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Conceitos / Economia política / Trabalho e exploração

Exército de reserva

Em poucas palavras

O exército industrial de reserva é a parte da classe trabalhadora sem emprego ou com trabalho irregular que fica à disposição do capital. Marx mostra que a própria acumulação o produz, porque o capital gasta cada vez mais em máquinas e proporcionalmente menos em salários. A concorrência dos desempregados segura os salários e impõe disciplina a quem está empregado.

Eixo e tema
Economia política · Trabalho e exploração
Obra principal
O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital, de Karl Marx

Explicação

De onde vem a reserva

Quando o capital se acumula, ele não cresce por igual em todas as suas partes. Marx mostra que, com o avanço da técnica, a parte gasta em máquinas e matérias-primas, o capital constante, cresce mais depressa do que a parte gasta em salários, o capital variável, e é esta última que decide quantos trabalhadores são contratados. Por isso a procura de trabalho cai em relação ao tamanho do capital, e a acumulação produz uma população operária excessiva para as necessidades médias de valorização do capital, isto é, para a produção de lucro. (Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 3, § 2)

Marx chama esse excesso de sobrepopulação relativa, porque ele existe em relação às necessidades do capital. A produção capitalista precisa de um exército industrial de reserva independente das barreiras do crescimento natural da população, uma massa de gente disponível que o capital chama quando abre um ramo novo ou acelera a produção. Nas palavras de Marx, essa reserva pertence ao capital tão absolutamente como se ele a tivesse criado à sua própria custa. (Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 3, §§ 4 e 11)

O ciclo e os salários

O exército de reserva cresce e encolhe com o ciclo industrial, que no tempo de Marx durava cerca de dez anos e passava por fases de atividade moderada, produção acelerada, crise e estagnação. Marx afirma que, grosso modo, os movimentos gerais do salário são regulados pela expansão e pela contração desse exército. Nas fases de estagnação e de prosperidade média, a reserva pressiona os empregados, e no auge da produção ela freia as suas exigências. (Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 3, §§ 4, 17 e 20)

O mesmo mecanismo age dentro do emprego. O trabalho a mais de quem está empregado engrossa a reserva, e a concorrência dos desempregados obriga os empregados a trabalhar mais e a se submeter às ordens do capital. (Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 3, § 16)

O economista polonês Michał Kalecki, próximo da tradição marxista, tratou do desemprego pelo lado da disciplina, num artigo de 1943. Para ele, num regime de pleno emprego permanente a demissão perderia o seu papel de medida disciplinar, e a autoconfiança e a consciência de classe dos trabalhadores aumentariam. Kalecki escreve que os líderes empresariais apreciam mais a disciplina nas fábricas e a estabilidade política do que os lucros, e que o desemprego é parte integrante do sistema capitalista normal. (Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 16)

As formas da reserva

Marx descreve três formas permanentes da sobrepopulação relativa. A flutuante é formada pelos trabalhadores ora demitidos, ora recontratados nos centros da indústria; a latente é a população do campo que espera a chance de passar para a cidade; a estagnada é a parte do exército ativo com ocupação irregular, que vive com o máximo de jornada e o mínimo de salário. No fundo de tudo está o pauperismo, que Marx chama de lar de inválidos do exército ativo e peso morto do exército de reserva. (Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 4, §§ 1, 2, 6, 7 e 8)

Daí vem o que Marx chama de lei geral absoluta da acumulação capitalista. Quanto maiores a riqueza social e o capital em funcionamento, maior o exército industrial de reserva e maior o pauperismo oficial, e Marx acrescenta que essa lei é modificada na prática por muitas circunstâncias. Lênin resume a ideia dizendo que a acumulação cria num polo a riqueza e no outro a miséria e dá nascimento ao exército de reserva do trabalho. (Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 4, § 9; Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção A mais-valia, 8º parágrafo)

No Brasil

Francisco de Oliveira argumentou, em 1972, que a legislação trabalhista da industrialização posterior a 1930 ajudou a transformar em exército de reserva a população que chegava às cidades. Para ele, essa legislação igualou pela base o preço da força de trabalho e, em vez de prejudicar a acumulação industrial, a beneficiou, enquanto a agricultura fornecia os contingentes que formaram o exército de reserva urbano. (Oliveira, A economia brasileira, pp. 12, 13 e 19)

Os economistas Nelson Granato Neto e Claus Germer classificaram os dados da PNAD, a pesquisa domiciliar do IBGE, nas categorias de Marx. Eles contaram os desocupados como reserva flutuante, os trabalhadores por conta própria e os não remunerados como reserva estagnada, e os trabalhadores domésticos e a população não economicamente ativa, entre outros, como reserva latente, e avisam que essa última escolha superestima a reserva. Pela conta deles, a reserva caiu de 57,3% para 51,9% da população de 18 a 60 anos entre 2001 e 2009, e o exército ativo subiu de 39,8% para 45,0%, o que atribuem ao aumento da acumulação de capital no período. (Granato Neto e Germer, A evolução recente do mercado de força de trabalho brasileiro sob a perspectiva do conceito de exército industrial de reserva, pp. 172 a 174)

Os desocupados, que Granato Neto e Germer contam como reserva flutuante, oscilaram muito na última década. A taxa de desocupação do IBGE subiu de 6,6% no quarto trimestre de 2014 para 13,9% no primeiro trimestre de 2017, chegou a 14,9% no terceiro trimestre de 2020 e caiu para 5,4% no segundo trimestre de 2026. A taxa composta de subutilização da força de trabalho, uma medida mais ampla do IBGE, foi de 14,9% para 24,1%, chegou a 30,4% e voltou a 12,9% nos mesmos trimestres. (Granato Neto e Germer, A evolução recente do mercado de força de trabalho brasileiro sob a perspectiva do conceito de exército industrial de reserva, p. 173; IBGE, PNAD Contínua, tabela 4099 do SIDRA, tabela 4099)

No Brasil

Exército de reserva no Brasil

A taxa de desocupação medida pelo IBGE subiu de 6,6% no quarto trimestre de 2014 para 13,9% no primeiro trimestre de 2017, chegou a 14,9% no terceiro trimestre de 2020 e caiu para 5,4% no segundo trimestre de 2026. No conceito de Marx, movimentos assim correspondem à expansão e à contração da reserva com as fases do ciclo industrial. (IBGE, PNAD Contínua, tabela 4099 do SIDRA, tabela 4099, variável 4099 (taxa de desocupação); Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 3, § 17)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Onde ler: Livro I, cap. 23, seção 3; Livro I, cap. 23, seção 4.

    “Ela forma um exército industrial de reserva disponível, que pertence ao capital tão absolutamente como se ele o tivesse feito crescer à sua própria custa. Ela cria, independentemente das barreiras ao aumento real da população, o material humano explorável, sempre pronto, para as variáveis necessidades de valorização do capital.”

    Livro I, cap. 23, seção 3, § 4

    Ler grátis: O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital ↗Ficha da obra: O capital, livro I

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (23)

Fontes desta página

  1. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Abrir ↗
  2. KALECKI, Michał. Aspectos políticos do pleno emprego. 1943. Abrir ↗
  3. LÊNIN, Vladímir Ilitch. Karl Marx (breve esboço biográfico seguido de uma exposição do marxismo). 1915. Abrir ↗
  4. OLIVEIRA, Francisco de. A economia brasileira: crítica à razão dualista. 1972. Abrir ↗
  5. GRANATO NETO, Nelson Nei; GERMER, Claus Magno. A evolução recente do mercado de força de trabalho brasileiro sob a perspectiva do conceito de exército industrial de reserva. São Paulo: Revista Ciências do Trabalho (DIEESE), v. 1, n. 1, pp. 162-181, 2013. Abrir ↗
  6. IBGE. PNAD Contínua, tabela 4099 do SIDRA: taxa de desocupação e taxa composta de subutilização (trimestres selecionados de 2012 a 2026). apisidra.ibge.gov.br. Abrir ↗
  7. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 23, seção 3. Progressiva produção de uma sobrepopulação relativa ou de um exército industrial de reserva (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  8. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 23, seção 4. Diversas formas de existência da sobrepopulação relativa. A lei geral da acumulação capitalista (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  9. Nelson Nei Granato Neto e Claus Magno Germer. A evolução recente do mercado de força de trabalho brasileiro sob a perspectiva do conceito de exército industrial de reserva (Revista Ciências do Trabalho, 2013). rct.dieese.org.br, 25/11/2013. Abrir ↗
  10. Michał Kalecki. Aspectos políticos do pleno emprego (tradução de José Carlos Ruy, do Portal Vermelho), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  11. Vladímir Ilitch Lênin. Figuras do movimento operário: Karl Marx (Problemas, n. 18, 1949), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  12. Francisco de Oliveira. A economia brasileira: crítica à razão dualista (Estudos CEBRAP, n. 2, 1972; PDF da biblioteca virtual do CEBRAP no MIA). marxists.org. Abrir ↗