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Conceitos / Formação do Brasil / Questão agrária

Questão agrária

Em poucas palavras

A questão agrária é o problema de como o capital toma conta da agricultura e de quem fica com a terra. Lênin a via como a luta dos camponeses contra a grande propriedade e apontou dois caminhos para o capitalismo no campo, o dos latifundiários e o dos pequenos produtores livres. No Brasil, Prestes e Marighella viam restos feudais no campo, e Caio Prado Júnior via relações capitalistas.

Eixo e tema
Formação do Brasil · Questão agrária
Obra principal
O programa agrário da social-democracia na primeira revolução russa de 1905-1907, de Vladímir Ilitch Lênin

Explicação

O que é a questão agrária

Karl Kautsky escreveu em 1899 que, para estudar a questão agrária pelo método de Marx, não basta perguntar se a pequena propriedade rural tem futuro. Para ele, é preciso investigar se e como o capital se apodera da agricultura, a revoluciona, torna insustentáveis as velhas formas de produção e de propriedade e cria a necessidade de novas. No mesmo ano, Lênin chamou o livro de Kautsky de o acontecimento mais importante da literatura econômica desde o livro III de O capital, porque o marxismo ainda não tinha um estudo sistemático do capitalismo na agricultura. (Kautsky, A questão agrária, cap. I, § 13 da página do MIA; Lênin, Resenha de Karl Kautsky, Die Agrarfrage, §§ 3 e 4 da página do MIA)

Em 1907, Lênin escreveu que o problema agrário era a base da revolução burguesa na Rússia e que a sua essência era a luta dos camponeses para acabar com a propriedade dos latifundiários e com os restos da servidão. Ele mostrava que dez milhões e meio de famílias camponesas tinham 75 milhões de deciatinas, a medida de área russa da época, enquanto trinta mil latifundiários tinham 70 milhões. (Lênin, O programa agrário da social-democracia na primeira revolução russa de 1905-1907, §§ 1 a 3)

Dois caminhos para o capitalismo no campo

Para Lênin, o fim da servidão podia seguir dois caminhos. No caminho que ele chamou de prussiano, as grandes propriedades feudais se transformam lentamente em empresas burguesas dos próprios latifundiários, e a massa camponesa vira um povo de deserdados, mantido na miséria pela força, ao lado de um pequeno grupo de camponeses ricos. No caminho norte-americano, a velha propriedade é eliminada em benefício da massa camponesa, e o capitalismo se desenvolve com base em agricultores livres, sem exploração latifundiária de nenhum tipo. (Lênin, O programa agrário da social-democracia na primeira revolução russa de 1905-1907, §§ 4 a 7)

O debate no Brasil

Guilherme Delgado mostra que a questão agrária ganhou forma teórica e política no Brasil sobretudo nos anos 1960, quando a reforma agrária entrou no debate político. Segundo ele, três centros a formularam, o Partido Comunista Brasileiro, setores progressistas da Igreja Católica e a Comissão Econômica para a América Latina, a Cepal. (Delgado, Expansão e modernização do setor agropecuário no pós-guerra, p. 158)

Luiz Carlos Prestes disse na Assembleia Constituinte de 1946 que os comunistas definiam como semifeudal o regime predominante no campo brasileiro. Segundo ele, nas grandes propriedades não predominava o assalariado, e o camponês pagava o arrendamento da terra com o seu trabalho ou com os produtos que tirava dela. (Prestes, A reforma agrária, §§ 43, 46 e 47 da página do MIA; Luiz Carlos Prestes, O problema da terra e a Constituição de 1946, ficha)

Carlos Marighella escreveu em 1958, na revista Estudos Sociais, que o fundamento geral da questão agrária no Brasil era o monopólio da terra, causa do atraso do país, e que, abalado esse monopólio, as forças produtivas dariam um salto. Ele via no fazendeiro de café alguém que era ao mesmo tempo latifundiário e capitalista e ficava com todas as formas de renda e de lucro, o que para ele mostrava o caráter semicolonial e semifeudal do país. Ainda assim, Marighella reconhecia que a renda capitalista significava a penetração do capitalismo no campo. (Marighella, Alguns aspectos da renda da terra no Brasil, §§ 2, 25, 31 e 37 da página do MIA)

Caio Prado Júnior criticou essa leitura em 1966. Para ele, interpretar a economia agrária brasileira como resto do feudalismo levava à conclusão errada de que a luta dos trabalhadores rurais tinha como objetivo central a posse da terra. Caio Prado sustentava que a maior parte desses trabalhadores, nas grandes lavouras de cana, café, algodão e cacau, eram vendedores de força de trabalho e lutavam sobretudo por melhores condições de trabalho e emprego. (Prado Júnior, A revolução brasileira, §§ 5 e 6 da página do MIA)

A questão agrária hoje

Delgado registra que a questão agrária voltou ao debate político e econômico depois do fim do regime militar e da Constituição de 1988, num tempo em que o desenvolvimento da agricultura já não era projeto prioritário do Estado. (Delgado, Expansão e modernização do setor agropecuário no pós-guerra, p. 166)

No Censo Agropecuário de 2017, os 51.203 estabelecimentos com mil hectares ou mais, cerca de 1% do total, ocupavam 167,2 milhões de hectares, ou 47,6% da área dos estabelecimentos. Os 2,5 milhões de estabelecimentos com menos de 10 hectares, metade do total, ficavam com 2,3% da área. (IBGE, Censo Agropecuário 2017, tabela 8927 do SIDRA, soma dos grupos de área total)

Nesta explicação

No Brasil

Questão agrária no Brasil

No Censo Agropecuário de 2017, os estabelecimentos com mil hectares ou mais eram cerca de 1% do total e ocupavam 47,6% da área; em 1958, Carlos Marighella já via no monopólio da terra o fundamento da questão agrária no Brasil. (IBGE, Censo Agropecuário 2017, tabela 8927 do SIDRA, soma dos grupos de área total; Marighella, Alguns aspectos da renda da terra no Brasil, § 2 da página do MIA)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • LÊNIN, Vladímir Ilitch. O programa agrário da social-democracia na primeira revolução russa de 1905-1907. 1907. Onde ler: §§ 1 a 7.

    “O problema agrário constitui a base da revolução burguesa na Rússia e determina a peculiaridade nacional desta revolução. A essência deste problema é a luta dos camponeses para acabar com a propriedade latifundiária e com os restos da servidão no regime agrário da Rússia, e, por conseguinte, em todas as instituições sociais e políticas do país.”

    §§ 1 e 2

    Ler grátis: O programa agrário da social-democracia na primeira revolução russa de 1905-1907 ↗

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (15)

Fontes desta página

  1. KAUTSKY, Karl. A questão agrária. 1899. Abrir ↗
  2. LÊNIN, Vladímir Ilitch. Resenha de Karl Kautsky, Die Agrarfrage. Trad. Joe Fineberg e George Hanna. Moscou: Progress Publishers (Lenin Collected Works, v. 4, pp. 94-99), 1964. Abrir ↗
  3. LÊNIN, Vladímir Ilitch. O programa agrário da social-democracia na primeira revolução russa de 1905-1907. 1907. Abrir ↗
  4. DELGADO, Guilherme C.. Expansão e modernização do setor agropecuário no pós-guerra: um estudo da reflexão agrária. 2001. Abrir ↗
  5. PRESTES, Luiz Carlos. A reforma agrária (discurso na Assembleia Constituinte, 17 de junho de 1946). 1946. Abrir ↗
  6. Luiz Carlos Prestes. O problema da terra e a Constituição de 1946 (discurso na 86ª sessão da Assembleia Nacional Constituinte, 17 de junho de 1946; Problemas atuais da democracia, Vitória, 1947, pp. 363-414), no MIA. marxists.org, 17/06/1946. Abrir ↗
  7. MARIGHELLA, Carlos. Alguns aspectos da renda da terra no Brasil. 1958. Abrir ↗
  8. PRADO JÚNIOR, Caio. A revolução brasileira. 1966. Abrir ↗
  9. IBGE. Censo Agropecuário 2017, tabela 8927 do SIDRA: número de estabelecimentos agropecuários e área dos estabelecimentos, por grupos de área total (Brasil). apisidra.ibge.gov.br. Abrir ↗
  10. Caio Prado Júnior. A revolução brasileira (trecho, 1966). marxists.org. Abrir ↗
  11. Guilherme C. Delgado. Expansão e modernização do setor agropecuário no pós-guerra: um estudo da reflexão agrária (Estudos Avançados, v. 15, n. 43, 2001). revistas.usp.br. Abrir ↗
  12. Karl Kautsky. Die Agrarfrage, primeira seção, cap. I: Einleitung (Dietz, 1899), no MIA em alemão. marxists.org. Abrir ↗
  13. Vladímir Ilitch Lênin. Do livro O programa agrário da social-democracia na primeira revolução russa de 1905-1907 (trecho, com a ficha da Editorial Vitória), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  14. Vladímir Ilitch Lênin. Book Review: Karl Kautsky, Die Agrarfrage (Lenin Collected Works, v. 4, Progress Publishers, 1964), no MIA em inglês. marxists.org. Abrir ↗
  15. Carlos Marighella. Alguns aspectos da renda da terra no Brasil (Estudos Sociais, maio-junho de 1958), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  16. Luiz Carlos Prestes. A reforma agrária (discurso de 17 de junho de 1946; Problemas, n. 1, agosto de 1947), no MIA. marxists.org, 17/06/1946. Abrir ↗