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Conceitos / Economia política / Capital e concorrência

Preços e custos

Em poucas palavras

O tema trata da relação entre salários, lucros e preços das mercadorias. Marx respondeu em 1865 que uma alta geral dos salários reduz a taxa geral de lucro, mas não muda, em linhas gerais, os preços, que dependem do valor e da concorrência entre capitais. A tese de que os salários determinam os preços vem de fora do marxismo e entra aqui como contraponto.

Eixo e tema
Economia política · Capital e concorrência
Obra principal
Salário, preço e lucro, de Karl Marx

Explicação

A tese de Weston

Em junho de 1865, no Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores, Marx respondeu ao cidadão Weston, para quem os capitalistas devolveriam em preços mais altos qualquer aumento de salário arrancado pelos operários. Marx resume a tese de Weston no dogma de que os preços das mercadorias são determinados pelos salários. Ele lembra que os ramos ingleses que pagavam relativamente bem venciam as outras nações pela barateza dos produtos, enquanto a agricultura inglesa, que pagava mal, perdia pela carestia, e conclui que os preços não são governados pelos salários. (Marx, Salário, preço e lucro, índice; cap. 2, § 2; cap. 5, §§ 1 e 2)

O argumento de Weston também anda em círculo. Ele começa dizendo que os salários determinam os preços e termina dizendo que um aumento de salário é inútil, porque os preços sobem junto e os salários se medem pelos preços, e Marx conclui que assim se determina o valor pelo valor sem explicar nada. Por isso Marx reconhece a Ricardo o mérito de ter derrubado, em 1817, o velho erro de que os salários determinam os preços. (Marx, Salário, preço e lucro, cap. 5, §§ 5 e 7)

Para onde vai o aumento

Marx supõe que todo o aumento de salário seja gasto em artigos de primeira necessidade, a hipótese mais favorável a Weston. A procura desses artigos sobe e os seus preços sobem por um tempo, mas os capitalistas que produzem artigos de luxo perdem renda, compram menos e veem os seus próprios preços caírem. O capital e o trabalho migram dos ramos menos lucrativos para os mais lucrativos até a oferta se ajustar, e então os preços voltam ao nível antigo. (Marx, Salário, preço e lucro, cap. 2, §§ 6 a 9)

No fim desse movimento sobra uma baixa geral da taxa de lucro, sem mudança permanente nos preços das mercadorias. Marx dá como prova a Grã-Bretanha de 1849 a 1859, quando os salários agrícolas subiram cerca de 40% e o preço médio do trigo caiu mais de 16%. A conclusão final do texto diz que uma alta geral da taxa de salários acarretaria uma baixa da taxa geral de lucro, mas não afetaria, em linhas gerais, os preços das mercadorias. (Marx, Salário, preço e lucro, cap. 2, §§ 8, 19 e 20; cap. 14, § 19)

Os preços de produção

No livro III de O capital, Marx mostra que, sob a concorrência, cada mercadoria tende a ser vendida pelo preço de produção, que soma o capital gasto e o lucro médio. Lênin resume que os capitais com muito capital constante em relação ao variável dariam lucro abaixo da média, os com pouco dariam lucro acima, e a passagem livre de capitais de um ramo para outro leva todos à taxa média de lucro. (Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção A mais-valia, 13º parágrafo)

No capítulo 11 do livro III, Marx calcula o efeito de uma alta geral de 25% nos salários sobre esses preços. O preço de produção das mercadorias feitas com a composição média do capital não muda, o das feitas com mais trabalho vivo sobe e o das feitas com mais máquinas cai, e a soma de todos os preços de produção continua igual à soma dos valores. Em todos os casos, o lucro cai para a nova taxa média. (Marx, O capital, Livro III, cap. 11, §§ 4, 5 e 6)

Leituras divergentes

O economista polonês Michał Kalecki, próximo da tradição marxista, sustentou uma posição diferente para uma economia em pleno emprego. Para ele, o aumento de salário que resulta do maior poder de barganha dos trabalhadores tende mais a aumentar os preços do que a reduzir os lucros, e por isso prejudica apenas os interesses de quem vive de rendas. (Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 16)

Os economistas Giliad Silva e Eduardo Maldonado Filho reúnem três explicações marxistas da inflação, pelo conflito distributivo, pelo poder dos monopólios e pelo descompasso entre a oferta e a procura de dinheiro de crédito. Na primeira, a inflação aparece quando as reivindicações de capitalistas e trabalhadores somam mais do que a renda disponível, e os autores lembram que ela se inspira na teoria da inflação de custos, que vem de fora do marxismo. Eles criticam essa abordagem por se aproximar do monetarismo e por perder o vínculo com a teoria do valor de Marx. (Silva e Maldonado Filho, Teorias marxistas da inflação, pp. 21, 24, 25, 27 e 28)

No Brasil

A Emenda Constitucional nº 141, de 2026, reduziu a jornada normal para 40 horas semanais e mandou aplicar a redução aos contratos em vigor sem nenhuma redução de salário. Em 1865, Marx tratou a Lei das Dez Horas inglesa, de 1848, como um aumento súbito e obrigatório de salários nos principais ramos da indústria, que os porta-vozes da burguesia anunciavam como o fim da indústria inglesa. (Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 141, de 16 de outubro de 2026, arts. 1º e 2º; Marx, Salário, preço e lucro, cap. 2, § 13)

No Brasil

Preços e custos no Brasil

A Emenda Constitucional nº 141, de 2026, reduziu a jornada normal para 40 horas semanais sem redução de salário, o que aumenta o salário por hora. Marx tratou a Lei das Dez Horas inglesa, de 1848, como um aumento obrigatório de salários e concluiu que uma alta geral de salários reduz a taxa de lucro sem afetar, em linhas gerais, os preços. (Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 141, de 16 de outubro de 2026, arts. 1º e 2º; Marx, Salário, preço e lucro, cap. 2, § 13; cap. 14, § 19)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • MARX, Karl. Salário, preço e lucro. 1865. Onde ler: caps. 2, 5, 12 e 14.

    “Uma alta geral da taxa de salários acarretaria uma baixa da taxa geral de lucro, mas não afetaria, em linhas gerais, os preços das mercadorias.”

    cap. 14, § 19

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Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (22)
  • Interpretação · Karl MarxPartindo de que o valor do trabalho determina o valor da mercadoria, Weston chega a que o valor da mercadoria determina o valor do trabalho, num círculo vicioso; o dogma de que os salários determinam os preços equivale a dizer que o valor se determina pelo valor.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 5, §§ 5 e 7
  • Interpretação · Karl MarxUma alta geral da taxa de salários acarretaria uma baixa da taxa geral de lucro, mas não afetaria, em linhas gerais, os preços das mercadorias.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 14, § 19
  • Interpretação · Karl MarxA Lei das Dez Horas, de 1848, representou um aumento súbito e obrigatório de salários nos ramos industriais mais importantes da Inglaterra, e os porta-vozes da burguesia diziam que era o dobre de finados da indústria inglesa.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 2, § 13
  • Interpretação · Karl MarxTodos os argumentos de Weston se traduzem no dogma de que os preços das mercadorias são determinados ou regulados pelos salários.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 5, § 1
  • FatoA Emenda Constitucional nº 141, de 16 de outubro de 2026, fixou a duração do trabalho normal em até 8 horas diárias e 40 semanais e determinou que a redução se aplica aos contratos em vigor sem qualquer redução salarial.Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 141, de 16 de outubro de 2026, arts. 1º e 2º
  • Interpretação · Michał KaleckiSob pleno emprego, o aumento dos salários resultante do maior poder de barganha dos trabalhadores tem menos probabilidade de reduzir os lucros do que de aumentar os preços, e afeta negativamente apenas os interesses rentistas.Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 16
  • Interpretação · Karl MarxQuer o preço suba, quer caia, o lucro é o mesmo do capital médio, e a alta do preço não compensa o capitalista da alta dos salários.Marx, O capital, Livro III, cap. 11, § 6
  • Interpretação · Karl MarxSe os salários sobem 25%, o preço de produção das mercadorias de um capital de composição social média não muda, o das mercadorias de capital de composição mais baixa sobe e o das de composição mais alta cai, mas nenhum na mesma proporção da queda do lucro.Marx, O capital, Livro III, cap. 11, § 4
  • Interpretação · Karl MarxA soma dos preços de produção dos produtos de todos os capitais continua igual à soma dos valores produzidos pelo capital total; o aumento de um lado e a diminuição do outro se compensam.Marx, O capital, Livro III, cap. 11, § 5
  • Interpretação · Vladímir LêninO capital de elevada composição orgânica fornece taxa de lucro inferior à média e o de baixa composição, superior; a concorrência e a livre passagem de capitais reduzem ambos à taxa média, e as mercadorias são vendidas pelo preço de produção, que corresponde ao capital despendido mais o lucro médio.Lênin, Karl Marx, A doutrina econômica de Marx, seção A mais-valia, 13º parágrafo
  • Interpretação · Karl MarxO capital e o trabalho se deslocariam dos ramos menos remunerativos para os mais remunerativos até a oferta se ajustar à procura, e os preços voltariam ao antigo nível; a alta geral dos salários só conduziria a uma baixa geral da taxa de lucro, sem alteração permanente nos preços das mercadorias.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 2, § 8
  • Interpretação · Karl MarxOs trabalhadores ingleses relativamente bem pagos vencem as demais nações pela barateza dos seus produtos, e o trabalhador agrícola mal pago é batido pela carestia dos seus; isso prova que os preços das mercadorias não são governados pelos preços do trabalho.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 5, § 2
  • Interpretação · Karl MarxUma alta geral dos salários aumentaria a procura e os preços dos artigos de primeira necessidade, mas os capitalistas que não os produzem teriam a renda diminuída, comprariam menos artigos de luxo e veriam cair os preços das suas mercadorias.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 2, §§ 6 e 7
  • Interpretação · Karl MarxSendo o aumento do poder aquisitivo dos operários igual à diminuição do poder aquisitivo dos capitalistas, a procura global de mercadorias não aumentaria, e apenas mudariam os seus elementos.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 2, § 9
  • Interpretação · Karl MarxRicardo teve o mérito de destruir, com os seus Princípios de 1817, o velho erro de que os salários determinam os preços.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 5, § 7
  • Interpretação · Giliad de Souza Silva e Eduardo Augusto de Lima Maldonado FilhoA teoria da inflação por conflito distributivo inspira-se na teoria do cost-push, a inflação de custos; nela, a inflação surge porque a soma das reivindicações sobre o produto nacional é maior do que a renda real disponível.Silva e Maldonado Filho, Teorias marxistas da inflação, pp. 24 e 25
  • Interpretação · Giliad de Souza Silva e Eduardo Augusto de Lima Maldonado FilhoA abordagem do conflito distributivo tem semelhanças com o monetarismo neoclássico e, como a variação dos preços é determinada pelas reivindicações em torno da renda, afasta-se da teoria do valor-trabalho de Marx.Silva e Maldonado Filho, Teorias marxistas da inflação, pp. 27 e 28
  • Interpretação · Giliad de Souza Silva e Eduardo Augusto de Lima Maldonado FilhoO marxismo construiu as suas explicações da inflação sobretudo em três abordagens, a dos conflitos sobre a distribuição da renda, a do poder crescente dos monopólios e a da discrepância entre oferta e procura de dinheiro de crédito.Silva e Maldonado Filho, Teorias marxistas da inflação, p. 21
  • FatoSalário, preço e lucro é o informe pronunciado por Marx em 20 e 27 de junho de 1865 nas sessões do Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores.Marx, Salário, preço e lucro, índice, origem do texto
  • Interpretação · Karl MarxDe 1849 a 1859, a taxa média dos salários agrícolas na Grã-Bretanha subiu cerca de 40%, e o preço médio do trigo baixou mais de 16%.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 2, §§ 19 e 20
  • Interpretação · Karl MarxComo o capitalista e o operário só podem dividir o valor criado pelo trabalho, quanto mais um recebe, menos obtém o outro; um aumento geral de salários diminuiria a taxa geral de lucro, mas não afetaria os valores.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 12, §§ 1 e 2
  • Interpretação · Karl MarxA argumentação de Weston reduz-se a dizer que, se a classe operária obriga a classe capitalista a pagar-lhe 5 xelins em vez de 4, o capitalista lhe devolverá em mercadorias o valor de 4 xelins em vez de 5, pela alta dos preços.Marx, Salário, preço e lucro, cap. 2, §§ 2 e 4

Fontes desta página

  1. MARX, Karl. Salário, preço e lucro. 1865. Abrir ↗
  2. LÊNIN, Vladímir Ilitch. Karl Marx (breve esboço biográfico seguido de uma exposição do marxismo). 1915. Abrir ↗
  3. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro III: o processo global da produção capitalista. 1894. Abrir ↗
  4. KALECKI, Michał. Aspectos políticos do pleno emprego. 1943. Abrir ↗
  5. SILVA, Giliad de Souza; MALDONADO FILHO, Eduardo Augusto de Lima. Teorias marxistas da inflação: uma revisão crítica. Belo Horizonte: Nova Economia (UFMG), v. 27, n. 2, pp. 21-49, 2017. Abrir ↗
  6. Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Emenda Constitucional nº 141, de 16 de outubro de 2026 (duração do trabalho e repouso semanal). planalto.gov.br, 16/10/2026. Abrir ↗
  7. Karl Marx. Salário, preço e lucro, 5. Salários e preços, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  8. Karl Marx. Salário, preço e lucro, 14. A luta entre o capital e o trabalho e seus resultados, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  9. Karl Marx. Salário, preço e lucro, 2. Produção, salários, lucros, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  10. Michał Kalecki. Aspectos políticos do pleno emprego (tradução de José Carlos Ruy, do Portal Vermelho), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  11. Karl Marx. Capital, Volume Three, Chapter 11. Effects of General Wage Fluctuations on Prices of Production, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  12. Vladímir Ilitch Lênin. Figuras do movimento operário: Karl Marx (Problemas, n. 18, 1949), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  13. Giliad de Souza Silva e Eduardo Augusto de Lima Maldonado Filho. Teorias marxistas da inflação: uma revisão crítica (Nova Economia, 2017). revistas.face.ufmg.br. Abrir ↗
  14. Karl Marx. Salário, preço e lucro (índice e origem do texto), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  15. Karl Marx. Salário, preço e lucro, 12. A relação geral entre os lucros, salários e preços, no MIA. marxists.org. Abrir ↗