Explicação
Senhores e escravizados
Na sociedade escravista, o trabalhador era propriedade do senhor, e Clóvis Moura lembra que no Brasil era legal até rifar um escravo, como se rifava um cavalo ou uma casa. Jacob Gorender estima que o país viveu cerca de 350 anos de escravidão e recebeu 4 milhões dos 10 milhões de africanos escravizados levados à América, 40% do total. Moura trabalha com outra conta, de 8 a 9 milhões de africanos trazidos ao Brasil até o fim do tráfico, em 1850, e avisa que o contrabando torna falhas todas as estimativas. (Moura, Cem anos de abolição do escravismo no Brasil, §§ 7 e 20; Gorender, Liberalismo e escravidão, § 58 da página do MIA)
Gorender chamou esse sistema de escravismo colonial, a união da grande lavoura de exportação, a plantagem, com o trabalho escravo, num modo de produção colonial na própria estrutura, porque dependia do mercado externo. Para ele, a economia brasileira teve esse caráter antes e depois da abertura dos portos, de 1808, até o fim do século XIX. Marx mostrou o outro lado da ligação ao escrever que a escravidão disfarçada dos assalariados na Europa precisava, como pedestal, da escravidão sem disfarce no Novo Mundo. (Gorender, O conceito de modo de produção e a pesquisa histórica, §§ 33 e 34; Gorender, Liberalismo e escravidão, §§ 5 e 6 da página do MIA; Marx, O capital, livro I, cap. 24, seção 6, § 29)
A luta dos escravizados
Para Moura, o escravo não aceitou passivamente o cativeiro, e depois do Haiti o Brasil foi o país com o maior número de revoltas, fugas e outras formas de luta dos próprios escravizados. Ele chama de quilombagem a sucessão de quilombos, as comunidades de escravos fugidos, que durante toda a escravidão desgastou o sistema a partir do seu centro, a produção. Moura vê nesse processo a expressão da luta de classes nas condições específicas do modo de produção escravista. (Moura, Cem anos de abolição do escravismo no Brasil, §§ 11 e 13; Moura, A quilombagem como expressão de protesto radical, §§ 40 e 46)
Em 1958, Moura publicou um estudo sobre a revolta de escravos de 1835 na capital da Bahia, que, segundo uma nota sua, era um capítulo do livro Rebeliões da senzala. Ele mostra que a revolta foi planejada, depois de um período de organização e preparação, e que a repressão do governo prendeu 281 escravizados e libertos. (Moura, A grande insurreição dos escravos baianos, ficha e §§ 2, 4, 27 e 56 da página do MIA)
O medo dos senhores e as leis
Moura escreve que o medo de insurreições acompanhou a classe senhorial durante toda a escravidão. Na primeira fase, a resposta foi uma legislação despótica, que ia da marcação a ferro em brasa ao açoite e à execução de escravos rebeldes. Depois de 1850, com o fim do tráfico africano e a alta do preço do escravo, começou o que ele chama de escravismo tardio, em que os senhores passaram a fazer leis protetoras para conservar a sua mão de obra. (Moura, Cem anos de abolição do escravismo no Brasil, §§ 21, 22, 24 e 26)
A Lei do Ventre Livre, de 1871, declarou livres os filhos de escravas nascidos dali em diante, mas deixou o senhor da mãe escolher entre usar os serviços do menor até os 21 anos ou receber do Estado uma indenização de 600 mil réis quando ele completasse oito. A mesma lei proibiu separar na venda os casais e os filhos menores de 12 anos, e Gorender lembra que essa proteção à família escrava só veio no final do escravismo. (Império do Brasil (Assembleia Geral), Lei nº 2.040, de 28 de setembro de 1871, art. 1º, § 1º, e art. 4º, § 7º; Gorender, Liberalismo e escravidão, § 44 da página do MIA)
Como a escravidão acabou
Gorender contesta a tese de que os fazendeiros do Oeste Paulista preferiam o trabalho livre e mostra que eles quiseram o escravo até a década de 1880. Nessa década, as fugas cresceram sob a influência do abolicionismo, os escravos viraram uma propriedade insegura, e o governo paulista passou a pagar a passagem dos imigrantes europeus, o que Gorender chama de uma espécie de indenização aos cafeicultores. (Gorender, Liberalismo e escravidão, §§ 52 a 55 e 62 da página do MIA)
A Lei Áurea, de 13 de maio de 1888, tem dois artigos, um que declara extinta a escravidão e outro que revoga as disposições em contrário. Para Moura, o Brasil fez a Abolição sem acabar com o latifúndio. Décio Saes explica que o movimento dos escravos de plantação lutava pelo fim imediato do trabalho forçado, por meio de fugas em massa, e não pela divisão das terras. (Império do Brasil (Assembleia Geral), Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888, arts. 1º e 2º; Moura, Cem anos de abolição do escravismo no Brasil, § 29; Saes, Capitalismo e processo político no Brasil, pp. 3 e 4)
O debate entre marxistas
Caio Prado Júnior descreveu a colonização dos trópicos como uma vasta empresa comercial, montada para fornecer açúcar, tabaco, ouro e café ao comércio europeu com mão de obra indígena ou africana. Carlos Nelson Coutinho critica nele a confusão entre relações mercantis e ordem capitalista, que o levou a chamar de burguesia agrária os latifundiários escravocratas. Gorender conta que estudou a escravidão porque não aceitava a tese do partido em que militava, o Partidão, de que o Brasil tinha sido feudal. (Prado Júnior, Formação do Brasil contemporâneo, Sentido da colonização, §§ 23 e 25; Coutinho, Marxismo e "imagem do Brasil" em Florestan Fernandes, § 7; Gorender, Liberalismo e escravidão, § 59 da página do MIA)
Gilberto Freyre, sociólogo de fora do marxismo que entra aqui como contraponto declarado, foi um dos autores que Moura acusa de pintar uma escravidão indulgente e patriarcal, e Gorender critica nele a apologia de uma escravidão adoçada. Moura reconhece que Freyre trocou o conceito de raça pelo de cultura e negou a existência de raças superiores, mas mostra que ele pôs antagonismos culturais no lugar da luta de classes entre senhores e escravos, que movia o escravismo. (Moura, Cem anos de abolição do escravismo no Brasil, §§ 3 e 4 e nota 1; Gorender, Liberalismo e escravidão, § 33 da página do MIA; Moura, Nascimento, paixão e ressurreição de Casa-grande & senzala, § 20 da página do MIA)
Segundo José Carlos Ruy, que apresentou um texto de Moura na revista Princípios, Caio Prado aconselhou Moura, em 1949, a desistir de escrever Rebeliões da senzala, porque via na passividade o traço do comportamento do escravo no Brasil. Para Ruy, Caio Prado endossava com isso o mito da passividade do escravo, um dos mais caros à historiografia tradicional. (Moura, Particularidades do racismo brasileiro, §§ 2 a 4 da página do MIA)
Escravidão e classe trabalhadora
Marx escreveu que, nos Estados Unidos, todo movimento operário independente ficou paralisado enquanto a escravidão desfigurou uma parte da república, porque o trabalho de pele branca não pode se emancipar onde o de pele negra é estigmatizado. Da morte da escravidão, segundo ele, nasceu logo a campanha operária pela jornada de oito horas. (Marx, O capital, livro I, cap. 8, seção 7, § 5)