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Conceitos / Imperialismo e soberania / Imperialismo

Colonialismo

Em poucas palavras

Colonialismo é a dominação direta de um território e do seu povo por uma potência estrangeira, que organiza a colônia para enriquecer a metrópole. Marx mostrou o papel do sistema colonial no nascimento do capitalismo, e Lênin calculou em 1920 que cerca de 70% da humanidade vivia em nações oprimidas. Caio Prado Júnior explicou o Brasil colônia como uma empresa para abastecer o comércio europeu.

Eixo e tema
Imperialismo e soberania · Imperialismo
Obra principal
II Congresso da Internacional Comunista (relatórios de 19 e 26 de julho de 1920), de Vladímir Ilitch Lênin

Explicação

Dominação direta de territórios

Lênin chamava de dependência colonial a situação de um território sob a dependência jurídica e estatal direta de uma potência, e lembrava que ela traz junto relações de dependência financeira e econômica e uma série de guerras contra os povos das colônias. Ele distinguia as colônias das semicolônias, como a Pérsia, a Turquia e a China da época, e dos países que tinham independência política formal mas estavam presos à dependência financeira e diplomática, como a Argentina. (Lênin, II Congresso da Internacional Comunista, relatório de 19 de julho, § 3; Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. VI, § 25)

Para Lênin, a política colonial existiu antes do capitalismo, como em Roma, que se baseava na escravidão. Ele alertava, porém, que comparar a Roma escravista com a Grã-Bretanha sem considerar a diferença entre as duas sociedades leva a banalidades, porque a política colonial do capital financeiro é essencialmente diferente da política colonial das fases anteriores. (Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. VI, § 17)

O sistema colonial e o nascimento do capitalismo

Karl Marx escreveu em O capital que a descoberta de ouro e prata na América, o extermínio, a escravização e o enterramento da população nativa nas minas, o início da conquista e da pilhagem das Índias Orientais e a transformação da África num território de caça de pessoas negras para o comércio marcam a aurora da era capitalista. Marx chamou esses fatos de momentos principais da acumulação original, que usou o poder do Estado para apressar a passagem do feudalismo ao capitalismo. (Marx, O capital, livro I, cap. 24, seção 6, §§ 5 e 6)

Segundo Marx, o sistema colonial amadureceu o comércio e a navegação como numa estufa e garantiu às manufaturas da Europa um mercado de escoamento sob monopólio. O tesouro tomado fora da Europa pela pilhagem, pela escravização e pelo assassínio voltava para a metrópole e ali se transformava em capital. Na época da manufatura, a supremacia comercial dava a predominância industrial, e por isso o sistema colonial teve então um papel preponderante. (Marx, O capital, livro I, cap. 24, seção 6, §§ 14 e 17)

O Brasil colônia

Caio Prado Júnior escreveu em 1942 que as grandes navegações e a colonização da América formam um capítulo da história do comércio europeu, uma imensa empresa comercial em que os europeus chegavam a cada terra como traficantes. Para ele, o Brasil se constituiu para fornecer açúcar e tabaco, depois ouro e diamantes, depois algodão e café ao comércio europeu, e a sociedade e a economia da colônia foram organizadas para esse objetivo externo. O colono europeu vinha para fazer negócio, aplicava o seu capital e recrutava a mão de obra entre os indígenas e os negros africanos trazidos para o trabalho. (Prado Júnior, Formação do Brasil contemporâneo, Sentido da colonização, §§ 9, 23 e 25)

O mundo colonial de 1914

Nos dados que Lênin reuniu, as seis grandes potências tinham em 1914 colônias com 65 milhões de quilômetros quadrados e 523,4 milhões de habitantes, enquanto as próprias metrópoles somavam 16,5 milhões de quilômetros quadrados e 437,2 milhões de habitantes. As colônias de potências menores, como a Bélgica e a Holanda, tinham outros 45,3 milhões de habitantes. (Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. VI, § 14)

Em 1920, Lênin contou que antes da guerra de 1914 havia cerca de 600 milhões de pessoas nas colônias e, somando as semicolônias, perto de mil milhões de pessoas oprimidas pela dependência colonial. No relatório sobre a questão nacional e colonial, ele calculou que cerca de 70% da população da Terra, uns 1.250 milhões de um total de 1.750 milhões, pertencia às nações oprimidas. (Lênin, II Congresso da Internacional Comunista, relatório de 19 de julho, § 3; relatório de 26 de julho, § 3)

Nações opressoras e nações oprimidas

Para Lênin, a ideia mais importante das teses do II Congresso da Internacional Comunista, em 1920, era a distinção entre nações oprimidas e nações opressoras, estas últimas um pequeno número de países com riquezas colossais e grande força militar. Ele opunha essa distinção à II Internacional e à democracia burguesa, e pedia que a questão colonial fosse resolvida a partir dos fatos econômicos concretos, e não de princípios abstratos. (Lênin, II Congresso da Internacional Comunista, relatório de 26 de julho, §§ 2 e 3)

Lênin observou também uma aproximação entre a burguesia dos países exploradores e a das colônias, de modo que muitas vezes a burguesia dos países oprimidos apoia o movimento nacional e, ao mesmo tempo, luta junto com a burguesia imperialista contra os movimentos revolucionários. Por isso, segundo Lênin, os comunistas só deviam apoiar os movimentos de libertação burgueses nas colônias quando eles fossem de fato revolucionários e não impedissem a organização dos camponeses e das massas exploradas. (Lênin, II Congresso da Internacional Comunista, relatório de 26 de julho, § 5)

Colônias e democracia

No prefácio de 1920 ao seu livro sobre o imperialismo, Lênin escreveu que a livre concorrência e a democracia, palavras de ordem com que os capitalistas enganavam operários e camponeses, pertenciam a um passado distante. Para ele, o capitalismo tinha se transformado num sistema universal de subjugação colonial e de estrangulamento financeiro da imensa maioria da população do planeta por um punhado de países avançados. (Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, prefácio às edições francesa e alemã, seção II, § 6)

No Brasil

Colonialismo no Brasil

Caio Prado Júnior escreveu que o Brasil se constituiu para fornecer açúcar, tabaco, ouro, diamantes, algodão e café ao comércio europeu, e que a sociedade e a economia da colônia foram organizadas para esse objetivo externo. (Caio Prado Júnior, Sentido da colonização, § 25; Prado Júnior, Formação do Brasil contemporâneo, Sentido da colonização, § 25)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • LÊNIN, Vladímir Ilitch. II Congresso da Internacional Comunista (relatórios de 19 e 26 de julho de 1920). 1920. Onde ler: relatório de 19 de julho, § 3; relatório da comissão sobre as questões nacional e colonial, 26 de julho, §§ 2, 3 e 5.

    “Em primeiro lugar, qual é a ideia mais importante, fundamental, das nossas teses? É a distinção entre nações oprimidas e opressoras. Nós sublinhamos esta distinção, em oposição à II Internacional e à democracia burguesa.”

    relatório de 26 de julho, § 2

    Ler grátis: II Congresso da Internacional Comunista (relatórios de 19 e 26 de julho de 1920) ↗

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (18)
  • Interpretação · Caio Prado JúniorOs grandes acontecimentos da era dos descobrimentos são um capítulo da história do comércio europeu, incidentes da imensa empresa comercial a que se dedicaram os países da Europa a partir do século XV, e os europeus abordaram cada uma dessas empresas como traficantes.Prado Júnior, Formação do Brasil contemporâneo, Sentido da colonização, § 9
  • Interpretação · Caio Prado JúniorNa essência da nossa formação, o Brasil se constituiu para fornecer açúcar, tabaco e outros gêneros, mais tarde ouro e diamantes, depois algodão e em seguida café para o comércio europeu, e a sociedade e a economia brasileiras se organizaram para esse objetivo exterior; o branco europeu veio para realizar um negócio, aplicou os seus cabedais e recrutou a mão de obra entre indígenas e negros importados.Prado Júnior, Formação do Brasil contemporâneo, Sentido da colonização, § 25
  • Interpretação · Caio Prado JúniorNas colônias tropicais formou-se a empresa do colono branco, que reunia à natureza pródiga em gêneros de grande valor comercial o trabalho recrutado entre indígenas ou negros africanos importados.Prado Júnior, Formação do Brasil contemporâneo, Sentido da colonização, § 23
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninCerca de 70% da população da Terra, uns 1.250 milhões de pessoas num total de 1.750 milhões, pertencia às nações oprimidas, que estavam em dependência colonial direta, eram semicolônias ou ficaram dependentes depois de derrotadas na guerra.Lênin, II Congresso da Internacional Comunista, relatório de 26 de julho, § 3
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninVerificou-se uma aproximação entre a burguesia dos países exploradores e a dos coloniais, e muito frequentemente a burguesia dos países oprimidos, apesar de apoiar os movimentos nacionais, luta junto com a burguesia imperialista contra os movimentos e as classes revolucionárias; por isso os comunistas só devem apoiar os movimentos libertadores burgueses nas colônias quando forem verdadeiramente revolucionários e não impedirem a organização do campesinato e das massas exploradas.Lênin, II Congresso da Internacional Comunista, relatório de 26 de julho, § 5
  • FatoO II Congresso da Internacional Comunista reuniu-se de 19 de julho a 7 de agosto de 1920 e aprovou as teses de Lênin sobre as questões nacional e colonial, discutidas na comissão a partir de 25 de julho e apresentadas ao plenário em 26 de julho.Lênin, II Congresso da Internacional Comunista, notas N198 e N204 da edição
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninAlém da dependência jurídica estatal direta, a dependência colonial pressupõe toda uma série de relações de dependência financeira e econômica e toda uma série de guerras contra os habitantes dos países coloniais.Lênin, II Congresso da Internacional Comunista, relatório de 19 de julho, § 3
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninA ideia mais importante e fundamental das teses sobre as questões nacional e colonial é a distinção entre nações oprimidas e opressoras, sublinhada em oposição à II Internacional e à democracia burguesa, partindo dos fatos econômicos concretos e não de postulados abstratos.Lênin, II Congresso da Internacional Comunista, relatório de 26 de julho, § 2
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninO capital financeiro gera formas transitórias de dependência estatal; ao lado dos países que possuem colônias e das colônias, há semicolônias e países formalmente independentes presos à dependência financeira e diplomática, como a Argentina.Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. VI, § 25
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninHá quarenta anos, a população das colônias era de pouco mais de 250 milhões de habitantes; antes da guerra de 1914 havia cerca de 600 milhões nas colônias e, somando semicolônias como a Pérsia, a Turquia e a China, cerca de mil milhões de pessoas oprimidas pela dependência colonial.Lênin, II Congresso da Internacional Comunista, relatório de 19 de julho, § 3
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninO traço característico do imperialismo é que todo o mundo se divide num grande número de nações oprimidas e num número insignificante de nações opressoras, que dispõem de riquezas colossais e de uma poderosa força militar.Lênin, II Congresso da Internacional Comunista, relatório de 26 de julho, § 3
  • FatoEm 1914, as colônias das seis grandes potências somavam 65 milhões de quilômetros quadrados e 523,4 milhões de habitantes, e as metrópoles 16,5 milhões de quilômetros quadrados e 437,2 milhões de habitantes; as colônias de outras potências, como a Bélgica e a Holanda, tinham 45,3 milhões de habitantes.Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. VI, § 14 (quadro das possessões coloniais)
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninA política colonial e o imperialismo existiam antes do capitalismo, como em Roma, baseada na escravatura; as considerações gerais que esquecem as diferenças entre formações econômico-sociais degeneram em trivialidades, e a política colonial do capital financeiro é essencialmente diferente das anteriores.Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. VI, § 17
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninA livre concorrência e a democracia, palavras de ordem com que os capitalistas enganam operários e camponeses, pertencem a um passado distante; o capitalismo transformou-se num sistema universal de subjugação colonial e de estrangulamento financeiro da imensa maioria da população do planeta por um punhado de países avançados.Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, prefácio às edições francesa e alemã, seção II, § 6
  • Interpretação · Karl MarxA descoberta de terras de ouro e prata na América, o extermínio, a escravização e o enterramento da população nativa nas minas, o início da conquista e pilhagem das Índias Orientais e a transformação da África num território de caça comercial de pessoas negras assinalam a aurora da era da produção capitalista e são momentos principais da acumulação original.Marx, O capital, livro I, cap. 24, seção 6, § 5
  • Interpretação · Karl MarxOs diversos momentos da acumulação original reuniram-se na Inglaterra, no fim do século XVII, no sistema colonial, no sistema da dívida do Estado, no sistema moderno de impostos e no sistema protecionista, que utilizam o poder do Estado para acelerar a transformação do modo de produção feudal em capitalista.Marx, O capital, livro I, cap. 24, seção 6, § 6
  • Interpretação · Karl MarxO sistema colonial amadureceu o comércio e a navegação como numa estufa; as colônias asseguraram às manufaturas um mercado de escoamento e, pelo monopólio do mercado, uma acumulação potenciada; o tesouro capturado fora da Europa por pilhagem, escravização e assassínio refluiu para a metrópole e transformou-se ali em capital.Marx, O capital, livro I, cap. 24, seção 6, § 14
  • Interpretação · Karl MarxNo período manufatureiro, a supremacia comercial dava a predominância industrial, e daí o papel preponderante que o sistema colonial então desempenhou.Marx, O capital, livro I, cap. 24, seção 6, § 17

Fontes desta página

  1. LÊNIN, Vladímir Ilitch. II Congresso da Internacional Comunista (relatórios de 19 e 26 de julho de 1920). 1920. Abrir ↗
  2. LÊNIN, Vladímir Ilitch. O imperialismo, fase superior do capitalismo. 1917. Abrir ↗
  3. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Abrir ↗
  4. PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo. 1942. Abrir ↗
  5. Caio Prado Júnior. Sentido da colonização (capítulo de Formação do Brasil contemporâneo, 1942; transcrição da Revista Movimento), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  6. Vladímir Ilitch Lênin. II Congresso da Internacional Comunista: relatório sobre a situação internacional (19 de julho de 1920) e relatório da comissão sobre as questões nacional e colonial (26 de julho de 1920), com a ficha da edição da Avante!, no MIA. marxists.org, 24/07/1920. Abrir ↗
  7. Vladímir Ilitch Lênin. O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. VI. A partilha do mundo entre as grandes potências, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  8. Vladímir Ilitch Lênin. O imperialismo, fase superior do capitalismo, prefácio de 1917 e prefácio às edições francesa e alemã (6 de julho de 1920), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  9. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 24, seção 6. Génese do capitalista industrial (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗