Explicação
O dinheiro que vira mercadoria
No livro III de O capital, Marx explica que, no capitalismo, o dinheiro ganha um valor de uso a mais, o de funcionar como capital, isto é, de comprar meios de produção e força de trabalho e render lucro. Quem tem 100 libras tem um capital em potência, e quem as empresta a outro por um ano entrega a ele o poder de produzir lucro com elas. (Marx, O capital, livro III, cap. 21, §§ 2 e 3)
O dono do dinheiro empresta como capital e recebe de volta a soma emprestada mais uma parte do lucro obtido por quem a usou, e essa parte se chama juro. Para Marx, o juro é uma parte do lucro, ou seja, da mais-valia que o capitalista em funcionamento arranca dos trabalhadores, e por isso o lucro é o limite máximo do juro. (Marx, O capital, livro III, cap. 21, § 16; livro III, cap. 22, § 2)
Não existe taxa natural de juros
Marx mostra que a taxa média de juros de um país não pode ser determinada por nenhuma lei. Não existe uma taxa natural de juros, no sentido em que os economistas falam de uma taxa natural de lucro ou de salário. A taxa de mercado depende, a cada momento, da oferta e da procura de capital emprestável, porque o capital que rende juros se torna uma mercadoria de tipo especial e o juro passa a ser o seu preço. (Marx, O capital, livro III, cap. 22, §§ 18, 25 e 26)
O economista polonês Michał Kalecki, próximo da tradição marxista, escreveu em 1943 que a taxa de juros depende da política dos bancos, em particular da do banco central. Se essa política quiser manter os juros num nível dado, consegue mantê-los, por maior que seja o endividamento do governo. (Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 4)
Juro e lucro do empresário
Marx observa que a divisão do lucro entre o juro e o ganho do empresário, que começa como simples partilha entre duas pessoas, acaba vista como uma diferença de natureza. O juro aparece como fruto da propriedade do capital, e o ganho do empresário aparece como fruto do trabalho de dirigir o capital. Essa aparência esconde que o juro é só uma parte da mais-valia que o capitalista ativo arranca dos trabalhadores. (Marx, O capital, livro III, cap. 23, § 13; livro III, cap. 24, § 3)
O papel do crédito
Com as sociedades por ações, diz Marx, o capitalista que dirige a produção vira gerente de capital alheio, e o dono do capital vira um puro capitalista do dinheiro, que recebe o lucro na forma de juro. O crédito dá a quem o obtém o comando sobre o capital de outros e, por meio dele, sobre o trabalho de outros. Marx registra que esse sistema reproduz uma nova aristocracia financeira e uma nova espécie de parasitas, como especuladores e diretores apenas nominais. (Marx, O capital, livro III, cap. 27, §§ 12, 15 e 16)
Para Marx, o crédito acelera o desenvolvimento das forças produtivas e do mercado mundial e, pelo mesmo motivo, acelera as crises, porque força a produção além dos seus limites. Ele aponta duas características do sistema de crédito, a de levar o enriquecimento pela exploração do trabalho alheio à forma mais pura de jogo e fraude e a de servir de passagem para um novo modo de produção. (Marx, O capital, livro III, cap. 27, §§ 20 e 21)
Em O imperialismo, fase superior do capitalismo, Lênin descreveu como os bancos, que começam como intermediários nos pagamentos, se transformam em monopólios que dispõem de quase todo o capital-dinheiro de um país. Para Lênin, um banco que se associa a outros grandes bancos para operações lucrativas, como os empréstimos públicos, deixa de ser intermediário e passa a integrar uma aliança de monopolistas. (Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. 2, §§ 1, 2 e 8)
Juros e parasitismo
Os economistas Reinaldo Carcanholo e Paulo Nakatani lembram que o capital a juros se apropria de parte da mais-valia sem produzi-la, mas não é parasitário enquanto ajuda o capital produtivo a funcionar. Para eles, o capital se torna especulativo e parasitário quando o capital fictício, isto é, o que existe só como direito a rendimentos futuros, ultrapassa o volume que a reprodução do capital industrial suporta. (Carcanholo e Nakatani, O capital especulativo parasitário, pp. 293 e 301)
Os juros no Brasil
A meta da taxa Selic, a taxa básica de juros definida pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central, ficou em 2% ao ano de agosto de 2020 a março de 2021. Ela chegou a 15% ao ano entre junho de 2025 e março de 2026 e estava em 13,75% ao ano em 31 de outubro de 2026. (Banco Central do Brasil, SGS, série 432, mudanças da meta; Banco Central do Brasil, Taxa de juros, meta Selic definida pelo Copom, nome e unidade da série)
Desde a Lei Complementar nº 179, de 2021, o objetivo fundamental do Banco Central é assegurar a estabilidade de preços, e fomentar o pleno emprego aparece como objetivo secundário. A economista Leda Paulani registra que, no começo do governo Lula, em 2003, a Selic chegou a 26,5% ao ano. (Congresso Nacional, Lei Complementar nº 179, de 24 de fevereiro de 2021, art. 1º; Paulani, Quando o medo vence a esperança, p. 12)