Explicação
Unidade de ação
Na linguagem da Internacional Comunista, frente única quer dizer unidade de ação do proletariado, no plano nacional e no internacional, contra o capital. Em 1935, no informe ao VII Congresso da Internacional, Georgi Dimitrov escreveu que essa unidade é necessária mesmo antes de a maioria da classe operária estar unida na luta pelo fim do capitalismo. Para ele, a defesa dos interesses econômicos e políticos imediatos dos trabalhadores é o ponto de partida e o conteúdo principal da frente única. (Dimitrov, A luta pela unidade da classe operária contra o fascismo, cap. II, “A importância da frente única”, § 6, “Os principais argumentos dos adversários da frente única”, § 14, e “Conteúdo e formas da frente única”, § 2)
Como a tática nasceu
Em 1920, Lênin propôs aos comunistas ingleses um acordo eleitoral com os dirigentes do Partido Trabalhista contra a aliança do primeiro-ministro Lloyd George com os conservadores. A condição era manter a liberdade mais completa de agitação e de propaganda, porque a maioria dos operários ainda seguia os trabalhistas e precisava conhecer na prática um governo deles. Segundo Lênin, a mudança de opinião da maioria da classe operária se consegue pela experiência política das massas, nunca só com propaganda. (Lênin, Esquerdismo, doença infantil do comunismo, cap. IX, §§ 10, 26 e 29)
Em 6 de dezembro de 1921, Lênin escreveu a Zinoviev que tinha lido o rascunho das teses sobre a frente única e não tinha objeções. Nas teses, o Comitê Executivo da Internacional Comunista decidiu apoiar a palavra de ordem da frente única operária e tomar a iniciativa dela, e pediu que a tática fosse adaptada às condições de cada país. O texto incluía todos os trabalhadores dispostos a lutar contra o capitalismo, inclusive os que ainda seguiam anarquistas e sindicalistas. (Vladímir Ilitch Lênin, Remarks to the Theses on a United Front, nota a Zinoviev de 6 de dezembro de 1921, §§ 1 e 2; Comitê Executivo da Internacional Comunista, Theses on the United Front, teses 8 e 23)
Em 1926, nas Teses de Lyon, Antonio Gramsci e Palmiro Togliatti chamaram de parte positiva da tática da frente única a tarefa de unificar as forças do proletariado. Eles pediram aos comunistas que se aproximassem dos operários de outros partidos e dos sem partido, superando a hostilidade deles, como construtores da unidade da classe. (Gramsci e Togliatti, A situação da Itália e as tarefas do Partido Comunista Italiano, tese 40, § 1)
Independência dentro da frente
As teses puseram como condição categórica a autonomia absoluta e a independência completa de cada partido comunista que entrasse num acordo, com liberdade para expor as suas posições e criticar os aliados, inclusive durante a ação. O mesmo texto alertava para o risco de dissolver os partidos comunistas num bloco sem forma. Dimitrov repetiu em 1935 que os comunistas não podem renunciar nem um minuto à sua tarefa própria de educação e organização das massas, enquanto cumprem lealmente os acordos de ação comum. (Comitê Executivo da Internacional Comunista, Theses on the United Front, teses 18 e 21; Dimitrov, A luta pela unidade da classe operária contra o fascismo, cap. II, “Conteúdo e formas da frente única”, § 10)
Na China, durante a resistência à invasão japonesa, Mao Tsé-tung defendeu em 1938 que cada partido e cada classe conservassem a sua independência e autonomia dentro da frente única. Sem isso, escreveu ele, a cooperação vira amálgama, isto é, mistura sem diferença, e a própria frente é sacrificada. (Mao, A questão da independência e autonomia no seio da frente única, § 2)
Classe contra classe e frente popular
Em 1929, o Partido Comunista da Grã-Bretanha disputou as eleições com o manifesto Classe contra classe, que chamava o Partido Trabalhista de terceiro partido capitalista. O texto dizia que a política, adotada antes de 1924, de ajudar os trabalhistas a chegar ao governo enquanto se criticavam os seus chefes já não era possível. (Partido Comunista da Grã-Bretanha, Class Against Class, §§ 11 e 14)
Em 1935, Dimitrov reconheceu que, depois do VI Congresso da Internacional, os partidos comunistas combateram pouco o sectarismo, que exagerava a maturidade revolucionária das massas e trocava a política de frente única por apelos e propaganda abstrata. Ele propôs então uma ampla frente popular antifascista sobre a base da frente única operária, com a aliança entre o proletariado, os camponeses trabalhadores e a pequena burguesia das cidades. Para Dimitrov, o decisivo era a defesa, pelo proletariado, das reivindicações desses setores. (Dimitrov, A luta pela unidade da classe operária contra o fascismo, cap. III, “O fortalecimento dos partidos comunistas”, §§ 5 e 8; cap. II, “A frente popular antifascista”, §§ 1 e 4)
Um exemplo brasileiro
A Aliança Nacional Libertadora, a ANL, foi lançada em 30 de março de 1935, no Rio de Janeiro, como uma ampla frente de setores da sociedade brasileira, e o governo de Getúlio Vargas a fechou por decreto em 11 de julho daquele ano. Anita Leocadia Prestes chama a ANL de maior frente única já formada no Brasil e afirma que ela levantou o programa anti-imperialista, antilatifundista e antifascista proposto pelo Partido Comunista do Brasil, com o apoio da Internacional Comunista. No mesmo ano, Dimitrov escreveu que os comunistas brasileiros, com a criação da ANL, tinham estabelecido um princípio acertado para a frente única anti-imperialista e deviam ampliá-la aos camponeses. (Prestes, 70 anos da Aliança Nacional Libertadora, pp. 101, 104, 106 e 112; Arquivo Nacional, Os presidentes e a República, p. 27; Dimitrov, A luta pela unidade da classe operária contra o fascismo, cap. II, “A frente única anti-imperialista”, § 4)
Para Anita Prestes, a ANL ajudou a formar no Brasil uma consciência antifascista, anti-imperialista e antilatifundista. Ela avalia, porém, que os comunistas cometeram um erro de avaliação ao tratar a situação do país como revolucionária e superestimaram a capacidade de organização e de mobilização das massas, o que levou à derrota do movimento. (Prestes, 70 anos da Aliança Nacional Libertadora, pp. 117 e 118)