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Conceitos / Economia política / Finanças e juros

Juros e crédito

Em poucas palavras

O juro é a parte do lucro que o capitalista que produz paga ao dono do dinheiro emprestado, e o lucro sai do trabalho não pago. Marx mostrou que não existe taxa natural de juros e que o crédito acelera a produção, a especulação e as crises. Para Kalecki, a taxa de juros depende da política dos bancos e do banco central.

Eixo e tema
Economia política · Finanças e juros
Obra principal
O capital: crítica da economia política. Livro III: o processo global da produção capitalista, de Karl Marx

Explicação

O dinheiro que vira mercadoria

No livro III de O capital, Marx explica que, no capitalismo, o dinheiro ganha um valor de uso a mais, o de funcionar como capital, isto é, de comprar meios de produção e força de trabalho e render lucro. Quem tem 100 libras tem um capital em potência, e quem as empresta a outro por um ano entrega a ele o poder de produzir lucro com elas. (Marx, O capital, livro III, cap. 21, §§ 2 e 3)

O dono do dinheiro empresta como capital e recebe de volta a soma emprestada mais uma parte do lucro obtido por quem a usou, e essa parte se chama juro. Para Marx, o juro é uma parte do lucro, ou seja, da mais-valia que o capitalista em funcionamento arranca dos trabalhadores, e por isso o lucro é o limite máximo do juro. (Marx, O capital, livro III, cap. 21, § 16; livro III, cap. 22, § 2)

Não existe taxa natural de juros

Marx mostra que a taxa média de juros de um país não pode ser determinada por nenhuma lei. Não existe uma taxa natural de juros, no sentido em que os economistas falam de uma taxa natural de lucro ou de salário. A taxa de mercado depende, a cada momento, da oferta e da procura de capital emprestável, porque o capital que rende juros se torna uma mercadoria de tipo especial e o juro passa a ser o seu preço. (Marx, O capital, livro III, cap. 22, §§ 18, 25 e 26)

O economista polonês Michał Kalecki, próximo da tradição marxista, escreveu em 1943 que a taxa de juros depende da política dos bancos, em particular da do banco central. Se essa política quiser manter os juros num nível dado, consegue mantê-los, por maior que seja o endividamento do governo. (Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 4)

Juro e lucro do empresário

Marx observa que a divisão do lucro entre o juro e o ganho do empresário, que começa como simples partilha entre duas pessoas, acaba vista como uma diferença de natureza. O juro aparece como fruto da propriedade do capital, e o ganho do empresário aparece como fruto do trabalho de dirigir o capital. Essa aparência esconde que o juro é só uma parte da mais-valia que o capitalista ativo arranca dos trabalhadores. (Marx, O capital, livro III, cap. 23, § 13; livro III, cap. 24, § 3)

O papel do crédito

Com as sociedades por ações, diz Marx, o capitalista que dirige a produção vira gerente de capital alheio, e o dono do capital vira um puro capitalista do dinheiro, que recebe o lucro na forma de juro. O crédito dá a quem o obtém o comando sobre o capital de outros e, por meio dele, sobre o trabalho de outros. Marx registra que esse sistema reproduz uma nova aristocracia financeira e uma nova espécie de parasitas, como especuladores e diretores apenas nominais. (Marx, O capital, livro III, cap. 27, §§ 12, 15 e 16)

Para Marx, o crédito acelera o desenvolvimento das forças produtivas e do mercado mundial e, pelo mesmo motivo, acelera as crises, porque força a produção além dos seus limites. Ele aponta duas características do sistema de crédito, a de levar o enriquecimento pela exploração do trabalho alheio à forma mais pura de jogo e fraude e a de servir de passagem para um novo modo de produção. (Marx, O capital, livro III, cap. 27, §§ 20 e 21)

Em O imperialismo, fase superior do capitalismo, Lênin descreveu como os bancos, que começam como intermediários nos pagamentos, se transformam em monopólios que dispõem de quase todo o capital-dinheiro de um país. Para Lênin, um banco que se associa a outros grandes bancos para operações lucrativas, como os empréstimos públicos, deixa de ser intermediário e passa a integrar uma aliança de monopolistas. (Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. 2, §§ 1, 2 e 8)

Juros e parasitismo

Os economistas Reinaldo Carcanholo e Paulo Nakatani lembram que o capital a juros se apropria de parte da mais-valia sem produzi-la, mas não é parasitário enquanto ajuda o capital produtivo a funcionar. Para eles, o capital se torna especulativo e parasitário quando o capital fictício, isto é, o que existe só como direito a rendimentos futuros, ultrapassa o volume que a reprodução do capital industrial suporta. (Carcanholo e Nakatani, O capital especulativo parasitário, pp. 293 e 301)

Os juros no Brasil

A meta da taxa Selic, a taxa básica de juros definida pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central, ficou em 2% ao ano de agosto de 2020 a março de 2021. Ela chegou a 15% ao ano entre junho de 2025 e março de 2026 e estava em 13,75% ao ano em 31 de outubro de 2026. (Banco Central do Brasil, SGS, série 432, mudanças da meta; Banco Central do Brasil, Taxa de juros, meta Selic definida pelo Copom, nome e unidade da série)

Desde a Lei Complementar nº 179, de 2021, o objetivo fundamental do Banco Central é assegurar a estabilidade de preços, e fomentar o pleno emprego aparece como objetivo secundário. A economista Leda Paulani registra que, no começo do governo Lula, em 2003, a Selic chegou a 26,5% ao ano. (Congresso Nacional, Lei Complementar nº 179, de 24 de fevereiro de 2021, art. 1º; Paulani, Quando o medo vence a esperança, p. 12)

Nesta explicação

No Brasil

Juros e crédito no Brasil

A meta da Selic, definida pelo Copom, ficou em 2% ao ano de agosto de 2020 a março de 2021, chegou a 15% ao ano entre junho de 2025 e março de 2026 e estava em 13,75% em 31 de outubro de 2026. (Banco Central do Brasil, SGS, série 432, série 432, datas de mudança da meta; Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 4)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (25)
  • Interpretação · Karl MarxO sistema de crédito aparece como a principal alavanca da superprodução e da superespeculação, e acelera o desenvolvimento das forças produtivas e do mercado mundial, bem como as erupções violentas da contradição, as crises.Marx, O capital, livro III, cap. 27, § 20
  • Interpretação · Karl MarxEmbora o juro seja só uma parte do lucro, isto é, da mais-valia que o capitalista em funcionamento arranca do trabalhador, ele aparece como o produto típico do capital, e o ganho do empresário como acessório.Marx, O capital, livro III, cap. 24, § 3
  • Interpretação · Karl MarxAs sociedades por ações reproduzem uma nova aristocracia financeira e uma nova espécie de parasitas, como promotores, especuladores e diretores apenas nominais.Marx, O capital, livro III, cap. 27, § 15
  • Interpretação · Reinaldo Antônio Carcanholo e Paulo NakataniO capital a juros apropria-se de parte da mais-valia sem produzi-la, mas não é parasitário, porque contribui para que o capital produtivo a produza.Carcanholo e Nakatani, O capital especulativo parasitário, p. 293
  • Interpretação · Reinaldo Antônio Carcanholo e Paulo NakataniO capital especulativo parasitário é o próprio capital fictício quando ultrapassa em volume os limites suportados normalmente pela reprodução do capital industrial.Carcanholo e Nakatani, O capital especulativo parasitário, p. 301
  • Interpretação · Karl MarxO crédito oferece ao capitalista individual o controle sobre o capital e a propriedade de outros e, por meio deles, sobre o trabalho de outros.Marx, O capital, livro III, cap. 27, § 16
  • Interpretação · Karl MarxO sistema de crédito tem duas características, a de desenvolver o enriquecimento pela exploração do trabalho alheio até a forma mais pura e colossal de jogo e fraude e a de constituir a forma de transição para um novo modo de produção.Marx, O capital, livro III, cap. 27, § 21
  • Interpretação · Karl MarxCom as sociedades por ações, o capitalista em funcionamento se transforma em mero gerente de capital alheio, e o proprietário do capital em mero capitalista do dinheiro, que recebe o lucro na forma de juro.Marx, O capital, livro III, cap. 27, § 12
  • Interpretação · Karl MarxO capital emprestado volta ao dono acrescido de uma parte do lucro, e essa parte, que não é o lucro inteiro, é o juro.Marx, O capital, livro III, cap. 21, § 16
  • Interpretação · Michał KaleckiSe o público não absorve os títulos do governo, a taxa de juros depende da política bancária, em particular da do banco central, que pode mantê-la num nível dado por maior que seja o volume de empréstimos do governo.Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 4
  • FatoA Lei Complementar nº 179, de 2021, dá ao Banco Central o objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços e, sem prejuízo dele, os de zelar pela estabilidade do sistema financeiro, suavizar as flutuações da atividade econômica e fomentar o pleno emprego.Congresso Nacional, Lei Complementar nº 179, de 24 de fevereiro de 2021, art. 1º
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninUm banco que se associa a outros grandes bancos para operações volumosas e lucrativas, como os empréstimos públicos, deixa de ser intermediário e passa a ser a aliança de um punhado de monopolistas.Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. 2, § 8
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninA operação inicial dos bancos é a de intermediários nos pagamentos, que convertem o capital-dinheiro inativo em capital que rende lucro e põem os rendimentos em dinheiro à disposição da classe capitalista.Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. 2, § 1
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninÀ medida que as operações bancárias se concentram em poucos estabelecimentos, os bancos deixam de ser modestos intermediários e viram monopolistas que dispõem de quase todo o capital-dinheiro dos capitalistas e pequenos patrões.Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. 2, § 2
  • Interpretação · Karl MarxComo o juro é uma parte do lucro paga pelo capitalista industrial ao capitalista do dinheiro, o limite máximo do juro é o próprio lucro.Marx, O capital, livro III, cap. 22, § 2
  • Interpretação · Karl MarxA taxa de mercado dos juros é decidida a cada momento pela relação entre a oferta de capital emprestável e a procura por ele, tanto mais quanto mais o sistema de crédito se concentra.Marx, O capital, livro III, cap. 22, § 25
  • Interpretação · Karl MarxO capital que rende juros torna-se uma mercadoria sui generis, e o juro torna-se o seu preço, fixado pela oferta e pela procura.Marx, O capital, livro III, cap. 22, § 26
  • Interpretação · Leda Maria PaulaniNo início do governo Lula, em 2003, a taxa Selic atingiu 26,5% ao ano e o superávit primário foi elevado a 4,25% do PIB, acima dos 3,75% exigidos pelo FMI.Paulani, Quando o medo vence a esperança, p. 12
  • Interpretação · Karl MarxQuem possui 100 libras possui um capital em potência, e quem as empresta a outro por um ano para que as use como capital lhe dá o poder de produzir lucro.Marx, O capital, livro III, cap. 21, § 3
  • Interpretação · Karl MarxA divisão do lucro entre juro e ganho do empresário vira divisão qualitativa, em que uma parte aparece como fruto do capital como tal e a outra como fruto das funções exercidas pelo capitalista ativo.Marx, O capital, livro III, cap. 23, § 13
  • FatoA meta da taxa Selic definida pelo Copom foi de 2,00% ao ano de 6 de agosto de 2020 a 17 de março de 2021.Banco Central do Brasil, SGS, série 432, série 432
  • FatoA meta da taxa Selic foi de 15,00% ao ano de 19 de junho de 2025 a 18 de março de 2026 e de 13,75% ao ano a partir de 17 de setembro de 2026, valor ainda em vigor em 31 de outubro de 2026.Banco Central do Brasil, SGS, série 432, série 432
  • FatoA série 432 do Banco Central é a da taxa de juros meta Selic definida pelo Copom, em percentual ao ano.Banco Central do Brasil, Taxa de juros, meta Selic definida pelo Copom, nome e unidade da série
  • Interpretação · Karl MarxA taxa média de juros de um país não pode ser determinada por nenhuma lei, e não existe taxa natural de juros no sentido em que os economistas falam de taxa natural de lucro e de salário.Marx, O capital, livro III, cap. 22, § 18
  • Interpretação · Karl MarxAlém do seu valor de uso como dinheiro, o dinheiro adquire o valor de uso adicional de servir como capital, isto é, de permitir ao capitalista extrair trabalho não pago dos trabalhadores e apropriar-se dele.Marx, O capital, livro III, cap. 21, § 2

Fontes desta página

  1. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro III: o processo global da produção capitalista. 1894. Abrir ↗
  2. KALECKI, Michał. Aspectos políticos do pleno emprego. 1943. Abrir ↗
  3. LÊNIN, Vladímir Ilitch. O imperialismo, fase superior do capitalismo. 1917. Abrir ↗
  4. CARCANHOLO, Reinaldo Antônio; NAKATANI, Paulo. O capital especulativo parasitário: uma precisão teórica sobre o capital financeiro, característico da globalização. Porto Alegre: Ensaios FEE, v. 20, n. 1, pp. 284-304, 1999. Abrir ↗
  5. Banco Central do Brasil. SGS, série 432: taxa de juros, meta Selic definida pelo Copom (% a.a.), 1º/1/2020 a 31/10/2026. api.bcb.gov.br. Abrir ↗
  6. Banco Central do Brasil. Taxa de juros, meta Selic definida pelo Copom: página do conjunto de dados (nome, unidade e fonte da série). dadosabertos.bcb.gov.br. Abrir ↗
  7. Congresso Nacional. Lei Complementar nº 179, de 24 de fevereiro de 2021 (autonomia do Banco Central). planalto.gov.br, 24/02/2021. Abrir ↗
  8. PAULANI, Leda Maria. Quando o medo vence a esperança (um balanço da política econômica do primeiro ano do governo Lula). Crítica Marxista, n. 19, pp. 11-26, 2004. Abrir ↗
  9. Karl Marx. Capital, Volume Three, Chapter 27. The Role of Credit in Capitalist Production, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  10. Karl Marx. Capital, Volume Three, Chapter 24. Externalisation of the Relations of Capital in the Form of Interest-Bearing Capital, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  11. Reinaldo Antônio Carcanholo e Paulo Nakatani. O capital especulativo parasitário: uma precisão teórica sobre o capital financeiro, característico da globalização (Ensaios FEE, 1999). revistas.planejamento.rs.gov.br. Abrir ↗
  12. Karl Marx. Capital, Volume Three, Chapter 21. Interest-Bearing Capital, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  13. Michał Kalecki. Aspectos políticos do pleno emprego (tradução de José Carlos Ruy, do Portal Vermelho), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  14. Vladímir Ilitch Lênin. O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. II. Os bancos e o seu novo papel, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  15. Karl Marx. Capital, Volume Three, Chapter 22. Division of Profit. Rate of Interest. Natural Rate of Interest, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  16. Leda Maria Paulani. Quando o medo vence a esperança (Crítica Marxista, n. 19, 2004). econtents.sbu.unicamp.br. Abrir ↗
  17. Karl Marx. Capital, Volume Three, Chapter 23. Interest and Profit of Enterprise, no MIA. marxists.org. Abrir ↗