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Conceitos / Economia política / Trabalho e exploração

Acumulação primitiva

Em poucas palavras

Acumulação primitiva é o processo histórico que separou os produtores dos seus meios de produção, a começar pela terra, e criou de um lado o capitalista e do outro o trabalhador que só tem a força de trabalho para vender. Marx mostra que ela foi feita com violência, pela expulsão de camponeses, pelo saque colonial, pela escravidão e pela dívida pública.

Eixo e tema
Economia política · Trabalho e exploração
Obra principal
O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital, de Karl Marx

Explicação

A lenda da poupança

A economia política conta a origem do capital como uma fábula. Num tempo remoto haveria uma elite trabalhadora e poupada e uma massa preguiçosa que gastava tudo, e daí viriam a riqueza de poucos e a pobreza da maioria. Marx compara essa história ao pecado original da teologia e responde que, na história real, a conquista e o roubo, numa palavra a violência, desempenharam o grande papel. (Marx, O capital, Livro I, cap. 24, seção 1, § 2)

A separação

Para que o dinheiro vire capital, dois tipos de donos de mercadorias precisam se encontrar no mercado. De um lado estão os donos de dinheiro e de meios de produção, que querem aumentar o seu valor comprando força de trabalho alheia, e do outro estão trabalhadores livres em dois sentidos, porque não pertencem a ninguém, como o escravo ou o servo, e porque não possuem meios de produção, como o camponês que trabalha para si. Marx conclui que a chamada acumulação primitiva, que a tradução portuguesa da Avante! chama de acumulação original, nada mais é do que o processo histórico de separação entre o produtor e os meios de produção. (Marx, O capital, Livro I, cap. 24, seção 1, § 3)

Lênin resume as duas condições históricas do capital, o dinheiro acumulado em mãos de particulares e a existência de operários livres de toda coerção e também livres de terra e de meios de produção. Ele separa a acumulação feita pelo próprio capitalismo da acumulação primitiva, marcada pela separação violenta entre o trabalhador e os meios de produção, pelo roubo das terras comunais, pelo sistema colonial, pelas dívidas do Estado e pelas tarifas protecionistas. (Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção A mais-valia, 4º e 8º parágrafos)

Os métodos

Na Inglaterra, que Marx toma como o caso clássico, a base do processo foi a expropriação dos camponeses. Terras de lavoura viraram pastagens de ovelhas, as terras da Igreja e as terras comunais foram tomadas, e a propriedade feudal virou propriedade privada moderna. Marx diz que esses métodos conquistaram o campo para a agricultura capitalista, incorporaram a terra ao capital e criaram para a indústria das cidades a oferta de proletários de que ela precisava. (Marx, O capital, Livro I, cap. 24, seção 1, § 8; Livro I, cap. 24, seção 2, §§ 6 e 40)

Fora da Europa, o saque colonial acelerou o processo. A descoberta do ouro e da prata da América, o extermínio e a escravização dos povos nativos e a transformação da África em território de caça para o comércio de escravizados marcam, para Marx, a aurora da era capitalista. O sistema colonial, a dívida do Estado, o sistema moderno de impostos e o protecionismo usaram o poder do Estado para encurtar a passagem do feudalismo ao capitalismo, e Marx escreve que a violência é a parteira de toda velha sociedade que está grávida de uma nova. (Marx, O capital, Livro I, cap. 24, seção 6, §§ 5 e 6)

Origem ou processo permanente

Marx chama essa acumulação de primitiva porque ela forma a pré-história do capital. Ele também observa que, depois de firmada, a produção capitalista não só conserva a separação entre o trabalhador e os meios de produção como a reproduz numa escala sempre crescente. (Marx, O capital, Livro I, cap. 24, seção 1, § 3)

Francisco de Oliveira defendeu, em 1972, que no Brasil a acumulação primitiva é estrutural, e não apenas um momento da origem do capitalismo. Na abertura de fronteiras agrícolas, o trabalhador rural ocupa a terra, desmata e planta lavouras de subsistência, e com isso prepara o terreno para lavouras permanentes ou pastagens que pertencem ao proprietário. Para Oliveira, o que se expropria nesse caso é o excedente formado durante a posse passageira da terra. (Oliveira, A economia brasileira, pp. 16 e 17)

A Lei de Terras de 1850

A Lei nº 601, de 18 de setembro de 1850, proibiu adquirir terras devolutas, as terras públicas sem dono particular, por qualquer título que não fosse a compra. Quem ocupasse essas terras e derrubasse matas ou pusesse fogo nelas seria despejado, perderia as benfeitorias e poderia ser preso de dois a seis meses. A mesma lei autorizou o governo a vender os lotes por um preço mínimo pago à vista e a trazer colonos livres. (Império do Brasil (Assembleia Geral), Lei nº 601, de 18 de setembro de 1850, arts. 1º, 2º, 14 e 18)

No capítulo seguinte ao da acumulação primitiva, Marx analisa a colonização sistemática proposta pelo teórico inglês Wakefield. A receita era dar à terra virgem um preço artificial, que obrigasse o imigrante a trabalhar por muito tempo como assalariado antes de juntar dinheiro para comprar terra, e usar o dinheiro das vendas para trazer novos imigrantes e manter cheio o mercado de trabalho. (Marx, O capital, Livro I, cap. 25, §§ 4 e 30)

Regina Gadelha, num artigo que declara uma perspectiva marxista, liga as duas coisas. Para ela, o projeto de lei de terras de 1843, base da lei de 1850, se inspirou no sistema de Wakefield e queria encarecer a terra, torná-la inacessível a quem só tinha a força de trabalho e usar o produto das vendas para financiar a imigração. Gadelha afirma que a lei barrou a posse de terras no Sudeste e garantiu um contingente de trabalhadores livres disponíveis para a grande propriedade cafeeira. (Gadelha, A lei de terras, pp. 153, 157 a 160)

No Brasil

Acumulação primitiva no Brasil

A Lei nº 601, de 1850, proibiu adquirir terras devolutas por outro título que não fosse a compra e puniu com despejo e prisão quem as ocupasse e derrubasse matas. Para Regina Gadelha, a lei garantiu trabalhadores livres disponíveis para a grande propriedade. (Império do Brasil (Assembleia Geral), Lei nº 601, de 18 de setembro de 1850, arts. 1º e 2º; Gadelha, A lei de terras, p. 157)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Onde ler: Livro I, cap. 24, seção 1; Livro I, cap. 24, seção 2; Livro I, cap. 24, seção 6; Livro I, cap. 25.

    “O processo que cria a relação de capital não pode, portanto, ser outra coisa que não o processo de separação do operário relativamente à propriedade das suas condições de trabalho, um processo que por um lado transforma os meios de vida e de produção sociais em capital e os produtores imediatos, por outro lado, em operários assalariados. A chamada acumulação original nada é, portanto, senão o processo histórico de separação de produtor e meios de produção.”

    Livro I, cap. 24, seção 1, § 3

    Ler grátis: O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital ↗Ficha da obra: O capital, livro I

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (22)
  • Interpretação · Karl MarxA descoberta de terras de ouro e prata na América, o extermínio, a escravização e o enterramento da população nativa nas minas, a conquista e a pilhagem das Índias Orientais e a transformação da África numa coutada para a caça comercial de pessoas negras assinalam a aurora da era da produção capitalista.Marx, O capital, Livro I, cap. 24, seção 6, § 5
  • Interpretação · Karl MarxA chamada acumulação original nada é senão o processo histórico de separação entre o produtor e os meios de produção; aparece como original porque forma a pré-história do capital.Marx, O capital, Livro I, cap. 24, seção 1, § 3
  • Interpretação · Karl MarxA transformação de dinheiro em capital exige que se encontrem proprietários de dinheiro e de meios de produção, interessados em valorizar o seu valor comprando força de trabalho alheia, e trabalhadores livres no duplo sentido de não pertencerem aos meios de produção, como escravos e servos, e de não possuírem meios de produção, como o camponês que trabalha para si.Marx, O capital, Livro I, cap. 24, seção 1, § 3
  • Interpretação · Regina Maria d'Aquino Fonseca GadelhaA aprovação do projeto de 1843 foi retardada por sete anos, e ele voltou à Câmara com algumas alterações às vésperas da lei que aboliu definitivamente o tráfico de escravos.Gadelha, A lei de terras, p. 160
  • Interpretação · Regina Maria d'Aquino Fonseca GadelhaA Lei de Terras de 1850 sustou definitivamente o processo de posse no Sudeste e, ao mesmo tempo, assegurou a manutenção de um contingente de trabalhadores livres disponíveis para a grande propriedade cafeeira.Gadelha, A lei de terras, p. 157
  • Interpretação · Regina Maria d'Aquino Fonseca GadelhaO artigo estuda, dentro de uma perspectiva marxista, o processo tardio de mercantilização da terra como parte do projeto elitista de transição para o trabalho livre.Gadelha, A lei de terras, p. 153
  • Interpretação · Regina Maria d'Aquino Fonseca GadelhaO projeto de terras e colonização de 1843, inspirado nas teorias europeias de colonização de que Wakefield era o maior porta-voz, pretendia encarecer o preço da terra para torná-la inacessível a quem só possuísse força de trabalho e usar o produto da venda de terras para subvencionar a imigração.Gadelha, A lei de terras, pp. 157 a 160
  • Interpretação · Karl MarxA expropriação do produtor rural, do camponês, da terra forma a base de todo o processo, que só na Inglaterra tem forma clássica.Marx, O capital, Livro I, cap. 24, seção 1, § 8
  • FatoA Lei nº 601, de 18 de setembro de 1850, proibiu as aquisições de terras devolutas por outro título que não o de compra, salvo numa faixa de dez léguas nos limites com países estrangeiros.Império do Brasil (Assembleia Geral), Lei nº 601, de 18 de setembro de 1850, art. 1º
  • FatoQuem se apossasse de terras devolutas ou alheias e nelas derrubasse matas ou lhes pusesse fogo seria obrigado a despejo, com perda de benfeitorias, e sofreria pena de dois a seis meses de prisão e multa.Império do Brasil (Assembleia Geral), Lei nº 601, de 18 de setembro de 1850, art. 2º
  • FatoO governo foi autorizado a vender as terras devolutas, medidas e demarcadas, por preço mínimo fixado antecipadamente e pago à vista, e a mandar vir anualmente, à custa do Tesouro, certo número de colonos livres.Império do Brasil (Assembleia Geral), Lei nº 601, de 18 de setembro de 1850, arts. 14 e 18
  • Interpretação · Vladímir LêninA condição histórica do aparecimento do capital é a acumulação de uma soma de dinheiro nas mãos de particulares e a existência de operários livres de toda coerção na venda da força de trabalho e livres de terras e de meios de produção.Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção A mais-valia, 4º parágrafo
  • Interpretação · Vladímir LêninA acumulação primitiva distingue-se da acumulação baseada no capitalismo e caracteriza-se pela separação violenta do trabalhador dos meios de produção, pela expropriação dos camponeses, pelo roubo das terras comunais, pelo sistema colonial, pelas dívidas do Estado e pelas tarifas protecionistas; ela cria num polo o proletariado livre e no outro o capitalista.Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção A mais-valia, 8º parágrafo
  • Interpretação · Karl MarxO roubo dos domínios da Igreja, a alienação fraudulenta dos domínios do Estado, o roubo da propriedade comunal e a transformação usurpatória da propriedade feudal em propriedade privada moderna conquistaram o campo para a agricultura capitalista, incorporaram a terra ao capital e criaram para a indústria citadina a oferta de proletariado de que ela precisava.Marx, O capital, Livro I, cap. 24, seção 2, § 40
  • Interpretação · Francisco de OliveiraNo Brasil, a expansão horizontal da ocupação agrícola opera como uma sorte de acumulação primitiva, em que não se expropria a propriedade, mas o excedente formado pela posse transitória da terra; quando o capitalismo cresce por elaboração de periferias, a acumulação primitiva é estrutural e não apenas genética.Oliveira, A economia brasileira, p. 16
  • Interpretação · Francisco de OliveiraNa abertura de fronteiras, o trabalhador rural ou o morador ocupa a terra, desmata e cultiva lavouras de subsistência, preparando a terra para lavouras permanentes ou pastagens que pertencem ao proprietário.Oliveira, A economia brasileira, pp. 16 e 17
  • Interpretação · Karl MarxO sistema colonial, o sistema da dívida do Estado, o sistema moderno de impostos e o sistema protecionista utilizam o poder do Estado para acelerar a transformação do modo de produção feudal em capitalista; a violência é a parteira de toda velha sociedade que está grávida de uma nova.Marx, O capital, Livro I, cap. 24, seção 6, § 6
  • Interpretação · Karl MarxPor volta de 1489 multiplicaram-se na Inglaterra as queixas contra a transformação de terra arável em pastagens de ovelhas, que levava ao declínio da população.Marx, O capital, Livro I, cap. 24, seção 2, § 6
  • Interpretação · Karl MarxA acumulação original desempenha na economia política o papel do pecado original na teologia, contada como a anedota de uma elite diligente e poupada e de uma massa preguiçosa; na história real, conquista, subjugação, assassínio para roubar, numa palavra a violência, desempenham o grande papel.Marx, O capital, Livro I, cap. 24, seção 1, § 2
  • Interpretação · Karl MarxA colonização sistemática dá governamentalmente à terra virgem um preço artificial que obriga o imigrante a trabalhar como assalariado por muito tempo antes de poder comprar terra, e o dinheiro das vendas é usado para importar trabalhadores pobres da Europa e manter cheio o mercado de trabalho.Marx, O capital, Livro I, cap. 25, § 30
  • Interpretação · Karl MarxLogo que a produção capitalista se firma nos próprios pés, ela não conserva apenas a separação entre os operários e a propriedade das condições de trabalho, mas a reproduz numa escala sempre crescente.Marx, O capital, Livro I, cap. 24, seção 1, § 3
  • Interpretação · Karl MarxA teoria de Wakefield, que a Inglaterra procurou pôr em ação por lei, pretendia a fabricação de operários assalariados nas colônias, com o nome de colonização sistemática.Marx, O capital, Livro I, cap. 25, § 4

Fontes desta página

  1. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Abrir ↗
  2. LÊNIN, Vladímir Ilitch. Karl Marx (breve esboço biográfico seguido de uma exposição do marxismo). 1915. Abrir ↗
  3. OLIVEIRA, Francisco de. A economia brasileira: crítica à razão dualista. 1972. Abrir ↗
  4. Império do Brasil (Assembleia Geral). Lei nº 601, de 18 de setembro de 1850 (Lei de Terras). planalto.gov.br, 18/09/1850. Abrir ↗
  5. GADELHA, Regina Maria d'Aquino Fonseca. A lei de terras (1850) e a abolição da escravidão: capitalismo e força de trabalho no Brasil do século XIX. São Paulo: Revista de História (USP), n. 120, pp. 153-162, 1989. Abrir ↗
  6. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 24, seção 6. Génese do capitalista industrial (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  7. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 24, seção 1. O segredo da acumulação original (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  8. Regina Maria d'Aquino Fonseca Gadelha. A lei de terras (1850) e a abolição da escravidão: capitalismo e força de trabalho no Brasil do século XIX (Revista de História, n. 120, 1989). revistas.usp.br. Abrir ↗
  9. Vladímir Ilitch Lênin. Figuras do movimento operário: Karl Marx (Problemas, n. 18, 1949), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  10. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 24, seção 2. Expropriação do povo do campo da terra (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  11. Francisco de Oliveira. A economia brasileira: crítica à razão dualista (Estudos CEBRAP, n. 2, 1972; PDF da biblioteca virtual do CEBRAP no MIA). marxists.org. Abrir ↗
  12. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 25. A moderna teoria da colonização (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗