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Conceitos / Estratégia e organização / Hegemonia

Revolução passiva

Em poucas palavras

Revolução passiva, para Gramsci, é a mudança feita pelo alto, em que as classes dominantes reagem à pressão de baixo, atendem parte das reivindicações e conservam o essencial da velha ordem. Coutinho a resume como restauração e renovação ao mesmo tempo, um reformismo pelo alto. Coutinho, Werneck Vianna e Florestan Fernandes discutem se ela explica a formação do Brasil.

Eixo e tema
Estratégia e organização · Hegemonia
Obra principal
Cadernos do cárcere, de Antonio Gramsci

Explicação

Uma revolução feita por cima

Antonio Gramsci tomou a expressão revolução passiva do historiador napolitano Vincenzo Cuoco, que a usou para a revolução de Nápoles de 1799, mas avisa que nos Cadernos do cárcere o conceito foi completamente modificado e enriquecido. Para Gramsci, ele deve ser deduzido de dois princípios da política. Nenhuma formação social desaparece enquanto as forças produtivas que se desenvolveram nela ainda têm espaço para avançar, e nenhuma sociedade se propõe tarefas para as quais ainda não existam as condições necessárias. (Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 15, § 17, seção 12, §§ 1 e 2; Coutinho, A época neoliberal, § 3)

O exemplo de Gramsci é o Risorgimento, a formação do Estado burguês moderno na Itália. Nele, Cavour representou a revolução passiva e a guerra de posição, e Mazzini, a iniciativa popular e a guerra de movimento. Gramsci observa que elementos do Partido da Ação, ligado a Mazzini, passaram aos poucos para o lado de Cavour, e que mudanças moleculares como essa alteraram a composição das forças. Para ele, a revolução passiva, ou revolução-restauração, consiste justamente em que a tese, o grupo dominante, desenvolve todas as suas possibilidades até incorporar uma parte da sua própria antítese. (Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 15, § 11, seção 12, §§ 4 e 5; Coutinho, A época neoliberal, § 3)

Restauração e renovação

Carlos Nelson Coutinho resume os traços da revolução passiva segundo Gramsci. As classes dominantes reagem às pressões das classes subalternas, que ainda não estão organizadas para uma revolução jacobina, isto é, uma revolução popular feita de baixo, mas já conseguem impor mudanças de comportamento a quem está em cima. A reação busca conservar os fundamentos da velha ordem, mas acolhe uma parte das reivindicações de baixo, e por isso há nela restauração e renovação ao mesmo tempo. Coutinho conclui que a revolução passiva se distingue da contrarrevolução e funciona como um reformismo pelo alto. (Coutinho, A época neoliberal, §§ 5, 7 e 15)

Uma consequência apontada por Coutinho é o transformismo, a cooptação dos dirigentes políticos e culturais das classes subalternas, que assim ficam sem protagonismo nas mudanças. Jacob Gorender contrapõe a Revolução Francesa, radical e vinda de baixo, à revolução italiana, uma revolução de cima, passiva, feita pela burguesia por meio do Estado do Piemonte. Alvaro Bianchi aproxima a revolução passiva do que chama de hegemonia restrita, exercida quando a classe dominante já perdeu a capacidade de assimilar as classes subalternas ao seu projeto. (Coutinho, A época neoliberal, § 35; Gorender, Coerção e consenso na política, § 35; Bianchi, Estratégia do contratempo, p. 20)

Via prussiana e revolução burguesa

Em 1907, Lênin descreveu dois caminhos do capitalismo no campo. No caminho prussiano, as grandes propriedades feudais se transformam lentamente em empresas capitalistas, sob o domínio dos latifundiários; no caminho norte-americano, o velho regime da terra é destruído em benefício da massa camponesa. Coutinho lembra que a via prussiana de Lênin e a revolução passiva de Gramsci são os dois conceitos marxistas para as transições ao capitalismo que não seguiram o modelo clássico das revoluções inglesa e francesa. (Lênin, O programa agrário da social-democracia na primeira revolução russa de 1905-1907, §§ 4 a 6; Coutinho, Marxismo e "imagem do Brasil" em Florestan Fernandes, § 5)

Coutinho discute também a leitura de Florestan Fernandes, para quem não existe um modelo único de revolução burguesa e a peculiaridade brasileira vem sobretudo da dependência, primeiro do colonialismo e depois do imperialismo. Coutinho concorda em parte e objeta que a dependência não explica tudo, porque a Alemanha e o Japão também seguiram vias não clássicas sem serem países dependentes. Para Coutinho, o fator decisivo, já em Lênin, é interno e está no modo como o capitalismo resolve a questão agrária, conservando a grande propriedade e introduzindo pelo alto as relações capitalistas. (Coutinho, Marxismo e "imagem do Brasil" em Florestan Fernandes, §§ 10 a 12)

O Brasil e a revolução passiva

Luiz Werneck Vianna lê a Independência como uma revolução sem revolução, obra de um Piemonte sem rivais, cujo Estado invocou o liberalismo e ao mesmo tempo intensificou a escravidão. Werneck Vianna declara a sua posição no mesmo artigo e defende que a esquerda atue dentro da revolução passiva brasileira por meio da democracia e de rupturas moleculares, numa política de erosão gradual do poder autoritário, sem enfrentamento direto. Ele liga essa linha à Declaração de Março de 1958, do PCB, e propõe que ela se converta em base de um transformismo ativo. (Vianna, Caminhos e descaminhos da revolução passiva à brasileira, §§ 4, 21, 28 e 32)

Um exemplo brasileiro

Em 24 de outubro de 1930, generais lotados no Distrito Federal depuseram o presidente Washington Luís. Para Coutinho, em outubro de 1930 as classes dominantes brasileiras promoveram uma revolução passiva, pelo alto, sem participação popular significativa, em que os militares tiveram papel importante, mas secundário. (Jorge Miguel Mayer (CPDOC/FGV), LUÍS, Washington, seção As eleições presidenciais e a Revolução de 1930; Coutinho, Gramsci e o Sul do mundo, PDF, p. 4)

No Brasil

Revolução passiva no Brasil

Em 24 de outubro de 1930, generais depuseram o presidente Washington Luís. Para Carlos Nelson Coutinho, as classes dominantes promoveram em outubro de 1930 uma revolução passiva, pelo alto, sem participação popular significativa. (Jorge Miguel Mayer (CPDOC/FGV), LUÍS, Washington, seção As eleições presidenciais e a Revolução de 1930; Coutinho, Gramsci e o Sul do mundo, PDF, p. 4)

Confusões comuns

Para se aprofundar

Principal
  • GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Trad. Jean Bramon e Gilbert Moget e Armand Monjo e François Ricci e André Tosel. Paris: Éditions sociales (Textes, edição e seleção de André Tosel; trechos dos Cadernos em francês, na edição eletrônica de Les Classiques des sciences sociales transcrita no MIA, com a referência de cada trecho à edição crítica de Gerratana), 1983. Onde ler: Q 15, §§ 11 e 17 (tradução de Tosel).

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Complementar
De onde vem cada afirmação desta página (20)
  • FatoEm 24 de outubro de 1930, generais lotados no Distrito Federal depuseram Washington Luís, que deixou o palácio Guanabara como prisioneiro.Jorge Miguel Mayer (CPDOC/FGV), LUÍS, Washington, seção As eleições presidenciais e a Revolução de 1930
  • Interpretação · Alvaro BianchiQuando a burguesia já perdeu a capacidade de assimilar ao seu projeto os grupos subalternos, a hegemonia é a de uma fração das classes dominantes sobre o conjunto delas, por meio do Estado; é uma hegemonia restrita, ou, no léxico gramsciano, uma revolução passiva.Bianchi, Estratégia do contratempo, p. 20
  • Interpretação · Carlos Nelson CoutinhoEm outubro de 1930, as classes dominantes brasileiras promoveram uma revolução passiva, pelo alto, sem nenhuma participação popular significativa, e os militares tiveram nela um papel importante, mas essencialmente secundário.Coutinho, Gramsci e o Sul do mundo, PDF, p. 4
  • Interpretação · Carlos Nelson CoutinhoGramsci recolhe o termo revolução passiva do historiador napolitano Vincenzo Cuoco, atribuindo-lhe um novo conteúdo, e o usa inicialmente para analisar o Risorgimento, isto é, a formação do Estado burguês moderno na Itália.Coutinho, A época neoliberal, § 3
  • Interpretação · Carlos Nelson CoutinhoNa tradição marxista há dois conceitos para as transições não clássicas ao capitalismo, que não seguiram o paradigma das revoluções inglesas do século XVII e da Revolução Francesa, a via prussiana de Lênin, que conserva sobrevivências pré-capitalistas no campo, e a revolução passiva de Gramsci, modernização promovida pelo alto, em que a conciliação entre frações das classes dominantes afasta a participação das massas populares.Coutinho, Marxismo e "imagem do Brasil" em Florestan Fernandes, § 5
  • Interpretação · Carlos Nelson CoutinhoAo contrário de uma revolução popular, jacobina, feita de baixo, a revolução passiva implica sempre dois momentos, o da restauração, reação conservadora à possibilidade de uma transformação radical vinda de baixo, e o da renovação, em que algumas demandas populares são satisfeitas pelo alto, por meio de concessões das camadas dominantes.Coutinho, A época neoliberal, § 5
  • Interpretação · Carlos Nelson CoutinhoFlorestan Fernandes afirma que não existe um único modelo democrático-burguês de transformação capitalista e explica a peculiaridade da revolução burguesa no Brasil sobretudo pela dependência, primeiro do colonialismo e depois do que chama de imperialismo total.Coutinho, Marxismo e "imagem do Brasil" em Florestan Fernandes, §§ 10 e 11
  • Interpretação · Carlos Nelson CoutinhoA dependência não explica tudo, porque a Alemanha e o Japão, que não eram dependentes, seguiram vias não clássicas; para Lênin, o fator decisivo é interno e está no modo como o capitalismo resolve a questão agrária, e o caminho não clássico ocorre quando a grande propriedade e a velha classe latifundiária se conservam e introduzem pelo alto as novas relações capitalistas.Coutinho, Marxismo e "imagem do Brasil" em Florestan Fernandes, § 12
  • Interpretação · Carlos Nelson CoutinhoO aspecto restaurador não anula as modificações efetivas; a revolução passiva não é sinônimo de contrarrevolução nem de contrarreforma, e nela estamos diante de um reformismo pelo alto.Coutinho, A época neoliberal, § 7
  • Interpretação · Carlos Nelson CoutinhoNa revolução passiva, as classes dominantes reagem a pressões das classes subalternas ainda não organizadas para uma revolução jacobina, mas já capazes de impor um novo comportamento a quem domina; a reação busca conservar os fundamentos da velha ordem, mas acolhe uma parte das reivindicações de baixo e introduz modificações que abrem caminho a novas modificações.Coutinho, A época neoliberal, § 15
  • Interpretação · Carlos Nelson CoutinhoUma consequência da revolução passiva é o transformismo, que, por meio da cooptação das lideranças políticas e culturais das classes subalternas, busca excluí-las de todo protagonismo efetivo nos processos de transformação social.Coutinho, A época neoliberal, § 35
  • Interpretação · Jacob GorenderGramsci se apoiou na historiografia de duas revoluções, a Francesa, muito radical e vinda de baixo, e a Italiana, uma revolução de cima, passiva, realizada mais por um ato da classe burguesa por meio de um Estado italiano, o do Piemonte.Gorender, Coerção e consenso na política, § 35
  • Interpretação · Antonio GramsciA tese desenvolve todas as suas possibilidades de luta até se apoderar dos supostos representantes da antítese, e é nisso que consiste a revolução passiva ou revolução-restauração.Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 15, § 11, seção 12, § 5
  • Interpretação · Antonio GramsciNa luta entre Cavour e Mazzini, Cavour é o representante da revolução passiva e da guerra de posição, e Mazzini, da iniciativa popular e da guerra de movimento; ao conceito de revolução passiva se aplica o critério das modificações moleculares, que mudam progressivamente a composição das forças, como a passagem ao cavourismo, depois de 1848, de elementos sempre novos do Partido da Ação.Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 15, § 11, seção 12, § 4
  • Interpretação · Antonio GramsciO ponto de partida do estudo é a exposição de Vincenzo Cuoco, mas a expressão de Cuoco sobre a revolução napolitana de 1799 é só um ponto de partida, porque o conceito foi completamente modificado e enriquecido.Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 15, § 17, seção 12, § 2
  • Interpretação · Antonio GramsciO conceito de revolução passiva deve ser deduzido rigorosamente de dois princípios fundamentais da ciência política, o de que nenhuma formação social desaparece enquanto as forças produtivas que nela se desenvolveram ainda encontram lugar para um movimento progressivo, e o de que a sociedade não se propõe tarefas para cuja solução ainda não tenham sido incubadas as condições necessárias.Gramsci, Cadernos do cárcere, Q 15, § 17, seção 12, § 1
  • Interpretação · Vladímir Ilitch LêninPode-se acabar com o regime da servidão pela lenta transformação das explorações feudais dos latifundiários em explorações burguesas de tipo junker, convertendo a massa camponesa em deserdados, e esse é o caminho que os latifundiários e Stolipin empreenderam; o outro caminho, que Lênin chama de norte-americano, à diferença do prussiano, destrói o velho regime de posse da terra em benefício da massa camponesa.Lênin, O programa agrário da social-democracia na primeira revolução russa de 1905-1907, §§ 4 a 6
  • Interpretação · Luiz Werneck ViannaA resistência à ditadura que abriu caminho à democracia foi a das rupturas moleculares, numa política de erosão, e não de enfrentamento direto, das bases do poder autoritário, a partir do binômio democracia política e democratização social que a Declaração de Março do PCB, de 1958, já identificara como estratégico.Vianna, Caminhos e descaminhos da revolução passiva à brasileira, §§ 21 e 28
  • Interpretação · Luiz Werneck ViannaA Independência foi uma revolução sem revolução, obra de um Piemonte sem rivais significativos, e o Estado que dela nasceu, invocando o liberalismo, intensificou a escravidão como suporte da restauração das estruturas econômicas herdadas da Colônia.Vianna, Caminhos e descaminhos da revolução passiva à brasileira, § 4
  • Interpretação · Luiz Werneck ViannaA democracia, como critério de interpretação da esquerda sobre a sua forma de inserção na revolução passiva à brasileira, ainda aguarda que a força emergente do social se encontre com a política para se converter na base de um transformismo ativo.Vianna, Caminhos e descaminhos da revolução passiva à brasileira, § 32

Fontes desta página

  1. GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Trad. Jean Bramon e Gilbert Moget e Armand Monjo e François Ricci e André Tosel. Paris: Éditions sociales (Textes, edição e seleção de André Tosel; trechos dos Cadernos em francês, na edição eletrônica de Les Classiques des sciences sociales transcrita no MIA, com a referência de cada trecho à edição crítica de Gerratana), 1983. Abrir ↗
  2. COUTINHO, Carlos Nelson. A época neoliberal: revolução passiva ou contra-reforma? 2007. Abrir ↗
  3. GORENDER, Jacob. Coerção e consenso na política. 1988. Abrir ↗
  4. BIANCHI, Alvaro. Estratégia do contratempo: notas para uma pesquisa sobre o conceito gramsciano de hegemonia. Campinas: Cadernos Cemarx (Centro de Estudos Marxistas, IFCH-Unicamp), n. 4, pp. 9-38, 2007. Abrir ↗
  5. LÊNIN, Vladímir Ilitch. O programa agrário da social-democracia na primeira revolução russa de 1905-1907. 1907. Abrir ↗
  6. COUTINHO, Carlos Nelson. Marxismo e "imagem do Brasil" em Florestan Fernandes. 2000. Abrir ↗
  7. VIANNA, Luiz Werneck. Caminhos e descaminhos da revolução passiva à brasileira. Rio de Janeiro: Dados: Revista de Ciências Sociais (IUPERJ), v. 39, n. 3, 1996. Abrir ↗
  8. Jorge Miguel Mayer (CPDOC/FGV). LUÍS, Washington (verbete do Dicionário da Primeira República). cpdoc.fgv.br. Abrir ↗
  9. COUTINHO, Carlos Nelson. Gramsci e o Sul do mundo: entre Oriente e Ocidente. 2003. Abrir ↗
  10. Alvaro Bianchi. Estratégia do contratempo: notas para uma pesquisa sobre o conceito gramsciano de hegemonia (Cadernos Cemarx, n. 4, 2007), PDF. econtents.sbu.unicamp.br. Abrir ↗
  11. Carlos Nelson Coutinho. Gramsci e o Sul do mundo: entre Oriente e Ocidente (PDF da Margem Esquerda), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  12. Carlos Nelson Coutinho. A época neoliberal: revolução passiva ou contra-reforma? (2007), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  13. Carlos Nelson Coutinho. Marxismo e "imagem do Brasil" em Florestan Fernandes (2000), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  14. Jacob Gorender. Coerção e consenso na política (Estudos Avançados, v. 2, n. 3, 1988), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  15. Antonio Gramsci. Notes sur Machiavel, seção 12, Le concept de révolution passive (Q 15, §§ 17 e 11), tradução de Tosel, no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  16. Vladímir Ilitch Lênin. Do livro O programa agrário da social-democracia na primeira revolução russa de 1905-1907 (trecho, com a ficha da Editorial Vitória), no MIA. marxists.org. Abrir ↗
  17. Luiz Werneck Vianna. Caminhos e descaminhos da revolução passiva à brasileira (Dados, v. 39, n. 3, 1996), no SciELO. scielo.br. Abrir ↗