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Conceitos / Imperialismo e soberania / Imperialismo

Capital financeiro

Em poucas palavras

Capital financeiro é o capital dos grandes bancos fundido com o capital das indústrias, que passa a ser controlado por uma oligarquia financeira. Hilferding deu o nome em 1910, e Lênin acrescentou que essa fusão nasce da concentração que leva ao monopólio. Lênin fez dele um dos cinco traços do imperialismo.

Eixo e tema
Imperialismo e soberania · Imperialismo
Obra principal
O capital financeiro, de Rudolf Hilferding

Explicação

A fusão de bancos e indústrias

O austríaco Rudolf Hilferding publicou O capital financeiro em 1910. Ele observou que uma parte cada vez maior do capital usado na indústria não pertence aos industriais que o usam, que só dispõem dele por meio dos bancos, enquanto os bancos aplicam uma parte cada vez maior do seu capital na indústria e se tornam, eles mesmos, capitalistas industriais. Hilferding chamou de capital financeiro esse capital bancário, em forma de dinheiro, que se transforma de fato em capital industrial. (Hilferding, O capital financeiro, cap. 14, § 6; Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, introdução, § 1)

Para Hilferding, o capital financeiro se desenvolve junto com a sociedade anônima, a empresa cujo capital se divide em ações, e chega ao auge com a monopolização da indústria. Com a concentração da propriedade, os donos do capital que manda nos bancos e os donos do capital que manda na indústria passam a ser, cada vez mais, as mesmas pessoas. O magnata do capital financeiro concentra cada vez mais, por meio do domínio sobre o capital bancário, o controle sobre todo o capital nacional. (Hilferding, O capital financeiro, cap. 14, §§ 7 e 8)

A correção de Lênin

Lênin considerou o livro de Hilferding uma análise teórica extremamente valiosa da fase mais recente do capitalismo, apesar de um erro sobre a teoria do dinheiro. Ao citar a definição de Hilferding, ele disse que ela é incompleta porque não indica o aumento da concentração da produção e do capital até chegar ao monopólio. Para Lênin, a história e o conteúdo do conceito são a concentração da produção, os monopólios que nascem dela e a fusão dos bancos com a indústria. (Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, introdução, § 1; cap. III, §§ 1 a 3)

Lênin mostrou como essa fusão aparece na prática pela união pessoal, isto é, pela presença de diretores de bancos nos conselhos das empresas industriais e comerciais e vice-versa. Os seis maiores bancos de Berlim, segundo os dados que ele reuniu, tinham representantes em 751 sociedades. Para Lênin, essa união pessoal se completa com a do governo, porque os conselhos recebem antigos funcionários do Estado e membros do Parlamento. (Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. II, §§ 32 e 33)

A oligarquia financeira

Lênin, apoiado no economista alemão Heymann, descreveu o sistema de participação, em que uma empresa controla outra, que controla outras, de modo que pouco capital comanda ramos inteiros da produção. Lênin escreveu que basta ter 40% das ações para dirigir uma sociedade anônima, porque os pequenos acionistas dispersos não têm como ir às assembleias. Por isso, para ele, a venda de ações a muitos pequenos donos, que alguns chamavam de democratização do capital, reforça o poder da oligarquia financeira. (Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. III, §§ 7 a 9)

O caso brasileiro

Em 1964 e 1965, já sob a ditadura, foram aprovadas a reforma bancária, que criou o Conselho Monetário Nacional e transformou a Superintendência da Moeda e do Crédito no Banco Central, e a Lei do Mercado de Capitais. Para Nelson Werneck Sodré, a essência dessas normas estava na separação entre o empresário e o capitalista e, principalmente, na associação do capital industrial e comercial ao bancário, com o capital financeiro como motor do sistema. Ele via na presença do capital financeiro comandado do exterior um dos sinais mais graves da desnacionalização, isto é, da passagem da economia brasileira para o comando estrangeiro. (Congresso Nacional, Lei nº 4.595, de 31 de dezembro de 1964, ementa e art. 8º; Congresso Nacional, Lei nº 4.728, de 14 de julho de 1965, ementa; Sodré, Brasil, pp. 101 e 166)

Armando Boito Jr. leu o Brasil dos anos 2000 de outro modo. Seguindo François Chesnais, ele chama de capital financeiro a fração do capital que se valoriza mantendo a forma de dinheiro, cujo centro no Brasil são os grandes bancos comerciais, e observa que aqui os grandes bancos e os grandes grupos industriais se mantêm relativamente separados. No primeiro trimestre de 2005, segundo dados que ele cita, os cinco maiores bancos do país ficaram com 69% de todo o lucro do sistema bancário. (Boito Jr., A burguesia no governo Lula, pp. 57 e 58)

O nome e os seus usos

Reinaldo Carcanholo e Paulo Nakatani lembram, com David Harvey, que Marx nunca usou a expressão capital financeiro e que Hilferding e Lênin a usaram num sentido concreto, para descrever a unificação do capital produtivo com o capital bancário sob o comando deste último. Para eles, o uso corrente da expressão, para todo capital que ganha com juros e especulação, é teoricamente vazio, e por isso propõem o nome capital especulativo parasitário para o capital fictício, como os títulos da dívida pública, quando ele cresce além do que a produção consegue sustentar. Virgínia Fontes escreve que a união íntima entre industriais e banqueiros, descrita por Hilferding e Lênin, virou na segunda metade do século XX uma concentração da propriedade sob a forma pura de dinheiro, que reúne capitais de qualquer origem. (Carcanholo e Nakatani, O capital especulativo parasitário, pp. 296, 298, 299 e 301; Fontes, O Brasil e o capital-imperialismo, p. 155)

No Brasil

Capital financeiro no Brasil

A reforma bancária de 1964 e a Lei do Mercado de Capitais de 1965 foram lidas por Nelson Werneck Sodré como a associação do capital industrial e comercial ao bancário e a implantação do capital financeiro como motor do sistema. (Congresso Nacional, Lei nº 4.728, de 14 de julho de 1965, ementa; Sodré, Brasil, p. 101)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • HILFERDING, Rudolf. O capital financeiro. 1910. Onde ler: cap. 14.

    “I call bank capital, that is, capital in money form which is actually transformed in this way into industrial capital, finance capital. So far as its owners are concerned, it always retains the money form; it is invested by them in the form of money capital, interest-bearing capital, and can always be withdrawn by them as money capital.”

    cap. 14, § 6

    Ler grátis: O capital financeiro ↗

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (27)
  • FatoNo primeiro trimestre de 2005, os cinco maiores bancos do país responderam por 69% de todo o lucro do sistema bancário, segundo dados citados por Boito a partir da Folha de S.Paulo de 4 de junho de 2005.Boito Jr., A burguesia no governo Lula, p. 58 e nota 9
  • Interpretação · Armando Boito Jr.Seguindo François Chesnais, a forma dominante de capital hoje é o capital financeiro concebido como a fração do capital que se valoriza conservando a forma dinheiro; no Brasil, o seu núcleo são os grandes bancos comerciais, nacionais e estrangeiros, com rede de agências no país.Boito Jr., A burguesia no governo Lula, p. 57
  • Interpretação · Armando Boito Jr.No Brasil, grandes bancos e grandes grupos industriais mantêm-se relativamente separados, e uma particularidade brasileira no quadro da América Latina é a importância dos grandes bancos nacionais.Boito Jr., A burguesia no governo Lula, p. 58
  • Interpretação · Reinaldo Antônio Carcanholo e Paulo NakataniHilferding e Lênin usam a expressão capital financeiro como um conceito concreto e institucional, para descrever o fato histórico da unificação do capital produtivo com o capital bancário, sob a hegemonia deste último.Carcanholo e Nakatani, O capital especulativo parasitário, p. 299
  • Interpretação · Reinaldo Antônio Carcanholo e Paulo NakataniO capital especulativo parasitário é o próprio capital fictício quando ultrapassa em volume os limites suportados normalmente pela reprodução do capital industrial.Carcanholo e Nakatani, O capital especulativo parasitário, p. 301
  • Interpretação · Reinaldo Antônio Carcanholo e Paulo NakataniUma das formas típicas do capital fictício está constituída pelos títulos da dívida pública.Carcanholo e Nakatani, O capital especulativo parasitário, p. 296
  • Interpretação · Reinaldo Antônio Carcanholo e Paulo NakataniO uso da expressão capital financeiro para o capital remunerado por ganhos especulativos e juros é teoricamente vazio, porque se refere a formas indefinidas de capital; segundo Harvey, Marx nunca usou a expressão, que entrou de modo inapropriado numa tradução de O capital para o português.Carcanholo e Nakatani, O capital especulativo parasitário, p. 298
  • Interpretação · Virgínia FontesO que era para Hilferding e Lênin uma união íntima entre grandes industriais e grandes banqueiros tornou-se, na segunda metade do século XX, uma união de capitais de qualquer origem, próxima da concentração do capital sob a pura forma monetária, do capital portador de juros.Fontes, O Brasil e o capital-imperialismo, p. 155
  • Interpretação · Heymann, citado por LêninNo sistema de participação, o dirigente controla a sociedade-mãe, que domina as sociedades-filhas, que dominam as sociedades-netas, e assim, sem um capital muito grande, é possível dominar ramos gigantescos da produção.Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. III, § 7
  • FatoO capital financeiro, de Rudolf Hilferding, foi escrito em 1910; a edição inglesa usada aqui é a de Tom Bottomore (Routledge & Kegan Paul, Londres, 1981).Hilferding, O capital financeiro, ficha da página
  • Interpretação · Rudolf HilferdingUma parte cada vez maior do capital da indústria não pertence aos industriais que o usam, que só dispõem dele por meio dos bancos; os bancos aplicam uma parte cada vez maior do seu capital na indústria e se tornam capitalistas industriais; o capital bancário, em forma de dinheiro, que assim se transforma em capital industrial é o que Hilferding chama de capital financeiro.Hilferding, O capital financeiro, cap. 14, § 6
  • Interpretação · Rudolf HilferdingQuando o capital chega ao seu mais alto grau de desenvolvimento e se torna capital financeiro, o magnata do capital financeiro concentra o controle sobre todo o capital nacional por meio do domínio sobre o capital bancário.Hilferding, O capital financeiro, cap. 14, § 8
  • Interpretação · Rudolf HilferdingO capital financeiro se desenvolve com a sociedade anônima e chega ao auge com a monopolização da indústria; com a concentração da propriedade, os donos do capital fictício que dá poder sobre os bancos e os donos do capital que dá poder sobre a indústria são cada vez mais as mesmas pessoas.Hilferding, O capital financeiro, cap. 14, § 7
  • FatoA Lei nº 4.595, de 31 de dezembro de 1964, dispôs sobre a política e as instituições monetárias, bancárias e creditícias, criou o Conselho Monetário Nacional e transformou a Superintendência da Moeda e do Crédito em autarquia federal com o nome de Banco Central da República do Brasil.Congresso Nacional, Lei nº 4.595, de 31 de dezembro de 1964, ementa e art. 8º
  • FatoA Lei nº 4.728, de 14 de julho de 1965, disciplinou o mercado de capitais e estabeleceu medidas para o seu desenvolvimento.Congresso Nacional, Lei nº 4.728, de 14 de julho de 1965, ementa
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninBasta possuir 40% das ações para dirigir os negócios de uma sociedade anônima, porque os pequenos acionistas dispersos não têm na prática como assistir às assembleias; a chamada democratização da posse das ações é um dos meios de reforçar o poder da oligarquia financeira.Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. III, § 8
  • FatoSegundo os dados de Jeidels reunidos por Lênin, os seis maiores bancos de Berlim estavam representados por diretores em 344 sociedades industriais e por membros dos seus conselhos em outras 407, num total de 751 sociedades.Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. II, § 32
  • FatoLênin cita a definição de Hilferding segundo a qual o capital financeiro é o capital que se encontra à disposição dos bancos e que os industriais utilizam.Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. III, § 1
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninConcentração da produção, monopólios que resultam dela e fusão ou junção dos bancos com a indústria são a história do aparecimento do capital financeiro e aquilo que esse conceito encerra.Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. III, § 3
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninA união pessoal dos bancos com a indústria completa-se com a união pessoal de umas e outras sociedades com o governo, pois os conselhos de administração recebem antigos funcionários do Estado e membros do Parlamento.Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. II, § 33
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninO sistema de participação não só aumenta em proporções gigantescas o poder dos monopolistas, como permite fazer impunemente toda espécie de negócios escuros.Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. III, § 9
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninA definição de Hilferding não é completa porque não indica o aumento da concentração da produção e do capital em grau tão elevado que conduz ao monopólio.Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. III, § 2
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninÉ próprio do capitalismo separar a propriedade do capital da sua aplicação à produção e o rentista, que vive só dos rendimentos do capital-dinheiro, do empresário; o predomínio do capital financeiro implica o predomínio do rentista e da oligarquia financeira.Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. III, § 32
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninDesenvolve-se a união pessoal dos bancos com as maiores empresas industriais e comerciais, pela posse de ações e pela participação dos diretores dos bancos nos conselhos dessas empresas, e vice-versa.Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. II, § 32
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninApesar do erro do autor quanto à teoria do dinheiro e de certa tendência para conciliar o marxismo com o oportunismo, O capital financeiro, de Hilferding, é uma análise teórica extremamente valiosa da fase mais recente do desenvolvimento do capitalismo.Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, introdução, § 1
  • Interpretação · Nelson Werneck SodréA presença do poderoso capital financeiro, comandado do exterior, é um dos sinais mais graves da desnacionalização da economia brasileira.Sodré, Brasil, p. 166
  • Interpretação · Nelson Werneck SodréA essência das normas da reforma bancária, da reforma tributária e da Lei do Mercado de Capitais estava na separação entre o empresário e o capitalista e, principalmente, na associação do capital industrial e comercial ao bancário e no estabelecimento do capital financeiro como elemento motor do sistema.Sodré, Brasil, p. 101

Fontes desta página

  1. HILFERDING, Rudolf. O capital financeiro. 1910. Abrir ↗
  2. LÊNIN, Vladímir Ilitch. O imperialismo, fase superior do capitalismo. 1917. Abrir ↗
  3. Congresso Nacional. Lei nº 4.595, de 31 de dezembro de 1964 (cria o Conselho Monetário Nacional e o Banco Central). planalto.gov.br, 31/12/1964. Abrir ↗
  4. Congresso Nacional. Lei nº 4.728, de 14 de julho de 1965 (mercado de capitais). planalto.gov.br, 14/07/1965. Abrir ↗
  5. SODRÉ, Nelson Werneck. Brasil: radiografia de um modelo. Petrópolis: Vozes, 1974. Abrir ↗
  6. BOITO JR., Armando. A burguesia no governo Lula. Crítica Marxista, n. 21, pp. 52-76, 2005. Abrir ↗
  7. CARCANHOLO, Reinaldo Antônio; NAKATANI, Paulo. O capital especulativo parasitário: uma precisão teórica sobre o capital financeiro, característico da globalização. Porto Alegre: Ensaios FEE, v. 20, n. 1, pp. 284-304, 1999. Abrir ↗
  8. FONTES, Virgínia. O Brasil e o capital-imperialismo: teoria e história. Rio de Janeiro: EPSJV/Fiocruz; Editora UFRJ (Pensamento Crítico, 15), 2010. Abrir ↗
  9. Armando Boito Jr.. A burguesia no governo Lula (Crítica Marxista, n. 21, 2005). econtents.sbu.unicamp.br. Abrir ↗
  10. Reinaldo Antônio Carcanholo e Paulo Nakatani. O capital especulativo parasitário: uma precisão teórica sobre o capital financeiro, característico da globalização (Ensaios FEE, 1999). revistas.planejamento.rs.gov.br. Abrir ↗
  11. Virgínia Fontes. O Brasil e o capital-imperialismo: teoria e história (2. ed., EPSJV/Editora UFRJ, 2010; PDF da EPSJV). epsjv.fiocruz.br. Abrir ↗
  12. Vladímir Ilitch Lênin. O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. III. O capital financeiro e a oligarquia financeira, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  13. Rudolf Hilferding. Finance Capital (índice e ficha da edição de Tom Bottomore, Routledge & Kegan Paul, 1981), no MIA em inglês. marxists.org. Abrir ↗
  14. Rudolf Hilferding. Finance Capital, Chapter 14. The capitalist monopolies and the banks. The transformation of capital into finance capital, no MIA em inglês. marxists.org. Abrir ↗
  15. Vladímir Ilitch Lênin. O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. II. Os bancos e o seu novo papel, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  16. Vladímir Ilitch Lênin. O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. 1. A concentração da produção e os monopólios, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  17. Nelson Werneck Sodré. Brasil: radiografia de um modelo (Vozes, 1974; digitalização da Biblioteca Nacional no MIA). marxists.org. Abrir ↗