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Conceitos / Economia política / Demanda e crise

Crise capitalista

Em poucas palavras

Crise capitalista é a interrupção periódica da produção e da venda, em que mercadorias encalham, empresas quebram e o desemprego sobe, mesmo com necessidades sem atender. Para Marx, ela nasce das contradições da acumulação, porque o capital produz para o lucro e esbarra nos limites do consumo e na queda da taxa de lucro. Os marxistas divergem sobre qual dessas causas pesa mais.

Eixo e tema
Economia política · Demanda e crise
Obra principal
O capital: crítica da economia política. Livro III: o processo global da produção capitalista, de Karl Marx

Explicação

Crises de abundância

No Manifesto Comunista, de 1848, Marx e Engels descrevem as crises comerciais periódicas, que destroem uma grande parte dos produtos e das forças produtivas já criadas. Eles chamam o fenômeno de epidemia da superprodução, uma crise em que a sociedade parece voltar à barbárie porque possui demasiados meios de vida e demasiada indústria. Para os dois, a história da indústria e do comércio era então a história da revolta das forças produtivas modernas contra as relações de produção burguesas. (Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista, cap. 1, § 27)

No livro III de O capital, Marx explica que as crises são soluções momentâneas e violentas das contradições existentes, erupções que restabelecem por um tempo o equilíbrio perturbado. Ele afirma que a verdadeira barreira da produção capitalista é o próprio capital, porque o capital e a sua valorização são o ponto de partida e o ponto de chegada dessa produção. (Marx, O capital, Livro III, cap. 15, seção II, §§ 10 e 15)

Produzir e vender

Marx distingue dois momentos. Primeiro o capital extrai a mais-valia na produção, e depois precisa vender todas as mercadorias para realizar essa mais-valia como lucro, e se não vende, ou vende abaixo do preço de produção, o trabalhador foi explorado, mas o capitalista não realiza o lucro e pode até perder capital. As condições da exploração e as da venda são diferentes, e a venda é limitada pela proporção entre os ramos e pela capacidade de consumo da sociedade, que a distribuição desigual reduz a um mínimo para a maioria. (Marx, O capital, Livro III, cap. 15, seção I, § 8)

Marx diz que a superprodução de capital é o mesmo que sobreacumulação de capital, e que ela seria absoluta no ponto em que o capital adicional já não gerasse mais lucro do que o capital antigo gerava sozinho. Nessa situação a taxa de lucro cai de forma brusca, a concorrência entre os capitalistas se acirra e parte do capital fica parada ou é destruída. Ao lado do capital em excesso cresce uma sobrepopulação de trabalhadores sem emprego, e Marx observa que as duas coisas não se contradizem. (Marx, O capital, Livro III, cap. 15, seção III, §§ 2, 3, 5 e 15)

O debate entre marxistas

O economista Francisco Paulo Cipolla organiza as teorias marxistas da crise em quatro linhagens, cada uma apoiada numa parte da obra de Marx. A do subconsumo parte dos escritos anteriores a O capital, a da desproporção entre os ramos parte dos esquemas de reprodução do livro II, e as outras duas explicam a crise pela queda da taxa de lucro, causada pelo aumento dos salários ou pelo aumento da composição orgânica do capital. (Cipolla, Genealogia das teorias marxistas de crise, p. 82)

O próprio Marx criticou a explicação que põe a culpa apenas no pouco consumo dos trabalhadores. Ele escreve que dizer que as crises vêm da falta de consumidores com dinheiro é uma tautologia, e lembra que as crises costumam ser preparadas justamente por períodos em que os salários sobem e a classe trabalhadora recebe uma parte maior do produto destinado ao consumo. (Marx, O capital, Livro II, cap. 20, seção IV, § 37)

Rosa Luxemburgo combateu, em Reforma ou revolução?, a tese de Bernstein de que o crédito, a melhoria dos meios de comunicação e as organizações patronais permitiriam ao capitalismo se adaptar e escapar das grandes crises. Para ela, o crédito reproduz e agrava as contradições do capitalismo, e a crise geral de 1900, que estourou pouco depois de Bernstein dar por superada a teoria marxista das crises, desmentiu essa ideia. (Luxemburgo, Reforma social ou revolução?, parte I, cap. 2, §§ 1, 4 e 10)

No Brasil

Segundo o IBGE, o PIB brasileiro cresceu 0,5% em 2014, caiu 3,5% em 2015 e caiu 3,3% em 2016. A formação bruta de capital fixo, que mede o investimento em capital fixo, passou de 19,9% do PIB em 2014 para 15,5% em 2016, pela nossa conta com os valores correntes das contas nacionais. (IBGE, Contas nacionais, tabela 6784 do SIDRA, tabela 6784; IBGE, Sistema de Contas Nacionais 2023, tabela sinótica 5, tabela 5)

Grazziotin, Fornari e Marquetti registram que a taxa de acumulação de capital no Brasil oscilou em torno de 3% de 1984 a 2015 e depois caiu a ponto de ficar negativa pela primeira vez na série. Sampaio, Miebach e Morrone estimam que a taxa de lucro caiu 13,02% entre 2010 e 2015 e apontam a compressão dos lucros e a desproporção entre as esferas produtiva e não produtiva como causas possíveis. (Grazziotin e Fornari e Marquetti, Taxa de lucro e acumulação de capital no Brasil, p. 198; Sampaio e Miebach e Morrone, Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil, p. 225)

No Brasil

Crise capitalista no Brasil

O PIB caiu 3,5% em 2015 e 3,3% em 2016, segundo o IBGE. Para Grazziotin, Fornari e Marquetti, a taxa de acumulação de capital, que oscilava em torno de 3% desde 1984, ficou negativa pela primeira vez na série depois de 2015. (IBGE, Contas nacionais, tabela 6784 do SIDRA, tabela 6784, variável 9810; Grazziotin e Fornari e Marquetti, Taxa de lucro e acumulação de capital no Brasil, p. 198)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (18)
  • Interpretação · Karl MarxA verdadeira barreira da produção capitalista é o próprio capital; o capital e a sua autovalorização aparecem como ponto de partida e de chegada, motivo e finalidade da produção.Marx, O capital, Livro III, cap. 15, seção II, § 15
  • Interpretação · Francisco Paulo CipollaAs teorias marxistas de crise se classificam em subconsumista, apoiada em escritos de Marx anteriores a O capital; da desproporcionalidade, apoiada nos esquemas de reprodução do livro II; da queda da taxa de lucro pelo aumento dos salários; e da queda da taxa de lucro pelo aumento da composição orgânica do capital.Cipolla, Genealogia das teorias marxistas de crise, p. 82, quadro 1
  • Interpretação · Karl MarxA desvalorização do capital antigo não se daria sem luta; a queda da taxa de lucro e a superprodução de capital desencadeiam a luta concorrencial, em que parte do capital fica ociosa.Marx, O capital, Livro III, cap. 15, seção III, § 5
  • Interpretação · Karl MarxAs condições da exploração direta e as da sua realização não são idênticas; as segundas são limitadas pela proporção entre os ramos de produção e pelo poder de consumo da sociedade, baseado em condições antagônicas de distribuição que reduzem o consumo da maioria a um mínimo.Marx, O capital, Livro III, cap. 15, seção I, § 8
  • Interpretação · Henrique de Abreu Grazziotin, Ana Paula Fornari e Adalmir Antonio MarquettiA taxa de acumulação de capital passa a oscilar em torno de 3% a partir de 1984 até 2015, quando cai significativamente e atinge pela primeira vez na série patamares negativos.Grazziotin e Fornari e Marquetti, Taxa de lucro e acumulação de capital no Brasil, p. 198
  • FatoA formação bruta de capital fixo foi de R$ 1.148,5 bilhões em 2014, com PIB de R$ 5.779,0 bilhões, e de R$ 973,3 bilhões em 2016, com PIB de R$ 6.269,3 bilhões, a valores correntes; as proporções de 19,9% e 15,5% são cálculo nosso.IBGE, Sistema de Contas Nacionais 2023, tabela sinótica 5, tabela 5, ótica da despesa
  • FatoO PIB variou em volume 0,5% em 2014, -3,5% em 2015, -3,3% em 2016 e 1,3% em 2017.IBGE, Contas nacionais, tabela 6784 do SIDRA, tabela 6784, variável 9810
  • Interpretação · Rosa LuxemburgoMal Bernstein arrumou, em 1898, a teoria marxista das crises entre as ideias antigas, rebentou uma violenta crise geral em 1900, e sete anos depois uma nova crise atingiu o mercado mundial; o ciclo de dez anos era para Marx e Engels uma constatação de fatos ligados a circunstâncias históricas determinadas.Luxemburgo, Reforma social ou revolução?, parte I, cap. 2, § 10
  • Interpretação · Rosa LuxemburgoOs meios de adaptação da economia capitalista apontados por Bernstein são o crédito, a melhoria dos meios de comunicação e as organizações patronais.Luxemburgo, Reforma social ou revolução?, parte I, cap. 2, § 1
  • Interpretação · Rosa LuxemburgoO crédito só consegue reproduzir as contradições do capitalismo, agudiza-as e acelera a produção que o precipitará no desmoronamento; não é um meio de adaptação, mas um fator de destruição.Luxemburgo, Reforma social ou revolução?, parte I, cap. 2, § 4
  • Interpretação · Karl Marx e Friedrich EngelsAs crises comerciais, na sua recorrência periódica, põem em questão a existência da sociedade burguesa; nelas é aniquilada uma grande parte dos produtos fabricados e das forças produtivas já criadas, numa epidemia da sobreprodução.Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista, cap. 1, § 27
  • Interpretação · Karl Marx e Friedrich EngelsNa crise, a sociedade vê-se retransportada a um estado de momentânea barbárie porque possui demasiada civilização, demasiados meios de vida, demasiada indústria e demasiado comércio; a história da indústria e do comércio é a da revolta das forças produtivas modernas contra as relações de produção.Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista, cap. 1, § 27
  • Interpretação · Karl MarxProduzida a mais-valia, toda a massa de mercadorias precisa ser vendida; se não for, ou for vendida abaixo do preço de produção, o trabalhador foi explorado, mas a exploração não se realiza para o capitalista, que pode até perder o capital.Marx, O capital, Livro III, cap. 15, seção I, § 8
  • Interpretação · Pedro Henrique Feliciano Dias Sampaio, Alessandro Donadio Miebach e Henrique MorroneEntre 2010 e 2015, a taxa de lucro em termos clássico-marxianos caiu 13,02%, o que pode estar ligado à compressão de lucros ou à desproporcionalidade entre as esferas produtiva e não produtiva da economia.Sampaio e Miebach e Morrone, Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil, p. 225
  • Interpretação · Karl MarxA superprodução de capital, e não de mercadorias isoladas, é simplesmente sobreacumulação de capital; ela seria absoluta quando o capital adicional produzisse tanta ou menos mais-valia do que antes do seu aumento, com uma queda brusca da taxa geral de lucro.Marx, O capital, Livro III, cap. 15, seção III, §§ 2 e 3
  • Interpretação · Karl MarxNão é contradição que a superprodução de capital seja acompanhada por uma sobrepopulação relativa considerável; abaixo de certo grau de exploração surgem perturbações, paralisações, crises e destruição de capital.Marx, O capital, Livro III, cap. 15, seção III, § 15
  • Interpretação · Karl MarxAs crises são sempre soluções momentâneas e violentas das contradições existentes, erupções violentas que restabelecem por um tempo o equilíbrio perturbado.Marx, O capital, Livro III, cap. 15, seção II, § 10
  • Interpretação · Karl MarxÉ pura tautologia dizer que as crises são causadas pela escassez de consumo ou de consumidores solventes; as crises são sempre preparadas por um período em que os salários sobem e a classe trabalhadora recebe uma parte maior do produto anual destinado ao consumo.Marx, O capital, Livro II, cap. 20, seção IV, § 37

Fontes desta página

  1. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Trad. José Barata-Moura. Lisboa: Editorial Avante!, 1997. Abrir ↗
  2. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro III: o processo global da produção capitalista. 1894. Abrir ↗
  3. CIPOLLA, Francisco Paulo. Genealogia das teorias marxistas de crise. Belo Horizonte: Nova Economia (UFMG), v. 28, n. 1, pp. 71-101, 2018. Abrir ↗
  4. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro II: o processo de circulação do capital. Trad. I. Lasker. Moscou: Progress Publishers, 1956. Abrir ↗
  5. LUXEMBURGO, Rosa. Reforma social ou revolução? Trad. Manuel Augusto Araújo. Editorial Estampa (Clássicos de Bolso), 1970. Abrir ↗
  6. IBGE. Contas nacionais, tabela 6784 do SIDRA: PIB, variação em volume, 2013 a 2017. apisidra.ibge.gov.br. Abrir ↗
  7. IBGE. Sistema de Contas Nacionais 2023, tabela sinótica 5: componentes do PIB sob as três óticas, 2000-2023 (planilha). ftp.ibge.gov.br, 06/11/2025. Abrir ↗
  8. GRAZZIOTIN, Henrique de Abreu; FORNARI, Ana Paula; MARQUETTI, Adalmir Antonio. Taxa de lucro e acumulação de capital no Brasil: concepções teóricas, análise histórica e relação de causalidade. Uberlândia: Revista Economia Ensaios (UFU), v. 37, n. esp., pp. 176-208, 2022. Abrir ↗
  9. SAMPAIO, Pedro Henrique Feliciano Dias; MIEBACH, Alessandro Donadio; MORRONE, Henrique. Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil: uma análise clássico-marxiana, 2010-2015. Uberlândia: Revista Economia Ensaios (UFU), v. 37, n. esp., pp. 209-231, 2022. Abrir ↗
  10. Karl Marx. Capital, Volume Three, Chapter 15. Exposition of the Internal Contradictions of the Law, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  11. Francisco Paulo Cipolla. Genealogia das teorias marxistas de crise (Nova Economia, 2018), cópia do Redalyc. redalyc.org. Abrir ↗
  12. Henrique de Abreu Grazziotin, Ana Paula Fornari e Adalmir Antonio Marquetti. Taxa de lucro e acumulação de capital no Brasil: concepções teóricas, análise histórica e relação de causalidade (Revista Economia Ensaios, 2022). seer.ufu.br, 31/01/2022. Abrir ↗
  13. Rosa Luxemburgo. Reforma ou revolução?, parte I, caps. 1 a 3, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  14. Karl Marx e Friedrich Engels. Manifesto do Partido Comunista, cap. 1. Burgueses e proletários, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  15. Pedro Henrique Feliciano Dias Sampaio, Alessandro Donadio Miebach e Henrique Morrone. Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil: uma análise clássico-marxiana, 2010-2015 (Revista Economia Ensaios, 2022). seer.ufu.br, 31/01/2022. Abrir ↗
  16. Karl Marx. Capital, Volume Two, Chapter 20. Simple Reproduction (part 1 of 4), no MIA. marxists.org. Abrir ↗