Explicação
Crises de abundância
No Manifesto Comunista, de 1848, Marx e Engels descrevem as crises comerciais periódicas, que destroem uma grande parte dos produtos e das forças produtivas já criadas. Eles chamam o fenômeno de epidemia da superprodução, uma crise em que a sociedade parece voltar à barbárie porque possui demasiados meios de vida e demasiada indústria. Para os dois, a história da indústria e do comércio era então a história da revolta das forças produtivas modernas contra as relações de produção burguesas. (Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista, cap. 1, § 27)
No livro III de O capital, Marx explica que as crises são soluções momentâneas e violentas das contradições existentes, erupções que restabelecem por um tempo o equilíbrio perturbado. Ele afirma que a verdadeira barreira da produção capitalista é o próprio capital, porque o capital e a sua valorização são o ponto de partida e o ponto de chegada dessa produção. (Marx, O capital, Livro III, cap. 15, seção II, §§ 10 e 15)
Produzir e vender
Marx distingue dois momentos. Primeiro o capital extrai a mais-valia na produção, e depois precisa vender todas as mercadorias para realizar essa mais-valia como lucro, e se não vende, ou vende abaixo do preço de produção, o trabalhador foi explorado, mas o capitalista não realiza o lucro e pode até perder capital. As condições da exploração e as da venda são diferentes, e a venda é limitada pela proporção entre os ramos e pela capacidade de consumo da sociedade, que a distribuição desigual reduz a um mínimo para a maioria. (Marx, O capital, Livro III, cap. 15, seção I, § 8)
Marx diz que a superprodução de capital é o mesmo que sobreacumulação de capital, e que ela seria absoluta no ponto em que o capital adicional já não gerasse mais lucro do que o capital antigo gerava sozinho. Nessa situação a taxa de lucro cai de forma brusca, a concorrência entre os capitalistas se acirra e parte do capital fica parada ou é destruída. Ao lado do capital em excesso cresce uma sobrepopulação de trabalhadores sem emprego, e Marx observa que as duas coisas não se contradizem. (Marx, O capital, Livro III, cap. 15, seção III, §§ 2, 3, 5 e 15)
O debate entre marxistas
O economista Francisco Paulo Cipolla organiza as teorias marxistas da crise em quatro linhagens, cada uma apoiada numa parte da obra de Marx. A do subconsumo parte dos escritos anteriores a O capital, a da desproporção entre os ramos parte dos esquemas de reprodução do livro II, e as outras duas explicam a crise pela queda da taxa de lucro, causada pelo aumento dos salários ou pelo aumento da composição orgânica do capital. (Cipolla, Genealogia das teorias marxistas de crise, p. 82)
O próprio Marx criticou a explicação que põe a culpa apenas no pouco consumo dos trabalhadores. Ele escreve que dizer que as crises vêm da falta de consumidores com dinheiro é uma tautologia, e lembra que as crises costumam ser preparadas justamente por períodos em que os salários sobem e a classe trabalhadora recebe uma parte maior do produto destinado ao consumo. (Marx, O capital, Livro II, cap. 20, seção IV, § 37)
Rosa Luxemburgo combateu, em Reforma ou revolução?, a tese de Bernstein de que o crédito, a melhoria dos meios de comunicação e as organizações patronais permitiriam ao capitalismo se adaptar e escapar das grandes crises. Para ela, o crédito reproduz e agrava as contradições do capitalismo, e a crise geral de 1900, que estourou pouco depois de Bernstein dar por superada a teoria marxista das crises, desmentiu essa ideia. (Luxemburgo, Reforma social ou revolução?, parte I, cap. 2, §§ 1, 4 e 10)
No Brasil
Segundo o IBGE, o PIB brasileiro cresceu 0,5% em 2014, caiu 3,5% em 2015 e caiu 3,3% em 2016. A formação bruta de capital fixo, que mede o investimento em capital fixo, passou de 19,9% do PIB em 2014 para 15,5% em 2016, pela nossa conta com os valores correntes das contas nacionais. (IBGE, Contas nacionais, tabela 6784 do SIDRA, tabela 6784; IBGE, Sistema de Contas Nacionais 2023, tabela sinótica 5, tabela 5)
Grazziotin, Fornari e Marquetti registram que a taxa de acumulação de capital no Brasil oscilou em torno de 3% de 1984 a 2015 e depois caiu a ponto de ficar negativa pela primeira vez na série. Sampaio, Miebach e Morrone estimam que a taxa de lucro caiu 13,02% entre 2010 e 2015 e apontam a compressão dos lucros e a desproporção entre as esferas produtiva e não produtiva como causas possíveis. (Grazziotin e Fornari e Marquetti, Taxa de lucro e acumulação de capital no Brasil, p. 198; Sampaio e Miebach e Morrone, Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil, p. 225)