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Conceitos / Formação do Brasil / Classes no Brasil

Revolução burguesa no Brasil

Em poucas palavras

Revolução burguesa é o processo em que a burguesia conquista o poder de Estado. O PCB via no Brasil restos feudais e uma revolução democrático-burguesa a fazer com a burguesia nacional, e Caio Prado Júnior e Florestan Fernandes responderam que o país já era capitalista. Para Florestan, a revolução burguesa brasileira foi dependente e atrasada e terminou na autocracia burguesa aberta em 1964.

Eixo e tema
Formação do Brasil · Classes no Brasil
Obra principal
O que é revolução?, de Florestan Fernandes

Explicação

O que se chama de revolução burguesa

Revolução burguesa é o processo em que a burguesia, a classe dos capitalistas que possuem os meios de produção e empregam trabalho assalariado, conquista o poder de Estado. Décio Saes chama esse passo de formação do Estado burguês e lembra que ele aconteceu na Inglaterra entre 1640 e 1689 e na França entre 1789 e 1794. Florestan Fernandes, citado por Carlos Nelson Coutinho, escreveu que não existe um único modelo dessa transformação. (Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista, cap. 1, nota de Engels à edição inglesa de 1888; Saes, Capitalismo e processo político no Brasil, pp. 6 e 7; Coutinho, Marxismo e "imagem do Brasil" em Florestan Fernandes, § 10)

A tese do PCB

O programa do PCB de 1954, defendido por Luiz Carlos Prestes no informe ao IV Congresso do partido, dizia que o Brasil, independente desde 1822, não tinha cumprido as tarefas da revolução burguesa nem se livrado dos restos feudais e do latifúndio. Os restos feudais, para o programa, estavam na exploração dos camponeses por latifundiários que viviam da renda da terra e da usura, e nem a Proclamação da República tinha mudado o caráter semifeudal e semiescravista do país. Por isso a revolução brasileira seria, naquela etapa, democrático-popular, anti-imperialista e antifeudal, contra o regime dos latifundiários e dos grandes capitalistas. (Prestes, Informe de balanço do Comitê Central do PCB ao IV Congresso do Partido Comunista do Brasil, parte I, §§ 30, 33 a 35 e 46)

Em março de 1958, o partido mudou de linha. Na autocrítica publicada na Voz Operária, Prestes escreveu que a burguesia interessada no desenvolvimento independente do país já participava do Estado e que a revolução viria de reformas graduais dentro do regime, com uma frente única contra o imperialismo norte-americano que incluía a burguesia. Jacob Gorender conta que, com a Declaração de Março, começou a circular o termo burguesia nacional e que o V Congresso, de 1960, respaldou essas teses. (Prestes, São indispensáveis a crítica e a autocrítica de nossa atividade para compreender e aplicar uma nova política, ficha e §§ 7, 9 e 11; Gorender, Entrevista sobre o PCB e sua atuação nos anos 50, § 14)

Gorender avaliou mais tarde que a Declaração de Março tratava a burguesia com ilusão, ao dividi-la numa ala nacionalista e outra entreguista. Para Florestan, partidos comunistas dos países subdesenvolvidos fizeram da revolução burguesa o seu objetivo central, e a falta de rigor teórico levou a erros estratégicos. (Gorender, Entrevista sobre o PCB e sua atuação nos anos 50, § 12; Fernandes, O que é revolução?, p. 55)

A crítica de Caio Prado Júnior

Em A revolução brasileira, de 1966, Caio Prado Júnior chamou de desacerto ler as relações de trabalho no campo como restos de estruturas feudais, porque nos maiores setores da agropecuária os trabalhadores eram empregados, vendedores de força de trabalho, e não camponeses. Para ele, a fórmula da revolução democrático-burguesa e antifeudal copiava o figurino europeu e russo, em que camponeses presos a laços feudais lutam pela terra, e apagava a luta dos assalariados rurais por melhores condições de trabalho e emprego. Ele notou que a resolução política do PCB de 1960 manteve essa posição teórica. (Prado Júnior, A revolução brasileira, §§ 5, 6, 9 e 12 da página do MIA)

Para Coutinho, Caio Prado e Florestan romperam com a imagem do Brasil do PCB, que aplicava ao país o modelo dos países periféricos do VI Congresso da Internacional Comunista, de 1928, e desconhecia que o Brasil já era capitalista ao menos desde a República. Gorender escreveu em 1978 que a burguesia brasileira não teve tarefas revolucionárias a cumprir, porque a Independência deu um Estado nacional, a Abolição liberou a mão de obra e a terra sempre pôde ser vendida. Por isso, para ele, essa burguesia foi conservadora e incorporou o latifúndio ao capitalismo brasileiro, em vez de enfrentá-lo. (Coutinho, Marxismo e "imagem do Brasil" em Florestan Fernandes, § 4; Gorender, O conceito de modo de produção e a pesquisa histórica, §§ 64 a 66)

Florestan Fernandes e a autocracia burguesa

Segundo Coutinho, Florestan explicou o caminho brasileiro pela dependência, primeiro do colonialismo e depois do que chamou de imperialismo total, e pelo atraso, já que o capitalismo se desenvolveu aqui quando o socialismo estava na agenda do mundo. O medo do proletariado levou a burguesia a se aliar às velhas classes dominantes e aos militares numa contrarrevolução prolongada, e contrarrevolução, para Florestan, é aquilo que impede ou adultera a revolução. (Coutinho, Marxismo e "imagem do Brasil" em Florestan Fernandes, § 11; Fernandes, O que é revolução?, p. 31)

Florestan chamou o regime aberto em 1964 de autocracia burguesa, um poder de classe que governa pela coerção aberta contra os de baixo, porque a burguesia brasileira não consegue ampliar o seu consenso entre eles. Segundo Octavio Ianni, ouvido por Coutinho, a expressão veio de Lênin, que a usou para o czarismo da fase final. Para Florestan, a abertura planejada pelos militares levaria a uma democracia de cooptação, em que o regime atrai os setores moderados da oposição para continuar no poder. (Coutinho, Marxismo e "imagem do Brasil" em Florestan Fernandes, §§ 13 e 14 e nota 14)

Em O que é revolução?, de 1981, Florestan escreveu que as revoluções burguesas em atraso dos países de origem colonial não fizeram as reformas dos casos clássicos, como a agrícola, a nacional e a democrática, e só aprofundaram a transformação capitalista da economia, adiando o resto para um futuro incerto. Sobre o Brasil, afirmou que todas as situações revolucionárias do país foram resolvidas dentro da ordem e que a burguesia nacional e a estrangeira passaram a ter uma relação siamesa, sem oposição entre elas. (Fernandes, O que é revolução?, pp. 66, 68, 76 e 78)

Coutinho critica a conclusão de Florestan de que a burguesia brasileira sempre precisaria de formas autocráticas de poder. Para Coutinho, no período populista a burguesia buscou e em grande medida obteve o consenso de parte dos trabalhadores urbanos, enquanto Florestan via ali uma autocracia burguesa dissimulada. (Coutinho, Marxismo e "imagem do Brasil" em Florestan Fernandes, § 17)

Quando ela aconteceu

Décio Saes data a revolução política burguesa brasileira entre 1888 e 1891, com a Abolição, a Proclamação da República e a Assembleia Constituinte, episódios que trocaram o Estado escravista pelo Estado burguês. A Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888, declarou extinta a escravidão, e a Constituição de 1891 declarou todos iguais perante a lei e acabou com os privilégios de nascimento e os títulos de nobreza. Saes lembra que essa revolução não repartiu a grande propriedade e que a indústria só superou a agricultura no PIB no fim da década de 1950. (Saes, Capitalismo e processo político no Brasil, pp. 3 e 7; Império do Brasil (Assembleia Geral), Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888, art. 1º; Congresso Nacional Constituinte, Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 24 de fevereiro de 1891, art. 72, § 2º)

Revolução burguesa, revolução passiva e golpe

Coutinho lembra que a via prussiana de Lênin, em que a nova ordem capitalista conserva sobrevivências das formas anteriores no campo, e a revolução passiva de Gramsci, a modernização feita pelo alto com acordo entre frações das classes dominantes, são conceitos para transições que fugiram do modelo inglês e francês. Coutinho usa esses conceitos para entender a revolução burguesa brasileira, que ele vê como um processo de tipo não clássico, e Florestan põe o golpe de 1964 dentro desse processo, como a contrarrevolução preventiva de uma burguesia unificada pelo temor dos movimentos populares. (Coutinho, Marxismo e "imagem do Brasil" em Florestan Fernandes, §§ 4, 5 e 13)

Nesta explicação

No Brasil

Revolução burguesa no Brasil no Brasil

A Lei nº 3.353, de 1888, extinguiu a escravidão, e a Constituição de 1891 declarou todos iguais perante a lei e acabou com os privilégios de nascimento; para Décio Saes, esses episódios, com a Proclamação da República, formam a revolução política burguesa brasileira. (Congresso Nacional Constituinte, Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 24 de fevereiro de 1891, art. 72, § 2º; Saes, Capitalismo e processo político no Brasil, p. 7)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • FERNANDES, Florestan. O que é revolução? 1981. Onde ler: pp. 31, 55, 66 a 68, 76 e 78.

    “As revoluções burguesas em atraso ganharam a cena histórica, mas destituídas da maioria das funções e tarefas revolucionárias ou reformistas que cercam os “casos clássicos” e “versões atípicas”. O objetivo central era criar, para a burguesia interna e externa, um modo de aprofundar a transformação capitalista na esfera econômica, transferindo para um futuro incerto o atendimento de outras transformações que não poderiam ser realizadas de modo concomitante.”

    p. 68

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Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (37)
  • Interpretação · Caio Prado JúniorA Resolução Política aprovada pelo PCB em 1960 manteve a tradicional e falseada posição teórica do partido acerca da natureza da revolução brasileira, embora o seu item 25 desse atenção principal aos assalariados e semiassalariados agrícolas.Prado Júnior, A revolução brasileira, § 12 da página do MIA
  • Interpretação · Caio Prado JúniorNos maiores e principais setores da agropecuária brasileira, onde se concentra a maior parcela da população rural, os trabalhadores são empregados da grande exploração, simples vendedores de força de trabalho, e não camponeses.Prado Júnior, A revolução brasileira, § 6 da página do MIA
  • Interpretação · Caio Prado JúniorÉ um desacerto interpretar a economia agrária brasileira e as relações de produção e trabalho nela presentes como remanescentes de formas e estruturas feudais; essa interpretação leva à conclusão de que a luta dos trabalhadores rurais teria por objetivo a terra, como se eles fossem camponeses.Prado Júnior, A revolução brasileira, § 5 da página do MIA
  • Interpretação · Caio Prado JúniorNuma revolução democrático-burguesa e antifeudal, o centro do impulso revolucionário está na posse da terra reivindicada por camponeses submetidos a jugo feudal, como ensina o figurino europeu e da Rússia czarista; aplicada ao Brasil, essa conclusão apriorística subestima a luta da massa trabalhadora rural por melhores condições de trabalho e emprego.Prado Júnior, A revolução brasileira, § 9 da página do MIA
  • FatoA Constituição de 1891 declarou que todos são iguais perante a lei e que a República não admite privilégios de nascimento, desconhece foros de nobreza e extingue os títulos nobiliárquicos.Congresso Nacional Constituinte, Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 24 de fevereiro de 1891, art. 72, § 2º
  • Interpretação · Florestan Fernandes, segundo Carlos Nelson CoutinhoO golpe de 1964 foi uma contrarrevolução preventiva, desfechada por uma burguesia unificada pelo temor comum dos seus segmentos à ascensão dos movimentos populares no início dos anos 1960, e o regime que dele resultou foi uma autocracia burguesa, expressão da impossibilidade de a burguesia brasileira ampliar as suas bases de consenso entre os de baixo, o que a obriga a recorrer de modo sistemático e permanente à coerção aberta contra eles.Coutinho, Marxismo e "imagem do Brasil" em Florestan Fernandes, § 13
  • Interpretação · Carlos Nelson CoutinhoSegundo uma explicação de Octavio Ianni relatada por Coutinho, Florestan tomou a expressão autocracia de Lênin, que a usou para o czarismo em sua última fase, quando já atuava essencialmente como um Estado burguês; Coutinho acha o termo impróprio para a ditadura de 1964, cujo poder não se encarnou numa única pessoa.Coutinho, Marxismo e "imagem do Brasil" em Florestan Fernandes, nota 14
  • Interpretação · Carlos Nelson CoutinhoNa tradição marxista, a via prussiana de Lênin, em que a nova ordem fundada pelo capital conserva sobrevivências das formas pré-capitalistas no campo, e a revolução passiva de Gramsci, modernização promovida pelo alto em que a conciliação entre frações das classes dominantes afasta a participação das massas populares, são conceitos para as transições ao capitalismo que não seguiram o paradigma das revoluções inglesas e da Revolução Francesa.Coutinho, Marxismo e "imagem do Brasil" em Florestan Fernandes, § 5
  • Interpretação · Florestan Fernandes, segundo Carlos Nelson CoutinhoO projeto de abertura do regime militar levaria a autocracia burguesa a uma democracia restrita típica, uma democracia de cooptação, pela qual o regime buscava perpetuar-se cooptando segmentos moderados da oposição.Coutinho, Marxismo e "imagem do Brasil" em Florestan Fernandes, § 14 (Coutinho cita RBB, pp. 358-359)
  • Interpretação · Florestan Fernandes, segundo Carlos Nelson CoutinhoA peculiaridade da revolução burguesa brasileira resulta de ela se processar num país dependente, primeiro do colonialismo e depois do imperialismo total, e do caráter tardio do desenvolvimento capitalista, quando o socialismo já estava na agenda mundial; por isso a burguesia brasileira preferiu aliar-se às velhas classes dominantes e aos segmentos militares e seguiu o caminho de uma contrarrevolução prolongada.Coutinho, Marxismo e "imagem do Brasil" em Florestan Fernandes, § 11 (Coutinho cita RBB, pp. 310, 327 e 352)
  • Interpretação · Carlos Nelson CoutinhoSegundo a imagem do Brasil do PCB, o país continuaria atrasado, semicolonial e semifeudal e careceria de uma revolução democrático-burguesa feita com uma burguesia nacional supostamente anti-imperialista e antifeudal; tratava-se em grande parte da aplicação ao Brasil do modelo de análise dos países periféricos do VI Congresso da Internacional Comunista, de 1928, e essa imagem desconhecia que o Brasil já havia realizado a sua revolução burguesa e era capitalista pelo menos desde a República.Coutinho, Marxismo e "imagem do Brasil" em Florestan Fernandes, § 4
  • Interpretação · Carlos Nelson CoutinhoFlorestan generalizou a ideia de que a burguesia brasileira careceu e carecerá sempre de formas autocráticas de poder; no período populista, porém, a burguesia buscou e em grande medida obteve uma hegemonia seletiva junto a trabalhadores urbanos enquadrados na CLT, enquanto Florestan via ali uma autocracia burguesa dissimulada.Coutinho, Marxismo e "imagem do Brasil" em Florestan Fernandes, § 17 (Coutinho cita RBB, p. 340)
  • Interpretação · Carlos Nelson CoutinhoCaio Prado e Florestan rompem com a imagem do PCB e veem o Brasil contemporâneo como um país plenamente capitalista, que passou por uma revolução burguesa de tipo não clássico.Coutinho, Marxismo e "imagem do Brasil" em Florestan Fernandes, § 4
  • Interpretação · Friedrich EngelsPor burguesia entende-se a classe dos capitalistas modernos, proprietários dos meios de produção social e empregadores de trabalho assalariado.Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista, cap. 1, nota de Engels à edição inglesa de 1888
  • Interpretação · Florestan FernandesAs revoluções burguesas em atraso chegaram destituídas da maioria das tarefas revolucionárias ou reformistas dos casos clássicos e tiveram como objetivo central aprofundar a transformação capitalista na esfera econômica, transferindo para um futuro incerto as outras transformações; elas exprimiam a constituição de um Estado burguês autocrático.Fernandes, O que é revolução?, p. 68
  • Interpretação · Florestan FernandesA revolução é uma realidade histórica, e a contrarrevolução é sempre o seu contrário, aquilo que impede ou adultera a revolução.Fernandes, O que é revolução?, p. 31
  • Interpretação · Florestan Fernandes, citado por Carlos Nelson CoutinhoNão existe, como se supunha a partir de uma concepção europocêntrica, um único modelo básico democrático-burguês de transformação capitalista, e aceitar como revolução burguesa só o que se aproximava dos casos clássicos era uma posição interpretativa unilateral.Coutinho, Marxismo e "imagem do Brasil" em Florestan Fernandes, § 10 (Coutinho cita RBB, pp. 289-290)
  • Interpretação · Florestan FernandesO Brasil contou com várias situações revolucionárias, e todas foram resolvidas dentro dos quadros da ordem e com a vitória das forças sociais conservadoras.Fernandes, O que é revolução?, p. 76
  • Interpretação · Florestan FernandesA maioria dos países de origem colonial não conheceu as reformas típicas da revolução burguesa, como a revolução agrícola, urbana, industrial, nacional e democrática, e as suas burguesias eram compradoras ou fracas demais para arcar sozinhas com o peso e os riscos da revolução burguesa.Fernandes, O que é revolução?, pp. 66 e 67
  • Interpretação · Florestan FernandesNos países capitalistas subdesenvolvidos, vários partidos de esquerda e os partidos comunistas conferiram à revolução burguesa o caráter de objetivo central, e a falta de rigor teórico levou a erros políticos estratégicos; onde a revolução proletária venceu, os comunistas deixaram de separar a burguesia nacional do imperialismo.Fernandes, O que é revolução?, p. 55
  • Interpretação · Florestan FernandesBurguesia nacional e burguesia externa têm uma relação siamesa e não são mais divididas e opostas quando o capitalismo atinge o seu apogeu imperialista; nos últimos vinte e cinco anos, a economia brasileira foi multinacionalizada com a cooperação organizada entre capitalistas, militares e burocratas brasileiros e a burguesia mundial.Fernandes, O que é revolução?, p. 78
  • Interpretação · Jacob GorenderCom a Declaração de Março começou a circular o termo burguesia nacional, parte da burguesia que, segundo o PCB, devia ser apoiada; a declaração formalizou a política que já vinha sendo praticada, e o V Congresso, em 1960, respaldou essas teses.Gorender, Entrevista sobre o PCB e sua atuação nos anos 50, § 14
  • Interpretação · Jacob GorenderA burguesia nacional foi socialmente conservadora, suscetível em certas circunstâncias a tendências nacional-reformistas; como nunca encontrou obstáculo para adquirir terras e teve na especulação fundiária uma fonte de acumulação, não aprofundou a sua contradição com os latifundiários e incorporou o latifúndio à estrutura do capitalismo no Brasil.Gorender, O conceito de modo de produção e a pesquisa histórica, § 66
  • Interpretação · Jacob GorenderVista hoje, a Declaração de Março de 1958 trata a burguesia de um modo que denuncia uma ilusão, porque parte do esquema de uma ala nacionalista e outra entreguista, com uma parte da burguesia servil ao imperialismo e outra que queria o desenvolvimento e a independência do país.Gorender, Entrevista sobre o PCB e sua atuação nos anos 50, § 12
  • Interpretação · Jacob GorenderA burguesia nacional que se formou com o capitalismo no Brasil não teve tarefas revolucionárias para resolver, porque a Independência deu um Estado nacional, a Abolição desvinculou a mão de obra de coações jurídicas e a propriedade da terra, desde o início da colonização, sempre foi alodial e alienável.Gorender, O conceito de modo de produção e a pesquisa histórica, §§ 64 e 65
  • FatoA Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888, declarou extinta a escravidão no Brasil.Império do Brasil (Assembleia Geral), Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888, art. 1º
  • Interpretação · Luiz Carlos PrestesAs principais contradições do Brasil opunham os imperialistas norte-americanos à nação e os restos feudais ao povo; por isso, a revolução brasileira em sua etapa atual é uma revolução democrático-popular, de cunho anti-imperialista e agrário antifeudal, que tem por objetivo derrubar o regime dos latifundiários e grandes capitalistas.Prestes, Informe de balanço do Comitê Central do PCB ao IV Congresso do Partido Comunista do Brasil, parte I, §§ 33 a 35
  • Interpretação · Luiz Carlos PrestesNa etapa atual da revolução, o inimigo no campo é o latifundiário, o grande proprietário que vive fundamentalmente da renda da terra, da usura e da brutal exploração das massas camponesas.Prestes, Informe de balanço do Comitê Central do PCB ao IV Congresso do Partido Comunista do Brasil, parte I, § 46
  • Interpretação · Luiz Carlos PrestesO povo brasileiro conquistou a independência política em 1822, mas não conseguiu libertar-se dos restos feudais e dos grandes latifúndios nem realizar as tarefas da revolução burguesa; a queda da monarquia e a Proclamação da República não modificaram no fundamental o caráter semifeudal e semiescravista da sociedade brasileira.Prestes, Informe de balanço do Comitê Central do PCB ao IV Congresso do Partido Comunista do Brasil, parte I, § 30
  • Interpretação · Luiz Carlos PrestesA burguesia interessada no desenvolvimento independente da economia nacional ganhava força nos partidos, no parlamento e no governo, e o Estado já não era apenas de latifundiários e grandes capitalistas a serviço do imperialismo norte-americano, pois dele participava também essa burguesia.Prestes, São indispensáveis a crítica e a autocrítica de nossa atividade para compreender e aplicar uma nova política, § 7
  • FatoA autocrítica de Prestes saiu no semanário Voz Operária, n. 460, de 29 de março de 1958.Prestes, São indispensáveis a crítica e a autocrítica de nossa atividade para compreender e aplicar uma nova política, ficha da página
  • Interpretação · Luiz Carlos PrestesA contradição principal opunha a nação ao imperialismo norte-americano e aos seus agentes internos, e a frente única contra ele podia abranger o proletariado, os camponeses, a pequena burguesia urbana, a burguesia e os latifundiários com contradições com o imperialismo norte-americano.Prestes, São indispensáveis a crítica e a autocrítica de nossa atividade para compreender e aplicar uma nova política, § 11
  • Interpretação · Luiz Carlos PrestesO processo da revolução brasileira seria o da acumulação gradual de reformas profundas e consequentes dentro do próprio regime, chegando até as transformações radicais, e não o da liquidação imediata do regime econômico-social existente.Prestes, São indispensáveis a crítica e a autocrítica de nossa atividade para compreender e aplicar uma nova política, § 9
  • Interpretação · Décio SaesA revolução política burguesa transcorreu no Brasil entre 1888 e 1891, com a Abolição da escravidão, a Proclamação da República e a Assembleia Constituinte, episódios que substituíram o Estado escravista pelo Estado burguês; as atividades industriais só passaram a predominar sobre as agrícolas no PIB no fim da década de 1950.Saes, Capitalismo e processo político no Brasil, p. 7
  • Interpretação · Décio SaesO processo de transição para o capitalismo abrange a revolução política burguesa, isto é, a formação do Estado burguês, e a acumulação de capital comercial anterior à industrialização.Saes, Capitalismo e processo político no Brasil, p. 6
  • Interpretação · Décio SaesA Inglaterra realizou a sua revolução política burguesa, que liberta o trabalho, a propriedade privada e a riqueza, entre 1640 e 1689, e a França, entre 1789 e 1794; nos países retardatários, os Estados alemães a realizaram em 1848, e o Japão, em 1868.Saes, Capitalismo e processo político no Brasil, p. 7
  • Interpretação · Décio SaesA revolução burguesa no Brasil foi incapaz de executar duas tarefas democráticas essenciais, a repartição da grande propriedade fundiária e a criação de um mercado interno de massas para o setor industrial.Saes, Capitalismo e processo político no Brasil, p. 3

Fontes desta página

  1. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Trad. José Barata-Moura. Lisboa: Editorial Avante!, 1997. Abrir ↗
  2. SAES, Décio Azevedo Marques de. Capitalismo e processo político no Brasil: a via brasileira para o desenvolvimento do capitalismo. 2015. Abrir ↗
  3. COUTINHO, Carlos Nelson. Marxismo e "imagem do Brasil" em Florestan Fernandes. 2000. Abrir ↗
  4. PRESTES, Luiz Carlos. Informe de balanço do Comitê Central do PCB ao IV Congresso do Partido Comunista do Brasil. 1954. Abrir ↗
  5. PRESTES, Luiz Carlos. São indispensáveis a crítica e a autocrítica de nossa atividade para compreender e aplicar uma nova política. 1958. Abrir ↗
  6. GORENDER, Jacob. Entrevista sobre o PCB e sua atuação nos anos 50. 2002. Abrir ↗
  7. FERNANDES, Florestan. O que é revolução? 1981. Abrir ↗
  8. PRADO JÚNIOR, Caio. A revolução brasileira. 1966. Abrir ↗
  9. GORENDER, Jacob. O conceito de modo de produção e a pesquisa histórica. 1978. Abrir ↗
  10. Império do Brasil (Assembleia Geral). Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888 (Lei Áurea). planalto.gov.br, 13/05/1888. Abrir ↗
  11. Congresso Nacional Constituinte. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 24 de fevereiro de 1891. planalto.gov.br, 24/02/1891. Abrir ↗
  12. Caio Prado Júnior. A revolução brasileira (trecho, 1966). marxists.org. Abrir ↗
  13. Carlos Nelson Coutinho. Marxismo e "imagem do Brasil" em Florestan Fernandes (2000), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  14. Karl Marx e Friedrich Engels. Manifesto do Partido Comunista, cap. 1. Burgueses e proletários, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  15. Florestan Fernandes. O que é revolução? (1981; na cartilha Realidade brasileira da Fundação Perseu Abramo e do MAB). marxists.org. Abrir ↗
  16. Jacob Gorender. Entrevista sobre o PCB e sua atuação nos anos 50 (a Waldir José Rampinelli, 2002). marxists.org. Abrir ↗
  17. Jacob Gorender. O conceito de modo de produção e a pesquisa histórica (exposição de 19 de outubro de 1978), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  18. Luiz Carlos Prestes. Informe de balanço do Comitê Central ao IV Congresso do PCB, parte I (Problemas, n. 64, dezembro de 1954). marxists.org. Abrir ↗
  19. Luiz Carlos Prestes. São indispensáveis a crítica e a autocrítica de nossa atividade para compreender e aplicar uma nova política (Voz Operária, março de 1958). marxists.org. Abrir ↗
  20. Décio Azevedo Marques de Saes. Capitalismo e processo político no Brasil: a via brasileira para o desenvolvimento do capitalismo (Novos Rumos, v. 52, n. 1, 2015). revistas.marilia.unesp.br. Abrir ↗