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Conceitos / Estratégia e organização / Reforma e revolução

Reforma e revolução

Em poucas palavras

Reforma é a melhoria conquistada dentro da ordem capitalista, e revolução é a conquista do poder político pelos trabalhadores para acabar com o trabalho assalariado. Para Rosa Luxemburgo, a luta por reformas é o meio e a revolução é o fim. Lênin chamou de reformismo a política que limita a luta operária às reformas.

Eixo e tema
Estratégia e organização · Reforma e revolução
Obra principal
Reforma social ou revolução?, de Rosa Luxemburgo

Explicação

O meio e o fim

A primeira parte de Reforma ou revolução?, de Rosa Luxemburgo, foi escrita entre 1898 e 1899. Logo no prefácio, ela afirma que a luta cotidiana por reformas sociais, isto é, por melhorias na vida dos trabalhadores dentro da ordem existente e por instituições democráticas, é o único meio de avançar para o objetivo final. Esse objetivo, nas palavras dela, é a conquista do poder político e a abolição do trabalho assalariado. Por isso Rosa escreveu que a luta pelas reformas é o meio e a revolução social é o fim. (Luxemburgo, Reforma social ou revolução?, ficha da página e prefácio, § 1)

O livro responde a Eduard Bernstein, que aqui entra como contraponto, pela leitura que Rosa faz dele. Segundo ela, Bernstein deu forma teórica à corrente oportunista do partido e quis fazer da reforma, que é só um meio da luta de classes, o fim último do movimento. Rosa cita a frase de Bernstein que desvaloriza o objetivo final diante do movimento. Para ela, o objetivo final é o único elemento que separa o movimento socialista da democracia burguesa. (Luxemburgo, Reforma social ou revolução?, prefácio, §§ 2, 3 e 6)

A diferença está no conteúdo

Rosa recusa a ideia de que reforma legal e revolução sejam dois caminhos que se escolhem à vontade. Para ela, as duas são fatores da história das sociedades de classes que se condicionam e se completam, porque cada constituição legal resulta de uma revolução e as reformas seguintes só andam dentro da ordem que essa revolução criou. Ela escreve que tratar a reforma como uma revolução diluída no tempo contraria a história, já que as duas se distinguem pelo conteúdo. (Luxemburgo, Reforma social ou revolução?, parte II, cap. 3, §§ 6 a 8)

Daí vem a conclusão de Rosa sobre os reformistas. Quem prefere a reforma legal à conquista do poder político escolhe, segundo ela, outro objetivo, que é emendar a sociedade antiga em vez de construir uma nova. Na prática, o revisionismo quer atenuar a exploração sem abolir o trabalho assalariado e combater os abusos do capitalismo sem acabar com ele. (Luxemburgo, Reforma social ou revolução?, parte II, cap. 3, § 9)

Rosa também defende a democracia, mas pelo papel que ela cumpre na luta operária. Ela explica que a democracia cria formas políticas, como o direito de voto, que servem de apoio à luta dos trabalhadores, e que é lutando por ela que o proletariado toma consciência dos seus interesses de classe. Por isso, para Rosa, a democracia torna a conquista do poder ao mesmo tempo necessária e possível. (Luxemburgo, Reforma social ou revolução?, parte II, cap. 3, §§ 23 e 24)

Lênin e o reformismo

Em 1913, Lênin escreveu que os marxistas, ao contrário dos anarquistas, reconhecem a luta por reformas, que ele define como melhorias na situação dos trabalhadores que deixam o poder nas mãos da classe dominante. Ao mesmo tempo, os marxistas combatem os reformistas, que limitam as aspirações e a atividade da classe operária às reformas. Para Lênin, os operários que entendem que a exploração dura enquanto durar a dominação do capital usam cada melhoria para continuar uma luta mais firme contra a escravidão assalariada. (Lênin, Marxismo e reformismo, §§ 1 e 3)

Lênin registra que os marxistas russos iam à frente no trabalho cotidiano de agitação, de organização e de luta por reformas. Ele cita como exemplos as intervenções dos deputados operários na Duma, o parlamento russo da época, os jornais operários, o uso da lei do seguro e o sindicato dos metalúrgicos. (Lênin, Marxismo e reformismo, § 13)

Dentro da ordem e contra a ordem

Florestan Fernandes chama de revolução dentro da ordem as transformações que alargam e aperfeiçoam a sociedade burguesa pela ação coletiva do proletariado. Ele chama de revolução contra a ordem a conquista do poder seguida da construção de uma sociedade sem classes. (Fernandes, O que é revolução?, p. 40)

Para Florestan, nos países em que a burguesia não leva até o fim as tarefas nacionais e democráticas, cabe às classes trabalhadoras definir o eixo dessas mudanças, e a participação delas nessas lutas tem um efeito educativo de importância estratégica. Ele adverte, porém, que a revolução dentro da ordem é instrumental e conjuntural para o proletariado. Segundo ele, a passagem para a revolução contra a ordem não nasce do espontaneísmo operário e precisa ser buscada de forma explícita e planejada. (Fernandes, O que é revolução?, pp. 32, 33, 62 e 71)

Um exemplo brasileiro

Em janeiro de 1988, no Jornal do Brasil, Florestan Fernandes, que assinava como deputado federal pelo PT de São Paulo, escreveu que uma das saídas para a crise do país era a revolução democrática por meio de uma Constituição moderna e avançada, com eleição direta já e um parlamento capaz de vigiar o presidente. Ele chamou essa saída de revolução dentro da ordem existente e de saída capitalista para a crise. A Constituição foi promulgada pela Assembleia Nacional Constituinte em 5 de outubro de 1988. (Fernandes, Renúncia ou destituição, texto único; Assembleia Nacional Constituinte, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988, preâmbulo e fecho)

No Brasil

Reforma e revolução no Brasil

Em janeiro de 1988, Florestan Fernandes, deputado federal pelo PT de São Paulo, chamou de revolução dentro da ordem existente a saída por meio de uma Constituição moderna e avançada. A Constituição foi promulgada em 5 de outubro de 1988. (Assembleia Nacional Constituinte, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988, preâmbulo e fecho; Fernandes, Renúncia ou destituição, texto único)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (20)
  • FatoA Constituição da República Federativa do Brasil foi promulgada pela Assembleia Nacional Constituinte em 5 de outubro de 1988.Assembleia Nacional Constituinte, Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988, preâmbulo e fecho
  • Interpretação · Florestan FernandesUma das saídas para a crise consistia na revolução democrática através de uma Constituição moderna e avançada, o que, nesses termos, queria dizer revolução dentro da ordem existente, e envolvia eleição direta já, um presidente forte e um parlamento capaz de prestigiá-lo e vigiá-lo; era a saída capitalista para a crise.Fernandes, Renúncia ou destituição, texto único
  • FatoO artigo Renúncia ou destituição, publicado no Jornal do Brasil em 12 de janeiro de 1988, termina com a assinatura de Florestan Fernandes como deputado federal pelo PT de São Paulo.Fernandes, Renúncia ou destituição, assinatura do artigo
  • Interpretação · Florestan FernandesEnquanto a guerra civil é latente, a transformação revolucionária se equaciona dentro da ordem, como um processo de alargamento e aperfeiçoamento da sociedade burguesa pela ação coletiva do proletariado; contra a ordem, ela envolve primeiro a conquista do poder e depois a formação de uma sociedade sem classes.Fernandes, O que é revolução?, p. 40
  • Interpretação · Florestan FernandesA revolução dentro da ordem é instrumental e conjuntural para o proletariado, e um partido proletário não pode tratar a revolução nacional como etapa necessária e prévia da revolução proletária.Fernandes, O que é revolução?, p. 71
  • Interpretação · Florestan FernandesAs classes burguesas da periferia não se propõem às tarefas da revolução nacional e democrática, e as classes trabalhadoras têm de definir por si próprias o eixo dessa revolução; o envolvimento das classes trabalhadoras no aprofundamento da revolução dentro da ordem tem consequências socializadoras de importância estratégica.Fernandes, O que é revolução?, pp. 32 e 33
  • Interpretação · Florestan FernandesA conversão da revolução dentro da ordem em revolução contra a ordem não nasce de qualquer espontaneísmo operário e precisa ser visada de modo explícito, com a luta de classes orientada de forma planejada.Fernandes, O que é revolução?, p. 62
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninOs marxistas russos iam à frente na utilização prática das reformas e da luta por elas, como nas eleições para a Duma pela cúria operária, nas intervenções dos deputados, nos jornais operários, no uso da reforma do seguro e no sindicato dos metalúrgicos.Lênin, Marxismo e reformismo, § 13
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninOs marxistas, diferentemente dos anarquistas, reconhecem a luta por reformas, isto é, por melhorias na situação dos trabalhadores que deixam o poder nas mãos da classe dominante, mas travam a luta mais enérgica contra os reformistas, que limitam as aspirações e a atividade da classe operária às reformas.Lênin, Marxismo e reformismo, § 1
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninOs operários que tomaram consciência de que a escravidão assalariada é inevitável enquanto se conservar a dominação do capital lutam por melhorias e as utilizam para continuar uma luta mais tenaz contra a escravidão assalariada.Lênin, Marxismo e reformismo, § 3
  • Interpretação · Rosa LuxemburgoA teoria de Bernstein visa conduzir ao abandono do objetivo último da social-democracia, a revolução social, e fazer da reforma social, simples meio da luta de classes, o seu fim último; Bernstein exprimiu essa opinião ao escrever que o objetivo final não é nada e o movimento é tudo.Luxemburgo, Reforma social ou revolução?, prefácio, § 2
  • Interpretação · Rosa LuxemburgoEm cada época, a constituição legal é um simples resultado da revolução, e o trabalho legal das reformas só se realiza na direção que lhe foi dada pela última revolução e no quadro da forma social que ela originou.Luxemburgo, Reforma social ou revolução?, parte II, cap. 3, § 7
  • Interpretação · Rosa LuxemburgoÉ inexato e contrário à verdade histórica apresentar o trabalho de reforma como uma revolução diluída no tempo e a revolução como uma reforma condensada; revolução social e reforma legal se distinguem pelo conteúdo.Luxemburgo, Reforma social ou revolução?, parte II, cap. 3, § 8
  • Interpretação · Rosa LuxemburgoA democracia é necessária porque criou formas políticas, como a autoadministração e o direito de voto, que servem ao proletariado de apoio na sua luta, e porque é lutando pela democracia e exercendo os seus direitos que o proletariado toma consciência dos seus interesses de classe; ela torna a conquista do poder político pelo proletariado necessária e possível.Luxemburgo, Reforma social ou revolução?, parte II, cap. 3, §§ 23 e 24
  • Interpretação · Rosa LuxemburgoA reforma legal e a revolução não são métodos diferentes do progresso histórico que se possam escolher à vontade, como quem escolhe salsichas ou carnes frias para o almoço, mas fatores diferentes da evolução da sociedade de classes, que se condicionam e se completam reciprocamente.Luxemburgo, Reforma social ou revolução?, parte II, cap. 3, § 6
  • Interpretação · Rosa LuxemburgoPara a social-democracia, a luta cotidiana pelas reformas sociais, pela melhoria da situação dos trabalhadores no âmbito da ordem social dominante e por instituições democráticas é o único meio de promover a luta da classe proletária e de avançar rumo ao objetivo final, a conquista do poder político e a abolição do sistema salarial; entre a reforma social e a revolução há um vínculo indissolúvel, e a luta pelas reformas é o meio e a revolução social, o fim.Luxemburgo, Reforma social ou revolução?, prefácio, § 1
  • Interpretação · Rosa LuxemburgoO objetivo final do socialismo é o único elemento decisivo que distingue o movimento socialista da democracia burguesa e do radicalismo burguês.Luxemburgo, Reforma social ou revolução?, prefácio, § 3
  • Interpretação · Rosa LuxemburgoA corrente oportunista no interior do partido encontrou, graças a Bernstein, a sua formulação teórica.Luxemburgo, Reforma social ou revolução?, prefácio, § 6
  • Interpretação · Rosa LuxemburgoQuem se pronuncia a favor da reforma legal, em vez da conquista do poder político e da revolução social, tem um objetivo diferente, porque em vez de edificar uma sociedade nova se contenta com modificações da sociedade anterior; o revisionismo não procura abolir o sistema do salariado, mas atenuar a exploração, e quer suprimir os abusos do capitalismo, mas não o capitalismo.Luxemburgo, Reforma social ou revolução?, parte II, cap. 3, § 9
  • FatoA primeira parte de Reforma ou revolução? foi escrita entre 1898 e 1899, segundo a ficha da página do MIA, que transcreve a 4.ª edição da Estampa (1970), na tradução de Manuel Augusto Araújo.Luxemburgo, Reforma social ou revolução?, ficha da página

Fontes desta página

  1. LUXEMBURGO, Rosa. Reforma social ou revolução? Trad. Manuel Augusto Araújo. Editorial Estampa (Clássicos de Bolso), 1970. Abrir ↗
  2. LÊNIN, Vladímir Ilitch. Marxismo e reformismo. 1913. Abrir ↗
  3. FERNANDES, Florestan. O que é revolução? 1981. Abrir ↗
  4. FERNANDES, Florestan. Renúncia ou destituição. Rio de Janeiro: Jornal do Brasil, 12 de janeiro de 1988, 1988. Abrir ↗
  5. Assembleia Nacional Constituinte. Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988. planalto.gov.br, 05/10/1988. Abrir ↗
  6. Florestan Fernandes. Renúncia ou destituição (Jornal do Brasil, 12 de janeiro de 1988). marxists.org, 12/01/1988. Abrir ↗
  7. Florestan Fernandes. O que é revolução? (1981; na cartilha Realidade brasileira da Fundação Perseu Abramo e do MAB). marxists.org. Abrir ↗
  8. Vladímir Ilitch Lênin. Marxismo e reformismo (Pravda Trudá, n. 2, 12 de setembro de 1913), com a ficha da edição da Avante!, no MIA. marxists.org, 12/09/1913. Abrir ↗
  9. Rosa Luxemburgo. Reforma ou revolução? (índice e ficha da edição da Estampa), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  10. Rosa Luxemburgo. Reforma ou revolução?, parte II, caps. 3 e 4, no MIA. marxists.org. Abrir ↗