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Conceitos / Teoria e história do socialismo / Materialismo histórico

Estado

Em poucas palavras

Para Engels e Lênin, o Estado nasce quando a sociedade se divide em classes inconciliáveis e funciona como poder da classe economicamente dominante, apoiado em força armada, prisões e impostos. No capitalismo, o Manifesto o chama de comissão que administra os negócios comuns da burguesia. Engels previu que ele se extinguirá quando acabarem as classes.

Eixo e tema
Teoria e história do socialismo · Materialismo histórico
Obra principal
O Estado e a revolução, de Vladímir Ilitch Lênin

Explicação

De onde vem o Estado

Em A origem da família, da propriedade privada e do Estado, de 1884, Engels recusa duas ideias comuns, a de que o Estado foi imposto à sociedade de fora e a de Hegel, para quem o Estado era a realização da ideia moral. Para Engels, o Estado é um produto da sociedade num certo grau de desenvolvimento, quando ela se divide em classes com interesses econômicos inconciliáveis. Para que essas classes não se destruam numa luta sem fim, surge um poder que parece estar acima da sociedade e que mantém o conflito dentro dos limites da ordem. (Engels, A origem da família, da propriedade privada e do Estado, cap. IX, § 25)

Esse poder tem uma força pública própria, que já não se confunde com o povo em armas, formada por homens armados e por prisões e instituições de coerção de todo tipo. Para sustentá-la, o Estado cobra impostos dos cidadãos e, com o tempo, também contrai empréstimos e dívidas. (Engels, A origem da família, da propriedade privada e do Estado, cap. IX, §§ 27 e 28)

Engels conclui que, como nasceu da necessidade de conter o antagonismo das classes e no meio desse conflito, o Estado é, por regra geral, o Estado da classe economicamente dominante, que por meio dele se torna também a classe politicamente dominante. O Estado antigo foi o dos senhores de escravos, o feudal foi o da nobreza, e o Estado representativo moderno é, nas palavras dele, o instrumento de que o capital se serve para explorar o trabalho assalariado. Em períodos de exceção, quando as classes em luta se equilibram, o poder do Estado ganha certa independência momentânea, como na monarquia absoluta e no bonapartismo. (Engels, A origem da família, da propriedade privada e do Estado, cap. IX, § 30)

O Estado da burguesia

No Manifesto do Partido Comunista, Marx e Engels escrevem que o poder de Estado moderno é apenas uma comissão que administra os negócios comuns de toda a classe burguesa. Na Origem, Engels acrescenta que, na república democrática, a riqueza manda de modo indireto, pela corrupção dos funcionários e pela aliança entre o governo e a Bolsa, e que a classe proprietária domina também por meio do voto. (Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista, cap. 1, § 12; Engels, A origem da família, da propriedade privada e do Estado, cap. IX, § 31)

Em O Estado e a revolução, de 1917, Lênin resume essa teoria. Para ele, o Estado é o produto e a manifestação do caráter inconciliável das contradições de classe, e ele fala em destacamentos especiais de homens armados porque o poder público de todo Estado não coincide com a população armada. Lênin escreve que a república democrática é o melhor invólucro político possível do capitalismo, porque o capital, depois de se apoderar dele, assegura o seu poder de tal modo que nenhuma troca de pessoas, de instituições ou de partidos o abala. (Lênin, O Estado e a revolução, cap. I, seção 1, § 5, seção 2, § 5, e seção 3, § 8)

Em Do socialismo utópico ao socialismo científico, Engels observa que nem as sociedades por ações nem a propriedade estatal acabam com o caráter capitalista das forças produtivas. O Estado moderno, qualquer que seja a sua forma, é para ele uma máquina capitalista, o capitalista coletivo ideal, e quanto mais empresas assume, mais cidadãos explora, enquanto os trabalhadores continuam assalariados. (Engels, Do socialismo utópico ao socialismo científico, parte III, § 33)

O Estado ampliado em Gramsci

Jacob Gorender, num ensaio de 1988, apresenta a contribuição de Antonio Gramsci. Segundo Gorender, Gramsci ressaltou que o Estado tem duas faces, a da coerção, com o Exército, a polícia, a administração e os tribunais, e a da sociedade civil, que ele tratou como extensão do Estado, onde a Igreja, os partidos, os sindicatos, as escolas e a imprensa buscam o consenso das classes subalternas. Uma classe é hegemônica, isto é, dirigente, na medida em que obtém esse consenso. (Gorender, Coerção e consenso na política, § 31)

Gorender registra uma divergência entre os intérpretes de Gramsci. Uma leitura sustenta que a classe que obtém o consenso já pode se tornar dominante só por isso, e Gorender a critica por apagar o momento da ruptura revolucionária. Para ele, Gramsci via o consenso como preparação da dominação, sem dispensar a função de coerção do Estado. (Gorender, Coerção e consenso na política, § 34)

O fim do Estado

Na Guerra civil em França, Marx tira uma lição da Comuna de Paris de 1871, a de que a classe operária não pode simplesmente se apossar da máquina de Estado já pronta e fazê-la funcionar para os seus próprios fins. Lênin, ao comentar Engels, distingue dois processos. O Estado burguês é suprimido pelo proletariado numa revolução, e o que se extingue aos poucos, depois dela, é o Estado proletário, que ele chama de semi-Estado. (Marx, A guerra civil em França, cap. III, § 3; Lênin, O Estado e a revolução, cap. I, seção 4, §§ 5 e 17)

Engels afirma que o Estado não existiu desde sempre, porque houve sociedades sem ele, e que desaparecerá com o fim das classes. Quando a sociedade tomar os meios de produção em seu nome, escreve ele, a interferência do Estado se tornará supérflua e o governo sobre as pessoas dará lugar à administração das coisas. A sociedade, organizada como associação livre de produtores iguais, mandará a máquina do Estado para o museu de antiguidades, ao lado da roca de fiar e do machado de bronze. (Engels, A origem da família, da propriedade privada e do Estado, cap. IX, § 32; Engels, Do socialismo utópico ao socialismo científico, parte III, § 40)

Um exemplo brasileiro

A Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888, declarou extinta a escravidão no Brasil. Para Décio Saes, a Abolição, de 1888, e a Proclamação da República, de 1889, compõem a revolução política burguesa brasileira, isto é, a formação do Estado burguês. Saes observa que essa revolução não veio acompanhada de reforma agrária e não repartiu a grande propriedade da terra. (Império do Brasil (Assembleia Geral), Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888, art. 1º; Saes, Capitalismo e processo político no Brasil, pp. 2, 3 e 6)

No Brasil

Estado no Brasil

A Lei Áurea, de 13 de maio de 1888, declarou extinta a escravidão. Para Décio Saes, a Abolição e a Proclamação da República, de 1889, formam a revolução política burguesa, isto é, a formação do Estado burguês no Brasil, feita sem reforma agrária. (Império do Brasil (Assembleia Geral), Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888, art. 1º; Saes, Capitalismo e processo político no Brasil, pp. 2, 3 e 6)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • LÊNIN, Vladímir Ilitch. O Estado e a revolução. 1917. Onde ler: cap. I, seções 1 a 4.

    “O Estado é o produto e a manifestação do carácter inconciliável das contradições de classe. O Estado surge precisamente onde, quando e na medida em que as contradições de classe objectivamente não podem ser conciliadas.”

    cap. I, seção 1, § 5

    Ler grátis: O Estado e a revolução ↗Ficha da obra: O Estado e a revolução

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (21)
  • Interpretação · Friedrich EngelsQuando o Estado se torna de fato representante de toda a sociedade, ele se torna desnecessário; a tomada dos meios de produção em nome da sociedade é o seu último ato independente como Estado; a intervenção do Estado nas relações sociais se torna supérflua, o governo das pessoas é substituído pela administração das coisas, e o Estado não é abolido, ele se extingue.Engels, Do socialismo utópico ao socialismo científico, parte III, § 40
  • Interpretação · Friedrich EngelsComo o Estado nasceu da necessidade de conter o antagonismo das classes e, ao mesmo tempo, em meio ao conflito delas, ele é, por regra geral, o Estado da classe economicamente dominante, que por meio dele se converte também em classe politicamente dominante; o Estado antigo foi o dos senhores de escravos, o feudal foi o órgão da nobreza, e o moderno Estado representativo é o instrumento de que se serve o capital para explorar o trabalho assalariado; por exceção, há períodos em que as classes em luta se equilibram e o poder do Estado adquire certa independência momentânea, como na monarquia absoluta e no bonapartismo.Engels, A origem da família, da propriedade privada e do Estado, cap. IX, § 30
  • Interpretação · Friedrich EngelsO segundo traço característico do Estado é a instituição de uma força pública que já não se identifica com o povo em armas, formada por homens armados e por acessórios materiais, como cárceres e instituições coercitivas de todo gênero, desconhecidos pela sociedade gentílica.Engels, A origem da família, da propriedade privada e do Estado, cap. IX, § 27
  • Interpretação · Friedrich EngelsPara sustentar essa força pública são exigidas contribuições dos cidadãos, os impostos, e, com os progressos da civilização, o Estado emite letras sobre o futuro, contrai empréstimos e dívidas.Engels, A origem da família, da propriedade privada e do Estado, cap. IX, § 28
  • Interpretação · Friedrich EngelsNem a transformação em sociedades por ações nem a propriedade do Estado suprimem o caráter capitalista das forças produtivas; o Estado moderno, qualquer que seja a sua forma, é essencialmente uma máquina capitalista, o Estado dos capitalistas, a personificação ideal do capital nacional total, e quanto mais forças produtivas assume, mais se torna o capitalista nacional e mais cidadãos explora, enquanto os trabalhadores continuam assalariados.Engels, Do socialismo utópico ao socialismo científico, parte III, § 33
  • Interpretação · Friedrich EngelsO Estado não existiu eternamente; houve sociedades que se organizaram sem ele, e a divisão da sociedade em classes o tornou uma necessidade; com o desaparecimento das classes, desaparecerá o Estado, e a sociedade, reorganizando a produção numa associação livre de produtores iguais, mandará a máquina do Estado para o museu de antiguidades, ao lado da roca de fiar e do machado de bronze.Engels, A origem da família, da propriedade privada e do Estado, cap. IX, § 32
  • Interpretação · Friedrich EngelsO Estado não é um poder imposto à sociedade de fora para dentro nem a realidade da ideia moral, como afirma Hegel; é um produto da sociedade num determinado grau de desenvolvimento, a confissão de que ela se enredou numa contradição irremediável consigo mesma e está dividida em antagonismos irreconciliáveis; para que as classes com interesses econômicos colidentes não se devorem numa luta estéril, faz-se necessário um poder colocado aparentemente acima da sociedade, que amorteça o choque e o mantenha dentro dos limites da ordem.Engels, A origem da família, da propriedade privada e do Estado, cap. IX, § 25
  • Interpretação · Friedrich EngelsNa república democrática, a riqueza exerce o seu poder de modo indireto, sob a forma da corrupção direta dos funcionários e da aliança entre o governo e a Bolsa, e a classe possuidora domina diretamente por meio do sufrágio universal.Engels, A origem da família, da propriedade privada e do Estado, cap. IX, § 31
  • Interpretação · Jacob GorenderGramsci ressaltou a complexidade das funções do Estado, que tem a face dos órgãos de coerção, como o Exército, a polícia, a administração pública e os tribunais, e a face da extensão do Estado que ele chamou de sociedade civil, num sentido diferente do de Marx, onde as instituições, como a Igreja, os partidos, os sindicatos, as escolas e a imprensa, buscam o consenso das outras classes; uma classe é hegemônica, é dirigente, na medida em que obtém o consenso das classes subalternas.Gorender, Coerção e consenso na política, § 31
  • Interpretação · Jacob GorenderUma das interpretações de Gramsci sustenta que a classe que obtém o consenso já pode se tornar dominante por isso, leitura que omite o momento da ruptura revolucionária; para Gorender, a ideia de Gramsci era a de que o consenso preparava a dominação, e a função coercitiva do Estado não pode ser dispensada.Gorender, Coerção e consenso na política, § 34
  • FatoA Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888, declarou extinta a escravidão no Brasil desde a data da sua publicação.Império do Brasil (Assembleia Geral), Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888, art. 1º
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninPode-se falar de destacamentos especiais de homens armados porque o poder público próprio de todo Estado não coincide diretamente com a população armada, com a sua organização armada espontânea.Lênin, O Estado e a revolução, cap. I, seção 2, § 5
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninO Estado é o produto e a manifestação do caráter inconciliável das contradições de classe, e surge onde, quando e na medida em que essas contradições não podem objetivamente ser conciliadas.Lênin, O Estado e a revolução, cap. I, seção 1, § 5
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninA república democrática é o melhor invólucro político possível do capitalismo, e o capital, depois de se apoderar dele, alicerça o seu poder de modo tão seguro que nenhuma substituição de pessoas, de instituições ou de partidos na república democrática burguesa o abala.Lênin, O Estado e a revolução, cap. I, seção 3, § 8
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninA substituição do Estado burguês pelo proletário é impossível sem revolução violenta, e a supressão do Estado proletário, isto é, de todo Estado, só é possível pela via da extinção.Lênin, O Estado e a revolução, cap. I, seção 4, § 17
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninEngels fala da supressão do Estado da burguesia pela revolução proletária, enquanto as palavras sobre a extinção se referem aos restos do Estado proletário depois da revolução socialista; o Estado burguês não se extingue, é suprimido pelo proletariado na revolução, e o que se extingue depois dela é o Estado proletário, ou semi-Estado.Lênin, O Estado e a revolução, cap. I, seção 4, § 5
  • Interpretação · Karl Marx e Friedrich EngelsO moderno poder de Estado é apenas uma comissão que administra os negócios comunitários de toda a classe burguesa.Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista, cap. 1, § 12
  • Interpretação · Karl MarxA classe operária não pode apossar-se simplesmente da maquinaria de Estado já pronta e fazê-la funcionar para os seus próprios objetivos.Marx, A guerra civil em França, cap. III, § 3
  • Interpretação · Décio SaesO processo de transição para o capitalismo abrange a revolução política burguesa, isto é, a formação do Estado burguês, e a acumulação de capital comercial anterior à industrialização.Saes, Capitalismo e processo político no Brasil, p. 6
  • Interpretação · Décio SaesA transição para o capitalismo no Brasil se inicia com dois processos políticos que, combinados, compõem a revolução política burguesa, a Abolição da escravidão, em 1888, e a Proclamação da República, em 1889.Saes, Capitalismo e processo político no Brasil, p. 2
  • Interpretação · Décio SaesA revolução política burguesa de 1888 a 1891 não se fez acompanhar de uma reforma agrária, e a historiografia marxista lembra que a revolução burguesa no Brasil não repartiu a grande propriedade fundiária nem criou um mercado interno de massas.Saes, Capitalismo e processo político no Brasil, pp. 3 e 5

Fontes desta página

  1. ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Trad. Leandro Konder. Rio de Janeiro: Editorial Vitória, 1964. Abrir ↗
  2. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Trad. José Barata-Moura. Lisboa: Editorial Avante!, 1997. Abrir ↗
  3. LÊNIN, Vladímir Ilitch. O Estado e a revolução. 1917. Abrir ↗
  4. ENGELS, Friedrich. Do socialismo utópico ao socialismo científico. Trad. Edward Aveling. Moscou: Progress Publishers (Marx/Engels Selected Works, v. 3, pp. 95-151), 1970. Abrir ↗
  5. GORENDER, Jacob. Coerção e consenso na política. 1988. Abrir ↗
  6. MARX, Karl. A guerra civil em França. 1871. Abrir ↗
  7. Império do Brasil (Assembleia Geral). Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888 (Lei Áurea). planalto.gov.br, 13/05/1888. Abrir ↗
  8. SAES, Décio Azevedo Marques de. Capitalismo e processo político no Brasil: a via brasileira para o desenvolvimento do capitalismo. 2015. Abrir ↗
  9. Friedrich Engels. Socialism: Utopian and Scientific, part III. Historical Materialism, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  10. Friedrich Engels. A origem da família, da propriedade privada e do Estado, cap. IX. Barbárie e civilização, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  11. Jacob Gorender. Coerção e consenso na política (Estudos Avançados, v. 2, n. 3, 1988), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  12. Vladímir Ilitch Lênin. O Estado e a revolução, cap. I. A sociedade de classes e o Estado, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  13. Karl Marx e Friedrich Engels. Manifesto do Partido Comunista, cap. 1. Burgueses e proletários, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  14. Karl Marx. A guerra civil em França, cap. III, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  15. Décio Azevedo Marques de Saes. Capitalismo e processo político no Brasil: a via brasileira para o desenvolvimento do capitalismo (Novos Rumos, v. 52, n. 1, 2015). revistas.marilia.unesp.br. Abrir ↗