Explicação
O que é dependência
Ruy Mauro Marini escreveu em 1973 que a dependência é uma relação de subordinação entre nações formalmente independentes. Dentro dessa relação, as relações de produção do país subordinado são modificadas ou recriadas para garantir que a própria dependência se reproduza em escala cada vez maior. Por isso, para Marini, o fruto da dependência só pode ser mais dependência, e acabar com ela exige suprimir as relações de produção que ela envolve. Ele separa essa situação da situação colonial, porque, embora uma venha da outra, as duas não são iguais. (Marini, Dialética da dependência, pp. 9 e 10)
Lênin já tinha registrado, em 1916, que a época do imperialismo cria formas variadas de países dependentes, que têm independência política formal mas vivem presos nas malhas da dependência financeira e diplomática. O exemplo dele era a Argentina, tão dependente de Londres que, segundo um autor citado por Lênin, quase podia ser chamada de colônia comercial inglesa. (Lênin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, cap. VI, §§ 25 e 26)
Como a América Latina entrou no mercado mundial
Segundo Marini, depois da independência os novos países latino-americanos passaram a girar em torno da Inglaterra, produzindo e exportando bens primários em troca de manufaturas de consumo. A região forneceu alimentos e matérias-primas que permitiram aos países industriais apoiar a acumulação na mais-valia relativa, isto é, no aumento da capacidade produtiva do trabalho, que reduz o valor da força de trabalho. Mas, para Marini, a produção latino-americana que ajudou nessa mudança se fez com base numa exploração maior do trabalhador. (Marini, Dialética da dependência, pp. 8, 9, 12 e 14)
Marini argumenta que, no comércio com os países industriais, a nação dependente transfere valor e perde parte da mais-valia produzida dentro dela. Como não consegue evitar essa perda no mercado, a economia dependente a compensa na produção interna, explorando mais o trabalhador, o que ele chamou de superexploração do trabalho. No pós-escrito ao ensaio, Marini concluiu que o fundamento da dependência é a superexploração. (Marini, Dialética da dependência, pp. 26 e 79)
A dependência no Brasil
Marini usa o Brasil para mostrar como a dívida externa passou a transferir para a metrópole parte do excedente obtido na América Latina. Segundo os dados que ele reúne, o serviço da dívida brasileira subiu de 50% do saldo da balança comercial, na década de 1860, para 99% na década seguinte. Entre 1902 e 1913, as exportações cresceram 79,6% e a dívida externa cresceu 144,6%, chegando em 1913 a 60% do gasto público total. (Marini, Dialética da dependência, p. 9, nota 3)
Vânia Bambirra escreveu em 1986 que a criação de uma indústria de bens de produção em países como México, Brasil e Argentina não levou à independência econômica e política e, ao contrário, aprofundou a dependência. Para ela, a partir de certo momento as máquinas do parque industrial chegaram como investimento direto de capital estrangeiro, o que explica a desnacionalização dos meios de produção depois da Segunda Guerra. Bambirra concluía que as classes dominantes latino-americanas são ao mesmo tempo dominadas e não têm um projeto próprio de desenvolvimento nacional. (Bambirra, O capitalismo dependente latino-americano e sua teoria crítica, §§ 7, 17 e 20 da página do MIA)
Theotonio dos Santos escreveu que o golpe de 1964 fechou o caminho nacional e democrático e pôs o Brasil no rumo do desenvolvimento dependente, apoiado no capital internacional. Ele lembra a fórmula do general Juracy Magalhães, ministro das Relações Exteriores do regime militar, segundo a qual o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil. (Santos, A teoria da dependência, p. 18)
A polêmica com Fernando Henrique Cardoso
Fernando Henrique Cardoso, que Theotonio dos Santos conta entre os autores que deram origem à teoria da dependência, entra aqui como contraponto declarado, de fora da tradição marxista-leninista. Segundo Theotonio dos Santos, desde 1974 Cardoso aceitava que o desenvolvimento dependente era irreversível e podia conviver com a democracia representativa. Em 1978, Cardoso e José Serra escreveram uma crítica a Marini cujo último capítulo punha entre aspas a teoria da superexploração do trabalho. (Santos, A teoria da dependência, pp. 4 e 19; Marini, As razões do neodesenvolvimentismo, p. 2)
Marini respondeu no mesmo ano que o texto dos dois deformava as suas teses e repetia a confusão entre superexploração e mais-valia absoluta, que é o aumento da exploração pelo prolongamento da jornada. Para ele, a ditadura militar viabilizou a tendência do capitalismo brasileiro de fixar o salário real abaixo do valor da força de trabalho, usando a contenção salarial e a repressão. (Marini, As razões do neodesenvolvimentismo, pp. 2, 52 e 59)