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Conceitos / Economia política / Gasto público e austeridade

Dívida pública

Em poucas palavras

A dívida pública é o que o Estado deve aos donos dos seus títulos, que recebem juros pagos com os impostos. Marx mostrou que ela foi uma das alavancas da acumulação primitiva e que o título da dívida é capital fictício, porque o dinheiro emprestado já foi gasto. Para ele, o déficit pode ser a fonte de enriquecimento da fração financeira da burguesia.

Eixo e tema
Economia política · Gasto público e austeridade
Obra principal
O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital, de Karl Marx

Explicação

A dívida na origem do capitalismo

No capítulo de O capital sobre a chamada acumulação primitiva, Marx conta que a Inglaterra do fim do século XVII reuniu vários métodos para acelerar a passagem do feudalismo ao capitalismo, entre eles o sistema da dívida do Estado e o sistema moderno de impostos. Todos usavam o poder do Estado, a violência concentrada e organizada da sociedade. Para Marx, o crédito público, isto é, as dívidas do Estado, marcou com o seu selo a era capitalista e tornou-se o credo do capital. (Marx, O capital, livro I, cap. 24, seção 6, §§ 6 e 18)

Marx chama a dívida pública de uma das alavancas mais enérgicas da acumulação primitiva, porque transforma dinheiro parado em capital sem os riscos da aplicação na indústria. Os credores do Estado não dão nada de fato, já que recebem títulos fáceis de negociar, que funcionam como dinheiro vivo. A dívida criou uma classe de rentistas ociosos e enriqueceu os financistas que faziam a ponte entre o governo e a nação, como o Banco da Inglaterra, que começou emprestando ao governo a 8%. (Marx, O capital, livro I, cap. 24, seção 6, §§ 19 e 20)

Como os juros da dívida são pagos com as receitas do Estado, Marx conclui que o sistema moderno de impostos é o complemento necessário dos empréstimos públicos. Os empréstimos exigem mais impostos, e os impostos maiores obrigam a novos empréstimos, de modo que o excesso de tributação vira regra. Marx observa que esses impostos pesam sobretudo sobre os meios de vida mais necessários, e por isso os encarecem. (Marx, O capital, livro I, cap. 24, seção 6, § 22)

Um capital que já não existe

No livro III de O capital, Marx explica que o Estado paga juros todos os anos aos seus credores por um capital que já foi gasto e não existe mais. O credor tem nas mãos um título que lhe dá direito a uma parte da arrecadação anual de impostos e que ele pode vender a outra pessoa. Marx chama esse tipo de riqueza de capital fictício e diz que a dívida do Estado é capital puramente fictício, porque a soma emprestada já foi consumida. (Marx, O capital, livro III, cap. 29, §§ 8, 10 e 11)

Os economistas Reinaldo Carcanholo e Paulo Nakatani lembram que os títulos da dívida pública são uma das formas típicas do capital fictício. Para eles, uma explosão desse capital pode nascer do crescimento acelerado da dívida pública dos Estados ou de uma alta forte das taxas de juros. (Carcanholo e Nakatani, O capital especulativo parasitário, pp. 296 e 300)

A dívida como negócio de uma classe

Em As lutas de classes em França, Marx mostra que, sob o rei Luís Filipe, o endividamento do Estado era do interesse direto da fração da burguesia que dominava as Câmaras. Para ele, o déficit do Estado era o verdadeiro objeto da especulação dessa fração e a fonte principal do seu enriquecimento, porque cada novo empréstimo era feito em condições desfavoráveis ao Estado, mantido à beira da falência. (Marx, As lutas de classes em França de 1848 a 1850, cap. 1, § 12)

O economista polonês Michał Kalecki, próximo da tradição marxista, escreveu em 1943 que, quando o governo gasta com dinheiro emprestado, o que a economia lhe empresta são bens e serviços cuja produção foi financiada pelos títulos públicos. Kalecki acrescenta que a taxa de juros desses empréstimos depende da política do banco central, que pode mantê-la estável por maior que seja a dívida. (Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, §§ 3 e 4)

A dívida pública no Brasil

A dívida bruta do governo geral, que soma as dívidas da União, dos estados e dos municípios, era de 56,28% do PIB em dezembro de 2014 e chegou a 86,94% em dezembro de 2020. Em setembro de 2026, ela estava em 82,93% do PIB. (Banco Central do Brasil, SGS, série 13762, dez. 2014, dez. 2020 e set. 2026; Banco Central do Brasil, Dívida bruta do governo geral, conceito da série)

A Constituição proíbe que as emendas dos parlamentares ao orçamento tirem recursos do serviço da dívida, isto é, do pagamento de juros e amortizações. A Emenda Constitucional nº 95, de 2016, impôs limites por vinte anos às despesas primárias, isto é, a todos os gastos do governo menos os juros e as amortizações da dívida. (Assembleia Nacional Constituinte, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988, art. 166, § 3º, II, b; Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 95, de 15 de dezembro de 2016, arts. 106 e 107 do ADCT)

O economista Evilasio Salvador mostra que, no orçamento de 2010, R$ 271 bilhões, quase um quarto do total dos orçamentos fiscal e da seguridade social, estavam previstos para juros e amortização da dívida. Para Ricardo Souza Araujo, desde o Plano Real o superávit primário, isto é, a sobra entre receitas e despesas sem contar os juros, serve para cortar despesas sociais e poupar recursos para o pagamento da dívida. A economista Leda Paulani já via, em 2004, o Brasil como emissor de capital fictício, que garante a transferência de renda real para a esfera financeira. (Salvador, Fundo público e políticas sociais na crise do capitalismo, p. 608; Araujo, Arcabouço fiscal, p. 599; Paulani, Quando o medo vence a esperança, p. 17)

No Brasil

Dívida pública no Brasil

A dívida bruta do governo geral brasileiro estava em 82,93% do PIB em setembro de 2026, segundo o Banco Central, depois de 56,28% em dezembro de 2014. (Banco Central do Brasil, SGS, série 13762, série 13762, set. 2026 e dez. 2014; Marx, O capital, livro III, cap. 29, § 8)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Onde ler: livro I, cap. 24, seção 6, §§ 6, 18, 19, 20, 22 e 23.

    “A dívida pública torna-se uma das mais enérgicas alavancas da acumulação original. Como com o toque da varinha mágica, reveste o dinheiro improdutivo de poder procriador e transforma-o assim em capital, sem que, para tal, tivesse precisão de se expor às canseiras e riscos inseparáveis da sua aplicação industrial e mesmo usurária.”

    livro I, cap. 24, seção 6, § 19

    Ler grátis: O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital ↗Ficha da obra: O capital, livro I

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (22)
  • Interpretação · Karl MarxA dívida pública torna-se uma das alavancas mais enérgicas da acumulação original, porque reveste o dinheiro improdutivo de poder procriador e o transforma em capital sem os riscos da aplicação industrial e mesmo usurária.Marx, O capital, livro I, cap. 24, seção 6, § 19
  • Interpretação · Ricardo Souza AraujoCom o Plano Real, o tripé macroeconômico de câmbio flutuante, meta de inflação e superávit primário reduziu ao máximo as despesas sociais do Estado para poupar recursos do fundo público em favor do pagamento do serviço da dívida pública.Araujo, Arcabouço fiscal, p. 599
  • Interpretação · Karl MarxO Banco de Inglaterra começou por emprestar o seu dinheiro ao governo a 8%, e a acumulação da dívida do Estado se mede pela subida das ações desses bancos.Marx, O capital, livro I, cap. 24, seção 6, § 20
  • Interpretação · Karl MarxA formação de um capital fictício chama-se capitalização, pela qual toda renda periódica é tratada como juro de um capital calculado à taxa média de juros.Marx, O capital, livro III, cap. 29, § 10
  • FatoAs emendas ao projeto de lei do orçamento anual só podem indicar recursos provenientes da anulação de despesas, excluídas as que incidam sobre dotações de pessoal, sobre o serviço da dívida e sobre transferências tributárias constitucionais.Assembleia Nacional Constituinte, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988, art. 166, § 3º, II
  • Interpretação · Reinaldo Antônio Carcanholo e Paulo NakataniUma explosão no volume do capital fictício pode resultar do crescimento acelerado da dívida pública de diferentes Estados nacionais ou de um aumento substancial das taxas de juros.Carcanholo e Nakatani, O capital especulativo parasitário, p. 300
  • Interpretação · Reinaldo Antônio Carcanholo e Paulo NakataniUma das formas típicas do capital fictício está constituída pelos títulos da dívida pública.Carcanholo e Nakatani, O capital especulativo parasitário, p. 296
  • Interpretação · Karl MarxA grande parte que cabe à dívida pública e ao sistema fiscal na capitalização da riqueza e na expropriação das massas levou escritores como Cobbett e Doubleday a procurar aí, sem razão, a causa fundamental da miséria dos povos modernos.Marx, O capital, livro I, cap. 24, seção 6, § 23
  • Interpretação · Karl MarxO Estado paga anualmente juros aos seus credores por um capital que foi consumido e não existe mais; o credor possui um título que lhe dá direito a uma parte da receita anual de impostos e que pode vender a outra pessoa.Marx, O capital, livro III, cap. 29, § 8
  • Interpretação · Karl MarxO sistema do crédito público, isto é, das dívidas de Estado, tomou conta da Europa no período da manufatura, marcou com o seu selo a era capitalista e tornou-se o credo do capital.Marx, O capital, livro I, cap. 24, seção 6, § 18
  • Interpretação · Karl MarxOs credores do Estado não dão nada, pois a soma emprestada se transforma em títulos de dívida facilmente negociáveis, que funcionam como dinheiro sonante; a dívida cria uma classe de rentistas ociosos e a riqueza improvisada dos financistas que fazem de mediadores entre governo e nação.Marx, O capital, livro I, cap. 24, seção 6, § 19
  • FatoA dívida bruta do governo geral foi de 56,28% do PIB em dezembro de 2014, de 86,94% em dezembro de 2020 e de 82,93% em setembro de 2026.Banco Central do Brasil, SGS, série 13762, série 13762
  • FatoA série 13762 do Banco Central mede a dívida bruta do governo geral em percentual do PIB, pela metodologia usada a partir de 2008, e abrange os débitos dos governos federal, estaduais e municipais junto ao setor privado, ao setor público financeiro e ao resto do mundo.Banco Central do Brasil, Dívida bruta do governo geral, nome e conceito da série
  • FatoA Emenda Constitucional nº 95, de 2016, instituiu o Novo Regime Fiscal por vinte exercícios financeiros, com limites individualizados para as despesas primárias de cada Poder.Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Emenda Constitucional nº 95, de 15 de dezembro de 2016, arts. 106 e 107 do ADCT
  • Interpretação · Karl MarxComo a dívida do Estado se apoia nas receitas que pagam os juros anuais, o sistema moderno de impostos é o complemento necessário dos empréstimos nacionais; os empréstimos exigem impostos maiores, os impostos maiores obrigam a novos empréstimos, e a sobretributação torna-se princípio, com os impostos sobre os meios de vida mais necessários como eixo.Marx, O capital, livro I, cap. 24, seção 6, § 22
  • Interpretação · Michał KaleckiQuando o governo gasta com dinheiro emprestado, o que a economia lhe empresta são bens e serviços cuja produção é financiada por títulos públicos.Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 3
  • Interpretação · Michał KaleckiA taxa de juros depende da política bancária, em particular da do banco central, que pode mantê-la num nível dado por maior que seja o volume de empréstimos do governo.Kalecki, Aspectos políticos do pleno emprego, § 4
  • Interpretação · Karl MarxSob Luís Filipe, o endividamento do Estado era o interesse direto da fração da burguesia que dominava e legislava pelas Câmaras, e o déficit era o verdadeiro objeto da sua especulação e a fonte principal do seu enriquecimento, com novos empréstimos feitos em condições desfavoráveis a um Estado mantido à beira da bancarrota.Marx, As lutas de classes em França de 1848 a 1850, cap. 1, § 12
  • Interpretação · Karl MarxNa Inglaterra do fim do século XVII, os momentos da acumulação original foram reunidos no sistema colonial, no sistema da dívida do Estado, no sistema moderno de impostos e no sistema protecionista, que usam o poder do Estado, a violência concentrada e organizada da sociedade, para encurtar a transição ao capitalismo.Marx, O capital, livro I, cap. 24, seção 6, § 6
  • Interpretação · Leda Maria PaulaniOs títulos da dívida brasileira lançados e cotados no exterior confirmaram o país no papel de emissor de capital fictício, que garante a transferência de parcelas da renda real e do capital real para a esfera financeira.Paulani, Quando o medo vence a esperança, p. 17
  • Interpretação · Karl MarxNo caso das dívidas do Estado, o título representa um capital puramente fictício.Marx, O capital, livro III, cap. 29, § 11
  • Interpretação · Evilasio SalvadorDos R$ 1,170 trilhão dos orçamentos fiscal e da seguridade social previstos na lei orçamentária de 2010, quase um quarto, R$ 271 bilhões, estava destinado ao pagamento de juros e amortização da dívida pública.Salvador, Fundo público e políticas sociais na crise do capitalismo, p. 608

Fontes desta página

  1. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. João Pedro Gomes e Pedro de Freitas Leal e Manuel Loureiro e Ana Portela e José Barata-Moura. Moscovo; Lisboa: Edições Progresso; Editorial Avante!, 1990. Abrir ↗
  2. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro III: o processo global da produção capitalista. 1894. Abrir ↗
  3. CARCANHOLO, Reinaldo Antônio; NAKATANI, Paulo. O capital especulativo parasitário: uma precisão teórica sobre o capital financeiro, característico da globalização. Porto Alegre: Ensaios FEE, v. 20, n. 1, pp. 284-304, 1999. Abrir ↗
  4. MARX, Karl. As lutas de classes em França de 1848 a 1850. 1850. Abrir ↗
  5. KALECKI, Michał. Aspectos políticos do pleno emprego. 1943. Abrir ↗
  6. Banco Central do Brasil. SGS, série 13762: dívida bruta do governo geral (% PIB), metodologia a partir de 2008, dez. 2014 a set. 2026. api.bcb.gov.br. Abrir ↗
  7. Banco Central do Brasil. Dívida bruta do governo geral (% PIB), metodologia utilizada a partir de 2008: página do conjunto de dados (nome, unidade e fonte da série). dadosabertos.bcb.gov.br. Abrir ↗
  8. Assembleia Nacional Constituinte. Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988. planalto.gov.br, 05/10/1988. Abrir ↗
  9. Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Emenda Constitucional nº 95, de 15 de dezembro de 2016 (Novo Regime Fiscal). planalto.gov.br, 15/12/2016. Abrir ↗
  10. SALVADOR, Evilasio. Fundo público e políticas sociais na crise do capitalismo. São Paulo: Serviço Social & Sociedade, n. 104, pp. 605-631, 2010. Abrir ↗
  11. ARAUJO, Ricardo Souza. Arcabouço fiscal: uma análise crítica da atual política econômica do Governo Lula. São Luís: Revista de Políticas Públicas (UFMA), v. 29, n. 2, pp. 594-609, 2025. Abrir ↗
  12. PAULANI, Leda Maria. Quando o medo vence a esperança (um balanço da política econômica do primeiro ano do governo Lula). Crítica Marxista, n. 19, pp. 11-26, 2004. Abrir ↗
  13. Karl Marx. O capital, Livro I, cap. 24, seção 6. Génese do capitalista industrial (tradução da Avante!), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  14. Ricardo Souza Araujo. Arcabouço fiscal: uma análise crítica da atual política econômica do Governo Lula (Revista de Políticas Públicas, v. 29, n. 2, 2025). periodicoseletronicos.ufma.br. Abrir ↗
  15. Karl Marx. Capital, Volume Three, Chapter 29. Component Parts of Bank Capital, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  16. Reinaldo Antônio Carcanholo e Paulo Nakatani. O capital especulativo parasitário: uma precisão teórica sobre o capital financeiro, característico da globalização (Ensaios FEE, 1999). revistas.planejamento.rs.gov.br. Abrir ↗
  17. Michał Kalecki. Aspectos políticos do pleno emprego (tradução de José Carlos Ruy, do Portal Vermelho), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  18. Karl Marx. As lutas de classes em França de 1848 a 1850, cap. I. A derrota de junho de 1848, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  19. Leda Maria Paulani. Quando o medo vence a esperança (Crítica Marxista, n. 19, 2004). econtents.sbu.unicamp.br. Abrir ↗
  20. Evilasio Salvador. Fundo público e políticas sociais na crise do capitalismo (Serviço Social & Sociedade, n. 104, 2010). scielo.br, 01/10/2010. Abrir ↗