Explicação
Dominação direta de territórios
Lênin chamava de dependência colonial a situação de um território sob a dependência jurídica e estatal direta de uma potência, e lembrava que ela traz junto relações de dependência financeira e econômica e uma série de guerras contra os povos das colônias. Ele distinguia as colônias das semicolônias, como a Pérsia, a Turquia e a China da época, e dos países que tinham independência política formal mas estavam presos à dependência financeira e diplomática, como a Argentina. (Lênin, II Congresso da Internacional Comunista, relatório de 19 de julho, § 3; Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. VI, § 25)
Para Lênin, a política colonial existiu antes do capitalismo, como em Roma, que se baseava na escravidão. Ele alertava, porém, que comparar a Roma escravista com a Grã-Bretanha sem considerar a diferença entre as duas sociedades leva a banalidades, porque a política colonial do capital financeiro é essencialmente diferente da política colonial das fases anteriores. (Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. VI, § 17)
O sistema colonial e o nascimento do capitalismo
Karl Marx escreveu em O capital que a descoberta de ouro e prata na América, o extermínio, a escravização e o enterramento da população nativa nas minas, o início da conquista e da pilhagem das Índias Orientais e a transformação da África num território de caça de pessoas negras para o comércio marcam a aurora da era capitalista. Marx chamou esses fatos de momentos principais da acumulação original, que usou o poder do Estado para apressar a passagem do feudalismo ao capitalismo. (Marx, O capital, livro I, cap. 24, seção 6, §§ 5 e 6)
Segundo Marx, o sistema colonial amadureceu o comércio e a navegação como numa estufa e garantiu às manufaturas da Europa um mercado de escoamento sob monopólio. O tesouro tomado fora da Europa pela pilhagem, pela escravização e pelo assassínio voltava para a metrópole e ali se transformava em capital. Na época da manufatura, a supremacia comercial dava a predominância industrial, e por isso o sistema colonial teve então um papel preponderante. (Marx, O capital, livro I, cap. 24, seção 6, §§ 14 e 17)
O Brasil colônia
Caio Prado Júnior escreveu em 1942 que as grandes navegações e a colonização da América formam um capítulo da história do comércio europeu, uma imensa empresa comercial em que os europeus chegavam a cada terra como traficantes. Para ele, o Brasil se constituiu para fornecer açúcar e tabaco, depois ouro e diamantes, depois algodão e café ao comércio europeu, e a sociedade e a economia da colônia foram organizadas para esse objetivo externo. O colono europeu vinha para fazer negócio, aplicava o seu capital e recrutava a mão de obra entre os indígenas e os negros africanos trazidos para o trabalho. (Prado Júnior, Formação do Brasil contemporâneo, Sentido da colonização, §§ 9, 23 e 25)
O mundo colonial de 1914
Nos dados que Lênin reuniu, as seis grandes potências tinham em 1914 colônias com 65 milhões de quilômetros quadrados e 523,4 milhões de habitantes, enquanto as próprias metrópoles somavam 16,5 milhões de quilômetros quadrados e 437,2 milhões de habitantes. As colônias de potências menores, como a Bélgica e a Holanda, tinham outros 45,3 milhões de habitantes. (Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. VI, § 14)
Em 1920, Lênin contou que antes da guerra de 1914 havia cerca de 600 milhões de pessoas nas colônias e, somando as semicolônias, perto de mil milhões de pessoas oprimidas pela dependência colonial. No relatório sobre a questão nacional e colonial, ele calculou que cerca de 70% da população da Terra, uns 1.250 milhões de um total de 1.750 milhões, pertencia às nações oprimidas. (Lênin, II Congresso da Internacional Comunista, relatório de 19 de julho, § 3; relatório de 26 de julho, § 3)
Nações opressoras e nações oprimidas
Para Lênin, a ideia mais importante das teses do II Congresso da Internacional Comunista, em 1920, era a distinção entre nações oprimidas e nações opressoras, estas últimas um pequeno número de países com riquezas colossais e grande força militar. Ele opunha essa distinção à II Internacional e à democracia burguesa, e pedia que a questão colonial fosse resolvida a partir dos fatos econômicos concretos, e não de princípios abstratos. (Lênin, II Congresso da Internacional Comunista, relatório de 26 de julho, §§ 2 e 3)
Lênin observou também uma aproximação entre a burguesia dos países exploradores e a das colônias, de modo que muitas vezes a burguesia dos países oprimidos apoia o movimento nacional e, ao mesmo tempo, luta junto com a burguesia imperialista contra os movimentos revolucionários. Por isso, segundo Lênin, os comunistas só deviam apoiar os movimentos de libertação burgueses nas colônias quando eles fossem de fato revolucionários e não impedissem a organização dos camponeses e das massas exploradas. (Lênin, II Congresso da Internacional Comunista, relatório de 26 de julho, § 5)
Colônias e democracia
No prefácio de 1920 ao seu livro sobre o imperialismo, Lênin escreveu que a livre concorrência e a democracia, palavras de ordem com que os capitalistas enganavam operários e camponeses, pertenciam a um passado distante. Para ele, o capitalismo tinha se transformado num sistema universal de subjugação colonial e de estrangulamento financeiro da imensa maioria da população do planeta por um punhado de países avançados. (Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, prefácio às edições francesa e alemã, seção II, § 6)