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Conceitos / Estratégia e organização / Correlação de forças

Frente única

Em poucas palavras

Frente única é a unidade de ação dos trabalhadores de partidos e organizações diferentes contra o capital, com o partido comunista mantendo a sua independência e o direito de criticar. A Internacional Comunista formulou a tática em teses de dezembro de 1921, revistas por Lênin. Em 1935, Dimitrov propôs a frente popular antifascista, que ampliava a aliança aos camponeses e à pequena burguesia.

Eixo e tema
Estratégia e organização · Correlação de forças
Obra principal
A luta pela unidade da classe operária contra o fascismo (informe ao VII Congresso da Internacional Comunista), de Georgi Dimitrov

Explicação

Unidade de ação

Na linguagem da Internacional Comunista, frente única quer dizer unidade de ação do proletariado, no plano nacional e no internacional, contra o capital. Em 1935, no informe ao VII Congresso da Internacional, Georgi Dimitrov escreveu que essa unidade é necessária mesmo antes de a maioria da classe operária estar unida na luta pelo fim do capitalismo. Para ele, a defesa dos interesses econômicos e políticos imediatos dos trabalhadores é o ponto de partida e o conteúdo principal da frente única. (Dimitrov, A luta pela unidade da classe operária contra o fascismo, cap. II, “A importância da frente única”, § 6, “Os principais argumentos dos adversários da frente única”, § 14, e “Conteúdo e formas da frente única”, § 2)

Como a tática nasceu

Em 1920, Lênin propôs aos comunistas ingleses um acordo eleitoral com os dirigentes do Partido Trabalhista contra a aliança do primeiro-ministro Lloyd George com os conservadores. A condição era manter a liberdade mais completa de agitação e de propaganda, porque a maioria dos operários ainda seguia os trabalhistas e precisava conhecer na prática um governo deles. Segundo Lênin, a mudança de opinião da maioria da classe operária se consegue pela experiência política das massas, nunca só com propaganda. (Lênin, Esquerdismo, doença infantil do comunismo, cap. IX, §§ 10, 26 e 29)

Em 6 de dezembro de 1921, Lênin escreveu a Zinoviev que tinha lido o rascunho das teses sobre a frente única e não tinha objeções. Nas teses, o Comitê Executivo da Internacional Comunista decidiu apoiar a palavra de ordem da frente única operária e tomar a iniciativa dela, e pediu que a tática fosse adaptada às condições de cada país. O texto incluía todos os trabalhadores dispostos a lutar contra o capitalismo, inclusive os que ainda seguiam anarquistas e sindicalistas. (Vladímir Ilitch Lênin, Remarks to the Theses on a United Front, nota a Zinoviev de 6 de dezembro de 1921, §§ 1 e 2; Comitê Executivo da Internacional Comunista, Theses on the United Front, teses 8 e 23)

Em 1926, nas Teses de Lyon, Antonio Gramsci e Palmiro Togliatti chamaram de parte positiva da tática da frente única a tarefa de unificar as forças do proletariado. Eles pediram aos comunistas que se aproximassem dos operários de outros partidos e dos sem partido, superando a hostilidade deles, como construtores da unidade da classe. (Gramsci e Togliatti, A situação da Itália e as tarefas do Partido Comunista Italiano, tese 40, § 1)

Independência dentro da frente

As teses puseram como condição categórica a autonomia absoluta e a independência completa de cada partido comunista que entrasse num acordo, com liberdade para expor as suas posições e criticar os aliados, inclusive durante a ação. O mesmo texto alertava para o risco de dissolver os partidos comunistas num bloco sem forma. Dimitrov repetiu em 1935 que os comunistas não podem renunciar nem um minuto à sua tarefa própria de educação e organização das massas, enquanto cumprem lealmente os acordos de ação comum. (Comitê Executivo da Internacional Comunista, Theses on the United Front, teses 18 e 21; Dimitrov, A luta pela unidade da classe operária contra o fascismo, cap. II, “Conteúdo e formas da frente única”, § 10)

Na China, durante a resistência à invasão japonesa, Mao Tsé-tung defendeu em 1938 que cada partido e cada classe conservassem a sua independência e autonomia dentro da frente única. Sem isso, escreveu ele, a cooperação vira amálgama, isto é, mistura sem diferença, e a própria frente é sacrificada. (Mao, A questão da independência e autonomia no seio da frente única, § 2)

Classe contra classe e frente popular

Em 1929, o Partido Comunista da Grã-Bretanha disputou as eleições com o manifesto Classe contra classe, que chamava o Partido Trabalhista de terceiro partido capitalista. O texto dizia que a política, adotada antes de 1924, de ajudar os trabalhistas a chegar ao governo enquanto se criticavam os seus chefes já não era possível. (Partido Comunista da Grã-Bretanha, Class Against Class, §§ 11 e 14)

Em 1935, Dimitrov reconheceu que, depois do VI Congresso da Internacional, os partidos comunistas combateram pouco o sectarismo, que exagerava a maturidade revolucionária das massas e trocava a política de frente única por apelos e propaganda abstrata. Ele propôs então uma ampla frente popular antifascista sobre a base da frente única operária, com a aliança entre o proletariado, os camponeses trabalhadores e a pequena burguesia das cidades. Para Dimitrov, o decisivo era a defesa, pelo proletariado, das reivindicações desses setores. (Dimitrov, A luta pela unidade da classe operária contra o fascismo, cap. III, “O fortalecimento dos partidos comunistas”, §§ 5 e 8; cap. II, “A frente popular antifascista”, §§ 1 e 4)

Um exemplo brasileiro

A Aliança Nacional Libertadora, a ANL, foi lançada em 30 de março de 1935, no Rio de Janeiro, como uma ampla frente de setores da sociedade brasileira, e o governo de Getúlio Vargas a fechou por decreto em 11 de julho daquele ano. Anita Leocadia Prestes chama a ANL de maior frente única já formada no Brasil e afirma que ela levantou o programa anti-imperialista, antilatifundista e antifascista proposto pelo Partido Comunista do Brasil, com o apoio da Internacional Comunista. No mesmo ano, Dimitrov escreveu que os comunistas brasileiros, com a criação da ANL, tinham estabelecido um princípio acertado para a frente única anti-imperialista e deviam ampliá-la aos camponeses. (Prestes, 70 anos da Aliança Nacional Libertadora, pp. 101, 104, 106 e 112; Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 27; Dimitrov, A luta pela unidade da classe operária contra o fascismo, cap. II, “A frente única anti-imperialista”, § 4)

Para Anita Prestes, a ANL ajudou a formar no Brasil uma consciência antifascista, anti-imperialista e antilatifundista. Ela avalia, porém, que os comunistas cometeram um erro de avaliação ao tratar a situação do país como revolucionária e superestimaram a capacidade de organização e de mobilização das massas, o que levou à derrota do movimento. (Prestes, 70 anos da Aliança Nacional Libertadora, pp. 117 e 118)

No Brasil

Frente única no Brasil

A Aliança Nacional Libertadora foi lançada em 30 de março de 1935 e fechada por decreto em 11 de julho do mesmo ano. Anita Leocadia Prestes a chama de maior frente única já formada no Brasil. (Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 27; Prestes, 70 anos da Aliança Nacional Libertadora, pp. 101, 104 e 112)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • DIMITROV, Georgi. A luta pela unidade da classe operária contra o fascismo (informe ao VII Congresso da Internacional Comunista). 1935. Onde ler: caps. II e III.

    “A implantação da unidade de ação de todos os setores da classe operária, qualquer que seja o Partido ou organização a que pertençam, é necessária mesmo antes de se unificar a maioria da classe operária para a luta pela derrocada do capitalismo e pelo triunfo da revolução proletária.”

    cap. II, “A importância da frente única”, § 6

    Ler grátis: A luta pela unidade da classe operária contra o fascismo (informe ao VII Congresso da Internacional Comunista) ↗

Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (28)

Fontes desta página

  1. DIMITROV, Georgi. A luta pela unidade da classe operária contra o fascismo (informe ao VII Congresso da Internacional Comunista). 1935. Abrir ↗
  2. LÊNIN, Vladímir Ilitch. Esquerdismo, doença infantil do comunismo. 1920. Abrir ↗
  3. Vladímir Ilitch Lênin. Remarks to the Theses on a United Front, nota a Zinoviev de 6 de dezembro de 1921 (Collected Works, v. 42, p. 368, tradução de Bernard Isaacs), no MIA em inglês. marxists.org, 06/12/1921. Abrir ↗
  4. Comitê Executivo da Internacional Comunista. Theses on the United Front (apêndice às teses de tática do IV Congresso da Internacional Comunista; a página diz adotadas pelo Comitê Executivo em dezembro de 1922), no MIA em inglês. marxists.org. Abrir ↗
  5. GRAMSCI, Antonio; TOGLIATTI, Palmiro. A situação da Itália e as tarefas do Partido Comunista Italiano (Teses de Lyon). Trad. José Lindomar C. Albuquerque e Raul Patricio Gastelo e Danyelle Nilin Gonçalves e Eduardo Gomes Machado e Elda Maria Freire Maciel e Katherinne de Macêdo Maciel e Maria Cristina de Queiroz Nobre e Aécio Alves de Oliveira. LavraPalavra (publicação de 18 de dezembro de 2019, transcrita no MIA), 2019. Abrir ↗
  6. MAO, Tsé-tung. A questão da independência e autonomia no seio da frente única. 1938. Abrir ↗
  7. Partido Comunista da Grã-Bretanha. Class Against Class. General Election Programme of the Communist Party of Great Britain (1929), no MIA em inglês. marxists.org. Abrir ↗
  8. PRESTES, Anita Leocadia. 70 anos da Aliança Nacional Libertadora (ANL). Porto Alegre: Estudos Ibero-Americanos (PUCRS), v. 31, n. 1, pp. 101-120, 2005. Abrir ↗
  9. Arquivo Nacional. Os presidentes e a República: Deodoro da Fonseca a Dilma Rousseff, 3. ed. rev. e ampl. (2012). gov.br. Abrir ↗
  10. Anita Leocadia Prestes. 70 anos da Aliança Nacional Libertadora (ANL) (Estudos Ibero-Americanos, v. 31, n. 1, 2005). redalyc.org. Abrir ↗
  11. Georgi Dimitrov. A luta pela unidade da classe operária contra o fascismo, cap. II. A frente única da classe operária contra o fascismo, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  12. Georgi Dimitrov. A luta pela unidade da classe operária contra o fascismo (índice e ficha), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  13. Georgi Dimitrov. A luta pela unidade da classe operária contra o fascismo, cap. III. O fortalecimento dos partidos comunistas e a luta pela unidade política do proletariado, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  14. Vladímir Ilitch Lênin. A doença infantil do esquerdismo no comunismo, cap. IX. O comunismo «de esquerda» na Inglaterra, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  15. Antonio Gramsci e Palmiro Togliatti. A situação da Itália e as tarefas do PCI (Teses de Lyon, 1926), tradução publicada no LavraPalavra, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  16. Mao Tsé-tung. A questão da independência e autonomia no seio da frente única (1938; Obras escolhidas, Pequim, 1975), no MIA. marxists.org. Abrir ↗