias e depois de longos períodos os seus efeitos se tornam marcantes.Marx, O capital, Livro III, cap. 14, seção V, § 5
  • Interpretação · Karl MarxQualquer parcela do capital social médio contém uma porção cada vez maior de meios de trabalho e cada vez menor de trabalho vivo, por isso o capital total absorve, em proporção ao seu tamanho, cada vez menos trabalho excedente.Marx, O capital, Livro III, cap. 13, § 11

Fontes desta página

  1. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro III: o processo global da produção capitalista. 1894. Abrir ↗
  2. LÊNIN, Vladímir Ilitch. Karl Marx (breve esboço biográfico seguido de uma exposição do marxismo). 1915. Abrir ↗
  3. CIPOLLA, Francisco Paulo. Genealogia das teorias marxistas de crise. Belo Horizonte: Nova Economia (UFMG), v. 28, n. 1, pp. 71-101, 2018. Abrir ↗
  4. SAMPAIO, Pedro Henrique Feliciano Dias; MIEBACH, Alessandro Donadio; MORRONE, Henrique. Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil: uma análise clássico-marxiana, 2010-2015. Uberlândia: Revista Economia Ensaios (UFU), v. 37, n. esp., pp. 209-231, 2022. Abrir ↗
  5. GRAZZIOTIN, Henrique de Abreu; FORNARI, Ana Paula; MARQUETTI, Adalmir Antonio. Taxa de lucro e acumulação de capital no Brasil: concepções teóricas, análise histórica e relação de causalidade. Uberlândia: Revista Economia Ensaios (UFU), v. 37, n. esp., pp. 176-208, 2022. Abrir ↗
  6. Henrique de Abreu Grazziotin, Ana Paula Fornari e Adalmir Antonio Marquetti. Taxa de lucro e acumulação de capital no Brasil: concepções teóricas, análise histórica e relação de causalidade (Revista Economia Ensaios, 2022). seer.ufu.br, 31/01/2022. Abrir ↗
  7. Francisco Paulo Cipolla. Genealogia das teorias marxistas de crise (Nova Economia, 2018), cópia do Redalyc. redalyc.org. Abrir ↗
  8. Karl Marx. Capital, Volume Three, Chapter 14. Counteracting Influences, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  9. Karl Marx. Capital, Volume Three, Chapter 13. The Law as Such, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  10. Vladímir Ilitch Lênin. Figuras do movimento operário: Karl Marx (Problemas, n. 18, 1949), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  11. Pedro Henrique Feliciano Dias Sampaio, Alessandro Donadio Miebach e Henrique Morrone. Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil: uma análise clássico-marxiana, 2010-2015 (Revista Economia Ensaios, 2022). seer.ufu.br, 31/01/2022. Abrir ↗