Explicação
A tese de Weston
Em junho de 1865, no Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores, Marx respondeu ao cidadão Weston, para quem os capitalistas devolveriam em preços mais altos qualquer aumento de salário arrancado pelos operários. Marx resume a tese de Weston no dogma de que os preços das mercadorias são determinados pelos salários. Ele lembra que os ramos ingleses que pagavam relativamente bem venciam as outras nações pela barateza dos produtos, enquanto a agricultura inglesa, que pagava mal, perdia pela carestia, e conclui que os preços não são governados pelos salários. (Marx, Salário, preço e lucro, índice; cap. 2, § 2; cap. 5, §§ 1 e 2)
O argumento de Weston também anda em círculo. Ele começa dizendo que os salários determinam os preços e termina dizendo que um aumento de salário é inútil, porque os preços sobem junto e os salários se medem pelos preços, e Marx conclui que assim se determina o valor pelo valor sem explicar nada. Por isso Marx reconhece a Ricardo o mérito de ter derrubado, em 1817, o velho erro de que os salários determinam os preços. (Marx, Salário, preço e lucro, cap. 5, §§ 5 e 7)
Para onde vai o aumento
Marx supõe que todo o aumento de salário seja gasto em artigos de primeira necessidade, a hipótese mais favorável a Weston. A procura desses artigos sobe e os seus preços sobem por um tempo, mas os capitalistas que produzem artigos de luxo perdem renda, compram menos e veem os seus próprios preços caírem. O capital e o trabalho migram dos ramos menos lucrativos para os mais lucrativos até a oferta se ajustar, e então os preços voltam ao nível antigo. (Marx, Salário, preço e lucro, cap. 2, §§ 6 a 9)
No fim desse movimento sobra uma baixa geral da taxa de lucro, sem mudança permanente nos preços das mercadorias. Marx dá como prova a Grã-Bretanha de 1849 a 1859, quando os salários agrícolas subiram cerca de 40% e o preço médio do trigo caiu mais de 16%. A conclusão final do texto diz que uma alta geral da taxa de salários acarretaria uma baixa da taxa geral de lucro, mas não afetaria, em linhas gerais, os preços das mercadorias. (Marx, Salário, preço e lucro, cap. 2, §§ 8, 19 e 20; cap. 14, § 19)
Os preços de produção
No livro III de O capital, Marx mostra que, sob a concorrência, cada mercadoria tende a ser vendida pelo preço de produção, que soma o capital gasto e o lucro médio. Lênin resume que os capitais com muito capital constante em relação ao variável dariam lucro abaixo da média, os com pouco dariam lucro acima, e a passagem livre de capitais de um ramo para outro leva todos à taxa média de lucro. (Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção A mais-valia, 13º parágrafo)
No capítulo 11 do livro III, Marx calcula o efeito de uma alta geral de 25% nos salários sobre esses preços. O preço de produção das mercadorias feitas com a composição média do capital não muda, o das feitas com mais trabalho vivo sobe e o das feitas com mais máquinas cai, e a soma de todos os preços de produção continua igual à soma dos valores. Em todos os casos, o lucro cai para a nova taxa média. (Marx, O capital, Livro III, cap. 11, §§ 4, 5 e 6)
Leituras divergentes
O economista polonês Michał Kalecki, próximo da tradição marxista, sustentou uma posição diferente para uma economia em pleno emprego. Para ele, o aumento de salário que resulta do maior poder de barganha dos trabalhadores tende mais a aumentar os preços do que a reduzir os lucros, e por isso prejudica apenas os interesses de quem vive de rendas. (Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 16)
Os economistas Giliad Silva e Eduardo Maldonado Filho reúnem três explicações marxistas da inflação, pelo conflito distributivo, pelo poder dos monopólios e pelo descompasso entre a oferta e a procura de dinheiro de crédito. Na primeira, a inflação aparece quando as reivindicações de capitalistas e trabalhadores somam mais do que a renda disponível, e os autores lembram que ela se inspira na teoria da inflação de custos, que vem de fora do marxismo. Eles criticam essa abordagem por se aproximar do monetarismo e por perder o vínculo com a teoria do valor de Marx. (Silva e Maldonado Filho, Teorias marxistas da inflação, pp. 21, 24, 25, 27 e 28)
No Brasil
A Emenda Constitucional nº 141, de 2026, reduziu a jornada normal para 40 horas semanais e mandou aplicar a redução aos contratos em vigor sem nenhuma redução de salário. Em 1865, Marx tratou a Lei das Dez Horas inglesa, de 1848, como um aumento súbito e obrigatório de salários nos principais ramos da indústria, que os porta-vozes da burguesia anunciavam como o fim da indústria inglesa. (Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 141, de 16 de outubro de 2026, arts. 1º e 2º; Marx, Salário, preço e lucro, cap. 2, § 13)