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Conceitos / Economia política / Trabalho e exploração

Capital constante e capital variável

Em poucas palavras

Capital constante é a parte do capital gasta em meios de produção, como máquinas e matérias-primas, cujo valor passa ao produto sem aumentar. Capital variável é a parte gasta em força de trabalho, que repõe o próprio valor e cria um excedente, a mais-valia. Marx usa essa divisão para mostrar que só o trabalho vivo cria valor novo.

Eixo e tema
Economia política · Trabalho e exploração
Obra principal
O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital, de Karl Marx

Explicação

Duas partes do capital

Quando o capitalista começa a produzir, ele gasta uma parte do capital em meios de produção, como matérias-primas, matérias auxiliares e máquinas, e outra parte em força de trabalho. Marx chama a primeira de capital constante, porque ela não muda a sua grandeza de valor no processo de produção. Chama a segunda de capital variável, porque ela repõe o próprio valor e ainda produz um excedente, a mais-valia, que pode ser maior ou menor. (Marx, O capital, Livro I, cap. 6, §§ 22 e 23)

As duas partes que, do ponto de vista do processo de trabalho, aparecem como meios de produção e força de trabalho, aparecem como capital constante e capital variável do ponto de vista da valorização, a produção de mais-valia. Lênin resume dizendo que o valor do capital constante passa sem se alterar para o produto acabado, de uma só vez ou por partes, e que o valor do capital variável cresce no processo de trabalho, criando a mais-valia. (Marx, O capital, Livro I, cap. 6, § 23; Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção A mais-valia, 2º e 3º parágrafos)

Conservar valor e criar valor

O trabalhador não trabalha duas vezes ao mesmo tempo, uma para criar valor novo e outra para conservar o valor dos meios de produção. Marx explica que o mesmo trabalho faz as duas coisas por causa do seu caráter duplo. Como trabalho concreto, de fiar ou de forjar, ele transfere ao produto o valor do algodão e das máquinas, e como trabalho abstrato, gasto de força humana durante um certo tempo, ele acrescenta valor novo. (Marx, O capital, Livro I, cap. 6, §§ 3 e 5)

Um meio de produção nunca passa ao produto mais valor do que ele mesmo tem. Uma máquina que dura dez anos entrega o seu valor aos produtos aos poucos, ao longo desses dez anos, e por mais útil que seja, não acrescenta valor novo. Marx diz que conservar valor ao acrescentar valor é um dom natural do trabalho vivo, que nada custa ao trabalhador e muito traz ao capitalista. (Marx, O capital, Livro I, cap. 6, §§ 12, 16 e 17)

O que a divisão revela

A divisão entre capital constante e variável é a chave da taxa de mais-valia, que Marx calcula dividindo a mais-valia só pelo capital variável. Para isso, ele põe de lado o capital constante, cujo valor só reaparece no produto, e compara o valor novo com o que foi gasto em salários. (Marx, O capital, Livro I, cap. 7, seção 1, §§ 9 e 15)

A proporção entre as duas partes muda com a técnica. Se uma máquina cara permite que um operário trabalhe cem vezes mais matéria-prima do que antes faziam dez operários, o capital constante cresce muito e o variável cai, mas a diferença de função entre eles continua a mesma. Uma alta no preço do algodão também não transforma o algodão em capital variável, porque o seu valor continua apenas passando ao produto. (Marx, O capital, Livro I, cap. 6, §§ 24 e 26)

Marx chama de composição de valor do capital a proporção entre capital constante e variável, e de composição técnica a proporção entre a massa de meios de produção e a quantidade de trabalho que os põe em movimento. A composição de valor que reflete as mudanças da composição técnica é a composição orgânica do capital. Lênin destaca que o crescimento mais rápido do capital constante em relação ao variável tem importância primordial no desenvolvimento do capitalismo. (Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 1, § 2; Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção A mais-valia, 7º parágrafo)

Uma confusão frequente

O economista Marcelo Dias Carcanholo alerta que muitos autores confundem a divisão entre capital constante e variável com a divisão entre capital fixo e circulante, e cita o historiador Fernand Braudel como exemplo. No livro I de O capital, o critério é a formação do valor, e o capital constante transfere o seu valor enquanto o variável gera valor. No livro II, o critério é o ritmo de circulação, e o capital fixo, como as máquinas, cede o seu valor ao longo de vários períodos de produção, enquanto o circulante entra inteiro num só período. (Carcanholo, A importância da categoria valor de uso na teoria de Marx, p. 31 e nota 18)

No Brasil

Os pesquisadores Pedro Sampaio, Alessandro Miebach e Henrique Morrone estimaram o capital constante consumido na economia brasileira como a soma do consumo intermediário com a depreciação dos setores produtivos, e o capital variável como as remunerações ligadas à produção nesses setores. Pelos seus cálculos, a preços de 2010, o capital variável foi de R$ 498,8 bilhões em 2010 e de R$ 534,0 bilhões em 2015, e a composição orgânica, o capital constante dividido pelo variável, caiu de 4,73 para 4,46. Os autores concluem que, nesse período, a queda da taxa de lucro não pode ser atribuída a um aumento da composição orgânica. (Sampaio e Miebach e Morrone, Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil, pp. 218, 219, 224 e 225)

No Brasil

Capital constante e capital variável no Brasil

Pelos cálculos de Sampaio, Miebach e Morrone, com dados do IBGE, o capital constante consumido nos setores produtivos do Brasil foi 4,73 vezes o capital variável em 2010 e 4,46 vezes em 2015. (Sampaio e Miebach e Morrone, Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil, pp. 218 e 224, tabela 4)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Onde ler: Livro I, cap. 6; Livro I, cap. 7, seção 1, § 9; Livro I, cap. 23, seção 1, § 2.

    “Portanto, a parte do capital que se converte em meios de produção, i. é, em matéria-prima, matérias auxiliares e meios de trabalho, não modifica a sua magnitude de valor no processo de produção. Chamo-lhe, por isso, parte constante do capital, ou mais resumidamente: capital constante.”

    Livro I, cap. 6, § 22

    Ler grátis: O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital ↗Ficha da obra: O capital, livro I

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (19)
  • Interpretação · Marcelo Dias CarcanholoO capital fixo cede o seu valor ao produto final ao longo de vários processos de produção, e o capital circulante entra por completo na formação do valor num só período; muitos autores confundem essa distinção com a de capital constante e variável, entre eles Braudel; no livro I o critério é a formação do valor e no livro II é a rotação.Carcanholo, A importância da categoria valor de uso na teoria de Marx, p. 31 e nota 18
  • Interpretação · Karl MarxA composição de valor do capital é a proporção em que ele se divide em capital constante e variável; a composição técnica é a proporção entre a massa dos meios de produção e a massa de trabalho para a sua aplicação; a composição de valor determinada pela técnica e que reflete as suas alterações é a composição orgânica.Marx, O capital, Livro I, cap. 23, seção 1, § 2
  • Interpretação · Karl MarxNa sua propriedade abstrata, como dispêndio de força de trabalho humana durante um tempo determinado, o trabalho do fiandeiro acrescenta valor novo; na sua propriedade concreta, como processo de fiação, transfere o valor dos meios de produção para o produto e o conserva.Marx, O capital, Livro I, cap. 6, § 5
  • Interpretação · Karl MarxA parte do capital que se converte em meios de produção, isto é, em matéria-prima, matérias auxiliares e meios de trabalho, não modifica a sua grandeza de valor no processo de produção; Marx a chama de capital constante.Marx, O capital, Livro I, cap. 6, § 22
  • Interpretação · Karl MarxConservar valor ao acrescentar valor é um dom natural do trabalho vivo, que nada custa ao operário e muito traz ao capitalista, a conservação do valor-capital existente.Marx, O capital, Livro I, cap. 6, § 17
  • Interpretação · Karl MarxO operário não trabalha duas vezes no mesmo tempo; pelo simples acréscimo de valor novo ele conserva o valor antigo, e essa bilateralidade do resultado se explica pela bilateralidade do seu trabalho.Marx, O capital, Livro I, cap. 6, § 3
  • Interpretação · Vladímir LêninO capital constante, gasto na compra dos meios de produção, passa o seu valor sem alteração, de uma só vez ou por partes, para o produto acabado; o capital variável, empregado no pagamento da força de trabalho, cresce no processo de trabalho, criando a mais-valia.Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção A mais-valia, 2º e 3º parágrafos
  • Interpretação · Vladímir LêninO crescimento mais rápido do capital constante em relação ao capital variável tem importância primordial no desenvolvimento do capitalismo e na sua transformação em socialismo.Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção A mais-valia, 7º parágrafo
  • Interpretação · Karl MarxUma máquina de fiar que dura dez anos passa o seu valor total para o produto desses dez anos de trabalho.Marx, O capital, Livro I, cap. 6, § 12
  • Interpretação · Karl MarxOs meios de produção nunca podem acrescentar ao produto mais valor do que possuem, independentemente do processo de trabalho em que servem.Marx, O capital, Livro I, cap. 6, § 16
  • Interpretação · Karl MarxAs mesmas partes do capital que, do ponto de vista do processo de trabalho, se distinguem como meios de produção e força de trabalho, do ponto de vista do processo de valorização se distinguem como capital constante e capital variável.Marx, O capital, Livro I, cap. 6, § 23
  • Interpretação · Karl MarxSe um operário com uma máquina cara elabora cem vezes a matéria-prima que antes dez operários elaboravam com utensílios de pouco valor, o capital constante aumenta muito e o variável cai; muda a relação de grandeza entre eles, mas não a diferença entre capital constante e capital variável.Marx, O capital, Livro I, cap. 6, § 26
  • Interpretação · Karl MarxO conceito de capital constante não exclui mudanças no valor das suas partes, como a alta do preço do algodão, que não muda o seu caráter de capital constante.Marx, O capital, Livro I, cap. 6, § 24
  • Interpretação · Pedro Henrique Feliciano Dias Sampaio, Alessandro Donadio Miebach e Henrique MorroneNo método usado, o capital constante é a soma do consumo intermediário e da depreciação dos setores produtivos.Sampaio e Miebach e Morrone, Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil, p. 218
  • Interpretação · Pedro Henrique Feliciano Dias Sampaio, Alessandro Donadio Miebach e Henrique MorroneA queda da taxa de lucro entre 2010 e 2015 não pode ser atribuída diretamente ao aumento da composição orgânica do capital, que recuou 5,60%.Sampaio e Miebach e Morrone, Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil, p. 225
  • Interpretação · Pedro Henrique Feliciano Dias Sampaio, Alessandro Donadio Miebach e Henrique MorroneA preços de 2010, o capital variável foi de R$ 498.841,4 milhões em 2010 e de R$ 533.951 milhões em 2015, e a composição orgânica do capital foi de 4,725124 em 2010 e de 4,460674 em 2015, uma queda de 5,60%.Sampaio e Miebach e Morrone, Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil, p. 224, tabela 4
  • Interpretação · Pedro Henrique Feliciano Dias Sampaio, Alessandro Donadio Miebach e Henrique MorroneO capital variável é estimado pelas remunerações efetivamente ligadas à produção nos setores produtivos.Sampaio e Miebach e Morrone, Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil, p. 219
  • Interpretação · Karl MarxA taxa da mais-valia é a mais-valia dividida pelo capital variável; para calculá-la, põe-se igual a zero o capital constante, cujo valor apenas reaparece no produto, e compara-se o valor novo com o capital variável.Marx, O capital, Livro I, cap. 7, seção 1, §§ 9 e 15
  • Interpretação · Karl MarxA parte do capital convertida em força de trabalho modifica o seu valor no processo de produção, reproduz o seu próprio equivalente e um excedente, a mais-valia, que pode ser maior ou menor; Marx a chama de capital variável.Marx, O capital, Livro I, cap. 6, § 23

Fontes desta página

  1. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Abrir ↗
  2. LÊNIN, Vladímir Ilitch. Karl Marx (breve esboço biográfico seguido de uma exposição do marxismo). 1915. Abrir ↗
  3. CARCANHOLO, Marcelo Dias. A importância da categoria valor de uso na teoria de Marx. São Paulo: Pesquisa & Debate (PUC-SP), v. 9, n. 2 (14), pp. 17-43, 1998. Abrir ↗
  4. SAMPAIO, Pedro Henrique Feliciano Dias; MIEBACH, Alessandro Donadio; MORRONE, Henrique. Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil: uma análise clássico-marxiana, 2010-2015. Uberlândia: Revista Economia Ensaios (UFU), v. 37, n. esp., pp. 209-231, 2022. Abrir ↗
  5. Marcelo Dias Carcanholo. A importância da categoria valor de uso na teoria de Marx (Pesquisa & Debate, 1998). revistas.pucsp.br. Abrir ↗
  6. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 23, seção 1. Procura crescente de força de trabalho com a acumulação (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  7. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 6. Capital constante e capital variável (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  8. Vladímir Ilitch Lênin. Figuras do movimento operário: Karl Marx (Problemas, n. 18, 1949), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  9. Pedro Henrique Feliciano Dias Sampaio, Alessandro Donadio Miebach e Henrique Morrone. Atividades produtivas e não-produtivas no Brasil: uma análise clássico-marxiana, 2010-2015 (Revista Economia Ensaios, 2022). seer.ufu.br, 31/01/2022. Abrir ↗
  10. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 7, seção 1. O grau de exploração da força de trabalho (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗